Quilombo Vila Nova lança Protocolo de Consulta no Fórum dos Quilombos do Litoral Médio

Na quinta, 16 de outubro, a comunidade quilombola Vila Nova, no distrito do Capão do Meio, São José do Norte/RS, promoveu o lançamento do seu Protocolo de Consulta Livre, Prévia e Informada. Realizado ao longo do Fórum dos Quilombos do Litoral Médio, o evento teve a presença de lideranças das comunidades que compõem o fórum. O documento busca garantir os direitos da comunidade frente aos megaempreendimentos que tentam se instalar no território. Entre as ameaças estão o projeto Atlântico Sul de mineração de titânio e os parques eólicos Ventos do Atlântico e Complexo Eólico Bojuru. Os quilombolas denunciam que não foram consultados em relação a nenhum destes empreendimentos. Destacam ainda que, de acordo com a Convenção 169 da Organização internacional do trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário, os povos e comunidades tradicionais precisam ser consultados sobre questões que afetem seus territórios.   Entre as mais de 100 pessoas presentes, estiveram também a  vice-prefeita de São José do Norte, Vanessa Oliveira (PP), Jorge Amaro, Vereador pelo município vizinho de Mostardas. A atividade teve a entrega do documento impresso e uma exibição da versão em vídeo, além de apresentações de manifestações culturais típicas da região como o Terno de Reis e o Ensaio de Pagamento de Promessas com Luis Faustino e o grupo cultural do quilombo Vovô Virgilino.  As oficinas, a pesquisa e a edição do audiovisual foram realizados com apoio do Fundo Casa Socioambiental. A versão impressa do documento recebeu apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos por meio do projeto Quilombo Vila Nova: Organização e Soberania na Defesa do Território contemplado na chamada Vozes por Direitos e Justiça pela associação da comunidade tendo o Coletivo Catarse como organização parceira. Já o evento de lancamento na comunidade fez parte do projeto Quilombo Vila Nova recebe o Fórum Quilombola do Litoral Médio contemplado na PNAB de São José do Norte na categoria Eventos Tradicionais. Texto: Bruno PedrottiFotos: Giulia Sichelero

