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MAIS QUE UM JOGO – O De León que sempre amaremos e o que esqueceremos

É impossível falar de Grêmio sem citar “El Capitán Hugo De León”, o lendário zagueiro uruguaio que ajudou a nos colocar no mapa do futebol mundial em 1983.

Nesta primeira Libertadores que vencemos em 83, contávamos com grandes jogadores e figuras que ficaram gravadas para sempre em nossa instituição e corações, sendo Renato Portaluppi o caso mais notório.

Entretanto, nenhuma imagem sintetiza tão bem a emergência do Grêmio FBPA no cenário nacional e latino-americano quanto De León segurando a taça que nos dava a América pela primeira vez enquanto um pequeno riacho de sangue desenhava em seu rosto uma daquelas imagens mágicas e raras que ficam para sempre gravadas em nossas mentes.

Hugo veio para o Grêmio em 1981, mesmo ano que a ditadura uruguaia organizou o “Mundialito”, torneio com os campeões do mundo que visava fortalecer a imagem do regime autoritário, e assim influenciar o povo uruguaio a referendar a continuação do mesmo em referendo que viria a ser realizado no ano seguinte de 1982 – e cujo resultado, felizmente, foi a vitória do “não”, marcando o início dos processos que conduziram o paisito de volta ao regime democrático.

Após vencer o Brasil na final da competição, o time uruguaio festejava a conquista com o público que havia invadido o gramado em êxtase e foi aí que De León confrontou o governo militar ao comemorar o título vestindo a camisa do Grêmio.

Hugo desagradou a ditadura ao celebrar a conquista com o uniforme do time brasileiro que ele se declarava torcedor, já que o evento tinha finalidades nacionalistas: o enredo de exaltação da ditadura uruguaia através da conquista do título foi desestabilizado pela icônica imagem do capitão De León beijando a taça vestindo a tricolor.

Aos jogadores, foi prometido pela junta militar um carro popular como prêmio, porém, pela atitude de enfrentamento de De León, ele e mais alguns atletas que atuavam fora do Uruguai não receberam a premiação.

O De León que sempre amaremos, portanto, é aquele do Mundialito que enfrentou, mesmo que talvez inconscientemente, a ditadura uruguaia.

O De León que sempre lembraremos é daquele capitão do nosso primeiro Campeonato Brasileiro em 1981, da Libertadores e do Mundial de 1983.

O Hugo de agora, talvez esquecido de como foi a ditadura em seu país – negligenciando como chegou, inclusive, a enfrentá-la – passou a declarar apoio ao neofascista, autoritarista, machista, racista e LGBTfóbico candidato Jair Messias Bolsonaro em seu twitter pessoal.

Ao Hugo de León de agora que serviu de cabo eleitoral e comemorou a eleição de um candidato tão afeito à ditadura (inúmeras são suas declarações de apoio e apreço pelo regime autoritário no Brasil) não reservaremos lugar em nossas memórias e corações.

Ao De León de 1981 até 1984, todo nosso amor, afeto e respeito.

Ao De León de 2018, nossa tristeza e esquecimento.

Movimento Grêmio Antifascista

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Texto publicado originalmente AQUI.

MAIS QUE UM JOGO – Até a pé nós iremos

O ano de 1953 fora marcado, entre tantos fatos, por uma greve dos transportes na cidade de Porto Alegre. Em julho daquele ano, os transportadores de passageiros exigiam um aumento salarial, por conta da elevada inflação. Diversas empresas e linhas aderiram a paralisação, fazendo com que algumas localidades não fossem atendidas pelos ônibus e trens, e outras linhas ficassem super-lotadas. Uma das linhas que acabaram transportando mais do que o de comum, foi a linha Independência, que na época atendia as proximidades do Estádio da Baixada, primeira casa do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense.

Na data de 21 de julho a baixada recebeu o jogo entre Grêmio e Cruzeiro, clássico citadino. Com a greve relatada previamente, alguns torcedores tiveram de ir caminhando para o estádio, inspirando assim, o compositor Lupicínio Rodrigues a escrever a lendária primeira estrofe do terceiro hino tricolor. O resultado terminou em uma vitória de 1×0 para o Grêmio que estava desfalcado de seu craque, Tesourinha.

Bandeira com o rosto do compositor Lupicínio Rodrigues.

