Carijo Aceso na Serra registra a II Carijada Kaatártica

Na última lua cheia do verão de 2026, mais especificamente entre os dias 27 de fevereiro e 1 de março, a FLONA (Floresta Nacional) de Canela recebeu a II Carijada Kaatártica. O evento representou um resgate de uma cultura de produção originária da erva-mate em contraste com a industrialização da planta, que é base de bebidas tradicionais do cone sul como o chimarrão, o tererê e o chá-mate. A atividade foi uma realização do Coletivo Catarse com o apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e das retomadas kaingang Gah Ré, de Porto Alegre, e Kógünh Mág, de Canela e integrou o Projeto “Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre – Um ano de programação na Comuna do Arvoredo (e mais)”, contemplado pelo Edital Sedac n° 25/2024 PNAB – RS, realizado pelo Coletivo Catarse – Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre. Por conta do ineditismo do encontro – afinal foi a primeira Carijada realizada dentro de uma unidade de conservação e ainda com a participação dos povos originários de que se tem notícia – o vídeo de registro mereceu um aprofundamento maior. No total foram captados depoimentos de nove pessoas, três kaingangs e 6 fógs (não indígenas) por uma equipe multiétnica que teve como entrevistadora a jovem kaingang Roberta Kokoj e os cinegrafistas fóg Luís Gustavo Ruwer e Billy Valdez, além de registros em foto e vídeo da fóg Amallia Brandolff e da jovem kaingang Marcielly Fuá. Vale destacar também a trilha sonora original Carijo Aceso na Serra, composição de Marcelo Cougo que dá nome ao minidoc. Entre momentos marcantes captados estão a história do pilão da Nilda, o ritual de abertura do sapeco pela Kujá (xamã) Gah Té, e as impressões dos participantes sobre a experiência de colheita nos ervais nativos da FLONA em meio a uma exuberante floresta de araucárias. A obra também retrata um pouco da relação do povo kaingang com a kógünh (erva-mate) e reforça que o beneficiamento desta planta é fruto de tecnologia ancestral dos povos originários. Ficha técnica:Imagens de:Amallia BrandolffFuáKokoj (Roberta)Luís GustavoBilly Valdez Edição de:Bruno PedrottiBilly Valdez Trilha sonora original:Marcelo Cougo“Carijo aceso na Serra”Mix Gustavo Türck

