Comunidade Xokleng Konglui lança livro e filme na UFRGS

Na última quinta feira, a Sala Redenção no Campus Reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) recebeu o lançamento o livro “Jug Og Pãn Txi – Na trilha dos nossos antepassados: a retomada do Território Xokleng Konglui” e do documentário “Território Xokleng Konglui: 1° Seminário das Mulheres Indígenas da Floresta”, ambos realizados juntos à comunidade da retomada Xokleng de São Francisco de Paula/RS. Os cantos das crianças da Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental Vanheky Veitchá Teie ecoaram pela sala de cinema no Centro de Porto Alegre. E não foi à toa, já que o livro (disponível aqui) organizado pela cacica Xokleng Cunllugn Veitchá Teie, com os pesquisadores Bibiana Harrote Pereira da Silva e Paul Schweizer, teve parte das ilustrações feitas pelos próprios jovens para apresentar a territorialidade da aldeia. “O TRF4 [Tribunal Regional Federal da 4ª Região, órgão responsável pelo julgamento do processo envolvendo a aldeia] pediu um mapa da comunidade. Aí, eu falei para as crianças desenheram aonde seria o território delas, mesmo sabendo que, para uma criança indígena, o território não tem limites. Aí elas foram colocando tudo no papel” – explicou a professora Culá Maiule Teie. Já o documentário apresentou a comunidade e sua luta a partir da perspectiva das mulheres indígenas e do 1° Seminário das Mulheres Indígenas da Floresta. Apesar das diferenças de formato e temática, as duas obras convergem na defesa do direito originário ao território. Ao longo do lançamento, a cacica Cunllugn Veitchá Teie destacou que São Francisco de Paula é território do seu povo e destacou que seu falecido pai viveu no local. “Nós estamos morando ali em São Francisco de Paula, ali no rastro do meu pai. Ali onde ele nasceu”. A luta pelo território foi reforçada justamente por ser a condição fundamental tanto para manter viva a memória dos ancestrais quanto para garantir que a juventude possa vivenciar a sua cultura e seu modo de vida tradicional. Depois de muita luta, a comunidade conseguiu o direito de permanecer no território retomado, na Floresta Nacional de São Francisco de Paula, unidade de conservação ligada ao ICMBio. No entanto, os indígenas reivindicaram que avance o processo de demarcação da sua aldeia e também combateram os ataques aos territórios e ao direito originário em todo o país. Ao final, junto com a força dos cantos ancestrais, ecoaram também na tarde chuvosa daquela quinta feira os gritos de guerra: “Demarcação já!” “Não ao marco temporal!” Texto e fotos: Bruno Pedrotti.

Esteban no Espaço Marin

Na noite do dia 10 de maio Esteban Tavares retornou a Porto Alegre no Espaço Marin para o seu primeiro show do ano na capital gaúcha.Foi uma noite de muita troca de energia e calor, um show hipnotizante que só o Esteban domina.Aguardamos pelos próximos.Banda que esquentou o palco e o inicio da noite foram os “emos” da Die For You da cidade de Gravataí que vem despontando no cenario e chamando atenção pelo seus shows enérgicos, mesclando musicas autorais e alguns covers clássicos do cenário emocore. Fotos de Billy Valdez / Coletivo Catarse.

Lançamento do livro “Fé e Política: ensaios de uma vida peregrina”, de Selvino Heck