Gah Ré reflorestando o morro

Na noite em que nasceu a retomada kaingang do Morro Santana, zona leste de Porto Alegre, em outubro de 2022, a cacica Gah Té defendeu a entrada no território como uma forma de garantir um espaço de moradia para seus filhos e netos e também de proteger as matas e nascentes de água do local. Passados três anos, a comunidade e seus apoiadores conseguiram aprofundar ainda mais o trabalho de preservação. Ao longo de 2025, fizeram o plantio de 400 mudas de 16 espécies nativas diferentes, além de construir um viveiro para armazenar outras 800 mudas e manejar espécies invasoras do território como o pinus e a vassourinha. As ações foram articuladas por meio da rede da Teia dos Povos em Luta no RS. Por meio desta aliança, foi possível adquirir mudas do Assentamento Filhos de Sepé, do Movimento Sem Terra (MST), em Viamão (RS) e ainda do Viveiro Gasparetto, de de Erval Grande. Indicado pelos parceiros da Seiva Rebelde, o viveiro faz um trabalho de proteção das matrizes nativas de erva mate do Alto Uruguai, trabalhando com mais de 20 matrizes diferentes da ilex paraguariensis na região. Vale citar ainda a parceria do grupo de extensão da UFRGS Preserve Morro Santana, que mobilizou uma doção de 800 mudas da Cooperativa de Transporte Transpocred. A rede foi fundamental também para articular os mutirões, principal tecnologia ancestral para a realização do projeto. Porém, nos momentos em que chuvas persistentes aos finais de semana impediram a junção de um número maior de pessoas, a saída foi agilizar os “mutirinhos”. Esta adaptação foi necessária e permitiu seguir caminhando, mesmo que com menos gente. Em tardes de sol que antecederam as tormentas, grupos de quatro ou cinco pessoas saiam da aldeia com ferramentas, terra preta e um balaio repleto de mudas. Pais e filhas plantavam juntos e, entre uma enxadada e outra, proseavam, contavam piadas, riam e sonhavam com um Morro Santana mais biodiverso. Conforme as mudas iam retomando a terra, era reflorestado também o imaginário, com o resgate de um tempo em que a maior cordilheira granítica da cidade tinha mais animais nativos e menos prédios. Tinha muito bicho, até veado tinha aqui no morro! Lembrou Karindé, coordenador do plantio, que se relaciona com a região há mais de 30 anos. Em outra ocasião, enquanto plantava araçás, lembrou que os bugios gostavam de descer das matas e comer as frutas em uma parte do morro que, infelizmente, já foi destruída. Os primatas, aliás, que seguem vivendo na região, eram lembrados com frequência nos momentos de plantio: “Quando elas tiveram dando frutas, os bugios vão todos descer pra cá, pra os lados da aldeia” dizia Karindé. Não por acaso, a maioria das espécies escolhidas para o reflorestamento foram espécies frutíferas. Priorizar plantas que pudessem alimentar os animais do morro foi uma demanda de Gah Té desde o início. Além dos macacos, já foram avistados ouriços, tatus e uma diversidade de aves. As aracuãs – pássaros nativos parecidos com galinhas pretas que andam pelo topo das árvores – foram presença quase constante na comunidade ao longo dos encontros e mutirões. Além dos animais, os plantios foram pensados também nas pessoas. A pedido da cacica, uma das mais plantadas foi a erva-mate, com pelo menos cem mudas incorporadas na agrofloresta da aldeia, nas matas, e também em um erval implementado em um dos mutirões. A árvore símbolo do Rio Grande do Sul também é muito valorizada pelos kaingang, não apenas pelo consumo do chimarrão, mas também por seu uso medicinal e espiritual em batismos e benzeduras. O processo foi todo orientado pela sabedoria kaingang em diálogo com práticas agroecológicas. Os plantios foram realizados a partir do final de agosto, respeitando o “descanso” dos meses mais frios, nos quais segundo Gah Té, é melhor evitar mexer no solo. A partir deste encontro de saberes foram surgindo memórias adormecidas da aldeia grande. Quando a ilex foi incorporada numa parte da agrofloresta em que geralmente se cultiva o milho, a cacica sorriu e lembrou: “Não tem problema, as duas se dão bem, quando meu pai plantava erva-mate, pedia para plantarmos milho junto. Só não pode é plantar com a abóbora, que vai se espalhando por cima e não deixa a erva crescer”. Por sua vez, os apoiadores articulados pela rede da Teia dos Povos também tiveram a chance de compartilhar seus conhecimento ligados à agroecologia. O feijão Guandú, por exemplo, plantado nos espaços do reflorestamento, contribuirá não só com a alimentação, mas também na adubação verde. A espécie ajuda a fixar nitrogênio no solo (mineral importante para a maioria dos cultivos), além de manter a umidade, fornecer sombra temporária e impedir o avanço de espécies invasoras sobre as mudas nativas em adaptação. Outra novidade foi o viveiro, vital para armazenar as mudas até o próximo ano depois do final do tempo de plantio. Distribuir as espécies nativas entre os territórios parceiros e começar a dar os primeiros passos na produção própria de mudas para recuparar a aldeia, o morro e tantos outros territórios quanto possível é outro ponto importante do projeto para educação ambiental. A estrutura, construída utilizando também a madeira dos pinus manejados, tem ainda uma composteira, para que a comunidade possa produzir o próprio adubo orgânico a partir das sobras dos alimentos. A construção foi um dos grandes desafios enfrentados pelo projeto, ja que o local escolhido para dar uso a um local da aldeia era bem úmido e no qual o lixo por vezes acabava se acumulando. Assim, passaram mutirões de limpeza, aterro e organização de canais e caminhos para que a água do morro seguisse seu curso e fortalecesse outra área de banhado ao lado. Novamente, por meio de encontros coletivos, foi possível levantar a estrutura, contornando ciclones, chuvas e frio intensos e seguir avançando mesmo com a equipe reduzida, o que por vezes facilitou ainda o processo de coordenação da equipe de obra. “O ideal para uma obra são três pessoas, um pedreiro e dois auxiliares. Porque aí o pedreiro tem duas pessoas …

