Arquivo da tag: Têmis Nicolaidis

Audiovisual para transformar – Parte 1 – o primeiro contato

Este ano tive a oportunidade de ministrar, através da Secretaria de Educação de Tapes, 2 módulos de uma oficina prática de produção audiovisual na cidade. No princípio, a intenção era uma atividade que envolvesse apenas o uso de dispositivos celulares, porém, extrapolou as minhas mãos, e tomou uma dimensão que me faz refletir sobre o sentido da minha prática profissional e sobre minha responsabilidade enquanto comunicadora, educadora e artista.

No Módulo 1 da oficina, que passei a chamar de Oficina Prática de Produção Audiovisual “com-o-que-se-tem”, encontrei 2 turmas de jovens, uma do ensino fundamental regular e outra do EJA. Turmas de jovens adultos que estudam na rede municipal e que chegam na atividade sem ter muita noção do que iriam fazer ali.

Eu não conhecia a realidade de Tapes, muito menos desses jovens que, como em qualquer lugar do mundo, são muito desafiantes. Porém, tinha uma certeza, a vontade de despertá-los, a partir do audiovisual, um olhar mais sensível sobre o contexto que estão inseridos. Finalizar, ou não, uma peça audiovisual era secundário.

O que aconteceu na prática foram encontros onde conseguimos assistir e destrinchar conteúdos audiovisuais consumidos por nós, refletir sobre estética, linguagem, roteiro e gêneros. Realizamos dinâmicas, exercícios práticos de filmagem e edição. Percebi neles um foco e uma vontade de realização bem importante que me deu a segurança para arriscar propor a aventura de fazer um filme.

A turma da noite escolheu uma ficção de suspense e a do dia, um documentário. Em quatro encontros unificamos os conceitos dos grupos em relação a produção audiovisual e nos outros 6 encontros pré-produzimos, filmamos e editamos estes 2 filmes. Uma primeira experiência deste tipo para aqueles 24 jovens desta pequena cidade gaúcha, tão bela mas tão distante de aparelhos culturais como cinemas e teatros.

Mais importante que os detalhes dos processos, que tiveram muitas particularidades e curiosidades, foram as minhas surpresas. Encontrei um ambiente fértil para a  realização de trabalhos audiovisuais mesmo que os atores não tivessem muito a noção da complexidade que circunda a produção audiovisual. Foram lá e fizeram. Finalizamos um documentário de 17 minutos, A casa da última rua, que hoje, 2 meses depois do lançamento, já soma mais de 4 mil acessos(!) e, também, A vida de Kameyom, uma ficção de 5 minutos que não foi veiculada e ficou apenas acessível para os participantes da oficina.

Nessa minha experiência em Tapes, pude sentir que um dos fatores responsáveis pelo sucesso das oficinas é a qualidade da educação do município. Escolas com uma estrutura privilegiada e jovens com uma capacidade cognitiva incrível. Tinham iniciativa, demonstravam criatividade na solução de problemas, escuta e diálogo, qualidades que muitas vezes não encontramos em profissionais. Me surpreendi, pois encontrei jovens, na sua maioria, interessados. Alguns sem perspectiva, mas uma grande parte abraçando a oportunidade que pintava na sua frente. Isso me surpreende, pois eu imaginava que isso não fosse possível em pessoas de 15, 16 ou 17 anos. Em um grupo um pouco menor, não rolou somente o interesse, mas a vontade por mais. E isso é transformador. A cabeça de alguns ali naquela turma pode extrapolar os limites da cidade e de si mesmo, viram reconhecido o seu trabalho e passaram a enxergar a si e ao seu mundo de maneira diferente. Isso é um caminho sem volta.

No momento que percebemos o poder que o realizar uma peça que valoriza a nossa realidade tem, nos valorizamos também e se nos valorizamos, não nos deixamos escravizar tão fácil. Politicamente, esta é a razão pela qual governos de direita sucateiam a educação. Por isso a necessidade de se diminuir ou até mesmo acabar com iniciativas e estruturas culturais.

Tapes já foi, em algum tempo passado recente, uma rota artística bem frequentada por artistas plásticos, músicos, escritores. Acredito que um lugar tão abundante de belezas naturais e com essa ligação histórica com a arte, não perde do seu DNA a sua potência criativa. Me parece que só precisa daquela mão no queixo que vira o seu olhar para um outro lugar, onde estão coisas lindas, onde está sua verdadeira identidade cultural. Esse encontro me parece fundamental para se viver.

Assista A casa da última rua:

Do resultado deste primeiro módulo, partimos para uma nova proposta que seria o Módulo 2 da oficina. Esta é outra história que em breve compartilho por aqui.

