Saberes en torno a la yerba mate: Producción, territorio e intercambio entre Argentina, Brasil y Uruguay

No dia 30 de setembro foi realizado na cidade de Presidente Perón, na grande Buenos Aires (ARG) a jornada híbrida compartilhando saberes em torno da erva mate. A atividade foi organizada pela Faculdade de Ciências Agrárias da Universidad Nacional de Lomas de Zamora (FCA, UNLZ). O encontro teve a participação presencial do biólogo Moisés da Luz (coordenador técnico e de pesquisa do Projeto Carijo), e participações online de Bruno Pedrotti (Coletivo Catarse – BR), Juan Pablo Della Villa (Coordinador y Vocero de la Empresa Cooperativa de Alimentos – ECAS – ARG) e Ignacio Berro (Presidente de la Asociación Civil Pindó Azul – UY). O Comitê organizativo da atividade foi composto por Mariana Barros e Verónica Mautone na coordenação de projeto com colaboração de Dario Maturana, Florencia Arana, Tamara Vera, Carolina Petti e Damián Arias. A prosa tratou principalmente das experiências de produção artesanal da erva mate nos três países participantes. A gravação do encontro está disponível de maneira aberta e gratuita, então ceva um mate e aproveita: Imagem destacada: Dario Maturana.Galeria: Moisés da Luz.

Oficinas trabalham a salvaguarda de patrimônios culturais no Litoral Negro

Nos dias 10, 11, 14 e 15 de setembro, a sede da Associação Quilombola Vovô Virgilino – localizada no distrito das Capororocas, em Tavares/RS – recebeu uma oficina de salvaguarda de patrimônios culturais a partir do audiovisual e da comunicação. Parte do projeto Festejos e Encontros da Cultura da Tradição Popular das Comunidades Quilombolas da Península do Litoral Norte, do Ponto de Cultura STR Mostardas, contemplado no EDITAL SEDAC nº 25/2024 PNAB Cultura Viva, procurou fazer o diálogo com as referências comunitárias locais e lideranças, estimulando a comunidade a escolher registrar algo da sabedoria popular local: o uso de chás e plantas medicinais. Ao longo da segunda feira (14), oficineiros e lideranças locais percorreram o território dialogando com as famílias, que apontaram as plantas que usam, contaram suas histórias e a relação que mantêm com cada chá. Tudo foi registrado em vídeo e foto para numa próxima etapa se organizar e disponibilizar este material de maneira livre e gratuita na rede como resultado da oficina. Na terça feira (15), foi dia de se preparar os chás, usados também como remédios tradicionais aperfeiçoados ao longo de gerações e que ajudam a construir uma saúde comunitária dentro do território, sem depender da indústria farmacêutica. Todas as pessoas entrevistadas disseram tomar poucos remédios comprados e fazem a manutenção da saúde praticamente só com os chás. Dona Russa, uma das guardiãs desse conhecimento, levantou também outra reflexão sobre as relações de troca e compartilhamento na comunidade. Enquanto caminhava de volta para casa com um maço de chás que havia ganho das vizinhas visitadas, refletiu: “Saí de casa com um monte de chás, e estou voltando com um monte de chás, só que das plantas que não tenho. As que a gente tem de sobra, compartilhamos. As que não temos, pegamos com as vizinhas. Assim, todo mundo tem acesso a todas as plantas que precisa”. Para além do distrito das Capororocas, o encontro também trouxe à tona memórias de idas até as matas vizinhas e à Lagoa do Peixe (antes da criação do Parque Nacional) para colher chás e frutas nativas como araçás. Também foram lembradas as relações com a Lagoa dos Patos e com o Oceano Atlântico, recordando também da relação com a pesca e da conservação do peixe e do camarão utilizando-se do sal. Vale destacar ainda que a região tem fortes influências de matriz africana e uma grande presença quilombola. O município de Tavares tem 3 comunidades quilombolas, assim como a vizinha Mostardas. E toda esta região de Osório até São José do Norte possui 10 comunidades quilombolas. É exatamente por isso que a região é reconhecida como Litoral Negro, segundo a históriadora Cláudia Mollet (UFPEL). Este e outros ciclos de oficinas realizados ao longo de 2025 e 2026 estão sendo promovidos pelo Ponto de Cultura STR Mostardas, dentro do projeto Festejos e Encontros da Cultura da Tradição Popular das Comunidades Quilombolas da Península do Litoral Norte (Edital SEDAC nº25/2024 PNAB RS – Cultural Viva). O Coletivo Catarse/Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre vem atuando junto ao projeto desde outubro do ano passado (confira aqui, aqui e aqui).