Grupos na cidade e no campo realizam plantios agroflorestais

No sul do Brasil, do fim do outono até o começo da primavera, se dá a principal janela de plantio do ano. A época é de grande importância tanto para agricultores familiares quanto grupos agroecológicos dos mais diversos, já que a temporada chuvosa é ideal para culturas perenes como frutíferas e árvores no geral. Além de produzir materiais de comunicação sobre agroecologia, o Coletivo Catarse/Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre vem atuando junto destes grupos na produção de mudas nativas, organização de compras coletivas e também se engajando em ações diretas de plantio. As espécies nativas utilizadas pelo coletivo para ações de reflorestamento e implementação de sistemas agroecológicos (SAFs) geralmente são as de grande importância cultural e ecológica na região sul, como a erva-mate, araucária, butiá, palmeira juçara, araçá, entre tantas outras. Por meio de ações de plantio, doação e aquisição de mudas destas espécies-chave nativas, o Coletivo busca fortalecer os ecossistemas nativos como enfrentamento da crise climática. Outra motivação importante para estas ações é a aproximação das pessoas com as plantas presentes no seu dia-a-dia, como a própria erva-mate. A árvore símbolo do Rio Grande do Sul é um ótimo exemplo do distanciamento entre as pessoas e a natureza. Apesar do grande consumo e produção de chimarrão no estado, a maior parte da população gaúcha não conhece a planta Ilex Paraguariensis nem mesmo suspeita que esta, que dá origem à erva-mate, é, na verdade, uma árvore. Por isso, plantar a Ilex é uma maneira de reaproximar as pessoas desta planta emblemática, conhecendo seus ciclos e possibilitando a médio prazo as folhas para o preparo de um chimarrão artesanal. Pensando nisso, a Catarse já fez o plantio de mais de 30 pés somente em junho e planeja plantar muitas mais. As primeiras mudas foram para a terra nos dias 4 e 5, no limite entre Morro Reuter e Santa Maria do Herval. O ponto de Cultura Vale do Arvoredo recebeu o plantio de 20 mudas no seu espaço de Residência Artística no meio da Mata Atlântica. O plantio foi realizado ao longo das gravações do Talk Exu #6 – Cultura e Agroecologia – e contou com a participação dos parceiros Alexandre Fávero, Matias Köhler e Ethiéne Guerra. Ao longo do encontro, também foram plantadas sementes de juçara germinadas – presente da Karina do Sítio Semente Raiz, em Maquiné/RS -, dentro da mata e transplantadas para vasos, originando mais de 80 mudas. Já na semana seguinte, no dia 11, foi realizada uma doação de 11 mudas e apoio ao plantio no Sítio do Tigre. O assentado da Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (COOTAP) estava aumentando sua agrofloresta (que já possui cítricas, goiaba, banana, pitaia, jambolão e outras árvores), no município de Eldorado do Sul, e recebeu mudas de erva-mate, juçara, guabiju e mamão do viveiro do Coletivo. O plantio, que incluiu também mudas de bananeira, foi realizado seguindo o calendário biodinâmico. O último plantio – até agora – foi realizado no sábado, 20 de junho. No solstício de inverno, uma equipe de 4 cooperados da Catarse, 3 deles acompanhados dos seus filhos, fizeram o plantio de 20 mudas – 12 erva-mate, 4 araucárias, 3 juçaras e 4 ipês roxos. Apesar de ter sido o dia mais curto do ano no hemisfério sul, a tarde nublada e fria teve tempo ainda para colheita de laranjas, bergamotas e abacates e para o desfrutar da paz do sítio Walparaíso, em Belém Velho, zona sul de Porto Alegre. No mesmo final de semana, a zona sul da capital recebeu outros plantios de mudas vindas da compra coletiva com o Viveiro Gasparetto (leia aqui). O parceiro Bernardo plantou araucárias, erva-mate, grápias e ipês no quintal da sua casa no bairro Cristal. Em Viamão, a parceira Maíra fez o plantio de erva-mate, grápias, ipês e angicos vermelho na sua casa no bairro Cantagalo. Mais ao sul do estado, no distrito do Boqueirão Velho, muncípio de São Loureço do Sul, o parceiro Filipe fez o plantio de 5 pés de erva-mate, 3 angicos vemelho e 3 grápia. O município na chamada costa doce gaúcha (região às margens da Lagoa dos Patos ) tem recebido uma série de carijos (atividades de feitio artesanal de erva-mate), e o plantio de erva-mate na região também busca garantir a continuidade dessas atividades culturais. Estas ações vem sendo realizadas de maneira autônoma, sem um financiamento ou projeto responsável, buscando fortalecer a biodiversidade nativa no estado e fomentando uma conservação pelo uso e uma relação mais próxima com plantas que moldaram a cultura e o modo de vida no sul do país. De tal forma, seguirão acontecendo ações e encontros de plantio tanto em pequena e média escala quanto outros maiores por meio de mutirões específicos a serem convocados. Eaí? Bora plantar?!

Talk Exu #6 – Cultura e Agroecologia

A relação da arte com a intervenção humana na Natureza. Realizada e gravada no início do mês de junho, no Ponto de Cultura Espaço de Residência Artística Vale Arvoredo, em Morro Reuter, esta edição contou com participação de Alexandre Fávero, sombrista e entusiasta da relação arte e Natureza, e de Matias Köhler, biólogo especializado em botânica. O episódio faz uma reflexão sobre a importância da presença do ser humano e os possíveis impactos positivos do manejo na floresta tanto com a flora como com a fauna, além das motivações de artistas e fazedores de cultura nessa interação intensa com a Natureza. Este Talk Exu se apresenta num formato diferente, gravado, se adaptando ao que o ambiente permite, mas não deixando de apresentar um tema importante e contar com atrações artísticas relacionadas. Marcelo Cougo, que neste episódio deixa de ser o apresentador, performa em voz e violão música autoral inspirada nas experiências de carijada do Coletivo Catarse. Também são apresentados clipes musicais de amigos e parceiros – a banda Butiá Dub e a dupla Jéssica Nucci e Vicente – que fazem da sua arte um meio de expressão de suas atuações agroecológicas. ASSISTA! Quem são os convidados: Alexandre FáveroEncenador, cenógrafo, diretor, pesquisador, ator e sombrista. No ano 2000, fundou a Cia Teatro Lumbra (Porto Alegre/RS – Brasil), coletivo que é referência na arte do teatro de sombras, o que lhe rendeu prêmios e distinções como dramaturgo, diretor, iluminador, cenógrafo e encenador. Atualmente administra a produtora Clube da Sombra e dirige espetáculos e filmes, além de assessorar coletivos do Brasil e do exterior como especialista em teatro de sombras e artes da cena afins. As produções das obras possuem apoio de diferentes órgãos do Governo do Brasil e da Europa (Iberescena). Tem suas obras encenadas em países como Alemanha, México, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Colômbia, Taiwan e EUA. Matias KöhlerGraduado em Ciências Biológicas, com Mestrado e Doutorado em Botânica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e, atualmente, é Professor na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS – Campus Erechim, RS). Pesquisa sobre a história evolutiva e classificação das espécies nativas da flora e seus diversos potenciais de uso sustentável dialogando com práticas agroecológicas e permaculturais. Sobre o Vale Arvoredo:Criado em 20 de outubro de 2010, o Espaço de Residência Artística VALE ARVOREDO permite a convivência de criadores e praticantes das mais diversas áreas artísticas em tempo integral, com o objetivo de aprimoramento humano e artístico, aprofundando relações interpessoais e com o meio ambiente. Tem cerca de quatorze hectares, dos quais cerca de dez correspondem à mata nativa intocada, incluindo cascata e arroio. O Talk Exu é uma proposta autônoma do Coletivo Catarse, que tem este ciclo de produções apoiado como parte do projeto “Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre – um ano de programação na Comuna do Arvoredo (e mais)”, que foi contemplado pelo Edital Sedac n° 25/2024 Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) – RS – Cultura Viva.

