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A violência é a garantia única de segurança?

Por Jacques Alfonsin (originalmente publicado no Blog Direito Social, aqui).

A segurança é dos mais lembrados direitos humanos fundamentais sociais na campanha eleitoral deste ano. Jair Bolsonaro, o candidato líder das intenções de voto nas pesquisas onde fique ausente o nome do ex-presidente Lula, está fazendo da violência a garantia maior desse direito. Não da violência própria da sanção legal, a cargo do Estado de direito, mas sim da violência sujeita ao arbítrio de cada eleitor/a. A arma tem sido apregoada por ele como instrumento necessário de defesa pessoal, a ser acessada o mais livremente conforme a vontade individual de quem a deseje.

Não escondeu o alvo escolhido para identificar-se quem é considerado como responsável por ameaçar essa segurança. Aí aparecem as/os pobres em geral, gente sem-terra, indígena, quilombola e, no elenco abrangente de outras classes sociais, também defensoras/es de direitos humanos, mulheres, grupos LGBT. O paradoxo reside no fato de as vítimas do ódio deste candidato à presidência da República quase todas vivem em permanente insegurança, sofrendo exclusão de ordem social e econômica, desprezadas e violentadas por preconceitos históricos da mais variada origem, discriminadas por desigualdades criadas e mantidas em guetos classistas, culturais, ideológicos, religiosos, amorais e imorais de toda a espécie.

Em “Crime, polícia e justiça no Brasil” – coletânea de estudos organizada por Renato Sergio de Lima, José Luiz Ratton e Rodrigo Ghiringuelli de Azevedo (Ed.Contexto, SP, 2014) – José Vicente Tavares-dos-Santos denomina violência difusa aquela que se encontra disseminada em toda a sociedade partindo de grupos de poder-saber com capacidade para impor coação, força, “dano que se produz em outro indivíduo ou grupo social, seja pertencente a uma classe ou categoria social, a um gênero ou etnia.” “Revela-se como um procedimento de caráter racional, o qual envolve, em sua própria racionalidade, o arbítrio, na medida em que o desencadear da violência produz efeitos incontroláveis e imprevistos.” “Essa relação de excesso de poder configura, entretanto, uma relação social inegociável porque atinge, no limite, a condição de sobrevivência, material ou simbólica, do vitimizado pelo agente da segurança, configurando o oposto das possibilidades da sociedade democrática contemporânea.”

De sociedade democrática o candidato Bolsonaro já provou não ter qualquer apreço. Quando deu seu voto favorável ao impeachment da presidenta Dilma prestou homenagem a Carlos Alberto brilhante Ulstra, um conhecido torturador que esteve a serviço da ditadura imposta ao país em 1964. Não se deu conta ou disfarçou que, estivesse o país sob ditadura, ele mesmo talvez já tivesse sofrido a cassação do seu mandato, não por cínico respeito a qualquer formalidade legal, mas sim por ordem de um militar com poder de mando superior ao dele.

Não faltará quem, com tão grande número de brasileiras/os manifestando vontade de votar neste candidato, está vencida qualquer mácula do seu passado, anistiado o seu presente pela “legitimidade” fundada no apoio desse número.

Será? O fundamento de um governo legítimo tem de ser avaliado de acordo com a espécie de poder que ele pretenda impor à nação. A um poder baseado na opressão e na repressão como o defendido por Bolsonaro até pode garantir “segurança”, mas uma segurança não de todas/os mas só para os grupos que compartilhem da sua ideia de governo. O passado já demonstrou que, mais cedo ou mais tarde, até a facada agora desferida contra ele, comprova como isso semeia o seu próprio fracasso. Já em 1980 (!), quando a ditadura militar, pelo candidato tão louvada, já começava a desconfiar de si própria, a identificação desse fracasso era feita em arguta e competente denúncia:

“Um poder, representante de interesses de certos grupos que detêm a concretude do domínio, não sobreviverá se não encontrar uma justificativa mais ou menos operatória que redunde na aceitabilidade mínima por parte dos grupos que se encontram fora da esfera de decisão. Por isso, todo o Estado legal pretende ser legítimo. Ora, a legitimidade assim encarada nada mais é do que uma justificativa, uma medida a mais para a manutenção de um grupo no poder, uma extensão da força. No fundo, assim entendida, a legitimidade seria a força substitutiva da força física para impor a aceitação. Nenhum poder sobrevive tão somente usando a força física, pois ela é ambígua, podendo haver o risco dos funcionários da violência, eles mesmos, enquanto grupo, tomarem o poder. Ela é cara, desgastando brutalmente o orçamento do poder formal. Ela é perigosa, pois, de arma na mão, pode perceber que o outro lado que “tem razão.” (“Direito, poder e opressão”, Roberto Armando Ramos de Aguiar, ed. Alfa-Ômega, p.62)

De arma na mão o agressor de Jair Bolsonaro seguiu-lhe o conselho. Além de fazê-lo vítima de si próprio, demonstrou todo o perigo presente na sua destemperada campanha, servindo para avisar suas/seus eleitoras/es sobre o comando de quem pretendem submeter o Brasil e o seu povo.