Bem além e a poética audiovisual de Leonardo Bulcão

O extremo sul do Brasil, mais especificamente a praia do Cassino, é o ponto de partida da jornada do músico gaúcho. Seja atravessando os Molhes da Barra de bicicleta ou Vagoneta – veículo movido a vela tradicional do Cassino – caminhando pelo caminho Inca no Peru ou se banhando nas águas da Chapada da Diamantina/BA, Leonardo Bulcão propões reflexões sobre a natureza, a existência, o amor e a vida. Organizado em 5 atos, o álbum visual foi lançado no dia 28 de agosto no Youtube e teve também um evento presencial de lancámento na cidade de Rio Grande durante a Feira do Livro da FURG (Universidade Federal do Rio Grande), com show e exibição da obra audiovisual. Bulcão, músico há duas décadas e com três álbuns lançados — Alternativismo (2008), Macumba pra Bacana (2014) e Solo Lunar (2019) — assina integralmente a idealização de Bem além. O projeto é um desdobramento direto de seu último trabalho fonográfico, aprofundando a jornada de autoconhecimento iniciada em Solo Lunar. Ficha técnica Criação, direção, produção cinematográfica, trilha sonora, roteiro e narração: Leonardo BulcãoProdução musical: Bruno Pires e Leonardo BulcãoMasterização: Bruno Pires (Organic Estúdio)Mixagem: Bruno Pires (Organic Estúdio) e Leonardo BulcãoCaptação de som: Bruno PiresCaptação de som adicional (Amares que vem para bem): Bruno Pires e Lucas RamosEdição de som e imagens: Ivan Ibarra e Leonardo BulcãoFinalização de vídeo: Billy Valdez e Bruno Pedrotti (Coletivo Catarse)Legendas: Thays PradoLançamento digital e mídias sociais: Cristiane CubasConcepção de arte: Cristiane Cubas e Leonardo BulcãoArte e design: Maurício QuadrosAssessoria de imprensa: Bebê Baumgarten Imagens: Ivan Ibarra, Lúcio Tagliani, Vitória Proença, André Chaplin, Buba Moura, Marcelo Okamoto, Rafa Costa e Aldivo MendesImagens em aquarela: Alisson Afonso Captação de imagens especiais:Imagens de drone: Ivan IbarraImagens do Parque Eólico (Cassino – Rio Grande/RS): Lúcio TaglianiFotografia Lanchão Farroupilha Seival: André Chaplin e Buba MouraFotos de Beto e Karen: Aldivo MendesFotos do Taim: Marcelo OkamotoImagens adicionais: Leonardo Bulcão Locações:Bahia: Chapada Diamantina (Gruta Azul / Fazenda Pratinha)Peru: Caminho Inca, Machu PicchuPorto Alegre/RS: Rua Lima e SilvaRio Grande/RS: Molhes da Barra, Lagoa Verde (Senandes), Cassino, Parque Urbano do Bolaxa, Chácara das Tolderias e TaimTrês Coroas/RS: Sítio de Silvestre Rache Música e trilha sonora:Composições: Leonardo BulcãoMúsicos: Alisson Afonso, Augusto Luna, Axel Antunes, Christian Talaier, Cintia Prietsch, Clarissa Ferreira, Eduardo Quintian Gambona, Franco Faroli, Gabriel Mazzini, Gabriel Medeiros, Guilherme Bulla, Ícaro Chaves, Leonardo Rechia, Marcelo Masina, Pamela Delgado, Régis Garcia, Taiana Tagliani e Willian TavaresParticipações especiais: Coletivo Rio Grande Quer Verde em “La magia de La Tierra”; Projeto Asas do Camaquã – Réplica da embarcação de Giuseppe Garibaldi (idealizado e realizado por Antônio Rodrigues) Agradecimentos:Alisson Afonso, André Chaplin, Antônio Rodrigues, Augusto Luna, Axel Antunes, Buba Moura, Bruno Pires, Carolina Contato (NEMA – Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental), Cintia Prietsch, Coletivo Rio Grande Quer Verde, Christian Talaier, Eduardo Quintian Gambona, Fazenda Pratinha, Franco Faroli, Gabriel Mazzini, Gabriel Medeiros, Guilherme Bulla, Ícaro Chaves, Leonardo Rechia, Lucas Ramos (Estúdio Mochila), Lúcio Tagliani, Marcelo Masina, Marcelo Mazzini, Marcelo Okamoto, Pamela Delgado, Régis Garcia, Silvestre Rache e Taiana Tagliani Em memória:Beto Federal, Karem Paschoalotto e Aldivo Mendes Foto: Jade Luzardo