Quilombo Vila Nova reafirma sua soberania

Lideranças quilombolas lançaram seu Protocolo de Consulta Livre Prévia e Informada na Sala Redenção, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O documento, disponível nos formatos de vídeo e texto, busca fazer com que a vontade da comunidade seja respeitada em processos que possam afetar o território, garantindo o direito assegurado pela Convenção 169 da OIT, tratado internacional do qual o Brasil é signatário. O evento ocorreu na quarta-feira, 10 de setembro. A comunidade vem denunciando que seu direito à consulta, consentimento e mesmo de veto vem sendo sistemáticamente violado por 6 grandes empreendimentos. Entre as ameaças estão a mineração em larga escala de titânio por meio do Projeto Retiro – primeira fase do projeto Atlântico Sul, que visa minerar quase toda a área do município de São José do Norte – que recentemente recebeu a licença de instalação (LI). Além da mineração, os quilombolas do Litoral Médio (faixa que vai de Osório até a foz da Laguna dos Patos) também denunciam os megaparques eólicos que pretendem se instalar na região à revelia dos povos tradicionais. O complexo eólico Bojuru propõe 113 aerogeradores, segundo os estudos da empresa a menos de 10km da comunidade e já tem a Licenç Prévia (LP). Ainda mais ambicioso é o Complexo Eólico Ventos do Atlântico com 290 geradores. O megaprojeto também já tem a primeira das três licenças ambientais, mesmo que muitos dos seus 15 mil hectares disputados estejam sobrepostos ao território do Quilombo Vila Nova. Projetos altamente polêmicos entre pesquisadores e ambientalistas também completam a lista de ameaças enfrentadas. Outros dois parques eólicos ameaçam as águas que cercam a comunidade, intencionando implantar complexos eólicos dentro do mar e da laguna dos patos. Por fim, a comunidade vem sofrendo com as monoculturas de pinus, que vem invadindo o território nas últimas décadas, reduzindo áreas de cultivo e criação de animais. Para enfrentar estas ameaças e garantir seu direito de decidir sobre ações que impactam seu território, os quilombolas elaboraram junto de apoiadores um Protocolo de Consulta Livre, Prévia e Informada. O documento, produzido com apoio de uma equipe de pesquisa em geografia e biologia a partir de quatro oficinas na comunidade, traz cada um dos passos que deve ser tomado caso se deseje realizar algo que possa impactar o quilombo. Reforçando que empresas e empreendedores não tem o direito de entrar no território, o texto produzido coletivamente enfatiza: Só aceitamos que a consulta seja realizada pelo estado brasileiro por meio dos órgãos específicos para tal, como o Instituto Nacional de Reforma Agrária (Incra) e a Fundação Cultural Palmares (FCP). Para garantir que os órgãos responsáveis tomassem ciência do documento, foram convidadas e estiveram presentes no evento representantes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Ministério Público Federal (MPF), Conselho Estadual de Direitos Humanos (CEDH-RS), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SJCDH/RS). Após a exibição do protocolo audiovisual, foi feita a entrega das primeiras edições do documento impresso para as autoridades presentes. O evento de lançamento, que teve 120 participantes, fez parte do Ciclo Cineciência “Raízes Vivas e Horizontes Ancestrais: a terra é o coração do Corpo” e foi a última exibição da série de encontros realizados na Sala Redenção Campus Centro da UFRGS. O Museu da universidade está sediando a exposição homônima, com fotos do Vila Nova e outras comunidades tradicionais como o Quilombo do Morro Alto em Osório e aldeias guarani e kaingang. O protocolo foi o primeiro documento audiovisual do gênero lançado no estado do Rio Grande do Sul. Entre as comunidades quilombolas, outras duas já tinham protocolos escritos, o Quilombo Morada da Paz (Triunfo) e o Quilombo do Morro Alto (Osório). O documento impresso terá ainda um lançamento na própria comunidade ao longo do Fórum dos Quilombos do Litoral Médio, importante espaço de articulação que reúne as 10 comunidades da região. As oficinas de elaboração do documento bem como a produção do vídeo foram realizadas com apoio do Fundo Casa Socioambiental. As ilustrações, diagramação, impressão e os eventos de lançamento da obra impressa estão sendo realizados com apoio do Fundo Brasil de Direitos humanos por meio do projeto Quilombo Vila Nova: Organização e Soberania na Defesa do Território contemplado na chamada Vozes por Direitos e Justiça pela associação da comunidade tendo o Coletivo Catarse como organização parceira. Texto: Bruno PedrottiFotos: Beto RodriguesMapa: Giulia Sichelero e Júlia Ilha – NEGA/UFRGS