Viveiro Comunitário prepara mudas para temporada de plantio

Com a chegada da estação chuvosa no Rio Grande do Sul, grupos agroflorestais e comunidades se organizam para os plantios anuais de árvores. Nesta semana, o viveiro comunitário gerenciado pelo Coletivo Catarse na Comuna do Arvoredo recebeu 545 mudas nativas de uma compra coletiva. As mudas de erva-mate, canafístula, grápia, jacarandá, araucária, angico vermelho e ipê roxo vieram do Viveiro Gasparotto, de Erval Grande, norte do estado. Além dessas mudas adquiridas, também devem ser plantadas ao longo do ano as mudas produzidas pelo viveiro comunitário localizado no centro histórico de Porto Alegre, entre estas vale destacar as palmeiras Juçara (Euterpe edulis), maracujás roxo do mato (Passiflora edulis), araucárias e ingazeiros. Por enquanto, o trabalho tem sido de separação e entrega das mudas para retirada pelos participantes da compra coletiva – somente em dois dias, mais de 100 já foram retiradas por diferentes grupos agroecológicos para plantios na zona sul de Porto Alegre, Osório, Vale do Taquari e São Lourenço do Sul. As espécies nativas devem ser plantadas ainda na zona leste de Porto Alegre, Viamão, Canoas e no Caraá, em aldeias, quilombos, sítios, chácaras, quintais e tantos outros espaços de ecologia no campo e na cidade. Em breve as plantas devem ser colocadas na terra, fortalecendo a biodiversidade nativa por todo o estado e contribuindo para ambientes mais equilibrados. As espécies não foram escolhidas por acaso, mas justamente por serem de grande importância para os animais nativos, sendo fontes de alimento (no caso da juçara, maracujá, araucária, inga e erva-mate) ou de pólen (canafístula, ipê roxo, grápia, angico vermelho e jacarandá). Esta é uma iniciativa autônoma do Coletivo Catarse, Comuna do Arvoredo e parceirias, sem contar com apoios ou financiamentos de projetos em editais. Que venham muitos plantios e fortalecimento e abundância dos territórios!

Talk Exu #05 – Retomada Territorial

Neste último sábado, contando com transmissão ao vivo simultânea nos canais no YouTube do Coletivo Catarse (@coletivocatarse) e da A Voz do Morro (@avozdomorro88.3), o Talk Exu retomou suas atividades no ano e chegou ao seu 5° episódio com o tema “Retomada Territorial”, abordando as ações de resgate de territórios pertencentes aos povos originários por direito ancestral, mas que foram usurpados por não indígenas. Esta edição aconteceu na Retomada Gãh Ré, Morro Santana, em Porto Alegre. Os convidados para o bate-papo foram Gãh Té, liderança Kaingang, kujá e cacica da própria Retomada; Laércio Guarani, representante da Retomada Nhe’engatu, em Viamão; Tânia Silva, ativista e moradora do Morro Santana; e Kapri, também liderança Kaingang. A atração artística ficou por conta de Marina Mar, cantautora, performer e poeta, que tem como eixo o corpo-voz e o canto-dança na matriz de suas performances. A direção geral do Talk Exu #05 foi de Têmis Nicolaidis, com direção técnica de Gustavo Türck, apresentação e produção de Marcelo Cougo, assistência de produção de Lorena Sánchez e operação de câmeras de Billy Valdez e Bruno Pedrotti. Assista aqui abaixo ao episódio! Fotos: Lorena Sánchez, Billy Valdez e Marcelo Cougo O Talk Exu é uma atividade autônoma do Coletivo Catarse, e este episódio faz parte do projeto “Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre – Um ano de programação na Comuna do Arvoredo (e mais)”, que foi contemplado pelo Edital Sedac n° 25/2024 Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) – RS – Cultura Viva. Confira outras edições do talk show, clique aqui.