Mad Men: os maus homens

*pode conter spoilers

Um seriado de homens grosseiros, machistas, fumantes e alcoólicos nada anônimos. Um mundo chauvinista do meio da propaganda estadunidense nos anos 1960 – assistir a um episódio pode ser um grande desafio. Não cheguei a medir, mas não creio que se passe mais de 1 minuto na série sem que alguém acenda um cigarro ou sirva-se de um drink – cowboys e on the rocks para todos os lados.

São 7 temporadas disponíveis no catálogo Netflix, esta resenha delimita-se a comentar o conjunto até a metade da quinta.

Até o terceiro ano, a narrativa nos embebia e não fazia nuvem de fumaça com os acontecimentos dos anos 1960 de uma Nova Iorque cosmopolita e explodindo no marketing agressivo. Passa-se por uma eleição que Nixon perde para Kennedy, as influências que Jacqueline Onassis e Marilyn Monroe passam a ter na vida das americanas – entre tantos outros aspectos interessantes que montam um cenário que não parece muito ser um pano de fundo, mas, sim, dão a impressão que o personagem principal de Mad Men não são loucos homens, mas o próprio Estados Unidos.

Isso torna-se bastante interessante, porque se está em um ambiente que se está tentando a todo o custo “vender, vender e vender!” sem escrúpulo algum – bem, creio não ser muito diferente do mundo publicitário atual, não é mesmo? Mas para quem busca algum tipo de informação sobre massificação cultural ou estratificação de uma sociedade modelo e dominante, as referências apresentadas são muito interessantes, sim. Mesmo que as mensagens estejam não tão explícitas, e o seriado sirva também para alimentar o ego de misóginos e seres desprezíveis, pois romantiza personagens e relações de exploração, sem necessariamente “penalizar” o mau – típico clichê das estorietas estadunidenses.

Ou seja, aqueles que procuram enxergar para além do aparente, terão subsídios suficientes para observar o machismo e o racismo em sua essência, apesar de que, a partir da terceira temporada, Mad Men vá virando o fio paulatinamente, cada vez mais, para uma novela focada nas desventuras de seu personagem principal, o gênio criativo(?) Don Drapper – enche o saco mesmo e vai ficando cada vez mais difícil perceber a importância dos fatos que vão ocorrendo ao longo de uma década tão importante – a efusão da luta pelos direitos civis da população negra, a liberação sexual, o movimento pop culture, entre tantos outros -, que moldou um perfil sociocultural, o famoso american way of life, exportado como o ideal ao mundo todo. Infelizmente, então, aquilo que parecia ser um diferencial passa, enfim, a ser mero pano de fundo para uma narrativa piegas e cheia de truques típicos de um mero folhetim.

Eu assistirei até o final das 7 temporadas, vamos ver se vamos até a
Lua sem um câncer de pulmão ou de estômago…

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: drama
Temática Social: machismo, misoginia, alcoolismo, consumo de drogas, racismo, mais valia
Público-alvo: homens brancos de meia idade (para sentirem-se bem com seus próprios preconceitos), pessoas com interesse na construção sociocultural dominante e mulheres (para sentir raiva e perceber como a sutileza de algumas relações e ações permeia e mantém uma cultura de submissão)
Roteiro: 
(o primeiro terço muito bom, a partir de então, segue a “fórmula
mágica” folhetinesca)
Dramaturgia: 
(caracterização dos personagens e cenários é muito boa, mas o roteiro faz com que se repita muito situações, expressões, tipos…)
Aprofundamento da Questão Social: 
(vários temas importantes que vão paulatinamente ficando de lado para que a audiência passe somente a acompanhar a vida de Don Drapper)

Por Gustavo Türck

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras

 

Atlanta: this is America (1a temporada)

*pode conter spoilers

Uma obra de arte do artista Donald Glover (ator de seriado, de cinema pipoca, músico/rapper, produtor, diretor, criador). Atlanta é um caminhar naturalista no dia a dia de um rapaz que se torna produtor de seu primo, Paper Boi, um gangsta rapper, na periferia de uma grande cidade do sul dos Estados Unidos. A este ponto, cabe-se ressaltar que os personagens principais são negros, e o significado de a história acontecer no estado da Georgia não é ao acaso – ali, ao lado de Mississipi e Alabama, a sessessão se fez presente, e com vizinhança também das Carolinas do Norte e do Sul, faz-se um cinturão de alta densidade de populações negras, separando a branca e ensolarada Florida – do paraíso Miami -, do resto do país.