Reflorestamento e continuidade na Retomada Gãh Ré

No sábado 25 de julho, a comunidade kaingang da Retomada Gãh Ré, Zona Leste de Porto Alegre, articulou mais um pequeno encontro de reflorestamento do território. Um grupo diverso que contou com crianças de dois e treze anos até a sexagenária mestra Gãh Té subiu na trilha pela mata realizando plantios até chegar na área de manejo perto do topo do Morro Santana. Ao longo da trilha, plantaram duas araucárias e, ao chegar no local em que a mata se torna campo, plantaram alguns butiazeiros. A equipe também limpou as mudas plantadas no ano passado e seguiu o controle da invasão de Pinus Ellioti, arrancando manualmente as mudas do pinheiro invasor que já começavam a surgir. Ao longo da área em que foram manejados os pinus no ano passado, foi possível perceber uma forte reação da vegetação nativa, tanto florestal, no caso dos Maricás – árvores que dobraram de tamanho em um ano com a entrada maior de luz no que antes era um bosque sombreado pelos pinus -, quanto de ervas, gramíneas e outras plantas de pequeno porte. Junto aos plantios de árvores, a cacica Gãh Té semeou também feijões em alguns locais, realizando testes para uma possível roça na primavera. Avaliando o solo, encontrou ainda um local para um plantio de milho e, com a fome do almoço se aproximando, colheu algumas folhas de almeirão roxo – PANC nativa das américas com diversos benefícios nutricionais e medicinais. Depois de um almoço comunitário, dividiram-se as equipes. Os kaingangs acolheram os visitantes que chegavam para a oficina de artesanato. O encontro de compartilhamento de saberes tradicionais foi uma das atividades realizadas dentro do edital de Agentes Cultura Viva da Ancestralidade em Porto Alegre do Pontão de Cultura AxéMirê – no qual Gãh Té é mestra indicada pelo Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre/Coletivo Catarse. Enquanto isso, os fóg apoiadores seguiram para o erval da aldeia. Na tarde ensolarada, capinaram a capoeira e abriram entradas de luz para seis pés de erva-mate e uma araúcária plantada no ano passado, replantando 4 novas mudas de mate e mantendo também no sistema um maricá e uma amoreira. Nas entrelinhas do erval foi semeado um mix de sementes para cobertura de solos no inverno. Este pequeno encontro de trabalho fez parte do Projeto Reflorestamento, Resiliência e Continuidade, aprovado na Chamada Reconstruir RS 2025 do Fundo Casa Socioambiental, o projeto é uma continuação do realizado no ano anterior. O “mutirinho” de plantio não foi a primeira ação, já que este projeto tem como um dos objetivos a manutenção dos espaços da comunidade, já vinham sendo realizadas também ao longo do ano ações de manejo do chiqueiro, a reforma das casas e toda a rede hidraúlica nas moradias mais novas. Este encontro, de outra forma, marcou o início das atividades abertas do projeto. Felizmente, não é o último – em breve devem ser convocadas novas ações. Para participar, acompanhe as redes da Retomada Gãh Ré e do Coletivo Catarse. Apoio: Projeto contemplado na chamada Reconstruir RS 2025, tendo o Coletivo Catarse como organização parceira. Texto: Bruno PedrottiFotos: Giulia Sichelero