Em breve: Audiovisual para transformar – Parte 2 – nos bastidores do documentário Cores ao Vento, navegando pela arte de Silvio Rebello

doc-silvio-rebello-capa

Estreia do documentário Cores ao Vento – navegando pela arte de Silvio Rebello

Hoje, 06/11/18, na cidade de Tapes, será lançado o documentário Cores ao vento – navegando pela arte de Silvio Rebello, uma realização da Secretaria Municipal da Educação e Cultura e a Prefeitura de Tapes, numa coprodução do Coletivo Catarse, do Clube da Sombra e da Lagoa TV.

O filme retrata num tom poético o universo colorido do artista plástico tapense, que dedicou sua vida a arte nas suas mais variadas formas. Transitou na escultura, pintura, fotografia e música. Retratava a paisagem da cidade de uma forma muito peculiar e, ainda, a cultura negra, numa mescla de referências do Rio Grande do Sul e Bahia, lugar onde morou e trabalhou por alguns anos e que transformou significativamente sua produção.

Este filme é uma homenagem e um resgate. Procura dar o devido valor a um artista tão importante e, igualmente, salvaguardar o legado artístico, somando a um conjunto de iniciativas que buscam este mesmo objetivo, como é o caso da recém criada Fundação Silvio Rebello.

Vale ressaltar que o filme foi produzido concomitante a uma oficina de produção audiovisual com jovens da cidade, que, além de produzirem imagens para o documentário, realizaram o seu making of, que em breve estaremos divulgando com um relato sobre este processo.

Memória Sesmaria Feat Bataclã FC 2018

Capitalismo & Esquizo Poesia é ação griô, falavra, doc cênico, performance da Bataclã FC em 2018 com a Lola da Glória Lorena Sanchez mastigando poesia, com canções e poesias de Richard Serraria junto a Guilherme do Espírito Santo, Duke Jay da Monte Cristo e ainda Bódi Lambari do Belomé, Sandro Gravador do Morro Santa Tereza, Pingo da Tinga Borel, Danilo Marcondes, Vitor Curth e Filipe da Vila Burgdurff. A canção “Memória Sesmaria” (Assim falou Bataclan, 2006) faz parte dessa intervenção atual da gente laranja porto alegrense. Apresentação única dia 22 de setembro de 2018 na Casa da Lola em Porto Alegre, evento disponível mediante ingresso antecipado em https://www.facebook.com/events/21174…

Ficha técnica:
Captação:
Gustavo Turck e Têmis Nicolaidis (Coletivo Catarse) mais imagens de móvil Lola del Parque Rodô
Edição Vídeo Poesia: Têmis Nicolaidis
Gravado no Espaço Cultural 512 com captação de áudio by SLAP
Mixagem e masterização do som: Guilherme do Espírito Santo (Bataclã FC)

Moana: o contramito da princesa

*pode conter spoilers

Se soubéssemos, antes de ver nascer um filho, o tamanho da responsabilidade e da energia que é preciso para garantir, sem garantias, que este novo ser humano viva bem, talvez nós adultos não tivéssemos filhos.

Se eu fosse religiosa, talvez eu dissese a frase: Deus sabe o que faz. Como não sou, fico muito feliz por ter tido a oportunidade de ser mãe e ter de enfrentar todos os desafios e percaussos que a maternidade apresenta, isso me faz uma pessoa mais forte e mais evoluída. Se eu não fosse mãe, tenho certeza que também encontraria este caminho, já que não acredito que uma mulher só é completa se engravidar. Hoje em dia, a gravidez não é simplesmente natural, é uma questão de escolha, e isso deve ser respeitado. Coloco isso pois tem muito a ver com o que quero trazer neste texto – as imposições. Vivemos numa sociedade de imposições, muitas imposições. Tantas que às vezes paro e reflito o quanto elas são ultrapassadas e me sinto assistindo a um seriado da década de 60. Ainda somos mega machistas, assustadoramente, apesar de uma sutil evolução. Isso é especialmente preocupante quando se tem uma filha mulher.

Quando a gente gera uma criança e traz ela para este mundo, começamos a viver muitas alegrias, descobertas e euforias. Vemos também o controle sair totalmente das mãos. Ver minha filha falar que o sonho dela é ser uma princesa me causa arrepios e vai contra tudo aquilo que eu desejo para ela – a princesa da nossa referência cultural é branca, heterossexual, magra, passiva e delicada. Alguns podem falar que é muito radical da minha parte e que isso é só uma fantasia. Sim, seria se ao lado deste tipo de princesa tivessem outros tipos como a sapa, a gorda, a “feia”, a pobre ou uma princesa negra e até mesmo aquela que não pensa em ter um príncipe e não quer por convicção ter filhos. Aí, sim, ficaria mais tranquila em ouvir ela dizer que tem o sonho de ser princesa. Mas o perfil que reina e dita as regras do universo feminino infantil e provavelmente vai determinar a subjetividade dessas futuras mulheres e, também, o seu redor definitivamente é o “loira de olhos azuis”, rica e famosa, adorada.

