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Racismo em debate

Como se constrói o racismo no Brasil? Quais as bases materiais e teóricas que seguem definindo a humanidade de negras e negros? Que tipo de estratégias podem ser pensadas para enfrentar o racismo?

Estas perguntas e diversas outras foram levantadas no evento “Palestra e roda de conversa sobre a construção do racismo”, que contou com a presença de Karen Santos- vereadora pelo PSOL, professora da rede estadual e ativista da Frente Quilombola.

O encontro foi o primeiro de uma série de eventos promovidos pelo Ponto de Cultura Áfricanamente no ano de 2019, que tem como objetivos construir conhecimentos coletivos e traçar estratégias de enfrentamento ao racismo.  Justamente por isso, foi realizado no dia 20/03, dia internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial.  

Tendo como base a obra “O que é racismo estrutural”, de Silvio de Almeida, Karen apresentou duas formas diferentes de se abordar o racismo: de uma perspectiva individualista ou estrutural.

Na perspectiva individualista, o racismo é pensado como uma patologia de pessoas ou grupos, “como se fosse uma questão comportamental”. Como exemplo, Karen lembrou da torcedora do Grêmio que foi filmada cantando um hino racista. No caso, a torcedora foi estigmatizada como se ela fosse a única racista entre um estádio inteiro que cantava a música discriminatória

A perspectiva estrutural, por sua vez, entende o racismo como sendo resultado das ações das instituições. Pensando desta maneira, o racismo é poder e dominação de um grupo dentro das instituições. “O aumento da passagem de ônibus é um ataque racista, não garantir um centavo para o carnaval de Porto Alegre é um ataque racista. O sucateamento da educação estadual e municipal também”, exemplificou Karen.

A partir do resgate histórico, a vereadora mostrou que a estrutura racista das instituições é resultado do passado escravocrata e colonialista. Além disso, explicou que o papel das teorias eugênicas (do chamado racismo científico) foi o de legitimar a estrutura racista que segue sendo reproduzida na sociedade brasileira.

As teorias eugênicas, originadas dentro de instituições acadêmicas da Europa nos séculos XIX e XX, usaram de metodologias científicas (como medição de crânios) para tentar provar que a raça branca era superior à raça africana e às raças ameríndias e orientais. No Brasil, estas teorias foram usadas para animalizar, objetificar e desumanizar os negros e indígenas, justificando o colonialismo e a escravidão.

Com os avanços da biologia (sobretudo no campo da genética) ficou provado que estas teorias não são verdadeiras; do ponto de vista biológico o conceito de raça não existe. Porém, resgatando Silvio de Almeida, Karen advertiu que raça existe como um elemento político.

Ou seja, apesar de biologicamente existir apenas a raça humana, as ideias e práticas racistas existem e predominam dentro das instituições brasileiras. Da mesma forma, as teorias eugênicas ainda estão presentes. Projetos de embranquecimento, que associam uma população de pele mais clara com mais “desenvolvimento” são um dos exemplos disso.

Diante deste cenário, Karen Santos questionou e ofereceu uma solução para desconstruir as teorias racistas: “Como colocar o senso comum em cheque? Com pesquisas, estudos, análises críticas. Tem muita coisa boa sendo produzida” 

Partindo da percepção de que é sempre necessário buscar novas maneiras de dialogar e denunciar o racismo, os participantes foram incentivados a contribuir com suas experiências para construir estratégias de enfrentamento.

Falou-se da necessidade de expandir o debate. Carla Beatriz comentou que costuma ver sempre as mesmas pessoas discutindo estas questões: “Não podemos ficar falando com nós mesmos, temos que ir para as periferias”, afirmou. 

Os participantes relataram diversas dificuldades de se atuar dentro das periferias. Jorge Coelho falou que as comunidades costumam rejeitar pessoas de fora, mesmo que sejam de outras periferias. Como exemplo, contou que quando ia dar aulas de capoeira na Vila Jardim, em Porto Alegre, os jovens não o respeitavam tanto, pois ele não era morador daquela vila.

Assim, propôs o fortalecimento das comunidades locais, como acontecia nos anos 90. Outra estratégia de enfrentamento levantada por Jorge foi o domínio da narrativa. Esta estratégia se dá a partir de um empoderamento para construir narrativas antirracistas a partir da visão dos povos negros e indígenas.

Desta maneira, o evento deu início a diversas reflexões que continuarão reverberando e sendo rediscutidas em 2019. Apesar dos diversos ataques racistas impostos pelos governos conservadores (pra não dizer fascistas), espaços e coletivos de resistência como as escolas de capoeira, as escolas de samba e os terreiros seguem lutando e se mobilizando.

Texto: Bruno Pedrotti.
Imagens: Andréa Flores.

A luta quilombola na cidade dos canyons

Praia Grande é um município localizado no extremo sul de Santa Catarina. Justamente por estar na beira dos paredões de rocha que formam a fronteira natural com o Rio Grande do Sul, é conhecida como “cidade dos canyons”.

É neste cenário de morros e penhascos cobertos por mata atlântica que o Quilombo São Roque resiste a quase duzentos anos.