Carijo Aceso na Serra registra a II Carijada Kaatártica

Na última lua cheia do verão de 2026, mais especificamente entre os dias 27 de fevereiro e 1 de março, a FLONA (Floresta Nacional) de Canela recebeu a II Carijada Kaatártica. O evento representou um resgate de uma cultura de produção originária da erva-mate em contraste com a industrialização da planta, que é base de bebidas tradicionais do cone sul como o chimarrão, o tererê e o chá-mate. A atividade foi uma realização do Coletivo Catarse com o apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e das retomadas kaingang Gah Ré, de Porto Alegre, e Kógünh Mág, de Canela e integrou o Projeto “Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre – Um ano de programação na Comuna do Arvoredo (e mais)”, contemplado pelo Edital Sedac n° 25/2024 PNAB – RS, realizado pelo Coletivo Catarse – Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre. Por conta do ineditismo do encontro – afinal foi a primeira Carijada realizada dentro de uma unidade de conservação e ainda com a participação dos povos originários de que se tem notícia – o vídeo de registro mereceu um aprofundamento maior. No total foram captados depoimentos de nove pessoas, três kaingangs e 6 fógs (não indígenas) por uma equipe multiétnica que teve como entrevistadora a jovem kaingang Roberta Kokoj e os cinegrafistas fóg Luís Gustavo Ruwer e Billy Valdez, além de registros em foto e vídeo da fóg Amallia Brandolff e da jovem kaingang Marcielly Fuá. Vale destacar também a trilha sonora original Carijo Aceso na Serra, composição de Marcelo Cougo que dá nome ao minidoc. Entre momentos marcantes captados estão a história do pilão da Nilda, o ritual de abertura do sapeco pela Kujá (xamã) Gah Té, e as impressões dos participantes sobre a experiência de colheita nos ervais nativos da FLONA em meio a uma exuberante floresta de araucárias. A obra também retrata um pouco da relação do povo kaingang com a kógünh (erva-mate) e reforça que o beneficiamento desta planta é fruto de tecnologia ancestral dos povos originários. Ficha técnica:Imagens de:Amallia BrandolffFuáKokoj (Roberta)Luís GustavoBilly Valdez Edição de:Bruno PedrottiBilly Valdez Trilha sonora original:Marcelo Cougo“Carijo aceso na Serra”Mix Gustavo Türck

