Audição exclusiva do primeiro álbum da Neptunn antecipa o lançamento de “Parallaxis”

A banda de death metal Neptunn realizou, no último sábado (26 de setembro), a audição em primeira mão do seu álbum de estreia, intitulado “Parallaxis”. O evento exclusivo reuniu um grupo seleto de amigos e parceiros no Red Spider Tattoo — e o Coletivo Catarse esteve presente representado pelo cooperado Billy Valdez. O trabalho reflete a bagagem individual de seus integrantes, todos nomes já conhecidos no cenário metal. O resultado é uma sonoridade técnica, coletiva e agressiva, que combina perfeitamente referências do death metal clássico e contemporâneo. Trajetória e Parcerias A caminhada da Neptunn inclui o EP “(Re)Existence”, lançado em 2024 e acompanhado dos videoclipes de “Transmutate”, “Resignify” e “Onward to Nothingness” — estes dois últimos produzidos em parceria com o Coletivo Catarse. Em 2025, o grupo lançou o single e clipe de “Neptunn Rise”, que também contou com nossa colaboração na produção. Um gostinho do que vem por aí em “Parallaxis” já pode ser conferido no clipe de “Transcendence”, primeiro single do álbum: Show de Lançamento A data de lançamento oficial já está marcada: dia 10 de outubro, no Gravador Pub, em uma parceria com a Nevoeiro Produçõe. Além da estreia do disco nas plataformas e no palco, a noite especial contará com o lançamento do videoclipe da faixa-título, produzido pelo Selo Bruto. Para completar a programação pesada da noite, se apresentam também as bandas Horror Chamber e Dressed In Blood. A formação atual da Neptunn conta com Dienifer Vieira (vocais), Franklin Nunes (guitarra), Rafael Giovanoli (guitarra), Nathália Ernst (baixo) e Arthur Tomazelli (bateria).

Oficinas trabalham a salvaguarda de patrimônios culturais no Litoral Negro

Nos dias 10, 11, 14 e 15 de setembro, a sede da Associação Quilombola Vovô Virgilino – localizada no distrito das Capororocas, em Tavares/RS – recebeu uma oficina de salvaguarda de patrimônios culturais a partir do audiovisual e da comunicação. Parte do projeto Festejos e Encontros da Cultura da Tradição Popular das Comunidades Quilombolas da Península do Litoral Norte, do Ponto de Cultura STR Mostardas, contemplado no EDITAL SEDAC nº 25/2024 PNAB Cultura Viva, procurou fazer o diálogo com as referências comunitárias locais e lideranças, estimulando a comunidade a escolher registrar algo da sabedoria popular local: o uso de chás e plantas medicinais. Ao longo da segunda feira (14), oficineiros e lideranças locais percorreram o território dialogando com as famílias, que apontaram as plantas que usam, contaram suas histórias e a relação que mantêm com cada chá. Tudo foi registrado em vídeo e foto para numa próxima etapa se organizar e disponibilizar este material de maneira livre e gratuita na rede como resultado da oficina. Na terça feira (15), foi dia de se preparar os chás, usados também como remédios tradicionais aperfeiçoados ao longo de gerações e que ajudam a construir uma saúde comunitária dentro do território, sem depender da indústria farmacêutica. Todas as pessoas entrevistadas disseram tomar poucos remédios comprados e fazem a manutenção da saúde praticamente só com os chás. Dona Russa, uma das guardiãs desse conhecimento, levantou também outra reflexão sobre as relações de troca e compartilhamento na comunidade. Enquanto caminhava de volta para casa com um maço de chás que havia ganho das vizinhas visitadas, refletiu: “Saí de casa com um monte de chás, e estou voltando com um monte de chás, só que das plantas que não tenho. As que a gente tem de sobra, compartilhamos. As que não temos, pegamos com as vizinhas. Assim, todo mundo tem acesso a todas as plantas que precisa”. Para além do distrito das Capororocas, o encontro também trouxe à tona memórias de idas até as matas vizinhas e à Lagoa do Peixe (antes da criação do Parque Nacional) para colher chás e frutas nativas como araçás. Também foram lembradas as relações com a Lagoa dos Patos e com o Oceano Atlântico, recordando também da relação com a pesca e da conservação do peixe e do camarão utilizando-se do sal. Vale destacar ainda que a região tem fortes influências de matriz africana e uma grande presença quilombola. O município de Tavares tem 3 comunidades quilombolas, assim como a vizinha Mostardas. E toda esta região de Osório até São José do Norte possui 10 comunidades quilombolas. É exatamente por isso que a região é reconhecida como Litoral Negro, segundo a históriadora Cláudia Mollet (UFPEL). Este e outros ciclos de oficinas realizados ao longo de 2025 e 2026 estão sendo promovidos pelo Ponto de Cultura STR Mostardas, dentro do projeto Festejos e Encontros da Cultura da Tradição Popular das Comunidades Quilombolas da Península do Litoral Norte (Edital SEDAC nº25/2024 PNAB RS – Cultural Viva). O Coletivo Catarse/Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre vem atuando junto ao projeto desde outubro do ano passado (confira aqui, aqui e aqui).