Mesmo assim, tivemos a sorte de ter uma filha numa época em que surgem iniciativas como os grupos Palavra Cantada e Mundo Bita. Sei que devem ter inúmeros outros, mas estes tornaram-se massivos e conseguiram emprestar novas letras, sons e cores para a infância, que antes só conhecia as mesmas músicas, que se não eram racistas, colocavam muito medo, falavam em agredir felinos ou em casamento – até onde eu sei, criança não namora, então, por que deveria sair cantando sobre casamento? Acho simplesmente desnecessário, mas, enfim, isso sempre foi cultural e passado por gerações. Parece besteira querer questionar isso. Assim como parece uma grande besteira querer mudar o foco da criança na hora de assistir televisão.

Pois é aí que entra Moana. Um filme da Disney, a fábrica de princesas. Confesso que até agora estou tentando entender a “pegadinha”…

Moana é a filha do chefe de uma tribo que habita uma ilha. É uma menina que nasceu predestinada a governar com uma regra bem clara: ninguém pode passar dos recifes, pois existe a maldição de que ninguém voltaria de lá. Então, a vida para o povo desta ilha só acontece ali, são auto-suficientes, cantam, dançam, se bastam. Mas Moana escuta um chamado que vem do mar, e isso é mais forte para ela. Tem uma relação muito forte com sua avó que, desde muito cedo, conta as histórias do além mar, a lenda de que Maui, um semi Deus, roubou o coração da Deusa da natureza, Te Fiti, e espalhou a maldição que ronda a região. Ela é a “louca” da ilha, porém guarda o segredo de que, na verdade, aquele povo sempre foi nômade antes dessa maldição chegar. Ela é a guardiã, também, do coração de Te Fiti, que chegou pelo mar quando Moana era um bebê. No auge da crise, quando os coqueiros começaram a adoecer, e os peixes sumiram, a avó de Moana a entrega o coração e diz para ela buscar Maui.

Moana vai. Contra tudo e todos.

É um filme lindo porque fala da transformação de uma menina em mulher. E, para isso, ela precisa ter muita coragem, principalmente porque, no início da aventura, ela enfrenta o patriarcado, algo que, na vida real, significa um grande peso. Largar a família, desobedecer o pai, sair atrás de incertezas… Porém essa força interna é alimentada por sua avó e ajudada por sua mãe – e isso é mais do que suficiente.

No que diz respeito ao Maui, a figura masculina principal do filme, não existe nenhuma tensão sexual entre os dois, a relação é de amizade e aprendizado, sempre com Moana puxando o barco, tomando a frente, forçando a barra. Ou seja, se não fosse Maui ela não conseguiria devolver o coração da Deusa, mas, se não fosse Moana, ele até hoje estaria numa ilha, náufrago, sozinho e sem poderes. Se esse desenho surgisse há algumas décadas talvez fosse um escândalo…

Moana é uma aborígene, não usa jóias, vestidos rosa ou sapatos. Mas, para mim, ela é a princesa mais linda que pode existir, porque ela é livre. E é esse tipo de princesa que eu gostaria que fosse um exemplo para a minha filha.

Ainda assim, existem muitos filmes de princesa tradicionais, quase todos na verdade. Moana é uma exceção.

O que a grande parte das pessoas não enxerga é que o conteúdo que chega até nossas crianças é altamente ideológico. Ensina que o branco é lindo. Sim, o branco é lindo, mas para ele ser lindo o negro não deve ser diminuído. A mulher é graciosa. Sim, a mulher é graciosa, mas essa graça não deve a deixar num pedestal de cristal imóvel somente esperando um príncipe e um filho para dar sentido a sua vida. O amor de um homem e uma mulher é emocionante. Sim, é emocionante, mas não deve ser o exemplo de amor mesmo para quem é homossexual. Existe uma violência nas entrelinhas da cultura, que serve para a perpetuação do machismo, e esse mecanismo só funciona porque inicia seu trabalho na infância, e essa violência é a redução da diversidade, intrínseca à humanidade e à natureza.

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: animação/aventura
Temática Social: protagonismo feminino
Público-alvo: crianças a partir de 3 anos e seus pais e avós, tios e tias
Roteiro: 
(segue o padrão enlatado Disney, com final previsível)
Dramaturgia: 
(desenho perfeito, muito bonito mesmo, performance das vozes – em inglês – é fantástica, músicas – em inglês e português – são bem interessantes e “grudam” na mente)
Aprofundamento da Questão Social: 
(por carregar uma mensagem tão importante para crianças, em uma fase que muitos significados são impressos nas personalidades dos pequenos, e por estimular a família a modificar a cultura tradicional do mito da princesa)

Por Têmis Nicolaidis

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras