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Moana: o contramito da princesa

*pode conter spoilers

Se soubéssemos, antes de ver nascer um filho, o tamanho da responsabilidade e da energia que é preciso para garantir, sem garantias, que este novo ser humano viva bem, talvez nós adultos não tivéssemos filhos.

Se eu fosse religiosa, talvez eu dissese a frase: Deus sabe o que faz. Como não sou, fico muito feliz por ter tido a oportunidade de ser mãe e ter de enfrentar todos os desafios e percaussos que a maternidade apresenta, isso me faz uma pessoa mais forte e mais evoluída. Se eu não fosse mãe, tenho certeza que também encontraria este caminho, já que não acredito que uma mulher só é completa se engravidar. Hoje em dia, a gravidez não é simplesmente natural, é uma questão de escolha, e isso deve ser respeitado. Coloco isso pois tem muito a ver com o que quero trazer neste texto – as imposições. Vivemos numa sociedade de imposições, muitas imposições. Tantas que às vezes paro e reflito o quanto elas são ultrapassadas e me sinto assistindo a um seriado da década de 60. Ainda somos mega machistas, assustadoramente, apesar de uma sutil evolução. Isso é especialmente preocupante quando se tem uma filha mulher.

Quando a gente gera uma criança e traz ela para este mundo, começamos a viver muitas alegrias, descobertas e euforias. Vemos também o controle sair totalmente das mãos. Ver minha filha falar que o sonho dela é ser uma princesa me causa arrepios e vai contra tudo aquilo que eu desejo para ela – a princesa da nossa referência cultural é branca, heterossexual, magra, passiva e delicada. Alguns podem falar que é muito radical da minha parte e que isso é só uma fantasia. Sim, seria se ao lado deste tipo de princesa tivessem outros tipos como a sapa, a gorda, a “feia”, a pobre ou uma princesa negra e até mesmo aquela que não pensa em ter um príncipe e não quer por convicção ter filhos. Aí, sim, ficaria mais tranquila em ouvir ela dizer que tem o sonho de ser princesa. Mas o perfil que reina e dita as regras do universo feminino infantil e provavelmente vai determinar a subjetividade dessas futuras mulheres e, também, o seu redor definitivamente é o “loira de olhos azuis”, rica e famosa, adorada.

Mesmo assim, tivemos a sorte de ter uma filha numa época em que surgem iniciativas como os grupos Palavra Cantada e Mundo Bita. Sei que devem ter inúmeros outros, mas estes tornaram-se massivos e conseguiram emprestar novas letras, sons e cores para a infância, que antes só conhecia as mesmas músicas, que se não eram racistas, colocavam muito medo, falavam em agredir felinos ou em casamento – até onde eu sei, criança não namora, então, por que deveria sair cantando sobre casamento? Acho simplesmente desnecessário, mas, enfim, isso sempre foi cultural e passado por gerações. Parece besteira querer questionar isso. Assim como parece uma grande besteira querer mudar o foco da criança na hora de assistir televisão.

Pois é aí que entra Moana. Um filme da Disney, a fábrica de princesas. Confesso que até agora estou tentando entender a “pegadinha”…

Moana é a filha do chefe de uma tribo que habita uma ilha. É uma menina que nasceu predestinada a governar com uma regra bem clara: ninguém pode passar dos recifes, pois existe a maldição de que ninguém voltaria de lá. Então, a vida para o povo desta ilha só acontece ali, são auto-suficientes, cantam, dançam, se bastam. Mas Moana escuta um chamado que vem do mar, e isso é mais forte para ela. Tem uma relação muito forte com sua avó que, desde muito cedo, conta as histórias do além mar, a lenda de que Maui, um semi Deus, roubou o coração da Deusa da natureza, Te Fiti, e espalhou a maldição que ronda a região. Ela é a “louca” da ilha, porém guarda o segredo de que, na verdade, aquele povo sempre foi nômade antes dessa maldição chegar. Ela é a guardiã, também, do coração de Te Fiti, que chegou pelo mar quando Moana era um bebê. No auge da crise, quando os coqueiros começaram a adoecer, e os peixes sumiram, a avó de Moana a entrega o coração e diz para ela buscar Maui.

Moana vai. Contra tudo e todos.

É um filme lindo porque fala da transformação de uma menina em mulher. E, para isso, ela precisa ter muita coragem, principalmente porque, no início da aventura, ela enfrenta o patriarcado, algo que, na vida real, significa um grande peso. Largar a família, desobedecer o pai, sair atrás de incertezas… Porém essa força interna é alimentada por sua avó e ajudada por sua mãe – e isso é mais do que suficiente.