Comunidade Xokleng Konglui lança livro e filme na UFRGS

Na última quinta feira, a Sala Redenção no Campus Reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) recebeu o lançamento o livro “Jug Og Pãn Txi – Na trilha dos nossos antepassados: a retomada do Território Xokleng Konglui” e do documentário “Território Xokleng Konglui: 1° Seminário das Mulheres Indígenas da Floresta”, ambos realizados juntos à comunidade da retomada Xokleng de São Francisco de Paula/RS. Os cantos das crianças da Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental Vanheky Veitchá Teie ecoaram pela sala de cinema no Centro de Porto Alegre. E não foi à toa, já que o livro (disponível aqui) organizado pela cacica Xokleng Cunllugn Veitchá Teie, com os pesquisadores Bibiana Harrote Pereira da Silva e Paul Schweizer, teve parte das ilustrações feitas pelos próprios jovens para apresentar a territorialidade da aldeia. “O TRF4 [Tribunal Regional Federal da 4ª Região, órgão responsável pelo julgamento do processo envolvendo a aldeia] pediu um mapa da comunidade. Aí, eu falei para as crianças desenheram aonde seria o território delas, mesmo sabendo que, para uma criança indígena, o território não tem limites. Aí elas foram colocando tudo no papel” – explicou a professora Culá Maiule Teie. Já o documentário apresentou a comunidade e sua luta a partir da perspectiva das mulheres indígenas e do 1° Seminário das Mulheres Indígenas da Floresta. Apesar das diferenças de formato e temática, as duas obras convergem na defesa do direito originário ao território. Ao longo do lançamento, a cacica Cunllugn Veitchá Teie destacou que São Francisco de Paula é território do seu povo e destacou que seu falecido pai viveu no local. “Nós estamos morando ali em São Francisco de Paula, ali no rastro do meu pai. Ali onde ele nasceu”. A luta pelo território foi reforçada justamente por ser a condição fundamental tanto para manter viva a memória dos ancestrais quanto para garantir que a juventude possa vivenciar a sua cultura e seu modo de vida tradicional. Depois de muita luta, a comunidade conseguiu o direito de permanecer no território retomado, na Floresta Nacional de São Francisco de Paula, unidade de conservação ligada ao ICMBio. No entanto, os indígenas reivindicaram que avance o processo de demarcação da sua aldeia e também combateram os ataques aos territórios e ao direito originário em todo o país. Ao final, junto com a força dos cantos ancestrais, ecoaram também na tarde chuvosa daquela quinta feira os gritos de guerra: “Demarcação já!” “Não ao marco temporal!” Texto e fotos: Bruno Pedrotti.