Uma longa história de lutas

Segundo Eliseu Pereira, presidente da Associação Quilombola São Roque, registros documentais revelam que os negros escravizados já viviam no local desde 1824.

“Existia um sistema de troca, no qual os negros plantavam aqui, onde as terras eram férteis, e levavam a produção lá para cima da serra, de onde traziam algumas coisas em troca, como charque e vinho” explica Eliseu .

Assim, trabalhando como tropeiros faziam as rotas comerciais de ligação entre a parte de baixo e de cima da Serra Geral e entre os dois estados. Em baixo, Santa Catarina;  em cima, Rio Grande do Sul, na região de Cambará do Sul e São Francisco de Paula.

Com a abolição da escravidão (em 1888), muitos negros que trabalhavam nas fazendas vizinhas se instalaram no quilombo. Porém, Eliseu ressalta que a abolição não os protegeu da exploração: “As pessoas que desceram para cá ainda voltaram a ser escravizados de certa forma, porque depois os senhores descobriram onde eles estavam, vieram e fizeram acordos ‘democráticos’ para que os escravos continuassem trabalhando para eles”.

Depois de sofrerem nas mãos dos latifundiários que os escravizavam, os quilombolas tiveram de lidar com a repressão da ditadura militar. Com a criação (em 1959) e instalação (em 1970) do Parque Nacional de Aparados da Serra.

Ná época o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), criado pelos militares, era o órgão responsável pelas unidades de conservação.

Segundo o presidente da Associação Quilombola São Roque, Eliseu Pereira, o IBDF atuava na lógica da repressão, ensinando aos moradores da comunidades suas obrigações e nunca seus direitos.

“Muita gente terminou indo embora quando entrou o parque, do antigo IBDF. Começou a haver muita repressão aqui dentro. O pessoal era impedido de produzir no sistema nativo de roça rotativa, com períodos de descanso e queimadas controladas. Isso não foi mais permitido”, conta Eliseu.

Impedidos de exercer a agricultura tradicional, sua principal fonte de renda, muitos membros da comunidade venderam suas terras por preços baratos e foram para as periferias das grandes cidades.

Ná época, os moradores da comunidade não sabiam que eram quilombolas e não conheciam seus direitos.

A titulação e os conflitos pela terra

A partir do início dos anos 2.000, o Quilombo São Roque começou seu processo de autorreconhecimento. Em 2004 foi reconhecido pelo INCRA regional e em 2018 pelo INCRA Nacional.

No momento, a comunidade espera pela titulação dos  4.000 hectares que estão fora do Parque Nacional Aparados da Serra e enfrenta conflitos pela posse da terra, conforme comenta Eliseu Pereira.

“a parte que é parque [Parque Nacional Aparados da Serra] não deve ser mexida. Da parte que não é parque, a maioria do território está em mãos de proprietários particulares que aproveitaram a época da repressão para comprar as terras por preços baixos”.

Segundo Eliseu, estes proprietários não são quilombolas e não compartilham da cultura de preservação da comunidade. “Eles tem mais condições financeiras, então estão montando chácaras, plantios de eucalipto, pecuária, plantios de pinus. Este tipo de situação não tem nada a ver com a nossa comunidade quilombola. Não é este tipo de coisa que pretendemos aqui dentro “, explica.

Em sua análise, ao contrário da comunidade- que planta em sistema agroflorestal sem o uso de veneno- os proprietários imigrantes não se importam com a preservação e só visam o lucro. Eliseu denuncia que estes proprietários fazem monoculturas carregadas de agrotóxicos nas margens dos rios, exploram ilegalmente a madeira nativa e a caça.

O turismo como alternativa 

Em meio a tantos desafios, a comunidade vem investindo no turismo como aliado.  Para Eliseu, a presença do turista na comunidade desencoraja a caçada e o desmatamento, além de oferecer uma alternativa de renda com baixo impacto ambiental.

O quilombo oferece diversos atrativos, como rios com águas cristalinas para banho ou  pesca com anzol e linha (tarrafas e redes de arrasto são proibidas), trilhas na mata, área de camping. Os membros da comunidade também produzem alimentos sem agrotóxicos e artesanatos funcionais, como pilões e cestos, usando materiais coletados na mata.

Além de verem os turistas como aliados na luta pela preservação da natureza e de suas tradições, os membros da comunidade também gostam de receber as pessoas. Eles estão sempre dispostos a conversar e compartilhar seu modo de vida e sua cultura.

Para visitar a a comunidade, ouvir suas histórias e fortalecer sua luta, entre em contato com Eliseu Pereira pelo celular (48) 991093756 ou pelo whatsapp (48) 991606419.