Vai nascendo uma agrofloresta colaborativa entre Pontos de Cultura

O Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre e o Ponto de Cultura Espaço de Residência Artística Vale Arvoredo se emparceiram para deixar uma pegada agroecológica da Cultura Viva no interior de Morro Reuter Entre os dias 4 e 5 de junho, um coletivo de artistas e fazedores de cultura, integrantes da rede de associados, amigos e colaboradores do Vale Arvoredo (acesse e conheça!), esteve no local realizando atividades de reconhecimento de área, separação de mudas e mapeamento de espécies invasoras a serem suprimidas da mata. Contando também com a presença dos biólogos Matias Köhler e Ethiéne Guerra, que auxiliaram no reconhecimento das plantas, o trabalho desenvolvido já contou com o plantio de Palmeiras Juçaras na área delimitada e também de novas mudas de erva-mate no perímetro que serve de sede ao sítio. Esta é uma ação que acompanha historicamente os objetivos tanto do Vale Arvoredo como do Coletivo Catarse, que têm nas suas essências a visão de pertencimento à Natureza, com a interação e manejo como garantias da manutenção da existência das florestas. Neste caso, já há alguns anos vêm se identificando que a área – com cerca de 16 hectares, mantidos praticamente intocados desde a sua aquisição – é de mata de regeneração, guardando espécies nativas, mas com grande invasão de plantas exóticas de expansão agressiva, principalmente a uva japão. Para “resolver” essa situação, ao longo dos últimos meses vêm sendo realizados vários encontros e conversas sobre a utilização de um espaço em que se maneje essas espécies invasoras e que se passe a cultivar uma pequena agrofloresta própria, com a manutenção de nativas identificadas e outras que sejam de interesse – como o limão bergamota – e com a inserção de espécies típicas da Mata Atlântica, como a Juçara, a erva-mate e o abacaxi. Talk Exu #6 – Cultura e Agroecologia Durante o encontro, também se realizou a gravação de mais uma edição do Talk Exu, o talk show do Coletivo Catarse, parte do Projeto “Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre – Um ano de programação na Comuna do Arvoredo (e mais)”, que foi contemplado pelo Edital Sedac n° 25/2024 Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) – RS – Cultura Viva. Na conversa com Alexandre Fávero, parceiro de longa data, sombrista e um dos principais agitadores da proposta dessa movimentação atual que o Vale Arvoredo vem realizando na ideia da mesclagem da agroecologia com a arte, e com Matias Köhler, biólogo que esteve presente nas atividades de produção de uma das carijadas do documentário Carijo, o filme, em Panambi, em 2012, foi possível desenvolver uma reflexão sobre a importância da presença do ser humano e os possíveis impactos positivos desse manejo na floresta tanto com a flora como com a fauna. Também se abordou exatamente as questões que motivam artistas e fazedores de cultura nesssa interação intensa com a Natureza. Palmeira Juçara e Erva-mate A relação do Coletivo Catarse com essas duas espécies de árvores vem de longa data. Durante quase 15 anos, o Coletivo esteve dentro da Rede Juçara, uma rede que espalhou conhecimento e conectou pequenos produtores, entidades de assessoria técnica, poder público, entre outros atores sociais, nos estados do RS, SC, PR, SP, RJ e MG, numa frente que consolidou o entendimento agroecológico na rede, de manejo, de extração do fruto da Juçara para produção de polpa (o Açaí da Mata Atlântica), mantendo, assim, a árvore em pé, viva e consorciada com outras espécies – uma ação direta de recuperação de flora e fauna. O Coletivo Catarse se fez presente nesta rede produzindo matérias, coberturas e, a partir de uma ação no campo da comunicação, fomentando a manutenção do conhecimento acerca da Palmeira – realizando, inclusive, ações diretas de distribuição e plantio de mudas quase que ininterruptamente, por exemplo (clique aqui!). Um dos principais produtos audiovisuais lançados no período é a trilogia O ser Juçara, de 2018, possível de se assistir abaixo e no Youtube: A trilogia retrata, além de toda diversidade encontrada no domínio do bioma Mata Atlântica, as experiências do ser humano com os saberes associados ao manejo da floresta nativa, em especial da Palmeira Juçara. Este primeiro episódio apresenta a relação direta e indireta das pessoas com a floresta, os modos de vida, as conexões que existem entre as experiências retratadas – e a perspectiva de que é possível se viver de maneira sustentável em todos os espaços. Neste segundo episódio, está em questão a transformação do modo de se relacionar com a palmeira. Por séculos, considerada fonte do melhor palmito, foi objeto de um extrativismo que, quando realizado por comunidades tradicionais e famílias que se instalavam em áreas de sua incidência, era sustentável, mas que, a partir de um desenvolvimentismo econômico que enxergou neste um produto de grande valor agregado passou a ser ameaçada de extinção. Este último episódio apresenta as alternativas e a importância que os frutos da Juçara têm para oferecer para alimentar as pessoas. Mas sua contribuição vai para além da nutrição e da culinária. É preciso entender esta palmeira como parte de uma cadeia de valores culturais, que se relaciona e se apresenta como chave não só da preservação da floresta, mas da sustentabilidade das pessoas que vivem nessas regiões e que historicamente lutam para manter seus estilos de vida saudáveis e conectados com as forças da Natureza. Com a erva-mate, também há uma relação de mais de década. Em 2014 foi lançado o documentário Carijo, o filme: Uma obra que trata da fabricação artesanal de erva-mate com o método carijo – uma estrutura montada em estrado, de secagem da erva por horas, e que remonta um conhecimento ancestral indígena, principalmente Guarani. O documentário traz à tona a história do Rio Grande do Sul, contada sob um aspecto da contribuição dos povos originários para a cultura e costumes do gaúcho, e as implicações, relações e desdobramentos deste conhecimento sobre a produção do chimarrão – bebida símbolo do estado. O carijo ainda segue sendo utilizado nos dias de hoje, mas longe dos processos industriais e apenas …