Grupos na cidade e no campo realizam plantios agroflorestais

No sul do Brasil, do fim do outono até o começo da primavera, se dá a principal janela de plantio do ano. A época é de grande importância tanto para agricultores familiares quanto grupos agroecológicos dos mais diversos, já que a temporada chuvosa é ideal para culturas perenes como frutíferas e árvores no geral. Além de produzir materiais de comunicação sobre agroecologia, o Coletivo Catarse/Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre vem atuando junto destes grupos na produção de mudas nativas, organização de compras coletivas e também se engajando em ações diretas de plantio. As espécies nativas utilizadas pelo coletivo para ações de reflorestamento e implementação de sistemas agroecológicos (SAFs) geralmente são as de grande importância cultural e ecológica na região sul, como a erva-mate, araucária, butiá, palmeira juçara, araçá, entre tantas outras. Por meio de ações de plantio, doação e aquisição de mudas destas espécies-chave nativas, o Coletivo busca fortalecer os ecossistemas nativos como enfrentamento da crise climática. Outra motivação importante para estas ações é a aproximação das pessoas com as plantas presentes no seu dia-a-dia, como a própria erva-mate. A árvore símbolo do Rio Grande do Sul é um ótimo exemplo do distanciamento entre as pessoas e a natureza. Apesar do grande consumo e produção de chimarrão no estado, a maior parte da população gaúcha não conhece a planta Ilex Paraguariensis nem mesmo suspeita que esta, que dá origem à erva-mate, é, na verdade, uma árvore. Por isso, plantar a Ilex é uma maneira de reaproximar as pessoas desta planta emblemática, conhecendo seus ciclos e possibilitando a médio prazo as folhas para o preparo de um chimarrão artesanal. Pensando nisso, a Catarse já fez o plantio de mais de 30 pés somente em junho e planeja plantar muitas mais. As primeiras mudas foram para a terra nos dias 4 e 5, no limite entre Morro Reuter e Santa Maria do Herval. O ponto de Cultura Vale do Arvoredo recebeu o plantio de 20 mudas no seu espaço de Residência Artística no meio da Mata Atlântica. O plantio foi realizado ao longo das gravações do Talk Exu #6 – Cultura e Agroecologia – e contou com a participação dos parceiros Alexandre Fávero, Matias Köhler e Ethiéne Guerra. Ao longo do encontro, também foram plantadas sementes de juçara germinadas – presente da Karina do Sítio Semente Raiz, em Maquiné/RS -, dentro da mata e transplantadas para vasos, originando mais de 80 mudas. Já na semana seguinte, no dia 11, foi realizada uma doação de 11 mudas e apoio ao plantio no Sítio do Tigre. O assentado da Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (COOTAP) estava aumentando sua agrofloresta (que já possui cítricas, goiaba, banana, pitaia, jambolão e outras árvores), no município de Eldorado do Sul, e recebeu mudas de erva-mate, juçara, guabiju e mamão do viveiro do Coletivo. O plantio, que incluiu também mudas de bananeira, foi realizado seguindo o calendário biodinâmico. O último plantio – até agora – foi realizado no sábado, 20 de junho. No solstício de inverno, uma equipe de 4 cooperados da Catarse, 3 deles acompanhados dos seus filhos, fizeram o plantio de 20 mudas – 12 erva-mate, 4 araucárias, 3 juçaras e 4 ipês roxos. Apesar de ter sido o dia mais curto do ano no hemisfério sul, a tarde nublada e fria teve tempo ainda para colheita de laranjas, bergamotas e abacates e para o desfrutar da paz do sítio Walparaíso, em Belém Velho, zona sul de Porto Alegre. No mesmo final de semana, a zona sul da capital recebeu outros plantios de mudas vindas da compra coletiva com o Viveiro Gasparetto (leia aqui). O parceiro Bernardo plantou araucárias, erva-mate, grápias e ipês no quintal da sua casa no bairro Cristal. Em Viamão, a parceira Maíra fez o plantio de erva-mate, grápias, ipês e angicos vermelho na sua casa no bairro Cantagalo. Mais ao sul do estado, no distrito do Boqueirão Velho, muncípio de São Loureço do Sul, o parceiro Filipe fez o plantio de 5 pés de erva-mate, 3 angicos vemelho e 3 grápia. O município na chamada costa doce gaúcha (região às margens da Lagoa dos Patos ) tem recebido uma série de carijos (atividades de feitio artesanal de erva-mate), e o plantio de erva-mate na região também busca garantir a continuidade dessas atividades culturais. Estas ações vem sendo realizadas de maneira autônoma, sem um financiamento ou projeto responsável, buscando fortalecer a biodiversidade nativa no estado e fomentando uma conservação pelo uso e uma relação mais próxima com plantas que moldaram a cultura e o modo de vida no sul do país. De tal forma, seguirão acontecendo ações e encontros de plantio tanto em pequena e média escala quanto outros maiores por meio de mutirões específicos a serem convocados. Eaí? Bora plantar?!

Viveiro Comunitário prepara mudas para temporada de plantio

Com a chegada da estação chuvosa no Rio Grande do Sul, grupos agroflorestais e comunidades se organizam para os plantios anuais de árvores. Nesta semana, o viveiro comunitário gerenciado pelo Coletivo Catarse na Comuna do Arvoredo recebeu 545 mudas nativas de uma compra coletiva. As mudas de erva-mate, canafístula, grápia, jacarandá, araucária, angico vermelho e ipê roxo vieram do Viveiro Gasparotto, de Erval Grande, norte do estado. Além dessas mudas adquiridas, também devem ser plantadas ao longo do ano as mudas produzidas pelo viveiro comunitário localizado no centro histórico de Porto Alegre, entre estas vale destacar as palmeiras Juçara (Euterpe edulis), maracujás roxo do mato (Passiflora edulis), araucárias e ingazeiros. Por enquanto, o trabalho tem sido de separação e entrega das mudas para retirada pelos participantes da compra coletiva – somente em dois dias, mais de 100 já foram retiradas por diferentes grupos agroecológicos para plantios na zona sul de Porto Alegre, Osório, Vale do Taquari e São Lourenço do Sul. As espécies nativas devem ser plantadas ainda na zona leste de Porto Alegre, Viamão, Canoas e no Caraá, em aldeias, quilombos, sítios, chácaras, quintais e tantos outros espaços de ecologia no campo e na cidade. Em breve as plantas devem ser colocadas na terra, fortalecendo a biodiversidade nativa por todo o estado e contribuindo para ambientes mais equilibrados. As espécies não foram escolhidas por acaso, mas justamente por serem de grande importância para os animais nativos, sendo fontes de alimento (no caso da juçara, maracujá, araucária, inga e erva-mate) ou de pólen (canafístula, ipê roxo, grápia, angico vermelho e jacarandá). Esta é uma iniciativa autônoma do Coletivo Catarse, Comuna do Arvoredo e parceirias, sem contar com apoios ou financiamentos de projetos em editais. Que venham muitos plantios e fortalecimento e abundância dos territórios!

