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Ensaio Fotográfico: Luta e Resistência Kaingang

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Este ensaio fotográfico expressa a relação que os Kaingang que moram em Acampamentos de Retomadas* no Alto Uruguai (Rio Grande do Sul, Brasil) desenvolvem com um território cada vez mais devastado pelos avanços do agronegócio e uma perseguição cada vez mais aguda tanto por parte de alguns setores do Estado brasileiro quanto por parte dos fazendeiros locais.

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A resistência das mulheres e homens Kaingang nesses Acampamentos de Retomadas se manifesta com a força da relação que eles mantêm com os poucos vënh-kagta, “remédios do mato”, que sobrevivem nos desertos criados pela agricultura intensiva.

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Tendo como pano de fundo a ditadura militar e a expansão das fronteiras agrícolas no país, é desde uma perspectiva Kaingang do território que esse ensaio fotográfico relata a história do sul do Brasil. Essa história se manifesta por um lado na memória ancestral de cada erva, casca, folha colhida e por outro na destruição, expressada pela hegemonia de uma paisagem monotemática. A luta nas retomadas dos territórios Kaingang é entendida como uma luta na procura de (re)criação de relações com os seres da natureza, relações que rompem com os modelos de relação com a terra, baseados na produtividade e na concepção da terra enquanto objeto, historicamente impostos nos Postos e nas Terras Indígenas. As araucárias nascendo expressam a relação entre a ancestralidade Kaingang, os processos históricos e coloniais sofridos por eles e um futuro de esperança baseado na procura de uma autonomia política, espiritual e territorial.

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https://memoriaterritorioeperseguicao.wordpress.com/

– fotos por Billy Valdez
*Os Acampamentos de Retomadas são territórios recuperados de forma autônoma pelos Kaingang nas últimas décadas. São chamados de Acampamentos porque, apesar dos laudos antropológicos terem sido realizados e aprovados pela FUNAI, o Estado brasileiro ainda não concluiu a demarcação e homologação da terra e assim a retirada dos fazendeiros ou pequenos agricultores que atualmente moram nessas terras. De esta maneira, nos Acampamentos de Retomadas, os Kaingang são recluídos em espaços de 2 a 4 hectares no máximo.

Coletivo Catarse e Comunicação Kuery em aula na UFRGS

Nessa quarta-feira, 12, os estudantes da disciplina Comunicação e Cidadania da Fabico – UFRGS, ministrada pela coordenadora do NUCC, professora Ilza Maria Tourinho Girardi, receberam os comunicadores Gustavo Türck, do Coletivo Catarse, e Gerson Gomes e Daniel, da Comunicação Kuery, coletivo de produção audiovisual Mbyá-Guarani, que falaram sobre suas experiências de trabalho.

Gustavo defendeu a iniciativa do Catarse não como mídia alternativa, mas sim como alternativa de mídia, e comentou a atuação do coletivo em coberturas como as manifestações de rua de 2013 e em documentários como Carijo, sobre a produção artesanal da erva mate, e O Ser Juçara, sobre a Pameira Juçara, espécie nativa que produz o açaí da Mata Atlântica e é manejada de forma sustentável pelos povos da região.

Segundo Gerson, a prioridade da Comunicação Kuery é dar visibilidade ao povo guarani e fortalecer a comunicação dentro das aldeias. O comunicador comentou a cobertura sobre as retomadas de territórios Mbyá-Guarani no Rio Grande do Sul, e afirmou a necessidade de amenizar a linguagem de guerra normalmente associada às retomadas, pois se trata apenas da ocupação de espaços por seu povo.

Chamas da inquisição atual queimam as bruxas da História

Viralizou nas redes a triste notícia do incêndio na instituição de pesquisa mais antiga do Brasil. O fogo queimou o Museu Nacional, localizado no Rio de Janeiro, junto com 20 milhões de obras — entre elas o acervo de meteoritos e de botânica, fósseis humanos e animais, registros de culturas indígenas e reinos africanos.

A perda científica e de conhecimento é inestimável, mas também é triste ver mais uma confirmação de que o Brasil segue no mesmo modelo colonialista de inquisição: queimar a diversidade nativa para impor uma monocultura.

E não adianta culpar o PT ou a esquerda pelo que aconteceu, já que uma rápida pesquisa aponta justamente para o contrário. Segundo dados disponíveis no portal do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), os investimentos em museus cresceram 980% entre 2001 e 2011, período que abrange maioria do período das gestões Lula e Dilma.

Ao analisar, ainda, informações disponíveis no Siga Brasil, portal do orçamento do Senado Federal, se nota que a maior queda no orçamento anual do Museu acontece no ano de 2015. No ano de 2014, quando Dilma se reelegia, o orçamento anual do museu foi de 1 milhão e duzentos e 11 mil reais. Já em 2015, momento em que o golpe estava sendo articulado, o orçamento caiu para 750 mil reais.

No cenário político pós golpe, vale ressaltar a PEC 241. A proposta de emenda constitucional aprovada no final de 2016 congelou por vinte anos as despesas do governo com gastos sociais. Assim, o país não pode incrementar investimentos em saúde, educação e cultura pelos próximos 18 anos.

Pensando dessa forma, pode-se entender o incêndio no Museu como mais uma das consequências do golpe. E, cabe ressaltar que, apesar de toda a midiatização do episódio e da comoção construída a partir disso, o que queimou já seria uma cultura morta.

Não é querer menosprezar o episódio — é uma merda que o fóssil de Luzia, com toda sua antiguidade e importância para as pesquisas sobre as migrações para o continente americano, tenha queimado —, mas Luzia já está morta. Enquanto isso, por todo o Brasil, vemos denúncias de guardiãs e guardiões da cultura viva sofrendo diversos ataques.

É uma pena que tenhamos perdido registros de culturas indígenas já extintas, mas não seria também produtivo nos mobilizarmos para proteger as etnias que restam? Para que estas não virem fósseis a serem queimados em um outro museu em outro futuro apocalíptico como o de agora?

Na Amazônia, estamos vendo seguidamente denúncias de garimpo e desmatamento dentro de terras indígenas. No Mato Grosso do Sul, o Estado brasileiro está retirando as crianças Guarani Kaiowá de suas mães e colocando-as para adoção. Com isso, o Estado está literalmente assassinando as culturas vivas ao agir para impedir sua continuidade seja retirando as crianças ou destruindo as florestas.

E estes são só alguns exemplos…

Temos também denúncias de intolerância religiosa contra religiões afrobrasileiras — inclusive por parte do Estado por meio de tentativas de proibir os sacrifícios rituais dessas religiões.

Ou seja, a velha inquisição segue a todo vapor e não queima apenas museus, mas também as pessoas que lutam pela sobrevivência de culturas não individualistas. O que vemos no Brasil é a continuação do colonialismo e do extermínio, e o Museu foi apenas o exemplo mais espetacular e, justamente por isso, midiatizado por aqueles que nunca o valorizaram.

*cartum de Carlos Latuff (@LatuffCartoons)

**texto produzido por Bruno Pedrotti sob supervisão do Coletivo