Reexistência Rutz

O Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre e o Coletivo Catarse tem uma longa trajetória de parceria com a Kuja Gãh Té, liderança espiritual e política do povo Kaingang e da Retomada Gãh Ré, no Morro Santana. Legitimados por essa trajetória Gãh Té e o Ventre Livre foram contemplados na Chamada Pública Agentes Culturais da Ancestralidade, promovida pelo Pontão de Cultura Axêmiré.Desse modo as atividades que são realizadas de forma rotineira pela Mestra passam a ser reconhecidas com uma bolsa que ajudará a manter e ampliar essa atividades.Dentro dessa lógica, de troca de conhecimentos e integração com a comunidade, a Retomada Gãh Ré e a Mestra Gãh Té, junto com o coletivo Preserve Morro Santana, receberam a atividade sobre a importância socioambiental e histórica do Morro Santana, incluindo as dimensões geomorfológicas do morro e sua ocupação pelo povo Kaingang. Realizada nos dias 16 e 17 de maio, a atividade teve a participação da comunidade, de estudantes e professores da UFRGS, e serviu de formação para condutores nas ecotrilhas realizadas no Morro Santana.A saída de campo – Mestrado de desenvolvimento rural na retomada indígena Kaingang Gãh Ré, no Morro Santana, foi uma experiência importante de aprendizado e reflexão. Através das falas da Mestra Iracema Gãh te Nascimento, foi possível compreender a relação do povo Kaingang com o território, a ancestralidade e a resistência cultural. A atividade aproximou os conteúdos estudados na universidade da realidade vivida pelas comunidades indígenas, mostrando a importância do respeito aos saberes tradicionais, da memória coletiva e dos direitos dos povos originários.Nesse dia também foi realizada uma cerimônia de plantio de uma muda de araucária, árvore sagrada para o povo indígena, simbolizando a permanência no território do querido Tio Rutz, ativista e morador da comunidade e que nos deixou recentemente. Gãh Té e Julinho, filho de Tio Rutz, celebraram a vida, a alegria e o cuidado que sempre guiou o nosso amigo, que agora está eternizado nas raízes, tronco e frutos da árvore símbolo da resistência Kaingang. Texto: Marcelo CougoFotos: Luis Gustavo Ruwer

Visita ao cultivo de arroz orgânico: mais um passo na busca da transição agroecológica quilombola