Desert Whip: uma noite de peso e resistência na cena stoner do RS

Há um bom tempo eu não curtia uma noite de stoner, rock pesado, groove e todas essas vertentes que envolvem afinações baixas, riffs pesados e aquela sonoridade arrastada que a gente tanto gosta. Porto Alegre já foi um polo importante de shows de stoner e rock pesado. Mas esse é um assunto para outro post.O que importa aqui é que Porto Alegre e o Rio Grande do Sul continuam tendo bandas muito boas dentro do gênero, e parece que uma galera nova está começando a se movimentar novamente para fortalecer essa cena. É nesse cenário que iniciativas como o Desert Whip, organizado pela Arkhana Produções, ganham importância. Mais do que simplesmente colocar bandas no mesmo palco, o evento ajuda a criar um espaço de encontro entre músicos, público e produtores, movimentando a cena independente e valorizando a produção autoral. Segundo a própria produtora: “Desert Whip é um evento com foco na renovação da música brasileira alternativa e autoral, trazendo artistas de diferentes regiões para dentro de espaços culturais da região metropolitana e interior do RS, fortalecendo a cena independente, o underground e a conexão entre bandas, público e produtores.” A proposta já havia aparecido na primeira edição do evento, que trouxe de Santa Maria a Mamute Stoner, banda que recomendo fortemente que vocês conheçam e acompanhem. Uma noite para esquentar o Ocidente Na segunda edição do Desert Whip, tive a oportunidade de estar presente no clássico Bar Ocidente, em Porto Alegre. E posso dizer: foi uma noite daquelas.O frio estava presente, mas o público tratou de compensar a temperatura. A casa recebeu uma galera que participou, interagiu e, principalmente, comprou a ideia do evento. E as bandas? Uma mais paulada que a outra. Quem abriu a noite foi a El Negro, que vem divulgando seu mais recente trabalho, o álbum BRONCO. Além da sonoridade pesada, o disco carrega uma história curiosa: as músicas foram gravadas nos porões da antiga Prefeitura de Porto Alegre. Só essa informação já desperta a curiosidade, mas é ouvindo o trabalho que a coisa realmente acontece. A gravação e a atmosfera criada pela banda combinam muito bem com essa estética mais crua e pesada. Vale a pena conferir. Sterna Peyote e uma viagem pelo deserto Na sequência, subiu ao palco a Sterna Peyote, banda de Canoas/RS que vem divulgando o álbum Dentro do Sol, lançado em 2025.A banda passeia por Desert Rock, Stoner, Psicodelia e Rock Alternativo, misturando atmosferas mais etéreas com riffs distorcidos e grooves intensos. Ao vivo, essa combinação funciona muito bem. É uma sonzeira. E, para deixar a noite ainda mais especial para os fãs do bom e velho stoner, a banda convidou uma amiga para assumir os vocais em uma participação especial. O repertório? Kyuss. E aí não tinha como dar errado. A galera foi ao delírio, e a participação nos vocais funcionou muito bem, entregando a energia que aquele momento pedia. Foi daqueles trechos do show em que você olha para o público e percebe que todo mundo está na mesma sintonia. Wolftrucker: encerrando com o pé no acelerador Para fechar a noite, quem subiu ao palco foi a Wolftrucker, banda formada por amigos e parceiros de longa data.A “Wolf” vem divulgando seu mais recente trabalho, o single ‘Stones, Rocks n’ Bones’, que deixa aquele gostinho de ‘quero mais’ para o álbum que está por vir. Isso serve para esquentar os motores, pois em breve a banda realizará uma série de shows em São Paulo/SP. E aqui não tem muito o que inventar: a Wolftrucker é uma banda redonda.O show é daqueles que prendem o público. A banda consegue levar para o palco toda a força de sua sonoridade, misturando rock’n’roll, stoner e groove com muita presença. É visceral, pesado e, acima de tudo, muito rock. Para quem já conhece a banda, não é novidade. Para quem ainda não conhece, fica a recomendação: procurem os caras e, principalmente, assistam a um show quando tiverem oportunidade. Uma cena que merece atenção Saí do segundo Desert Whip com uma sensação de alma lavada. Não apenas pela qualidade das bandas, mas por perceber que existe uma movimentação acontecendo novamente. Talvez seja cedo para falar em um “retorno” do stoner à cena gaúcha, mas certamente existem bandas, produtores e público dispostos a fazer esse movimento acontecer.E é justamente por isso que eventos como o Desert Whip são importantes. A cultura underground não se mantém apenas por grandes festivais ou grandes casas. Ela acontece nesses espaços, nas bandas autorais, nos produtores que insistem em organizar eventos, no público que compra ingresso, comparece e apoia, e nos músicos que continuam criando mesmo quando o caminho não é fácil. No fim das contas, é assim que uma cena se mantém viva.E se depender do que ouvi naquela noite no Ocidente, o deserto gaúcho está longe de estar silencioso. Que venham os próximos Desert Whip. Fotos e texto: Billy Valdez.