Quanto ao hino, após a composição de Lupicínio Rodrigues, que o escreveu “sentado na Praça Garibaldi, tomando uma birita”, segundo o mesmo, e foi gravado pelo cantor Silvio Luis, foi ouvido pela primeira vez dia 16 de agosto do mesmo ano, em uma vitória tricolor sobre o Aimoré, sendo reproduzido pelos alto falantes do estádio.

Um fato interessante é que o último jogo do estádio Olímpico também ocorreu em um dia de greve dos transportes, em um Grenal, e, apesar deste fato, o público também não deixou de comparecer.

“Até a pé nós iremos

Para o que der e vier

Mas o certo e que nós estaremos

Com o Grêmio onde o Grêmio estiver…”

Movimento Grêmio Antifascista

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Texto publicado originalmente AQUI.

MAIS QUE UM JOGO – Como foi levantar uma bandeira LGBT na Arena do Grêmio

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Texto publicado originalmente AQUI.
Bandeira LGBT estendida na Arena – apesar do preconceito de alguns torcedores (Foto: Manoel Petry, Tribuna 77)

Faz mais de um ano ousamos levantar uma bandeira LGBT na Arena do Grêmio. Naquela noite, enfrentamos o Avaí pelo Campeonato Brasileiro e, infelizmente, o placar da derrota de 2×0 foi o menor dos males. A palavra ousar é utilizada precisamente porque estamos no país que mais mata LGBTs no mundo: 1 a cada 19 horas. E justamente porque o estádio de futebol não é uma bolha imune do que acontece na sociedade, esta ainda é a pauta mais polêmica para ser abordada no estádio.

Naquela ocasião não foi possível assistir ao jogo. Desde que a bandeira foi levantada, inúmeros torcedores vieram se opor e “solicitar” a retirada da bandeira – entre aspas, porque a maioria das solicitações foram permeadas de um tom extremamente agressivo, transparecendo a profunda ofensa que a presença uma bandeira LGBT transmitia. Diversos foram os argumentos, ou tentativa de desenvolver um, que estavam por trás tentar legitimar a retirada da bandeira do “arco-íris” como era referida. O principal deles foi que “a Arena é lugar de Grêmio e não de politicagem” – incrivelmente, frases que ouvimos até hoje, mesmo que o movimento não apoie nenhum candidato. De todo modo, concordamos que a Arena é sim lugar de Grêmio! Entretanto, enquanto movimento antifascista, jamais perdemos de vista que o futebol não é um fenômeno isolado da sociedade e que ele está inserido dentro de um contexto social/histórico/político, refletindo as dinâmicas e preconceitos vivenciados diariamente. Especificamente para a população LGBT, dinâmicas que buscam invisibilizá-la, violentá-la e diminuí-la.

Naquela oportunidade, também ouvimos de um torcedor que “o Grêmio é lugar de homem que gosta de mulher”. Repudiamos esse pensamento e afirmamos que o Grêmio é da sua torcida, de uma torcida de mais de 8 milhões de gremistas espalhados pelo mundo. Do Grêmio da Coligay, da pioneira torcida gay que peitou a ditatura militar entre a segunda metade dos anos 1970 e a primeira metade dos anos 1980, e que foi abraçada pelo clube enquanto instituição – e até hoje é utilizada como forma de deboche por parte de outras torcidas. O Grêmio é da sua torcida e ela não é composta só de homem que gosta de mulher: é marcada pela diversidade! O Grêmio também é de homem que gosta de homem e de mulher que gosta de mulher. A população LGBT faz parte da nossa história e continuaremos buscando colorir cada vez mais a Arena. Afinal, nosso clube é de todas e de todos!

MAIS QUE UM JOGO – A violência policial no GRENAL 417

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Que a bola comece a rolar!

A violência policial no GRENAL 417

O GreNal 417 foi palco, mais uma vez, do mais baixo processo de criminalização do torcedor que estamos acompanhando jogo após jogo. Para este espetáculo temos diversos atores, vamos aos principais:

1. A Brigada Militar


Montando um esquema de segurança fadado a dar errado, a BM esquece das ideias de prevenção. Pelas ruas da cidade e no estádio, aquela que deveria proteger as pessoas e evitar os conflitos, cruza torcidas rivais, fomenta o conflito, tensiona o ambiente e provoca o caos. A partir disso age com truculência e abuso.