Recentemente, o Assentamento Filhos de Sepé, em Viamão/RS recebeu representantes da Comunidade Quilombola Vila Nova, de São José do Norte. A visita, realizada no dia 27 de março, faz parte de uma série de intercâmbios entre assentamentos de reforma agrária do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o quilombolas na busca pela transição agroecológica dos cultivos de arroz na comunidade do chamado litoral negro. No calendário agrícola do cultivo de arroz no sul do país, o final do verão e início do outuno sinaliza o tempo de colher e preparar o solo para o próximo cultivo. A Produção do cereal no assentamento é organizado por meio da Cooperativa Dos Trabalhadores Assentados Da Região De Porto Alegre (Cootap) e Cooperativa dos Produtores Orgânicos da Reforma Agrária de Viamão (Coperav). Os quilombolas, por sua vez, fazem parte da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Sao Jose do Norte (Cooafan), contando com apoio do Coletivo Catarse, cooperativa de trabalho e comunicação. Além desta rede, o intercâmbio contou ainda com um grupo de visitantes dos movimentos Coordinador Nacional Agrario (CNA) e Guardia Interetnica Campesina, da Colômbia, e do Comité de Unidad Campesina (CUC) e Coordinadora Nacional de Viudas de Guatemala (Conavigua), o penúltimo também da Guatemala. Depois de momentos de apresentação e diálogo, todos percorreram e conheceram de perto as diferentes etapas dos ciclos de produção e beneficiamento do arroz ecológico. Na lavoura experimental, João Prieto Félix, o Gimino, técnico em gestão ambiental e assessor da Coperav, mostrou um pouco da diversidade de grãos com os quais o assentamento vem trabalhando: arroz negro, vermelho, cateto, aromático, variedades usadas no sushi e até mesmo um arroz de sequeiro trazido de Goiás. As variedades de sequeiro são aquelas plantadas sem irrigação constante, principalmente no cerrado. Gimino explicou que a variedade vem sendo testada para contornar o consumo limitado de água, e que os testes têm apresentado excelentes resultados. Esta limitação se dá justamente peo fato de área de 10 mil hectares do assentamento estar dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) do Banhado Grande, vizinha ao Refúgio de Vida Silvestre (Resbio) Banhado dos Pacheco, um dos últimos redutos do cervo-do-pantanal no Rio Grande do Sul, espécie em vias de extinção. A área úmida protegida pela Unidade de Conservação é que fornece a água para o cultivo do arroz, além de abastecer o consumo humano de parte da Região Metropolitana de Porto Alegre. Justamente por conta da inserção neste ambiente extremamente sensível, a legislação ambiental define limites no uso da água e proíbe o uso de agrotóxicos e fertilizantes sintéticos. Longe de impedir a produção, os cuidados com o ambiente impulsionaram uma experiência que vem se tornando referência para o continente. A rede da qual o Filhos de Sepé e outros nove assentamentos em sete municípios gaúchos fazem parte é reconhecida pela maior produção agroecológica de arroz da América Latina. No ano de 2026, a colheita foi estimada em 14 mil toneladas, com 2,8 mil hectares cultivados e 290 famílias envolvidas no processo. Entre os fatores que explicam resultados tão expressivos está um intenso trabalho coletivo para construir autonomia e evitar a dependência de insumos do agronegócio. Isso se dá tanto pela produção de sementes próprios, bioinsumos e parcerias institucionais para acesso à maquinário e tecnologia como via intercâmbios de conhecimentos em busca da autonomia na produção. O grupo vindo do quilombo já trabalha com o cultivo de arroz e tem algumas experiências com o modelo ecológico moderno, além das vivências com os mais antigos na ecologia tradicional – que já produzia alimentos antes da invasão do modelo do agronegócio. Hoje, a comunidade busca resgatar os conhecimentos dos mais velhos, combinando com novas técnicas que vêm sendo desenvolvidos em espaços como o Filhos de Sepé e, ainda, saberes técnicos do campo das ciências agronômicas – sempre com censo crítico e respeito à natureza. “A faculdade de agronomia traz toda a visão da indústria. Não tem essa visão de plantar orgânico, produzir a própria semente, como eles faziam antigamente. Vim hoje pegar um pouco da parte técnica que estou aprendendo lá e dar seguimento nesses processos por aqui”, comentou Matheus, jovem quilombola e estudante de agronomia da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Ao longo da visita, o grupo conheceu a Unidade de Produção de Bioinsumos Ana Primavesi, biofábrica inaugurada em 2023 no assentamento. Dionéia, da Cootap, explicou um dos métodos utilizados para a produção de biofertilizantes. Batizada de Solo vivo, a técnica consiste em reunir materias da propriedade e arredores, na proporção de 10% de biomassa rica em nitrogênio, 30% de material verde e 60% de material lenhoso. A mistura então é exposta ao calor, que mata os organismos que não são benéficos para o solo. Após fica maturando para, depois, ser utilizada na forma líquida. “A gente recolhe os materiais da mata nativa. A ideia é que o solo se pareça com a terra preta do mato”, explicou Dioneia, após reforçar o convite para particpação em uma oficina específica sobre o metódo para a comunidade quilombola. Além do Solo Vivo, a unidade trabalha também com a reprodução de microorganismos isolados e até mesmo com homeopatia. Já as aplicações dos compostos é feita via drone. Os maquinários utilizados também foram outro ponto de interesse dos visitantes, com destaque para os equipamentos fruto de uma parceria com a Universidade de Brasília (UnB) em convênio com a Universidade Agrícola da China (CAU), semeadeiras, plantadeiras voltadas para o arroz pré-germinado. O último ponto da visita foi a Indústria de Arroz Orgânico Assentamento Filhos de Sepé, com estrutura de secagem e armazenamento pra 100 mil sacos de arroz. Visitantes e anfitriões seguiram dialogando sobre diversos processos, como as embalagens à vacuo disponíveis no mercado e outras práticas para garantir uma maior durabilidade do alimento. Evidente que a escala em que os quilombolas irão aplicar os conhecimentos é técnicas é menor que as de um dos assentamentos referência a nível continental na rizicultura agroecológica. Ainda assim, o encontro teve um importante papel de disparador, semeando diversas ideias nos participantes. Resta ainda …

