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Heavy Hour 37 – 29.04.19 – Da vida! Somar mulher e homem, multiplicar, sem dividir nem subtrair…

Não, não estamos falando de procriação, pelo menos não no sentido dogmático dominante, mas, sim, de ideias e ideais de vida. A intersecção, a noção da invasão da noção do gênero em cada um. Neste programa, após dois episódios com representatividades individuais de fêmeas e machos, a gente soma os seres humanos. No estúdio, Guilherme Schröder, filósofo, poeta, vagabundo e pai da Lara, Ana Carolina Pereira, comunicadora, artista intervencionista e militante do movimento feminista, Airton Gregório, artista educador, e Fabi Cre, mulher socióloga e mãe feminista, se reencontram no Estúdio Monstro, num Heavy Hour épico! Power trio do Coletivo Catarse formado por Gustavo Türck, Billy Valdez e… Têmis Nicolaidis!!! Tchau, Marcelão!

Setlist deste programa:
Daniela Mercury – A Rainha do Axé (Rainha Má)
Nirvana – Rape Me
Hole – Violet
Zumbira Silva – Cuidado e Delicadeza
Talking Heads – Once in a Lifetime
Queen – Don´t Stop Me Now
L7 – Pretend We´re Dead
David Bowie – Rebel Rebel
Velvet Underground – Femme Fatale

Heavy Hour 36 – 22.04.19 – Mulheres: universos, labirintos e fortalezas

Neste programa, as mulheres vão falar, simplesmente, sobre quem são, vivendo nestes tempos de luta, por seus lugares de fala e ação no mundo contemporâneo. Que feminino é esse que urge e se transforma, neste ambiente de incertezas, de mudanças e de posicionamentos colocados, embora, ainda de muita hostilidade. Aceitando ao desafio de comandar a edição, estão marcando presença bem do jeito delas! Com apresentação de Têmis Nicolaidis e Cristiane Cubas, do Coletivo Catarse, e com as convidadas Kacau Soares, atriz, licenciada em História pela Política de Cotas na UFRGS, militante da cultura, trabalhadora da assistência social no programa Ação Rua; e Fabi Cre, mulher socióloga e mãe feminista; Ana Carolina Pereira, comunicadora, artista intervencionista e militante do movimento feminista. Na técnica, Gustavo Türck, e com os ouvintes direto no Estúdio Monstro, Marcelo Cougo, Billy Valdez, Guilherme Schröder e Airton Gregório. No apoio etílico, Cerveja Artesanal Macuco e Cachaça Caipora! Arte deste episódio feita sobre ilustração de Ekaterina Tutynina.

Setlist:
Eu Acuso! – Idade Mídia
Rita Lee e Zelia Duncan – Pagu
Elza Soares – Dentro de cada Um
Nina Simone – Four Women
Mayra Andrade – Ilha de Santiago
Mulamba – Mulamba
Gal Costa – Vaca Profana

Filmografia Social – Tudo o que eu vejo é você

Por trás do seus olhos (All I see is you), é uma metáfora sobre o que podemos ter de mais obscuro em todos nós. Conta a história de uma mulher chamada Gina, que volta a enxergar após conviver quase toda sua vida com a falta de visão, condição esta que a deixava completamente dependente de seu marido. As roupas, a rotina, a casa, tudo era a partir do olhar de James. O controle dele com a passividade dela fazia esse casamento dar certo para ambos. Até que um dia Gina faz uma cirurgia e volta a enxergar, e a medida que ia percebendo este mundo configurado por James, se tornava mais crescente o sentimento por mudanças.

O filme é esteticamente lindo pois mistura imagens de Bangkock, capital da Tailândia, onde se passa a trama, com momentos íntimos e poéticos do casal e especialmente de Gina, que se transforma a cada dia, atingindo um empoderamento que incomoda profundamente James. O enredo passa de uma história tenra e romântica para um drama psicológico denso, mostrando a face mais perversa dos personagens que passam a agir de forma questionável.

Chamo de metáfora pois pode acontecer em Bangkock, São Paulo, Porto Alegre ou qualquer cidade do interior do mundo onde o machismo se manifesta. A independência feminina é um afronte a ordem estabelecida pois, quando a mulher toma as rédeas de sua vida, as estruturas dominantes, que aprisionam a todos, caem. E é esse poder que amedronta tanto aos homens como às mulheres. Gina, neste contexto, representa a coragem para subverter, a “petulância” de buscar por liberdade.

Quando assisti a este filme acabei encantada por toda a arte que ele trazia nas imagens, edição e roteiro, é um filme extremamente belo, porém subestimei o seu poder. Acabei de vê-lo achando que era meramente um filme sobre um casal e me peguei meses depois pensando sobre seus muitos significados. Para mim, o cinema deve ser isso, uma bomba silenciosa que explode dentro da gente e nos modifica. Que assim seja, também, a luta de todas as mulheres.