Bem além e a poética audiovisual de Leonardo Bulcão

O extremo sul do Brasil, mais especificamente a praia do Cassino, é o ponto de partida da jornada do músico gaúcho. Seja atravessando os Molhes da Barra de bicicleta ou Vagoneta – veículo movido a vela tradicional do Cassino – caminhando pelo caminho Inca no Peru ou se banhando nas águas da Chapada da Diamantina/BA, Leonardo Bulcão propões reflexões sobre a natureza, a existência, o amor e a vida. Organizado em 5 atos, o álbum visual foi lançado no dia 28 de agosto no Youtube e teve também um evento presencial de lancámento na cidade de Rio Grande durante a Feira do Livro da FURG (Universidade Federal do Rio Grande), com show e exibição da obra audiovisual. Bulcão, músico há duas décadas e com três álbuns lançados — Alternativismo (2008), Macumba pra Bacana (2014) e Solo Lunar (2019) — assina integralmente a idealização de Bem além. O projeto é um desdobramento direto de seu último trabalho fonográfico, aprofundando a jornada de autoconhecimento iniciada em Solo Lunar. Ficha técnica Criação, direção, produção cinematográfica, trilha sonora, roteiro e narração: Leonardo BulcãoProdução musical: Bruno Pires e Leonardo BulcãoMasterização: Bruno Pires (Organic Estúdio)Mixagem: Bruno Pires (Organic Estúdio) e Leonardo BulcãoCaptação de som: Bruno PiresCaptação de som adicional (Amares que vem para bem): Bruno Pires e Lucas RamosEdição de som e imagens: Ivan Ibarra e Leonardo BulcãoFinalização de vídeo: Billy Valdez e Bruno Pedrotti (Coletivo Catarse)Legendas: Thays PradoLançamento digital e mídias sociais: Cristiane CubasConcepção de arte: Cristiane Cubas e Leonardo BulcãoArte e design: Maurício QuadrosAssessoria de imprensa: Bebê Baumgarten Imagens: Ivan Ibarra, Lúcio Tagliani, Vitória Proença, André Chaplin, Buba Moura, Marcelo Okamoto, Rafa Costa e Aldivo MendesImagens em aquarela: Alisson Afonso Captação de imagens especiais:Imagens de drone: Ivan IbarraImagens do Parque Eólico (Cassino – Rio Grande/RS): Lúcio TaglianiFotografia Lanchão Farroupilha Seival: André Chaplin e Buba MouraFotos de Beto e Karen: Aldivo MendesFotos do Taim: Marcelo OkamotoImagens adicionais: Leonardo Bulcão Locações:Bahia: Chapada Diamantina (Gruta Azul / Fazenda Pratinha)Peru: Caminho Inca, Machu PicchuPorto Alegre/RS: Rua Lima e SilvaRio Grande/RS: Molhes da Barra, Lagoa Verde (Senandes), Cassino, Parque Urbano do Bolaxa, Chácara das Tolderias e TaimTrês Coroas/RS: Sítio de Silvestre Rache Música e trilha sonora:Composições: Leonardo BulcãoMúsicos: Alisson Afonso, Augusto Luna, Axel Antunes, Christian Talaier, Cintia Prietsch, Clarissa Ferreira, Eduardo Quintian Gambona, Franco Faroli, Gabriel Mazzini, Gabriel Medeiros, Guilherme Bulla, Ícaro Chaves, Leonardo Rechia, Marcelo Masina, Pamela Delgado, Régis Garcia, Taiana Tagliani e Willian TavaresParticipações especiais: Coletivo Rio Grande Quer Verde em “La magia de La Tierra”; Projeto Asas do Camaquã – Réplica da embarcação de Giuseppe Garibaldi (idealizado e realizado por Antônio Rodrigues) Agradecimentos:Alisson Afonso, André Chaplin, Antônio Rodrigues, Augusto Luna, Axel Antunes, Buba Moura, Bruno Pires, Carolina Contato (NEMA – Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental), Cintia Prietsch, Coletivo Rio Grande Quer Verde, Christian Talaier, Eduardo Quintian Gambona, Fazenda Pratinha, Franco Faroli, Gabriel Mazzini, Gabriel Medeiros, Guilherme Bulla, Ícaro Chaves, Leonardo Rechia, Lucas Ramos (Estúdio Mochila), Lúcio Tagliani, Marcelo Masina, Marcelo Mazzini, Marcelo Okamoto, Pamela Delgado, Régis Garcia, Silvestre Rache e Taiana Tagliani Em memória:Beto Federal, Karem Paschoalotto e Aldivo Mendes Foto: Jade Luzardo