Na Av. Borges de Medeiros, tradicional caminho de torcedores colorados indo a pé pro estádio, na passagem da escolta de torcedores do Grêmio, a BM fazendo uso de tiros de borracha, bombas de gás e cacetes, “limpou” as ruas para os ônibus passarem. Para tanto, encurralou torcedores que simplesmente ficaram sem ter para onde ir, a não ser ali, usando de seus corpos como proteção.

No Parque Marinha do Brasil, gremistas circulavam livremente, colorados os escoltavam, tudo sob o olhar atento da BM, que não ajudava para evitar possíveis conflitos. Num determinado instante, quando colorados protegiam gremistas que caminhavam entre a centena de colorados que ali estavam, a BM decidiu por colocar todos para correr, ainda que nada que necessitasse de sua intervenção ocorresse, pois até a escolta dos gremistas colorados faziam com mais cuidado. No ímpeto de reprimir, um policial caiu da moto, sozinho, e foi o estopim para que a BM invadisse o Parque Marinha do Brasil, a cavalo, a pé e de moto, colocando todos e todas as torcedoras em desespero. Mulheres, crianças, jovens e idosos, sendo reprimidos por estarem confraternizando.

No Bar Coreia, tradicional ponto de encontro da torcida colorada para assistir ao jogo, a BM circulava a cavalo pelo meio dos torcedores, sem motivo algum. Deixava a tensão no ar. Tensão que culminou com mais uma ação truculenta, que causou correria, medo e violência na torcida que apenas desejava comemorar a vitória sobre o rival.
Somado a isto, o fato de que os agentes cobrem o rosto e usam farda sem nome, o que impede que sejam identificados, inclusive por imagens.

2. A imprensa

Quando noticia os fatos ocorridos, a imprensa os trata como conflito entre torcida e BM, quando este conflito é impossível diante dos meios que as partes dispõem. Nenhum questionamento sobre o esquema de segurança armado para o clássico é feito. Nenhum questionamento sobre a origem dos fatos é investigada. Sobre a repressão ocorrida no Parque Marinha, inicialmente noticiou-se que um torcedor teria derrubado um policial da moto (versão da BM), após mudou-se para o fato de que um gremista era agredido (versão do delegado), mas quando será dada voz à torcida que ali estava? Quando as mulheres que correram por estarem fazendo nada serão ouvidas? Quando as crianças que choravam pela violência que sequer conseguem entender serão ouvidas?

O processo de criminalização passa por esta ideia vendida de que a torcida causa tumultos fazendo com que a policia tenha que agir, quando um papel mais investigativo constataria que o processo nasce errado já nos gabinetes pré jogo.

3. O Juizado do Torcedor/MP

O órgão que carrega ser do torcedor no nome, mas que não o protege, não o ouve, não o defende. Jogo a jogo as ações equivocadas da BM se repetem sem que nenhuma atitude seja tomada. Os torcedores encaminhados ao Juizado do Torcedor sofrem punição imediata, incontáveis jogos sem poder ir ao estádio são aceitos por quem muitas vezes não praticou fato típico algum, mas aceita por medo, por não ter segurança diante das forças do estado e do judiciário. Ainda que digam que nada fizeram, é a BM que possui o que se chama de “fé pública”, mesmo que sequer sustente versões no tempo entre o fato e a notícia ser publicada, como vimos no caso do policial que teria sido derrubado da moto mencionado anteriormente.

4. A diretoria do clube

Entra gestão, sai gestão, e o maior patrimônio do clube segue sendo desrespeitado e criminalizado sem que o clube faça absolutamente nada. Os torcedores são convocados pelo Presidente a fazerem churrasco no Parque Marinha, mas quando as famílias são literalmente varridas por cavalos e cassetetes, nenhuma nota pública em defesa da sua torcida é feita. A narrativa de que é a torcida que provoca os conflitos é aceita sem nenhum questionamento, as decisões da BM e do MP sobre o que pode ou não ocorrer são acatadas sem que se discuta e se defenda a festa da torcida. Cada vez mais esses dois órgãos ditam as regras do que os colorados e coloradas podem ou não fazer EM SUA PRÓPRIA CASA. E os com poder de decisão se calam a isso. E se calam a toda repressão que a torcida enfrenta para poder empurrar o time em cada partida.