Na quinta-feira, 21 de maio, a Maria Maria Espaço Cultural, em atividade com o Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre (Comuna do Arvoredo, Rua Cel. Fernando Machado, 464 – Centro Histórico de Porto Alegre), recebeu o lançamento desta publicação que reúne reflexões, artigos e escritos produzidos ao longo de mais de cinco décadas da vida de Selvino – com temas que abordam fé, política, justiça social e compromisso com o bem comum. Em tempos em que a religião muitas vezes é usada para justificar preconceitos, violências e exclusões, o livro propõe uma reflexão necessária sobre uma espiritualidade comprometida com a transformação social, a dignidade humana e a construção de uma sociedade mais justa e solidária. “A minha origem familiar tem muito a ver com o trabalho de comunidade, da ponta, na base. Desde sempre, na Linha Santa Emília, em Venâncio Aires, de onde eu sou natural, da minha família. Depois, eu fui para o seminário, fui Frei Franciscano grande parte da minha vida, e, na militância estudantil, especialmente na pastoral juventude, eu comecei a relacionar a fé com a política, a política com a fé. Não como instrumentalização, mas exatamente no sentido de fazer com que a fé esteja revestida de uma política e de uma causa comum, a solidariedade. E que a política esteja sempre junto com a ética. Não se faz política sem ética, muito menos se faz política sem mística. E como dizia o Papa Francisco, também a política tem que estar acompanhada de ternura. Portanto, esse meu livro tem tudo a ver com a minha vida, com a minha militância, com os meus sonhos, com o sonho de uma sociedade livre, justa, igualitária, uma sociedade do bem viver. Isso se faz tendo os valores da fé na linha de frente e a política com o sentido de comunidade, de abraço, de companheirismo, de estar junto, de lutar por um mundo melhor, um mundo justo, um mundo digno, de dignidade para todas e todos, especialmente nesses tempos em que estamos vivendo. E é o meu primeiro livro solo também, com meus textos desde os anos 1970. E fazer esse lançamento no Maria Maria foi importante. Eu já estive muitas vezes, é um lugar especial para mim, gosto muito de lá, muita afetividade, muito companheirismo, dá para ficar na rua, dá para conversar, dá para dançar, dá para cantar, dá para declamar poesias, é muito bom isso. Ainda mais com o Ponto de Cultura Ventre Livre, porque a fé e a política têm que ser animadas culturalmente, têm que estar vinculadas à mística, a uma forma de fazer política culturalmente, de abraço, de ninguém soltar a mão de ninguém. Por isso, o ponto de cultura, de liberdade, de justiça, de dignidade da pessoa humana, é algo fundamental.“ Natural de Venâncio Aires (RS), Selvino Heck tem uma trajetória marcada pela militância social, pela educação popular inspirada em Paulo Freire e pela atuação junto aos movimentos sociais. Foi deputado estadual constituinte no Rio Grande do Sul, participou da fundação do CAMP, da CUT e do MST, além de atuar como assessor da Presidência da República nos governos Lula e Dilma. Para mais imagens do dia do lançamento, clique aqui. O livro ainda está em circuito de lançamentos, mas, para adquirir, entre em contato com Loiva (+55 51 99810.1034). Fotos: Daniela Tolfo (Maria Maria) * O lançamento é parte da programação do eixo Maria Maria Espaço Cultural, sendo ação do projeto “Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre – um ano de programação na Comuna do Arvoredo (e mais)”, que foi contemplado pelo Edital Sedac n° 25/2024 Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) – RS – Cultura Viva.