No creemos en brujas, pero que las hay, las hay…

Uma carijada com uma presença feminina impressionante – de protagonismo e mística – se fez à banda oriental, em Treinta y Tres. 33 kg de erva-mate foram processados por um grupo de cerca de 33 pessoas (brasileiros e uruguaios), no Centro Agroecológico Pindó Azul, na Quebrada de los Cuervos, de 28 a 30 de agosto, naquele que está sendo denominado o primeiro carijo internacional da contemporaneidade. No entanto, este evento teve uma característica muito marcante, que foi para além do ineditismo da binacionalidade e do portunhol como idioma predominante – as mulheres literalmente tomaram conta. O abrir do céu, o dissipar de pesadas nuvens e o surgir da Lua Cheia trouxeram a “coincidência” de uma ação de mãos, cantos e encantos femininos, da colheita à moagem da erva. O primeiro fogo foi delas. O mate é delas. Kaá, deusa Guarani, a própria erva-mate… Presente! Aguarde novas postagens, com vídeo e mais informações! Fotos: Billy Valdez *confira postagem no instagram, compartilhada pelo Coletivo Catarse e o Centro Agroecológico Pindó Azul, clique aqui

Liberdade e o amor à diversidade

Dois dias, dois rebanhos diferentes. O Espaço Cultural Maria Maria/Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre, onde todas as quintas, sextas e sábados, habitam de forma segura diferentes gentes, com suas ricas diversidades, recebeu a banda The Misters em um dia e, no outro, o lançamento do livro “A ovelha Queer”, de Rodrigo Schüler de Souza. Em uma noite dedicada ao rock e suas vertentes mais dançantes, a banda The Misters, celebrou a amizade com um desfile suas versões de grandes clássicos e alguns lados B, de nomes consagrados da música do nosso mundo. Firmando em definitivo sua nova formação, que agrega o guitarrista e violinista Marcos Machado ao time, Guile Barão, Alex Becker e Marcelo Cougo se divertiram e divertiram àqueles que estavam presentes numa sexta feira de calor meio atípico para o mês de julho, em Porto Alegre. No dia seguinte, sábado, foi a vez de um encontro bastante marcante para quem esteve presente. Rodrigo recebeu amigas e amigos para, juntos, viverem horas de acolhimento e trocas de experiências que envolvem a filosofia, a teologia e a vontade de viver o que se é, o que se deseja ser. Novamente a Garajona da Comuna do Arvoredo, onde funciona o Espaço/Ponto, serviu de “O lugar seguro de quem não está perdido”. A obra lançada aborda o diálogo entre a tradição religiosa cristã e a vivência de pessoas LGBTQIAPN+, e teve seu ponto alto na performance emocionante de Savanah Queen, que com sua força e beleza nos mostrou a grandeza política de sua arte. Dois rebanhos diferentes arrebatados pelos mesmos sentimentos: a liberdade e o amor à diversidade. Que venham muitos outros encontros e que sejamos, toda gente, cúmplices de nossas felicidades. Acompanhe as redes e dê sua força para os artistas:The Misters.Rodrigo Schüler. Texto: Marcelo CougoFotos: Billy Valdez