Com a primeira temporada disponível no catálogo Netflix, a cada episódio você vai se emaranhar em situações corriqueiras, mas muito bem contadas e que desenham uma metáfora satírica profunda sobre as raízes e naturalizações do racismo – e também, muito forte, do machismo – na sociedade estadunidense, que, se pode dizer, sim, reflete-se na nossa vida tupiniquim, visto que morais e costumes de lá são dissemidados pela cultura de massa aqui, muito bem programados.

Destaque para dois episódios, um em que o rapper está em um programa de televisão – o episódio inteiro é como se fosse o próprio programa -, numa mesa de debates, participando ao lado de uma personagem tipo psicóloga feminista (uma caricatura), ao mesmo tempo em que é confrontado pelas suas posições misóginas, eles são brindados com um caso de um rapaz negro que alega ser um homem branco nascido em um corpo de homem negro e que estava preparando sua transição. O episódio tem um final fantástico, flutuando entre a sátira crua e o sarcasmo narrativo.

O outro episódio, muito profundo, é o penúltimo dessa temporada (a segunda já rodou inteira nos EUA), quando o casal protagonista vai a um encontro comemorativo da abolição da escravatura no Texas (pra quem não conhece muito a história e cultura estadunidenses, o Texas é como se fosse o Rio Grande do Sul junto a Santa Catarina e Paraná, terra de agropecuaristas/ruralistas brancos, onde o racismo sempre foi muito evidente – e segue sendo praticamente uma instituição). O local é uma mansão aristocrática, onde moram o ricaço branco, doctor antropólogo da questão negra, fã invariável, e sua mulher…negra. Ali vão se expressar cenas das mais constrangedoras possíveis, que sedimentam a temática de todo o seriado e sublinham e atestam: quem assistir a Atlanta, de cabo a rabo, vai estar recebendo um inteligentíssimo compêndio crítico da luta de classes, do racismo e do machismo.

Segue o que eu considero um teaser hardcore do seriado Atlanta (apesar de nada a ver com a produção, mas metaforicamente falando), o clipe This is America, do rapper Childish Gambino a.k.a. Donald Glover:

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: comédia sarcástica
Temática Social: luta de classes, racismo e machismo
Público-alvo: pessoas que entendem linguagem de entrelinhas (metalinguagem) e estão por dentro do conflito étnico-social da atualidade em sociedades racistas e misóginas como as de cunho judaico-cristão, há também muitas referências à própria cultura estadunidense, então, quem conhece as peças de cultura de massa ianque acaba aproveitando um pouco mais, pessoas estudiosas do movimento hip hop, que foram na sua historicidade, da raiz ao rap ostentação, também vão curtir bastante
Roteiro: 
(simplesmente perfeito, constrói uma realidade que mescla o realismo, de personagens e situações verossímeis, com momentos e personagens hilários – em determinado momento aparece Justin Bieber…negro! Não é UM Justin Bieber, é O Justin Bieber e, ali, no universo de Atlanta, ele é um jovem negro)
Dramaturgia: 
(atuações, locações, situações, construções fílmicas incríveis)
Aprofundamento da Questão Social: 
(naquilo que se propõe, na delimitação da sua temática, perfeito, desde em expressões em discurso direto até mesmo na sutileza de algumas relações, muito inteligente mesmo)

Por Gustavo Türck

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras

 

Kalunga (videoclipe)

Banda Kalunga apresenta o videoclipe da música Kalunga. A gravação foi feita pelo Coletivo Catarse no Quilombo da Família Silva, primeiro quilombo urbano titulado no Brasil no dia em que comemorava 8 anos da titulação.

Porto Alegre, 25 de setembro de 2016.

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Kalunga é:

Vocais- Telmo Eduardo Flores, Lua Barros, Fabiana Souza, Letícia Mendes e Kacau Soares

Baixo: Léo Millor

Guitarra Solo e Violão 7: Matheus Flores

Guitarra e Cavaquinho: Márcio Prestes

Violão: David Cunha

Congas: Cleoson Silva

Agê-Ilu-Queixada-Tamborin: Domício Grillo

Surdo-Blocks: Nego Dener

Berimbau Viola-Ganzá-Pandeiro-Reco Reco: Jefe Mendes

Bateria: Rafael Mautone

Tambor de Sopapo: Edu Nascimento

Realização audiovisual : Coletivo Catarse

Direção e edição: Tiago Rodrigues

Imagens: Jefferson Pinheiro, Tiago Rodrigues, Alan Floyd e Laurence West

Gravado no Quilombo da Família Silva em Porto Alegre