Osvaldo 93

Em um movimento que começou nos 1980 para se estabelecer na primeira metade dos 1990, a aproximação do rap com o rock deu direcionamentos até hoje seguidos. A mistura desses dois universos da cultura pop, que teve desdobramentos estéticos e comportamentais para além da música, reverberou no RS, no começo da última década do século passado. Em Porto Alegre, surgiam grupos como Código Penal (cruzando rap e hardcore) e L.O.R.D.S. (Legião Organizada Revolucionária dos Direitos Sociais), embalados pela batida das ruas. Ativas até hoje (ainda que de maneira não linear), as duas atrações se juntaram para a gig “Osvaldo 93”, que rolou em 12/4, no Bar Ocidente. As bandas literalmente dividiram o palco, tocando juntas (em alguns momentos, uma ou outra se apresentava, em outros, integrantes se uniam). A L.O.R.D.S (os MCs @piadrodutor e @edsonlegalllegall, @djandersonultramen nos toca-discos e percussão de @henrique_branka) abriu os trabalhos com um bloco de temas próprios, dando espaço para a CP (formada por @lucioagace e @black_lucianocp nas vozes, @fernandoluzardo no baixo, @green.eyes.soul.mp3 e @marcioantoniog33nas guitarras e @cesarcastrodrumer na bateria ) fazer o mesmo. O baile seguiu com os músicos intercalando-se. Entre os temas próprios, destaca-se “Homem Errado” e “Falsos Profetas”, da L.O.R.D.S. Já a CP mostrou a que veio com sons do naipe de “Terra de Ninguém” e “Apologia”. Ainda rolaram diversas releituras: de Tim Maia (“O Caminho do Bem”) a Body Count” (“BC in the House”), passando por Rolling Stones (“Miss You”), Beastie Boys (“No Sleep’Till Brooklyn), Public Enemy (“Shut ‘Em Down” e “Fight the Power”), Ice T (“Colours”), Cowboys Espirituais (“Jovem Cowboy”), Cypress Hill (“Insane in the Brain”), Run-D.M.C e Aerosmith (“Walk this Way”) e Public Enemy e Anthrax (“Bring tha Noise”). O pioneiro Defalla também foi homenageado, com “Repelente”, “Como Vovó Já Dizia” e “Satisfacation”. O vocalista @edukedukeduk cantou as 3 músicas de sua banda original, além de outras versões do repertório. Os feats ao vivo incluíram ainda a cantora @denizelicardosodnzl e o baterista Zé Darcy (ex-@bandaultramen) assumindo o mic. Texto: @homerpjrFotos: @billy.valdez

Carijo no Jardim ecoa a tradição artesanal na área urbana de São Lourenço do Sul

Cerca de 20 pessoas se reuniram em São Lourenço do Sul nos dias 18 e 19 de abril , na chamada Costa Doce Gaúcha, para um encontro de feitio artesanal de erva-mate. Utilizando o método do Carijo, produziram coletivamente cerca de 30 quilos da planta para infusão. Ao longo da manhã do sábado, dia 18, foram podadas duas plantas adultas de Ilex paraguariensis da variedade Cambona – conhecida pelas folhas grandes, com algumas chegando ao tamanho de uma mão -, que não recebiam manejo há quase 30 anos. No final da tarde, iniciou-se o sapeco e encarijamento. A atividade reuniu participantes de São Lourenço, Porto Alegre, Jaguarão, Canguçu e até mesmo de Ilópolis, Capital Gaúcha da Erva-Mate. A inciativa reuniu pessoas de todas as faixas etárias, de crianças a idosos, todos com alegria e disposição compartilhando juntos o fazer coletivo. A organização foi da rede que vem produzindo uma série de carijadas na região de São Lourenço desde 2023, com alguns integrantes engajados nesta cultura e facilitando manejos artesanais desde 2018, principalmente na região sul do estado. O espaço que acolheu o evento foi O Jardim – Espaço Cultural, que reúne ações de arte, cuidado e convivência como cerâmica, costura, bordado, beneficiamento e tingimento natural de lã; compostagem; plantas medicinais, socialização e arte juntamente com a AMAFE/SLS – Associação Mães Atípicas Fênix de São Lourenço do Sul, karaokê, cinema e tantos outros. Reunidos no local e contemplando uma madrugada de céu limpo e estrelado típico da lua nova, os viventes secaram a erva por cerca de 15 horas utilizando lenha de Maricá – a árvore nativa conhecida pela excelente brasa havia sido cortada pela companhia elétrica que atua no unicípio (CEE Equatorial) no ano anterior. Por fim, colocaram a erva no soque mecânico e no pilão, para, depois, fazer a partilha. Tudo isso regado a boa prosa, a música de Jerônimo J. R. Silva – que foi da milonga ao reggae em canções combativas e de valorização da sociobiodiversidade – e comida deliciosa, com direito a galeto, carreteiro e até mesmo sushi vegano. Enquanto os presentes se deliciavam com a erva recém produzida, circulou pela roda uma infinidade de ideias. Novos carijos, mateadas, atividades, pessoas e grupos para entregar um pacote da erva novinha . Tudo para seguir divulgando esta cultura carijeira, fomentando encontros, partilhas e manter a roda circulando com a brasa acessa. O encontro ainda teve o importante papel de reafirmar a potência da cultura carijeira ao sul do estado, onde grupos e coletivos seguem divulgando e praticando esta cultura ancestral de origem indígena. Na região, são manejados tanto ervais plantados quanto nativos em áreas de transição com a Mata Atlântica e mesmo em áreas florestais do pampa. De fato, o que se verifica hoje no Rio Grande do Sul é uma forte presença do carijo, de Norte a Sul e ainda no Noroeste e nos Vales do Litoral. Pelo trabalho e dedicação de tantos grupos diferentes de pessoas a esta cultura, tudo indica que a prática só deve crescer, alcançando cada vez mais viventes e resgatando esta prática ancestral em cada vez mais territórios. Que o Carijo siga forte ao sul e no estado como um todo, conectando e acalentando vivências e encontros. Viva a cultura carijeira! Texto: Bruno PedrottiFotos: Giulia SicheleroEdição: Anahi Fros