No que diz respeito ao Maui, a figura masculina principal do filme, não existe nenhuma tensão sexual entre os dois, a relação é de amizade e aprendizado, sempre com Moana puxando o barco, tomando a frente, forçando a barra. Ou seja, se não fosse Maui ela não conseguiria devolver o coração da Deusa, mas, se não fosse Moana, ele até hoje estaria numa ilha, náufrago, sozinho e sem poderes. Se esse desenho surgisse há algumas décadas talvez fosse um escândalo…

Moana é uma aborígene, não usa jóias, vestidos rosa ou sapatos. Mas, para mim, ela é a princesa mais linda que pode existir, porque ela é livre. E é esse tipo de princesa que eu gostaria que fosse um exemplo para a minha filha.

Ainda assim, existem muitos filmes de princesa tradicionais, quase todos na verdade. Moana é uma exceção.

O que a grande parte das pessoas não enxerga é que o conteúdo que chega até nossas crianças é altamente ideológico. Ensina que o branco é lindo. Sim, o branco é lindo, mas para ele ser lindo o negro não deve ser diminuído. A mulher é graciosa. Sim, a mulher é graciosa, mas essa graça não deve a deixar num pedestal de cristal imóvel somente esperando um príncipe e um filho para dar sentido a sua vida. O amor de um homem e uma mulher é emocionante. Sim, é emocionante, mas não deve ser o exemplo de amor mesmo para quem é homossexual. Existe uma violência nas entrelinhas da cultura, que serve para a perpetuação do machismo, e esse mecanismo só funciona porque inicia seu trabalho na infância, e essa violência é a redução da diversidade, intrínseca à humanidade e à natureza.

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: animação/aventura
Temática Social: protagonismo feminino
Público-alvo: crianças a partir de 3 anos e seus pais e avós, tios e tias
Roteiro: 
(segue o padrão enlatado Disney, com final previsível)
Dramaturgia: 
(desenho perfeito, muito bonito mesmo, performance das vozes – em inglês – é fantástica, músicas – em inglês e português – são bem interessantes e “grudam” na mente)
Aprofundamento da Questão Social: 
(por carregar uma mensagem tão importante para crianças, em uma fase que muitos significados são impressos nas personalidades dos pequenos, e por estimular a família a modificar a cultura tradicional do mito da princesa)

Por Têmis Nicolaidis

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras

 

Bataclã FC – Capitalismo & Esquizopoesia

Vídeo promocional do espetáculo Bataclã FC – Capitalismo e Esquizopoesia.

“Doc Cênico da Bataclã FC 2018 a partir de textos de Deleuze Guattari, Eduardo Galeano, Victoria Santa Cruz, Gioconda Belli, Mário Pirata e canções de Richard Serraria com performance de Lorena Sanchez. Gravado no Espaço Cultural 512 em Porto Alegre”.

Imagens: Gustavo Türck e Têmis Nicolaidis
Edição: Têmis Nicolaidis

www.bataclafc.com.br

Tulipa – Leve e despretensiosa

Texto: Têmis Nicolaidis
Revisão e fotos: Gustavo Türck

Tulipa Ruiz em Porto Alegre, no Opinião, em 21 de julho de 2018.

Casa tradicional de shows da capital gaúcha, local de bailes de arromba, rock and roll, festas até terminar a noite. E esta apresentação se iniciou às 21h, terminando antes das 23h, porque depois viria outra função… Fiquei imaginando um ambiente de baile, num salão bonito ou mesmo ao ar livre, um espaço vazio ao centro destinado a um arrasta pé, mesas ao redor e numa das extremidades o palco. Fiquei imaginando que aquele show da Tulipa Ruiz bem que poderia estar acontecendo neste clima, merecia isso. Meia luz, coloridos, sombras e panos. Mas era ali, no palco italiano.

Nem por isso deixei de curtir o som, que ia do forte ao delicado com vocais incríveis e arranjos lindos. Apesar de estar apresentando um novo trabalho, o trio, composto por Tulipa Ruiz, Stéphane San e Gustavo Chagas, apresentou versões muito interessantes das músicas de outros álbuns, como Pedrinho que abriu o show. Defino o som dela como preciso e despretensioso, aquele que se coloca para fazer o almoço, faxina a casa ou curtir o nada num dia de chuva, por isso me agrada.

A vontade era de dançar abraçadinho, de curtir a levada, de sentir o momento, de formar um baile. Tulipa contou que esse trabalho surgiu da necessidade de, em tempos de apocalipse, olhar no olho de quem está próximo e produzir, ritualizar. De fato, senti na condução do show, através das músicas, a ritualística, que poderia ser potencializada com uma iluminação mais intimista, já que ela é uma grande intérprete. Não é só voz, é presença e força, sem falar de um estilo inconfundível na maneira de cantar. Basta poucos minutos para saber quem é. Acho esta uma característica bem interessante em tempos de cultura pasteurizada, de identidades seriadas, quando já se fez e viu de tudo.