Juçaras, viveiros e agroflorestas

Depois de mais de uma década de semeadura, cooperados do Coletivo Catarse, kaingangs da Retomada Gah Ré e os parceiros da Cia Lumbra se uniram para o trabalho de coleta e distribuição de mudas de juçaras. A ação ocorreu na terça-feira (19/8). As 150 mudas transplantadas foram encaminhadas para dois viveiros comunitários e duas agroflorestas em formação, em uma rede que envolve a Aldeia Kaingang e dois Pontos de Cultura. As mudas haviam sido semeadas por integrantes do Catarse em um sítio em Triunfo (RS). Porém, como boa parte já estava germinada, as plantas cresceram muito próximas, com pouco espaço para se desenvolverem. Há dois anos, o coletivo e seus parceiros vêm realizando o trabalho de seleção de matrizes, que são deixadas na mata, e a coleta do excedente de mudas, que são distribuidas, doadas e plantadas. O mutirão desta terça foi o primeiro realizado contando com apoio de um projeto. A ação foi realizada dentro do projeto Reflorestamento, resiliência climática e restauração do modo de vida Kaingang em um território em retomada em Porto Alegre – RS, apoiado pelo Fundo Casa Sociambiental, por meio da Chamada Reconstruir RS de 2024. O projeto é fruto de uma parceria com a rede apoiadora da aldeia, a Teia dos Povos e o Coletivo Catarse. Justamente por isso, parte das mudas da palmeira Juçara – espécie-chave da Mata Atlântica – já foram destinadas para o viveiro da comunidade kaingang. Além das 35 mudas que já foram levadas para a aldeia, outras ainda se somarão ao reflorestamento que a comunidade está realizando no seu território com apoio do projeto, totalizando pelo menos 50 mudas. Outras 33 foram doadas para o Ponto de Cultura Vale do Aroverdo, que está implementando uma agrofloresta no seu território, em Morro Reuter (RS), e participou do mutirão de coleta das mudas. O restante das mudas está no viveiro do Coletivo Catarse, na agrofloresta da Comuna do Arvoredo, Centro Histórico de Porto Alegre, de onde devem ser distribuídas entre comunidades e territórios parceiros. Além das mudas de juçara, a Retomada Gah Ré recebeu 50 mudas do viveiro do assentamento Filhos de Sepé, do MST em Viamão (RS). Foram 20 mudas de chal-chal, 20 de aroeira vermelha, 10 de angico e 10 de Ingá. Outra doação importante recebida pela comunidade foi da Transpocred, instituição financeira cooperativa dos segmentos de transporte, logística e correios. A doação articulada pelo grupo de pesquisa da UFRGS, Preserve o Morro Santana, contemplou a aldeia com mudas de erva-mate, guabiroba, butiá, araçá, canela, e araucária, totalizando 600 mudas, das quais 300 já foram recebidas pela comunidade. Neste final da semana, iniciam os mutirões de plantio na aldeia. A princípio a ação está marcada para o sábado 23/08, mas pode ser remarcada a depender das condições do tempo. Para mais informações, fique atento às páginas da Retomada Gah Ré e do Coletivo Catarse no Instagram. Texto: Bruno PedrottiFotos: Bruno Pedrotti, Gustavo Türck e Têmis NicolaidisRevisão: Anahi Fros .