Encontro nacional de educadores Freireanos em Porto Alegre

O movimento Café com Paulo Freire, formado em anos obscuros para a democracia brasileira, como uma frente de apoio contra os ataques que este ideólogo da educação brasileira sofria indiscriminadamente, reuniu em Porto Alegre cerca de 85 pessoas de todas as regiões do Brasil para um momento presencial de construção de rede. Apoiado em emendas parlamentares das deputadas Maria do Rosário e Reginete Bispo, foi possível realizar este encontro em 3 dias (24, 25 e 26 de abril) no CEPERS Sindicato. Ali, cada café teve o seu espaço para se apresentar aos outros, reflexões foram construídas a partir das exposições e um caminho de futuro foi traçado para a continuidade do movimento – considerado, inclusive, de abrangência internacional. O Coletivo Catarse esteve presente fazendo a transmissão ao vivo e gravando alguns momentos da integração dos participantes. A seguir, através do Canal Café com Paulo Freire no Youtube, é possível conferir como foram esses 3 dias:

Visita ao cultivo de arroz orgânico: mais um passo na busca da transição agroecológica quilombola

Recentemente, o Assentamento Filhos de Sepé, em Viamão/RS recebeu representantes da Comunidade Quilombola Vila Nova, de São José do Norte. A visita, realizada no dia 27 de março, faz parte de uma série de intercâmbios entre assentamentos de reforma agrária do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o quilombolas na busca pela transição agroecológica dos cultivos de arroz na comunidade do chamado litoral negro. No calendário agrícola do cultivo de arroz no sul do país, o final do verão e início do outuno sinaliza o tempo de colher e preparar o solo para o próximo cultivo. A Produção do cereal no assentamento é organizado por meio da Cooperativa Dos Trabalhadores Assentados Da Região De Porto Alegre (Cootap) e Cooperativa dos Produtores Orgânicos da Reforma Agrária de Viamão (Coperav). Os quilombolas, por sua vez, fazem parte da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Sao Jose do Norte (Cooafan), contando com apoio do Coletivo Catarse, cooperativa de trabalho e comunicação. Além desta rede, o intercâmbio contou ainda com um grupo de visitantes dos movimentos Coordinador Nacional Agrario (CNA) e Guardia Interetnica Campesina, da Colômbia, e do Comité de Unidad Campesina (CUC) e Coordinadora Nacional de Viudas de Guatemala (Conavigua), o penúltimo também da Guatemala. Depois de momentos de apresentação e diálogo, todos percorreram e conheceram de perto as diferentes etapas dos ciclos de produção e beneficiamento do arroz ecológico. Na lavoura experimental, João Prieto Félix, o Gimino, técnico em gestão ambiental e assessor da Coperav, mostrou um pouco da diversidade de grãos com os quais o assentamento vem trabalhando: arroz negro, vermelho, cateto, aromático, variedades usadas no sushi e até mesmo um arroz de sequeiro trazido de Goiás. As variedades de sequeiro são aquelas plantadas sem irrigação constante, principalmente no cerrado. Gimino explicou que a variedade vem sendo testada para contornar o consumo limitado de água, e que os testes têm apresentado excelentes resultados. Esta limitação se dá justamente peo fato de área de 10 mil hectares do assentamento estar dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) do Banhado Grande, vizinha ao Refúgio de Vida Silvestre (Resbio) Banhado dos Pacheco, um dos últimos redutos do cervo-do-pantanal no Rio Grande do Sul, espécie em vias de extinção. A área úmida protegida pela Unidade de Conservação é que fornece a água para o cultivo do arroz, além de abastecer o consumo humano de parte da Região Metropolitana de Porto Alegre. Justamente por conta da inserção neste ambiente extremamente sensível, a