Mapeando ervais nativos da FLONA

Dentro dos preparativos para a II Carijada Kaatártica, que será realizada nos dias 27 e 28 de fevereiro e 1° de março, uma equipe do Coletivo Catarse visitou a Floresta Nacional de Canela (FLONA) no último dia 10. Com profissionais das áreas da Geografia e Comunicação e acompanhamento técnico do ICMBio, a equipe percorreu os 3 km da trilha da mata nativa buscando identificar e mapear os pés de erva-mate (Ilex paraguariensis) a serem podados durante a atividade na Unidade de Conservação (UC) federal de uso sustentável. Apenas nesse trecho, foram identificadas e georreferenciadas mais de 40 plantas.  Entre mudas e plantas jovens, características da mata em processo de regeneração, foram encontradas também plantas adultas, inclusive matrizes já com “filhotes” próximas. A matriarca do local, já conhecida do ICMBio, possui 12,7 metros de altura. Para efeito de comparação, as plantas em ervais cultivados tem uma média de 3 metros.  Ao longo da carijada, algumas serão podadas para a produção artesanal da erva-mate. O manejo não prejudicará as plantas, que são extremamente resistentes a podas. Ao contráro, a prática acaba sendo uma forma de renovação benéfica aos indivíduos. Para ajudar na recuperação posterior, será feita uma poda não tão radical, deixando algumas folhas e galhos para que possam seguir captando a luz solar neste final de verão, encaminhamento definido juntamente com Lisandro Signori, chefe da UC.   Estes cuidados extras estão sendo pensados justamente porque a FLONA é um espaço de cuidado com a natureza. Seu diferencial em relação a outras categorias de UCs – que permite que uma atividade como a carijada seja realizada – é justamente o incentivo para o manejo sustentável da biodiversidade nativa. Neste ano, a unidade completa 80 anos. Sua origem está ligada a uma iniciativa governamental de plantio de araucárias buscando incentivar a pesquisa e produção florestal relacionados à espécie, símbolo do planalto sul brasileiro. Presença Kaingang e a Kógünh Desde o ano de 2020, a FLONA é também o lar da comunidade kaingang da Retomada Kógünh Mág, de Canela. O próprio nome da aldeia, que em português significa erva grande, já demonstra a relação deste povo originário com a ilex. De fato, a planta é considerada sagrada pelos kaingang, que cultivam o hábito do chimarrão e também a utilizam para fins medicinais, espirituais e no batismo de pessoas e locais.  A comunidade, juntamente com a Retomada Kaingang Gah Ré, do Morro Santana em Porto Alegre, está apoiando o evento e irá compartilhar com os participantes um pouco da cultura kaingang e da relação deste povo originário com a erva-mate. Além disso, a aldeia também irá oferecer algumas comidas típicas kaingang e uma apresentação do grupo de dança tradicional da comunidade. A vivência está com as últimas inscrições abertas até quarta-feira (25/02). Inscreva-se neste formulário. Serviço O quê: II Carijada KaatárticaQuando: 27/02 a 01/03/2026 – sexta-feira a domingoOnde: Floresta Nacional de Canela (FLONA) – R. Otaviano Amaral Píres, n° 518, Canela/RS.Dúvidas: (51) 99298.7293 (WhatsApp, com Têmis) Inscrições: neste formulário. O que levar: equipamentos para acampar, pratos, copos e talheres, ferramentas para trabalho rural, se tiver (facão, serrote de poda, pilão), itens de higiene pessoal, roupas e sapatos para frio e umidade, repelente e protetor solar. Programação: 27/02 – Sexta-feira – Montagem do carijo e do sapeco13h – Receptivo14h – Construção do carijo utilizando os materiais coletados17h – Montagem do cancheador 28/02 – Sábado – Colheita, sapeco e ronda9h – Manejo dos ervais nativos da Flona13h – Sapeco17h – Encarijamento e ronda 01/03 – Domingo – Moagem e distribuição9h – Retirada da erva do carijo, cancheamento e soque14h – Partilha da erva e despedida A atividade integra o Projeto Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre – Um ano de programação na Comuna do Arvoredo (e mais), contemplado pelo Edital Sedac n° 25/2024 PNAB – RS, realizado pelo Coletivo Catarse – Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre. Texto: Bruno PedrottiEdição: Anahi FrosFotos: Billy Valdez