Estamos cansados e cansadas de sermos criminalizados por querer torcer. Por nos ditarem regras de como e quando podemos nos manifestar. Cansados de enfrentar em nossos corpos a dor do despreparo e do descaso de todos com a torcida.

  

FRENTE INTER ANTIFASCISTA

*originalmente publicado aqui

MAIS QUE UM JOGO – “Já libertamos a América, libertemos as mulheres a amarem”

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Que a bola comece a rolar!

Já libertamos a América, libertemos as mulheres a amarem

O dia 29 de Agosto marcou o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. Convidamos a Raisa Rocha, gremista, sócia, jornalista e lésbica, a dar a visão dela sobre uma data que infelizmente ainda é ignorada por muitos.

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Pausa na euforia desta loucura chamada Grêmio (a noite da terça-feira 28/8 – quando o Grêmio eliminou o argentino Estudiantes de La Plata nos pênaltis após marcar um gol nos acréscimos do segundo tempo – ainda ecoa na memória) para honrar o convite dos compas da Grêmio Antifa e falar sobre o dia da VISIBILIDADE LÉSBICA. Tema tabu, ainda mais no universo do futebol, que só pode ser tratado de uma maneira: salientando as INvisibilidades diárias que inundam as existências das mulheres que amam mulheres.

Para tal, escolhi relatar brevemente um infeliz acontecimento que, por ironia do destino, ocorreu
num dia de jogo do nosso tricolor.

Numa noite de Copa, dessas que tanto amamos, na nossa Arena, estava eu com minha inseparável amiga de vida e de arquibancada. Juntas desde o Olímpico Monumental, colecionamos escalações, eliminações, vitórias memoráveis, traves, imortalidades, promessas, glórias e taças. Dessas duplinhas que só podem ser melhores amigas ou… namoradas. E era esta a dúvida de um certo carinha que nos rondava sempre que podia. Este fulano, na verdade, achava mesmo que nosso caso era namoro. O relevante aqui é que a convicção sobre a nossa relação não o impediu de tentar beijar (naquele estilo clássico, à força) uma de nós. Sim, na cara da outra. Sim, na cara da suposta companheira. Sim, na minha frente, ele tentou beijar a minha mulher!

Não era, mas e se fosse? A atitude do fulano não é erro de percurso nem culpa da cerveja. A atitude do fulano materializa a invisibilidade plena que trouxe no início desta postagem. E ele o fez porque é ainda mais duro o peso do machismo e do patriarcado nas mulheres que ousam não estarem a serviço do  prazer dos homens.

A não ser que você conheça alguma de perto, a mulher lésbica possível é aquela do filminho que se assiste de porta fechada ou aquela do tipo “machorra”, nenhuma outra mais. Invisibilizada historicamente nos mitos culturais, na literatura e nas artes, sem referências entre figuras públicas. Invisível inclusive na comunidade LGBTQ+, sem eventos ou caminhadas oficiais, sem apelo midiático para suas pautas e manifestações. Invisível no sistema de saúde, público ou privado, que não sabe como cuidá-la porque ela “não transa”. Invisível e vulnerável porque ignorados os inúmeros e  crescentes assassinatos por lesbofobia. Invisíveis porque pecaminosas, traidoras porque se negam à maternidade (mentira!), a mais sagaz escravidão do patriarcado. Invisíveis mesmo que fora do armário, fadadas a andarmos e vivermos com as eternas “amigas”.

E o Grêmio haver com isso? Bem, na contramão do nosso país, em retrocessos e perdendo seus pedaços pelo caminho, o Grêmio se reconstrói e vive momento alto de sua gloriosa história. Até tentam nos abalar, diminuir nossa caminhada, criam problemas onde não há… Mas pela nossa alma mística, pelo nosso amor inabalável, pelos pés dos nossos guris e sangue dos nossos guerreiros imortais vestimos o continente sul-americano inteiro de respeito em azul, preto e branco.

A nós, gremistas antifascistas, provemos que aprendemos com as derrotas e com as dores e que sabemos a força da nossa união. Que sabemos que, não fossem os ídolos negros, a dedicação e as vozes das mulheres nas arquibancadas, não teríamos reerguido o nosso Grêmio. Já libertamos a América, libertemos as mulheres a amarem.

*originalmente publicado aqui