NOSSA AVALIAÇÃO

Gênero: drama

Temática Social: opressão, protagonismo feminino
Público-alvo: pessoas que gostam de filmes intimistas, artísticos e com tempo dilatado. Parece ser voltado para mulheres, porém deveria ser visto por qualquer pessoa sensível que pensa sobre as relações entre homens e mulheres.

Roteiro:
Um roteiro original muito bem costurado e que faz a magia acontecer tempos depois de ser assistido.

Dramaturgia:
Filme de uma poesia incrível. Tudo é belo, as imagens e suas misturas, as atuações, toda a arte que envolve o enredo faz o espectador ficar de boca aberta e nos coloca dentro da mente desta mulher.

Aprofundamento da Questão Social:
Toca num ponto, ao meu ver, nevrálgico de uma sociedade machista, que é a sua desconstrução a partir do empoderamento feminino. Este é um caminho sem volta e, se enxergado desta maneira, é capaz de transformar radicalmente qualquer sociedade que vive sob essas regras. O tema da opressão fica muito evidente e o filme consegue trazer essa reflexão de uma forma muito profunda.

Por Têmis Nicolaidis

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras.

Filmografia Social – Matilda é uma pessoa e não uma filha…

Talvez o pior tipo de abandono seja aquele sem ruptura de presença. Onde exista todas as condições para uma pessoa ser amada, acolhida e respeitada por outro, que, por sua vez, opta por rejeitá-la. Pode-se dizer que é um sadismo dos mais requintados, um poder que se exerce, que se é esfregado na cara e que deixa marcas profundas. Muitas vezes esse abandono não é percebido, mas corrói silenciosamente e passa a ser causador de muitos outros problemas. Outras vezes, vira uma ira descontrolada sendo a mais barulhenta das revoltas. Porém, para Matilda foi diferente.

Esta fábula delicada, com pitadas de terror, conta a história desta pequena gigante que, a partir do seu abandono, descobre seu grande poder.

Matilda é uma criança esquecida por sua família ignorante. Sua mãe passa os dias no Bingo, e seu pai é um trambiqueiro que compra peças de carros roubados e conserta usados vendendo-os a preços superfaturados. Desde muito cedo, a menina aprendeu a se virar sozinha, cozinhar, ler e escrever e, no meio dos pais e do irmão, que só se importam com seus universos particulares, passou a dominar sua vida, aguentando constantemente ofensas e violências. Um dia, muito tempo depois de já ter lido muitos livros que tirava sozinha da biblioteca pública, implorou para o pai a colocar numa escola, já que estava com 6 anos – e seus pais acreditavam que tinha 4! Enfim, Matilda conseguiu ingressar numa escola dirigida por uma mulher tão opressora quanto sua família, porém com uma professora amável e incentivadora, a única que vê em Matilda o grande fenômeno que ela é. Todo estímulo negativo que a menina recebe, ela canaliza e transforma em um superpoder que movimenta, apenas com seu olhar, objetos e pessoas. Com isso e com sua inteligência excepcional, consegue dar uma lição na diretora e em seus pais no estilo Another Brick in the Wall, fazendo um levante de crianças, também oprimidas por este mesmo sistema. Afinal de contas, ela aprendeu, observando seu entorno, que se uma pessoa é má, merece uma lição.

Este desenrolar da história é contado com muitos exageros, forças sobrenaturais e fatos inexplicáveis para o bom senso de quem gosta de filmes em que tudo deve ser factível, porém Matilda é a própria metáfora. Matilda é o furacão silencioso que inicia naquele lugar mais íntimo e solitário que habita em qualquer um de nós, mas que poucos têm a coragem de acessar. Matilda é aquela criança não planejada que os pais não tem paciência ou aquela planejada, mas que serve só para ser mostrada, que seus pais não sabem por onde começar a educar. Ela é a criança deste século que já fala por si e sabe escolher sozinha e que adultos não sabem como lidar com isso. É também a inocência transformadora e sincera que arrebata e que ninguém deveria perder na vida, nem aos 100 anos de idade.