Heavy Hour 31 – 18.03.19 – Apropriação cultural

Qual o lugar da pessoa negra na cultura brasileira? Qual é a posição do protagonista negro? E o índio, que deu tantas “contribuições” ao povo branco, este branco que assume simbologias que não são suas como…suas – aliás, que SEQUESTRA! Sempre o fez. Neste programa, Contramestre Guto, coordenador do Ponto de Cultura Africanamente, e Alexandre Peres de Lima, antropólogo e cientista social, fazem o que podem para falar na ditadura do tempo do Heavy Hour! A parada é complexa…

E você? Se apropria da cultura dos outros? Hmmmmmmm…

Livreiro Bolivar traz um “guri medonho”, José Falero, da Lomba do Pinheiro, sua primeira obra, “Vila Sapo”. Ouve e liga lá 51-989.050.6725 para saber da história de quem, por ser negro, cai pelas balas da…

Setlist:
Eu Acuso! – Idade Mídia
Xenia França – Pra que me chamas
Spinetta e Los Socios del Desierto – Cuenta En El Sol
Gonzaguinha – Pacato Cidadão
Itamar Assumpção – Vá cuidar de você
Dick Dale – Misirlou
Dor Fantasma – Hey
N.W.A. – Alwayz into somethin
Black Pantera – Punk rock nigga roll

Heavy Hour 19 – 11.12.18 – Cultura Hip Hop: sempre da resistência!

Negra Jaque e DJ Zonattão, as grandes presenças deste programa, que fala um pouco – o que deu! – da história do hip hop. Os blocos de som estão montados na cronologia de uma evolução do rap vindo dos states e chegando no protagonismo feminino em petardos da própria Jaque, Stefanie e TRIZ, entre outros. Zonattão, o DJ de Bento, também deixa sua contribuição com uma das faixas de seu trabalho entre scratches, mixes e samplers. No bloco Bibliografia Social, o Livreiro Bolívar (51-989.050.672) indica uma obra do Professor Adílson Moreira, “O que é racismo recreativo”. Tá forte a coisa, não é mesmo?

Apresentação de Gustavo Türck (@GustavoTurck), Billy Valdez e Marcelo Cougo.

Bloco 1
Eu Acuso! – Idade Mídia
Run DMC e Aerosmith – Walk this Way
Public Enemy e Anthrax – Bring the Noise
Dr. DRE e Snoop Dogg – The Next Episode
Body Count – Black Hoodie

Bloco 2
Negra Jaque – Deus que Dança
DJ Zonattão e Tabordex – As 3 Siamesas
Stefanie – Mulher MC
DNA – As belas rosas estão presentes

Bloco 3
Cássia Eller – Nós
38milmanos – Cotidiano Difícil
Elza Soares – O que se cala
TRIZ – Elevação Mental

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MAIS QUE UM JOGO – Quilombo Lemos Resiste!

Faixa no estádio Beira Rio em solidariedade ao Quilombo Lemos

Quando a Frente Inter Antifascista foi formada, os objetivos principais eram, além de lutar por um ambiente sem preconceitos nas arquibancadas e contra a elitização do nosso Clube, estar ao lado da Classe trabalhadora e ao lado do nosso Povo contra as injustiças e opressões. Nesse ano que passou tivemos a oportunidade de avançar na nossa organização e influenciar algumas mudanças no Beira Rio. Participamos ativamente das marchas do #EleNão e com isso conseguimos envolver uma parte de nossa torcida nessa luta contra o fascismo, tão identificado na figura do capetão presidento.

Há alguns dias, houve um episódio que nos trouxe a uma nova mobilização: o ataque ao Quilombo dos Lemos, situado em um terreno atrás do Asilo Padre Cacique, vizinho do Beira Rio. As motivações para que a Diretoria do Asilo lute para retirar a família que ali está morando há décadas, que teve em sua matriarca e em seu patriarca trabalho de quase uma vida junto à Instituição, são difusas. Incluindo a sanha das grandes incorporadoras imobiliárias que enxergam nessa região uma mina de ouro. O que não é difuso é o discurso racista do Diretor do Asilo e nem a maneira truculenta e fora da lei com que os agentes do Estado invadiram e intimidaram os Quilombolas, já com titulação de reconhecimento bem encaminhada à Fundação Palmares.

Todo o envolvimento de lutadores sociais, movimento negro, apoiadores resultou numa vitória importante: a questão judicial foi levada para o âmbito federal, onde devem ser julgados esses casos envolvendo Quilombos em processo de reconhecimento. É vitória momentânea, mas deve ser comemorada e servir de incentivo para casos semelhantes.

Esse caso nos mobilizou como Frente. Houve solidariedade e luta em conjunto. Integrante fazendo vigília, doação de alimentos, apoio na comunicação, visibilidade através das redes sociais e, principalmente, estar juntos desse povo! Para nós,

O feito mais importante se deu no jogo contra o América Mineiro, quando levamos, junto com moradores do Quilombo, uma faixa alusiva à resistência da família Lemos. Para quem é da arquibancada, isso é sempre muito significativo. Além disso, marcar de vez a importância do futebol como espaço de lutas sociais. As Frentes Antifascistas formadas pelas torcidas de todo o Brasil tem um papel estratégico fundamental na resistência contra a opressão não só nos estádios mas também na sociedade como um todo. Ali, ao lado do Beira Rio, é nosso dever estar presente nessa luta. Temos de pensar nessa territorialidade que marca também a nossa cultura de torcedores e incorporar esse conceito às lutas sociais nos nossos bairros.

Frente Inter Antifascista

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Texto publicado originalmente AQUI.