Mais ações de agroecologia compartilhadas no Vale

Uma ação que é uma realidade de compartilhamento de conhecimentos diversos sobre a natureza e como se entende que o ser humano possa fazer parte de um processo construtivo no meio ambiente. Em Morro Reuter, no interior deste interior, a parceria entre o Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre/Coletivo Catarse e o Ponto de Cultura Espaço de Residência Artística Vale Arvoredo segue no ritmo do crescimento das mudas de erva-mate e de palmeira juçara, que estão sendo preparadas para o plantio no canto agroflorestal selecionado entre os 16 hectares do Vale. Em visita realizada no final de julho, uma equipe foi conferir o andamento do manejo de espécies invasoras – principalmente a uva-japão – e a integridade de mais de 200 mudas, deixadas ali para aclimatação há cerca de 2 meses. Foi uma atividade trabalhosa, mas em que se pode ouvir o ronco dos bugios, conferir a força das águas nos cursos múltiplos que existem na região e curtir momentos com os guardiões do sítio principal – Amora e Calixto. Cultura Viva é isso – água escorrendo, plantas crescendo e convívio que aduba a arte! Fotos: Mainô TürckPresentes: Gustavo Türck e Bruno Pedrotti, do Coletivo Catarse/Ventre Livre, e Alexandre Fávero, da Cia Teatro Lumbra Confira a sequência de postagens sobre o tema:

Huesera: um caminho de recolhimento e expansão

Texto Lorena Sánchez e fotos NIA – Núcleo de Investigação Artística do Coletivo Catarse/Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre (Aline Ferraz, Lorena Sánchez e Têmis Nicolaidis) Há um mês estamos ocupando a Sala Pitangueira, no Centro Cultural da UFRGS, com a nossa Huesera, em busca de seu Coro de Ossos. Chegamos de olhos fechados, e fomos deixando de lado qualquer palavra, deixando que nossos sentidos lembrassem. Espalhamos pela sala nossos objetos pessoais, pequenas relíquias de vidas atravessadas, e transformamos o espaço em território de memórias compartilhadas. A Pitangueira, palavra que vem do tupi antigo pytãg, “vermelho”, tornou-se o chão fértil de um ritual de escuta, respiração e instalação.Memórias nossas, nossos fragmentos, abertos e expostos, para serem vistos por nós mesmas desde um outro lugar. Assim iniciamos… “Entre tesouras, baralhos, fotos impressas com o papel de foto que era comum, antigamente…Entre sensações, lembranças e afetos compartilhados, convertidos em memórias e suas histórias reais…Experiências sensoriais, músicas e o clima frio e chuvoso da tarde. Em meio às incertezas de um mundo em transformação, tentativas de golpes contra nossas conquistas e golpes ferozes contra as nossas memórias e histórias…Vida e Arte em intersecção e Lutas contra as constantes ameaças contra as nossas vidas…Nossos corpos – in submissos – não mais aceitam violações. Huesera re constrói, junta pedaços, canta para os ossos.” Memória do processo por Aline Ferraz Ao longo deste primeiro mês, mergulhamos em leituras, pesquisas e dados que revelam as muitas formas de violência e silenciamento que atravessam a vida das mulheres. Entre números e histórias, buscamos e insistimos em permanecer. Assim como a velha sábia que vem desde as profundezas atrás dos rastros, também seguimos as vozes de mulheres latino-americanas. Ouvimos, cantamos e habitamos canções que são manifestos, denúncias e encantamentos. Vozes que atravessam fronteiras e fazem de um único canto uma forma de resistência. Abrimos oráculos, portais, sentimentos. Erguemos uma tenda com nossos três elementos essenciais e, sob esse abrigo, iniciamos a jornada em busca dos ossos, da nossa loba, daquilo que permanece vivo mesmo depois da devastação. Ali, entre páginas lidas e folhas rasgadas como marcas de peles antigas, os fragmentos encontraram outros fragmentos. Palavras se desprenderam dos livros para criar novos textos, novos corpos, novos manifestos. Seguimos recolhendo ossos. Cada encontro revela um fragmento, uma memória, uma voz. Aos poucos, o coro se forma. E, junto com ele, também nós vamos nos reconstruindo.