O soque se prepara para mais uma carijada

Na última quinta feira, 5 de fevereiro, uma equipe do Coletivo Catarse esteve em Triunfo, na propriedade do médico veterinário Fábio Haussen – parceiro de longa data, ele tem sido guardião do soque do Coletivo nos últimos anos. Adqurido em 2015 ao longo do Projeto Roda Carijo – que circulou realizando carijadas pelo interior do RS e exibindo o filme Carijo – o soque é um equipamento que facilita muito a produção artesanal de erva-mate. Suas 8 mãos de pilão e motor elétrico são de grande ajuda na moagem, última etapa da produção. Com a II Carijada Kaatártica marcada, a equipe encaminhou o soque ao marceneiro Juca Rocha para mais uma rodada de manutenção e ajustes. No caso do soque do coletivo, além de mais de uma década de uso, o equipamento também sofreu com a grande enchente de 2024. Com a cheia histórica no Rio Taquari, do qual a propriedade é vizinha, o soque ficou debaixo da água, juntamente com boa parte de Triunfo e do estado. Ainda em 2024, Juca conseguiu fazer uma primeira manutenção no equipamento, que participou no final de julho daquele ano da II Carijada Serrana no Caconde. Passados quase dois anos, o soque retornou na semana passada à oficina para novos reparos. Até porque a próxima carijada já tem data marcada. No último final de semana de fevereiro, dias 27 e 28 e 1° de março, será realizada a II Carijada Kaatártica. Esta edição se apresenta como uma oportunidade única, pois acontecerá na Floresta Nacional de Canela (FLONA), uma unidade de conservação voltada ao manejo sustentável dos ecossistemas florestais. Também estão apoiando o evento as retomadas Gah Ré e Kognhun Mag do povo Kaingang, respectivamente do Morro Santana, Porto Alegre, e Canela. Será um bom momento de se desfrutar os 500 hectares de belas paisagens do bioma Mata Atlântica da FLONA e vivenciar um pouco da cultura originária de povos originários como o Kaingang. Além, é claro da possibilidade de se produzir artesanalmente uma erva-mate pura e sem agrotóxicos. Serviço O quê: II Carijada KaatárticaQuando: 27/02 a 01/03/2026 – sexta-feira, sábado e domingoOnde: Floresta Nacional de Canela (FLONA), R. Otaviano Amaral Píres, N° 518, Canela/RS.Dúvidas por whats: (51) 99298.7293 (Têmis) Inscrições: neste formulário. O que levar: equipamentos para acampar, pratos, copos e talheres, ferramentas para trabalho rural, se tiver (facão, serrote de poda, pilão), itens de higiene pessoal, roupas e sapatos para frio e umidade, repelente e protetor solar. Programação: 27/02 – Sexta-feira – Montagem do carijo e do sapeco  13h – Receptivo14h – Construção do carijo utilizando os materiais coletados. 17h – montagem do cancheador 28/02 – Sábado – Colheita, sapeco e ronda 9h – Manejo dos ervais nativos da Flona13h – Sapeco 17h – Encarijamento e ronda 01/03 – Domingo – Moagem e distribuição 9h – Retirada da erva do carijo, cancheamento e soque14h – Partilha da erva e despedida A atividade integra o Projeto Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre – Um ano de programação na Comuna do Arvoredo (e mais), contemplado pelo Edital Sedac n° 25/2024 PNAB – RS, realizado pelo Coletivo Catarse – Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre. Texto: Bruno Pedrotti