Primeiras trocas de uma transição ecológica entre assentados e quilombolas

Nos dias 25 de junho e 29 de julho foram realizados os primeiros intercâmbios entre assentados do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) que produzem arroz agroecológico e a Comunidade Quilombola Vila Nova em São José do Norte. Em junho os assentados visitaram a comunidade quilombola e, depois, agricultores quilombolas participaram do Seminário do Grupo Gestor do Arroz Agroecológico em Eldorado do Sul. O processo de intercâmbios faz parte do projeto “Fortalecimento da Agricultura Quilombola em São José do Norte/RS: Construindo Raízes para a Transição da Produção de Arroz Convencional para Arroz Agroecológico na Comunidade Vila Nova” – da associação quilombola com apoio do Coletivo Catarse, contemplado na Teia da Sociobiodiversidade, uma iniciativa do Fundo Casa Socioambiental em parceria com o Fundo Socioambiental CAIXA. A iniciativa propõe iniciar uma transição agroecológica no cultivo do arroz da comunidade quilombola de São José do Norte. Para isso, conta com o apoio de uma grande referência nesta cultura: a Cooperativa Dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (COOTAP). A rede que a cooperativa organiza rendeu ao MST o reconhecimento como maior produtor de arroz orgânico da América Latina com mais de 300 famílias envolvidas. Em 2025, foram 14 mil toneladas de arroz agroecológico colhidas. Com o apoio da COOTAP, o projeto prevê o resgate de uma tradição agroecológica que muitas famílias foram abandonando em São José do Norte, por conta do êxodo rural, do envelhecimento no campo, e da entrada massiva de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Uma das lideranças da comunidade, Flávio Machado conta que durante sua infância, lembra que os jovens da comunidade se reuniam para juntar fezes secas dos animais de criação para usar na adubação dos cultivos. “Era trabalhoso, mas a receita final era muito maior pra nós”, reflete. No final dos anos 1970, Flávio conta que a comunidade começou a acessar linhas de crédito, mas que para isso, era necessário aderir ao modelo da chamada “Revolução Verde” com fertilizantes químicos e agrotóxicos. O agricultor lembra os mais velhos já questionavam o modelo. Seu avô, João Francisco Xavier, dizia que eles estavam “virando malandros” e não iam mais querer trabalhar. Conforme o tempo passou, Flávio percebeu que, mesmo com maior retorno econômico em produção, o benefício não ficava com os agricultores, mas ia para a indústria de fertilizantes, agrotóxicos e para os bancos por meio dos financiamentos. Pior de tudo, a comunidade ainda ficava com os impactos a saúde humana e ambiental do pacote da mecanização agrícola, além do consequente êxodo rural. Assim, conclui: “Nós fomos convencidos a usar um sistema que só nos adoece, só nos prejudica cada vez mais”. A partir desta crítica, a comunidade vem buscando subsídios para resgatar as práticas agroecológicas do passado. Evidente que, num outro contexto, em que o agroecológico já possui bioinsumos, técnicos capacitados e tecnologias próprias, muitas delas desenvolvidas pelos próprios agricultores e agricultoras. Para isso, a principal ferramenta utilizada é o intercâmbio de saberes com agricultores que já acumulam anos de prática com esta cultura, para isso o diálogo com a COOTAP. No primeiro momento, os assentados Antônio e Dionéia foram até o Quilombo e conheceram algumas das propriedades que produzem arroz. Depois, foi a vez dos quilombolas se deslocarem até a região Metropolitana de Porto Alegre. Ao longo do Seminário do Grupo Gestor do Arroz Agroecológico em Eldorado do Sul, tiveram a chance de observar o diálogo para planejamento da próxima safra, no qual o grupo gestor apresentou as variedades de sementes historicamente cultivadas pelo movimento e os benefícios de cada uma (resistência a pragas, quantidade de água exigida, época ideal de plantio, entre outros fatores). O encontro teve ainda uma conjuntura política e uma previsão climatológica para o perído do plantio com apresentação de Flavio Varone. O metereologista apresentou o Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos (Simagro-RS), plataforma ligada ao governo estadual que oferece monitoramento climático voltado à atividades agropecuárias de maneira aberta e gratuita. Também foram discutidos seguros para o cultivo, certificação e mesmo bioinsumos e maquinas da China. Certamente, a dimensão do cultivo do arroz no quilombo é muito menor do que a grande rede que o MST organiza. Mesmo assim, a comunidade e seus apoiadores entendem que o compartilhamento de experiências e fazeres e o melhor método para encontrar um modelo de cultivo agroecológico para a comunidade, de maneira a integrar os saberes tradicionais com algumas inovações tecnológicas. O caminho ainda é longo, mas as primeiras sementes da transição agroecológica foram plantadas. Texto: Bruno PedrottiFotos: Érico Carvalho e Giulia SicheleroEdição: Anahi Fros