Reflorestamento e continuidade na Retomada Gãh Ré

No sábado 25 de julho, a comunidade kaingang da Retomada Gãh Ré, Zona Leste de Porto Alegre, articulou mais um pequeno encontro de reflorestamento do território. Um grupo diverso que contou com crianças de dois e treze anos até a sexagenária mestra Gãh Té subiu na trilha pela mata realizando plantios até chegar na área de manejo perto do topo do Morro Santana. Ao longo da trilha, plantaram duas araucárias e, ao chegar no local em que a mata se torna campo, plantaram alguns butiazeiros. A equipe também limpou as mudas plantadas no ano passado e seguiu o controle da invasão de Pinus Ellioti, arrancando manualmente as mudas do pinheiro invasor que já começavam a surgir. Ao longo da área em que foram manejados os pinus no ano passado, foi possível perceber uma forte reação da vegetação nativa, tanto florestal, no caso dos Maricás – árvores que dobraram de tamanho em um ano com a entrada maior de luz no que antes era um bosque sombreado pelos pinus -, quanto de ervas, gramíneas e outras plantas de pequeno porte. Junto aos plantios de árvores, a cacica Gãh Té semeou também feijões em alguns locais, realizando testes para uma possível roça na primavera. Avaliando o solo, encontrou ainda um local para um plantio de milho e, com a fome do almoço se aproximando, colheu algumas folhas de almeirão roxo – PANC nativa das américas com diversos benefícios nutricionais e medicinais. Depois de um almoço comunitário, dividiram-se as equipes. Os kaingangs acolheram os visitantes que chegavam para a oficina de artesanato. O encontro de compartilhamento de saberes tradicionais foi uma das atividades realizadas dentro do edital de Agentes Cultura Viva da Ancestralidade em Porto Alegre do Pontão de Cultura AxéMirê – no qual Gãh Té é mestra indicada pelo Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre/Coletivo Catarse. Enquanto isso, os fóg apoiadores seguiram para o erval da aldeia. Na tarde ensolarada, capinaram a capoeira e abriram entradas de luz para seis pés de erva-mate e uma araúcária plantada no ano passado, replantando 4 novas mudas de mate e mantendo também no sistema um maricá e uma amoreira. Nas entrelinhas do erval foi semeado um mix de sementes para cobertura de solos no inverno. Este pequeno encontro de trabalho fez parte do Projeto Reflorestamento, Resiliência e Continuidade, aprovado na Chamada Reconstruir RS 2025 do Fundo Casa Socioambiental, o projeto é uma continuação do realizado no ano anterior. O “mutirinho” de plantio não foi a primeira ação, já que este projeto tem como um dos objetivos a manutenção dos espaços da comunidade, já vinham sendo realizadas também ao longo do ano ações de manejo do chiqueiro, a reforma das casas e toda a rede hidraúlica nas moradias mais novas. Este encontro, de outra forma, marcou o início das atividades abertas do projeto. Felizmente, não é o último – em breve devem ser convocadas novas ações. Para participar, acompanhe as redes da Retomada Gãh Ré e do Coletivo Catarse. Apoio: Projeto contemplado na chamada Reconstruir RS 2025, tendo o Coletivo Catarse como organização parceira. Texto: Bruno PedrottiFotos: Giulia Sichelero

Finalizado o ciclo do projeto PNAB no Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre

A festa junina do dia 27 marcou um último ato de um projeto que durou 14 meses, conquistado junto ao Edital Sedac n° 25/2024 Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) – RS – Cultura Viva, recheou a Comuna do Arvoredo de programação cultural ao longo do período. Foram mais de 40 apresentações no eixo Maria Maria Espaço Cultural, de música, teatro e outras artes; 6 episódios do talk show Talk Exu, tratando de temas como economia solidária, a luta indígena, a contribuição cultural do povo negro, agroecologia e acessibilidade; houve também um evento histórico de carijada em uma unidade de conservação, em Canela; oficinas de teatro, hip hop e produção audiovisual, entre váras outras atividades. Em um espaço delimitado na Garajona, foram expostas as obras produzidas pelo artista Juarez Negrão para o projeto e fotos de momentos das atividades do ano. E, para coroar a noite, uma grande apresentação do grupo Versão Brasileira. Foi uma noite especial, de celebração de um ciclo que se encerra e da certeza da continuidade das relações do Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre e suas parcerias – Maria Maria Espaço Cultural, CAMP, Comuna do Arvoredo, FESPOPE e Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, que constituem com o Coletivo Catarse o Conselho Gestor do Ponto. Resistência, respeito e empatia ENTREVISTA | Márcia Tolfo | Gestora da Maria Maria Espaço Cultural Coletivo Catarse – A Comuna do Arvoredo, o Coletivo Catarse e a Maria Maria Espaço Cultural somam trajetórias marcantes. Como foi para vocês a experiência de coproduzir esse ano de programação intensa, dentro do projeto “Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre – Um ano de programação na Comuna do Arvoredo (e mais)”, ao lado do Catarse, e de que forma a identidade de cada espaço se somou nesse processo?Márcia Tolfo – A coletividade é a palavra-chave dentro da proposta de produzir e gerir um projeto coletivo, que é um grande desafio. Cada entidade tem suas características e história, então, respeito e empatia são fundamentais. No final, existe uma grande satisfação em fazer parte de uma causa maior e entender que, juntos, somos mais fortes. Catarse – O projeto previu pelo menos 40 atividades culturais diversas. Olhando para o que foi realizado, quais ações ou momentos você destacaria como os mais marcantes para o público e para a própria gestão do espaço?Márcia – Foram muitas atividades. Entre elas, destaco a parceria com o grupo Nós – Arte e Cultura, que trouxe a dança para o espaço, através do Forró. Também o músico Vladmir Rodrigues, com a ancestralidade da música afro em diversas prestações, incluindo o sarau Djavan, Gil, bem como sua contribuição na Janta Afro, que está na sua 21ª edição, assim como o lançamento de alguns livros com sessão de autógrafo. Catarse – Como vocês percebem o impacto de uma abordagem que une arte, cultura e vivência em comunidade, na perspectiva feminista e antirracista que a Maria Maria propõe?Márcia – Focamos no fortalecimento da proposta feminista. Somos duas mulheres (eu e Daniela, minha irmã) que estamos ligadas ao contexto político atual. O espaço das Marias, cada vez mais, se torna acolhedor para as amigas. Usar uma linguagem feminista fortalece a causa, assim como ser antirracista é nosso pressuposto. Catarse – O projeto foi viabilizado pelo Edital Sedac nº 25/2024 da PNAB–RS – Cultura Viva. Na sua visão, qual é a importância desse tipo de descentralização e fomento para a sustentabilidade de espaços como a Maria Maria e para a garantia do acesso à cultura?Márcia – É essencial, visto que ser autossustentável hoje é um grande desafio dentro da economia. O custo com demandas como equipamentos, transporte e alimentação é requisito básico para alcançar a acesso à cultura. Sem o básico, não alcançamos a complexidade da cultura. Catarse – Com o encerramento deste ciclo de um ano de programação, qual é o principal legado que essa parceria deixa e de que forma essa experiência projeta o futuro da Maria Maria Espaço Cultural?Márcia – Resistência, respeito e empatia. Ainda temos “ganas” para continuar e crescer como espaço cultural, construir projetos coletivos e nos divertirmos com as amigas. * Pois há muito mais por vir! As atividades aqui apresentadas foram apoiadas e são parte do projeto “Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre – um ano de programação na Comuna do Arvoredo (e mais)”, que foi contemplado pelo Edital Sedac n° 25/2024 Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) – RS – Cultura Viva.