Na noite em que nasceu a retomada kaingang do Morro Santana, zona leste de Porto Alegre, em outubro de 2022, a cacica Gah Té defendeu a entrada no território como uma forma de garantir um espaço de moradia para seus filhos e netos e também de proteger as matas e nascentes de água do local. Passados três anos, a comunidade e seus apoiadores conseguiram aprofundar ainda mais o trabalho de preservação. Ao longo de 2025, fizeram o plantio de 400 mudas de 16 espécies nativas diferentes, além de construir um viveiro para armazenar outras 800 mudas e manejar espécies invasoras do território como o pinus e a vassourinha. As ações foram articuladas por meio da rede da Teia dos Povos em Luta no RS. Por meio desta aliança, foi possível adquirir mudas do Assentamento Filhos de Sepé, do Movimento Sem Terra (MST), em Viamão (RS) e ainda do Viveiro Gasparetto, de de Erval Grande. Indicado pelos parceiros da Seiva Rebelde, o viveiro faz um trabalho de proteção das matrizes nativas de erva mate do Alto Uruguai, trabalhando com mais de 20 matrizes diferentes da ilex paraguariensis na região. Vale citar ainda a parceria do grupo de extensão da UFRGS Preserve Morro Santana, que mobilizou uma doção de 800 mudas da Cooperativa de Transporte Transpocred. A rede foi fundamental também para articular os mutirões, principal tecnologia ancestral para a realização do projeto. Porém, nos momentos em que chuvas persistentes aos finais de semana impediram a junção de um número maior de pessoas, a saída foi agilizar os “mutirinhos”. Esta adaptação foi necessária e permitiu seguir caminhando, mesmo que com menos gente. Em tardes de sol que antecederam as tormentas, grupos de quatro ou cinco pessoas saiam da aldeia com ferramentas, terra preta e um balaio repleto de mudas. Pais e filhas plantavam juntos e, entre uma enxadada e outra, proseavam, contavam piadas, riam e sonhavam com um Morro Santana mais biodiverso. Conforme as mudas iam retomando a terra, era reflorestado também o imaginário, com o resgate de um tempo em que a maior cordilheira granítica da cidade tinha mais animais nativos e menos prédios. Tinha muito bicho, até veado tinha aqui no morro! Lembrou Karindé, coordenador do plantio, que se relaciona com a região há mais de 30 anos. Em outra ocasião, enquanto plantava araçás, lembrou que os bugios gostavam de descer das matas e comer as frutas em uma parte do morro que, infelizmente, já foi destruída. Os primatas, aliás, que seguem vivendo na região, eram lembrados com frequência nos momentos de plantio: “Quando elas tiveram dando frutas, os bugios vão todos descer pra cá, pra os lados da aldeia” dizia Karindé. Não por acaso, a maioria das espécies escolhidas para o reflorestamento foram espécies frutíferas. Priorizar plantas que pudessem alimentar os animais do morro foi uma demanda de Gah Té desde o início. Além dos macacos, já foram avistados ouriços, tatus e uma diversidade de aves. As aracuãs – pássaros nativos parecidos com galinhas pretas que andam pelo topo das árvores – foram presença quase constante na comunidade ao longo dos encontros e mutirões. Além dos animais, os plantios foram pensados também nas pessoas. A pedido da cacica, uma das mais plantadas foi a erva-mate, com pelo menos cem mudas incorporadas na agrofloresta da aldeia, nas matas, e também em um erval implementado em um dos mutirões. A árvore símbolo do Rio Grande do Sul também é muito valorizada pelos kaingang, não apenas pelo consumo do chimarrão, mas também por seu uso medicinal e espiritual em batismos e benzeduras. O processo foi todo orientado pela sabedoria kaingang em diálogo com práticas agroecológicas. Os plantios foram realizados a partir do final de agosto, respeitando o “descanso” dos meses mais frios, nos quais segundo Gah Té, é melhor evitar mexer no solo. A partir deste encontro de saberes foram surgindo memórias adormecidas da aldeia grande. Quando a ilex foi incorporada numa parte da agrofloresta em que geralmente se cultiva o milho, a cacica sorriu e lembrou: “Não tem problema, as duas se dão bem, quando meu pai plantava erva-mate, pedia para plantarmos milho junto. Só não pode é plantar com a abóbora, que vai se espalhando por cima e não deixa a erva crescer”. Por sua vez, os apoiadores articulados pela rede da Teia dos Povos também tiveram a chance de compartilhar seus conhecimento ligados à agroecologia. O feijão Guandú, por exemplo, plantado nos espaços do reflorestamento, contribuirá não só com a alimentação, mas também na adubação verde. A espécie ajuda a fixar nitrogênio no solo (mineral importante para a maioria dos cultivos), além de manter a umidade, fornecer sombra temporária e impedir o avanço de espécies invasoras sobre as mudas nativas em adaptação. Outra novidade foi o viveiro, vital para armazenar as mudas até o próximo ano depois do final do tempo de plantio. Distribuir as espécies nativas entre os territórios parceiros e começar a dar os primeiros passos na produção própria de mudas para recuparar a aldeia, o morro e tantos outros territórios quanto possível é outro ponto importante do projeto para educação ambiental. A estrutura, construída utilizando também a madeira dos pinus manejados, tem ainda uma composteira, para que a comunidade possa produzir o próprio adubo orgânico a partir das sobras dos alimentos. A construção foi um dos grandes desafios enfrentados pelo projeto, ja que o local escolhido para dar uso a um local da aldeia era bem úmido e no qual o lixo por vezes acabava se acumulando. Assim, passaram mutirões de limpeza, aterro e organização de canais e caminhos para que a água do morro seguisse seu curso e fortalecesse outra área de banhado ao lado. Novamente, por meio de encontros coletivos, foi possível levantar a estrutura, contornando ciclones, chuvas e frio intensos e seguir avançando mesmo com a equipe reduzida, o que por vezes facilitou ainda o processo de coordenação da equipe de obra. “O ideal para uma obra são três pessoas, um pedreiro e dois auxiliares. Porque aí o pedreiro tem duas pessoas …
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