Me identifico mais com a sonoridade fácil das músicas dela do que propriamente com o público que a segue ou até mesmo com a narrativa das músicas, que em alguns momentos parecem que representam um universo mais particular do que universal. Senti bastante falta de uma quebra no tom da levada do show, que até o fim se manteve romântico, dançadinho, calcado naquela formação de trio. Ainda assim, foi uma bela noite, deu pra sair bem, leve, feliz. A ritualística cumpriu o seu papel, e no outro dia o mundo continuava lá, me deu impressão de ser possível atravessar o apocalipse apesar de tudo.

O ser Juçara – ep3 – Alimento para a Vida

Uma produção da Associação Içara, Butia Dub e Coletivo Catarse!

O ser Juçara é um documentário apoiado pela Rede Juçara, contendo três episódios (Nós e a Floresta, Cultura em Transformação e Alimento para a Vida) de cerca de 30 minutos cada, sobre a cadeia de valores econômicos, sociais e culturais do manejo sustentável da Palmeira Juçara (Euterpe edulis) – o açaí da Mata Atlântica, atualmente ameaçada de extinção assim como todo o bioma. É parte integrante do Projeto Cadeia de Valores da Palmeira Juçara, financiado pelo edital Fortalecendo Comunidades na busca pela Sustentabilidade, uma parceria entre o Fundo Socioambiental CASA e o Fundo Socioambiental CAIXA.

A trilogia retrata, além de toda diversidade encontrada no domínio da Mata Atlântica, as experiências do ser humano com os saberes associados ao manejo da floresta nativa, em especial da Palmeira Juçara. Este terceiro e último episódio, Alimento para a Vida, fiinaliza a nossa história apresentando as alternativas e a importância que os frutos da Palmeira Juçara têm para oferecer para alimentar nossas vidas. Com certeza sua contribuição vai para além da nutrição e da culinária, mas é, sim, um elemento delicioso que pode compor os mais variados pratos. No entanto, é preciso entender esta palmeira como parte de uma cadeia de valores culturais, que se relaciona e se apresenta como chave não só da preservação da floresta, mas da sustentabilidade das pessoas que vivem nessas regiões e que historicamente lutam para manter seus estilos de vida saudáveis e conectados com as forças da Natureza.

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A trilha sonora é original, de autoria da banda de reggae Butia Dub, que, entre outras músicas, apresenta de maneira destacada neste trabalho a faixa Ser Juçara, sonzeira que abre todos os episódios e que faz fundo no trailer oficial da trilogia.

O projeto contempla ainda o lançamento de um site (www.oserjucara.com.br, endereço que temporariamente está encaminhando para as postagens de divulgação), a produção de DVDs para distribuição física e eventos de lançamento e apresentação da trilogia em espaços de Porto Alegre e Maquiné.

Tem interesse de veicular este material? Distribuir para as televisões locais de seu região? Os filmes são finalizados em padrão fullHD e com formato para encaixar nas grades de canais de televisão, tendo entre 27 e 30 minutos com os créditos. O licenciamento é Creative Commons, de livre distribuição e veiculação, com possibilidade de edição do material e reutilização, desde que SEM FINS LUCRATIVOS e com citação da fonte.

Faça contato com a gente: (51) 3012.5509 / gustavo.turck@coletivocatarse.com.br – com Gustavo Türck

PARA ASSISTIR AO EPISÓDIO 1, CLIQUE AQUI.

PARA ASSISTIR AO EPISÓDIO 2, CLIQUE AQUI.

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A palmeira Juçara

Nativa da Mata Atlântica, a Euterpe edulis ocorre do Rio Grande do Sul ao sul da Bahia e também é conhecida como açaí da Mata Atlântica, Içara ou Ripeira, neste caso devido ao uso tradicional de seu caule para produção de ripas e caibros na construção. A planta também é chamada de Palmiteiro ou Palmito Juçara, em virtude do seu uso para produção de palmito em conserva.

A redução da floresta somada à intensa exploração do palmito, colocou a Juçara na lista das espécies ameaçadas de extinção. Entretanto, como apresenta a trilogia O ser Juçara, na última década, o manejo da espécie para uso dos frutos tem se mostrado como grande potencial em termos ecológicos e econômicos e uma saída para evitar o fim da rica palmeira.

A polpa da Juçara é muito semelhante a do Açaí amazônico (Euterpe oleracea) tanto no sabor quanto na aparência e nas propriedades nutricionais.

Aguarde o lançamento do site http://www.oserjucara.com.br para maiores informações sobre a palmeira Juçara!