Saberes das ervas medicinais na Retomada Gah Ré

Na manhã ensolarada do último sábado, dia 26, Dia dos Avós, a Retomada Gah Ré realizou o Encontro de Ervas Medicinais. A comunidade, no Morro Santana, zona leste de Porto Alegre/RS, abriu suas portas para compartilhar com os fóg (não indígenas) um pouco dos saberes da medicina tradicional Kaingang. Depois de uma defumação com refej (erva nativa conhecida como macela, ou marcela, em português) para limpar as energias do ambiente, a cacica, avó e Kuja (curandeira/pajé) Iracema Gãh Té deu as boas vindas aos 30 participantes e explicou como seria a dinâmica do encontro. Kapri, filha da liderança, contextualizou a atividade, realizada em meio a um processo de reflorestamento na aldeia e valorização dos saberes originários de relação com a natureza. “Todo esse trabalho que a gente faz, é tudo pela mãe terra, que nos fortalece. Nós somos ligados a mãe terra”, concluiu Kapri. Depois da abertura e apresentação, os participantes foram divididos em dois grupos, um para buscar lenha na mata e outro para higienizar os ingredientes que seriam utilizados. Numa aula prática, Gãh Té ensinou o preparo de um xarope de sete plantas: bananinha-do-mato, cipó mil homens, erva cidreira, capim cidró, guaco, macela e espinheira santa. Ao final, o preparado foi coado e ainda misturado com mel. A Kuja explicou que o xarope é ideal para gripes e resfriados, principalmente aqueles que atacam o sistema respiratório, com tosse e catarro, ajudando também em casos de asma, bronquite, sinusite e rinite. A atividade fez parte do projeto Reflorestamento, resiliência climática e restauração do modo de vida Kaingangem um território em retomada em Porto Alegre – RS, apoiado pelo Fundo Casa Sociambiental por meio da Chamada Reconstruir RS de 2024. O projeto – fruto de uma parceria com a rede apoaidora da aldeia, a Teia dos Povos e o Coletivo Catarse, como organização parceira – vem fazendo o manejo de espécie invasora no território da comunidade, construindo um viveiro e reflorestando o local com espécies nativas. Em breve, mais atualizações. Texto: Bruno PedrottiImagens: Bruno Pedrotti e Luis Gustavo RuwerRevisão: Anahi Fros

Fortalecendo o olhar da Fuá

No final de março, a jovem Marciely Salvador, de nome kaingang Fuá (erva nativa usada para fins medicinais e alimentícios pelo seu povo), recebeu uma importante ferramenta para potencializar o trabalho no audiovisual: uma câmera Canon T100 adquirida com apoio do Coletivo Catarse e financimento da ONG Witness.

“O Despertar do Sol” convida a respeitar a natureza e os povos indígenas

Lançado no dia 07 de junho, o curta revela um olhar sobre a cosmopercepção Mbya Guarani, registrando um pouco do modo de ser e viver na Tekoá Tavaí (Canelinha-SC). Os indígenas compartilham ao longo da obra um pouco da sua cultura, da maneira de se organizar e da sua relação de convivência harmoniosa com a natureza.

Direito quilombola no papel e nas telas

Com seu território cercado de mega projetos de mineração e geração de energia, a Comunidade Quilombola Vila Nova vem lutando em defesa de seus direitos. Localizado em São José do Norte/RS, o quilombo irá finalizar e lançar neste ano seu Protocolo de Consulta Livre, Prévia, Informada e de Boa Fé em texto e vídeo. O documento um dos primeiros protocolos de uma comunidade quilombola no RS – e primeiro a estar disponível também no formato audiovisual – busca evitar violações de direitos e defender o modo de vida tradicional baseado na agricultura e pecuária familiar.

Carijo rebelde em Erval Grande

A fumaça do braseiro subia em direção às folhas e galhos. A água esquentava lentamente no fogo. O galpão protegia o carijo – originária estrutura para secar erva-mate – de eventuais pancadas de chuva ou do sereno da madrugada. Os viventes reunidos proseavam em roda.