Carijo no Jardim ecoa a tradição artesanal na área urbana de São Lourenço do Sul

Cerca de 20 pessoas se reuniram em São Lourenço do Sul nos dias 18 e 19 de abril , na chamada Costa Doce Gaúcha, para um encontro de feitio artesanal de erva-mate. Utilizando o método do Carijo, produziram coletivamente cerca de 30 quilos da planta para infusão. Ao longo da manhã do sábado, dia 18, foram podadas duas plantas adultas de Ilex paraguariensis da variedade Cambona – conhecida pelas folhas grandes, com algumas chegando ao tamanho de uma mão -, que não recebiam manejo há quase 30 anos. No final da tarde, iniciou-se o sapeco e encarijamento. A atividade reuniu participantes de São Lourenço, Porto Alegre, Jaguarão, Canguçu e até mesmo de Ilópolis, Capital Gaúcha da Erva-Mate. A inciativa reuniu pessoas de todas as faixas etárias, de crianças a idosos, todos com alegria e disposição compartilhando juntos o fazer coletivo. A organização foi da rede que vem produzindo uma série de carijadas na região de São Lourenço desde 2023, com alguns integrantes engajados nesta cultura e facilitando manejos artesanais desde 2018, principalmente na região sul do estado. O espaço que acolheu o evento foi O Jardim – Espaço Cultural, que reúne ações de arte, cuidado e convivência como cerâmica, costura, bordado, beneficiamento e tingimento natural de lã; compostagem; plantas medicinais, socialização e arte juntamente com a AMAFE/SLS – Associação Mães Atípicas Fênix de São Lourenço do Sul, karaokê, cinema e tantos outros. Reunidos no local e contemplando uma madrugada de céu limpo e estrelado típico da lua nova, os viventes secaram a erva por cerca de 15 horas utilizando lenha de Maricá – a árvore nativa conhecida pela excelente brasa havia sido cortada pela companhia elétrica que atua no unicípio (CEE Equatorial) no ano anterior. Por fim, colocaram a erva no soque mecânico e no pilão, para, depois, fazer a partilha. Tudo isso regado a boa prosa, a música de Jerônimo J. R. Silva – que foi da milonga ao reggae em canções combativas e de valorização da sociobiodiversidade – e comida deliciosa, com direito a galeto, carreteiro e até mesmo sushi vegano. Enquanto os presentes se deliciavam com a erva recém produzida, circulou pela roda uma infinidade de ideias. Novos carijos, mateadas, atividades, pessoas e grupos para entregar um pacote da erva novinha . Tudo para seguir divulgando esta cultura carijeira, fomentando encontros, partilhas e manter a roda circulando com a brasa acessa. O encontro ainda teve o importante papel de reafirmar a potência da cultura carijeira ao sul do estado, onde grupos e coletivos seguem divulgando e praticando esta cultura ancestral de origem indígena. Na região, são manejados tanto ervais plantados quanto nativos em áreas de transição com a Mata Atlântica e mesmo em áreas florestais do pampa. De fato, o que se verifica hoje no Rio Grande do Sul é uma forte presença do carijo, de Norte a Sul e ainda no Noroeste e nos Vales do Litoral. Pelo trabalho e dedicação de tantos grupos diferentes de pessoas a esta cultura, tudo indica que a prática só deve crescer, alcançando cada vez mais viventes e resgatando esta prática ancestral em cada vez mais territórios. Que o Carijo siga forte ao sul e no estado como um todo, conectando e acalentando vivências e encontros. Viva a cultura carijeira! Texto: Bruno PedrottiFotos: Giulia SicheleroEdição: Anahi Fros