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero:
fantasia/comédia
Temática Social: abandono, família, escola
Público-alvo: um filme para crianças, daqueles para assistir comendo pipoca com a família no fim de semana.
Roteiro: 
(bem construído dentro da proposta de um filme de fantasia. Engraçado, perspicaz. Como não procura tirar o riso fácil, ser bobinho, prende adultos também. Além da parte cômica, existem muitas cenas tensas que são muito bem feitas e lembram filmes de terror)
Dramaturgia: 
(o filme tem grandes atores como Danny DeVito – que também dirige -, Rhea Perlman e Pam Ferris. Figurinos e cenários bem produzidos, é um daqueles filmes que remonta filmes clássicos de Hollywood)
Aprofundamento da Questão Social: 
(pontuada do início ao final do filme. Começando com a chegada da família do hospital e que eles a esquecem no carro, até a última cena em que a própria Matilda elabora seus papéis de adoção e seus pais biológicos assinam, passando sua guarda à professora. Eles não enxergam sua inteligência, a mandam fechar o livro e ver televisão, ou, simplesmente ignoram suas necessidades em detrimento de qualquer bobagem. Isso tudo colocado sempre de uma maneira bem exagerada, porém, como muitas vezes vemos absurdos reais e pensamos: “se colocassem isso num filme, diriam que é um absurdo”, talvez o termo não seja exagerado, mas, como falei no texto acima, a própria metáfora desta questão social)

 

Por Têmis Nicolaidis

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras

Audiovisual para transformar – Parte 2 – nos bastidores do documentário Cores ao Vento, navegando junto pela arte de Silvio Rebello

Num segundo módulo de oficina em Tapes, propusemos a produção de um documentário sobre a obra de Silvio Rebello. Uma realização Prefeitura e Secretaria de Educação e Cultura de Tapes, numa coprodução Coletivo Catarse, Clube da Sombra e Lagoa TV.
Silvio Rebello foi um artista plástico Tapense. Escultor, pintor, trabalhava com fotografia, projeção de imagens. O talento dele parecia não caber na cidade e, de fato, não coube. Tem obras dele espalhadas Brasil afora e em acervos de pessoas e artistas reconhecidos daqui também. Viveu na Bahia por algum tempo o que influenciou muito sua obra, inclusive trazendo motivos africanos e imagens ligadas aos orixás. Era uma pessoa que enxergava longe mas que estava muito perto de todos por ser extremamente humilde e simples. Parte da população desta pequena cidade não conhece o artista e sua obra, porém quem conhece o admira e ainda se transforma com o legado que deixou.

Assista ao documentário: Cores ao Vento – Navegando pela obra de Silvio Rebello

Como trouxe no outro relato, Tapes já foi, em algum tempo passado recente, uma rota artística bem frequentada por artistas plásticos, músicos, escritores. Em nossas investigações pela cidade, existe uma preocupação muito grande que esse resquício de memória desapareça. Silvio Rebello nos pareceu um registro muito significativo para dar início a salvaguarda dessa história.
A proposta era desenvolver um documentário curta-metragem sobre a obra de Silvio Rebello e um making of do filme. Parte do documentário e o making of realizamos através do segundo módulo da oficina de produção audiovisual, para que os jovens que participaram do primeiro módulo pudessem ter contato com uma produção audiovisual mais elaborada, que trouxesse um conteúdo artístico e se prestasse a ser mais livre e menos encaixotada aos padrões de documentário convencional.

A questão da falta de referências é muito forte nesses jovens. Ter acesso a internet não significa ter acesso a diversidade de conteúdos. Tivemos que, nos poucos dias disponíveis, desconstruir conceitos e enquadramentos, repensando a maneira que enxergamos e reproduzimos o entorno. Para poder filmar, primeiro observamos e isso por si só, já modifica. “Quando o cara não faz muita coisa ligado a cultura, o cara não dá bola. Quando o cara comeca a se ligar no audiovisual, hip hop…qualquer coisa que o cara começa a fazer, ligado a arte, o cara começa a dar valor a qualquer arte em si”, reflete João. Esse me pareceu o depoimento central da experiência desses jovens a partir das oficinas de audiovisual e de tantas outras que tem acontecido na cidade. O empoderamento é visível e a vontade de continuar produzindo também.

Todo o trabalho que fizemos em Tapes visava a autonomia criativa e produtiva dos envolvidos, mas me parece que o grande desafio desses jovens é como, sem o auxílio do poder público ou de terceiros, conseguir se mobilizar para realizar. Como entender que essa continuidade depende (também e principalmente) deles?

Penso que um bom início é rever o que eles fizeram  e acreditar que seja possível isso se repetir com ou sem ajuda. Hoje eles tem acesso fácil a ferramentas audiovisuais, as dominam inclusive, nasceram dentro de uma época em que essa linguagem é a principal, ou seja, eles tem tudo para serem protagonistas de suas próprias histórias, fictícias ou documentais, o que resta é uma questão de autoestima e isso, para mim, significa praticar, praticar, praticar….

Assista ao making of: Bastidores de um Documentário – Navegando Junto pela Obra de Silvio Rebello