legislação ambiental define limites no uso da água e proíbe o uso de agrotóxicos e fertilizantes sintéticos. Longe de impedir a produção, os cuidados com o ambiente impulsionaram uma experiência que vem se tornando referência para o continente. A rede da qual o Filhos de Sepé e outros nove assentamentos em sete municípios gaúchos fazem parte é reconhecida pela maior produção agroecológica de arroz da América Latina. No ano de 2026, a colheita foi estimada em 14 mil toneladas, com 2,8 mil hectares cultivados e 290 famílias envolvidas no processo. Entre os fatores que explicam resultados tão expressivos está um intenso trabalho coletivo para construir autonomia e evitar a dependência de insumos do agronegócio. Isso se dá tanto pela produção de sementes próprios, bioinsumos e parcerias institucionais para acesso à maquinário e tecnologia como via intercâmbios de conhecimentos em busca da autonomia na produção. O grupo vindo do quilombo já trabalha com o cultivo de arroz e tem algumas experiências com o modelo ecológico moderno, além das vivências com os mais antigos na ecologia tradicional – que já produzia alimentos antes da invasão do modelo do agronegócio. Hoje, a comunidade busca resgatar os conhecimentos dos mais velhos, combinando com novas técnicas que vêm sendo desenvolvidos em espaços como o Filhos de Sepé e, ainda, saberes técnicos do campo das ciências agronômicas – sempre com censo crítico e respeito à natureza. “A faculdade de agronomia traz toda a visão da indústria. Não tem essa visão de plantar orgânico, produzir a própria semente, como eles faziam antigamente. Vim hoje pegar um pouco da parte técnica que estou aprendendo lá e dar seguimento nesses processos por aqui”, comentou Matheus, jovem quilombola e estudante de agronomia da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Ao longo da visita, o grupo conheceu a Unidade de Produção de Bioinsumos Ana Primavesi, biofábrica inaugurada em 2023 no assentamento. Dionéia, da Cootap, explicou um dos métodos utilizados para a produção de biofertilizantes. Batizada de Solo vivo, a técnica consiste em reunir materias da propriedade e arredores, na proporção de 10% de biomassa rica em nitrogênio, 30% de material verde e 60% de material lenhoso. A mistura então é exposta ao calor, que mata os organismos que não são benéficos para o solo. Após fica maturando para, depois, ser utilizada na forma líquida. “A gente recolhe os materiais da mata nativa. A ideia é que o solo se pareça com a terra preta do mato”, explicou Dioneia, após reforçar o convite para particpação em uma oficina específica sobre o metódo para a comunidade quilombola. Além do Solo Vivo, a unidade trabalha também com a reprodução de microorganismos isolados e até mesmo com homeopatia. Já as aplicações dos compostos é feita via drone. Os maquinários utilizados também foram outro ponto de interesse dos visitantes, com destaque para os equipamentos fruto de uma parceria com a Universidade de Brasília (UnB) em convênio com a Universidade Agrícola da China (CAU), semeadeiras, plantadeiras voltadas para o arroz pré-germinado. O último ponto da visita foi a Indústria de Arroz Orgânico Assentamento Filhos de Sepé, com estrutura de secagem e armazenamento pra 100 mil sacos de arroz. Visitantes e anfitriões seguiram dialogando sobre diversos processos, como as embalagens à vacuo disponíveis no mercado e outras práticas para garantir uma maior durabilidade do alimento. Evidente que a escala em que os quilombolas irão aplicar os conhecimentos é técnicas é menor que as de um dos assentamentos referência a nível continental na rizicultura agroecológica. Ainda assim, o encontro teve um importante papel de disparador, semeando diversas ideias nos participantes. Resta ainda …

Três anos de “Marias”

O sábado, 7 de março, que antecedeu o importantíssimo e necessário 8M, marcou o aniversário de três anos de existência da Maria Maria Espaço Cultural, que reside de quinta a sábado na Garajona da Comuna do Arvoredo, na Rua Fernando Machado, Centro Histórico de Porto Alegre. A agenda é conduzida pelas irmãs “Tolfo”, Marcia e Daniela, e conta com uma rede de apoio de diversas amigas, incluindo Tiane, irmã das gurias. A Maria Maria é pensada para todes, visando a apoiar e fomentar a cultura, diversidades sonoras e artisticas, desde jantares temáticos, passando por reuniões, grupos de conversa, lançamentos de livros, filmes, trasmissões ao vivo e diversas formas de trabalhos ligados à cultura e aos movimentos sociais. E, na festa de aniversário, não foi diferente. A celebração contou com os brechós O Cata Roupas e Victória brecho e floricultura, junto aos artesanatos da FESPOPE. Entre as atrações artísticas, esteve o rap e a poesia falada de Kainã, além do grupo Versão Brasileira. Na cozinha, além das clássicas pizzas das Marias, foi preparado um saboroso cuscuz pelas mãos da cozinheira Kyzzzy Rodrigues, que sempre se faz presente no já conhecido Jantar Afro. O terceiro ano das Marias também marca um ano de muita programação cultural sendo realizada no espaço, dentro do projeto “Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre – Um ano de programação na Comuna do Arvoredo (e mais)”, que foi contemplado pelo Edital Sedac n° 25/2024 Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) – RS – Cultura Viva. Foi uma noite de celebração e fortalecimento da luta e da cultura de rua. Maria Maria, sempre de portas abertas! Fotos e texto: Billy ValdezEdição: Anahi Fros

Mateando vivências: Carijada Kaatártica na FLONA celebra o encontro e a tradição ancestral

Domingo, 1º de março e última Lua Cheia do Verão. Ao amanhecer, sigo rumo ao carijo. A brasa aquece a estrutura onde estão dispostos os cerca de 80 quilos de ramos da erva-mate, colhidos no dia anterior, e uma chaleira já chiando a água para matear. Dou bom dia aos viventes que resistiram à madrugada, de olho na secagem lenta sobre o calor brando do fogo, que não pode apagar. O colega cuidando da lenha me entrega, de pronto, uma pequena, mas gigante, tarefa: “Faz um mate pra nós? Naquele canto ali já tem umas folhas secas”. Não é qualquer um, mas o primeiro da carijada, iniciada na sexta-feira dia 27 de fevereiro. O evento – em sua segunda edição, esta possível graças ao apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da comunidade kaingang local – também é o primeiro realizado em uma unidade de conservação e, ainda por cima, dentro de uma aldeia kaingang, a Retomada Kógünh Mág (“erva grande“, em português). Busco as folhas que já se quebram ao tocar e as coloco no pilão da Nilda – uma das indígenas que plantou a semente da aldeia em que estamos e, quando ancestralizou, deixou a peça de herança para os filhos e netos. Entalhado com as duas metades kaingang, Kamé (Sol) e Kairu (Lua), o pilão é uma entidade em si. Peço a permissão para a cacica Iracema Gah Té, da Retomada Gãh Ré – localizada no Morro Santana, em Porto Alegre –, que, então, acena com a cabeça. Pilo um pouco e, por conta da mistura do cansaço acumulado com a curiosa expectativa que toma conta do ambiente, me contento com a moída grossa. Cevo, provo para aquecer a erva e passo adiante. Por suposto, o primeiro é da Kujá (xamã), que o saboreia, e segue a roda. Conforme passa de mão em mão, vai tornando-se unânime o veredito: a erva está excelente, com um amargor moderado e um defumado marcante. A impressão vai se reafirmando à medida que surgem novas possibilidades: outra cuia com uma moída fina, seguida de uma pura folha para, depois, seguir pela moídas mecânicas de dois soques distintos, uma fina e outra grossa, com mais galhos. O processo de feitio artesanal começou no dia anterior. Na manhã de sábado, foram podadas cerca de 20 árvores de erva-mate em meio à mata nativa. Já no início da tarde, as equipes finalizaram o manejo de dois pés plantados no pátio do professor Léo e recolheram grimpas de araucária e lenha. Na sequência, seguiu-se o processo de sapeco e encarijamento. Estas duas últimas etapas ocorreram com a adesão massiva da comunidade kaingang, movimento que contagiou os participantes da atividade – afinal, a carijada é um método tradicional de origem indígena, e o interesse da aldeia acabou por demonstrar a potência da ação. A erva foi, em fim, colocada no carijo para receber o calor de um fogo de brasa até próximo das 12h do dia seguinte. Após, foi cancheada, pilada, moída e distribuída. No total, o evento recebeu cerca de 20 inscritos, além de dez pessoas da equipe de produção, bem como a participação da comunidade kaingang e dos servidores do ICMBio, totalizando cerca de 50 participantes. Participaram desde bebês de colo e crianças até anciãs e anciões, cada um contribuindo segundo as suas possibilidades. Graças ao trabalho coletivo, o resultado foi uma carijada histórica. A estrutura do carijo foi mantida na FLONA para fins de educação sociambiental pelo ICMBio. Os galhos mais grossos foram encaminhados para famílias da Kógünh Mág e serão aproveitados como lenha. Os galhos mais finos, que sairam no cancheamento, seguiram a diversas mãos para serem aproveitados ou como chá-mate ou curtidos com cachaça. Os viventes voltaram, então, felizes para suas cidades: Porto Alegre, São Lourenço do Sul, São Francisco de Paula, Passo de Torres e Panambi. Outros permaneceram em Canela. Destes, é provável que alguns devam estar estranhando a calmaria na aldeia e na floresta, mas gerando um certo alívio da equipe da produção, que constantemente pedia por taquaras ou eucaliptos a serem manejados, ou por ferramentas a serem emprestadas. Também, certamente, ficou a saudade dos encontros, das prosas, das reflexões, do alimento compartilhado, feito sobre um fogão campeiro construído em uma clareira, das novas amizades ou reencontros inesperados. Estamos, desde então, relembrando dos bons momentos e saboreando o doce amargo de uma erva carregada de tantas histórias. Fica difícil não se perguntar: quando será a próxima? (em breve!) A atividade integra o Projeto “Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre – Um ano de programação na Comuna do Arvoredo (e mais)”, contemplado pelo Edital Sedac n° 25/2024 PNAB – RS, realizado pelo Coletivo Catarse – Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre. Texto: Bruno PedrottiEdição: Anahi FrosFotos:@coletivocatarseAmallia Brandolff – @amalliabrandolffBilly Valdez – @billy.valdezFuá – @marcielysalvadorKokoj (Roberta)Luís Gustavo – @libredasilva

DEATH TO ALL em Porto Alegre

Estivemos em mais uma cobertura de show “pesado”, desta vez em parceria com o portal REBEL ROCK, registrando o show da banda DEATH TO ALL, no BAR OPINIÃO em Porto Alegre/RS, com produção: Abstratti Produtora/Overload. Confira texto completo de José Henrique Godoy clicando aqui: DEATH TO ALL – 20/01/2026 – BAR OPINIÃO – PORTO ALEGRE/RS. Confira álbum completo de fotos por Billy Valdez do Coletivo Catarse.