Visita ao cultivo de arroz orgânico: mais um passo na busca da transição agroecológica quilombola

Recentemente, o Assentamento Filhos de Sepé, em Viamão/RS recebeu representantes da Comunidade Quilombola Vila Nova, de São José do Norte. A visita, realizada no dia 27 de março, faz parte de uma série de intercâmbios entre assentamentos de reforma agrária do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o quilombolas na busca pela transição agroecológica dos cultivos de arroz na comunidade do chamado litoral negro. No calendário agrícola do cultivo de arroz no sul do país, o final do verão e início do outuno sinaliza o tempo de colher e preparar o solo para o próximo cultivo. A Produção do cereal no assentamento é organizado por meio da Cooperativa Dos Trabalhadores Assentados Da Região De Porto Alegre (Cootap) e Cooperativa dos Produtores Orgânicos da Reforma Agrária de Viamão (Coperav). Os quilombolas, por sua vez, fazem parte da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Sao Jose do Norte (Cooafan), contando com apoio do Coletivo Catarse, cooperativa de trabalho e comunicação. Além desta rede, o intercâmbio contou ainda com um grupo de visitantes dos movimentos Coordinador Nacional Agrario (CNA) e Guardia Interetnica Campesina, da Colômbia, e do Comité de Unidad Campesina (CUC) e Coordinadora Nacional de Viudas de Guatemala (Conavigua), o penúltimo também da Guatemala. Depois de momentos de apresentação e diálogo, todos percorreram e conheceram de perto as diferentes etapas dos ciclos de produção e beneficiamento do arroz ecológico. Na lavoura experimental, João Prieto Félix, o Gimino, técnico em gestão ambiental e assessor da Coperav, mostrou um pouco da diversidade de grãos com os quais o assentamento vem trabalhando: arroz negro, vermelho, cateto, aromático, variedades usadas no sushi e até mesmo um arroz de sequeiro trazido de Goiás. As variedades de sequeiro são aquelas plantadas sem irrigação constante, principalmente no cerrado. Gimino explicou que a variedade vem sendo testada para contornar o consumo limitado de água, e que os testes têm apresentado excelentes resultados. Esta limitação se dá justamente peo fato de área de 10 mil hectares do assentamento estar dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) do Banhado Grande, vizinha ao Refúgio de Vida Silvestre (Resbio) Banhado dos Pacheco, um dos últimos redutos do cervo-do-pantanal no Rio Grande do Sul, espécie em vias de extinção. A área úmida protegida pela Unidade de Conservação é que fornece a água para o cultivo do arroz, além de abastecer o consumo humano de parte da Região Metropolitana de Porto Alegre. Justamente por conta da inserção neste ambiente extremamente sensível, a legislação ambiental define limites no uso da água e proíbe o uso de agrotóxicos e fertilizantes sintéticos. Longe de impedir a produção, os cuidados com o ambiente impulsionaram uma experiência que vem se tornando referência para o continente. A rede da qual o Filhos de Sepé e outros nove assentamentos em sete municípios gaúchos fazem parte é reconhecida pela maior produção agroecológica de arroz da América Latina. No ano de 2026, a colheita foi estimada em 14 mil toneladas, com 2,8 mil hectares cultivados e 290 famílias envolvidas no processo. Entre os fatores que explicam resultados tão expressivos está um intenso trabalho coletivo para construir autonomia e evitar a dependência de insumos do agronegócio. Isso se dá tanto pela produção de sementes próprios, bioinsumos e parcerias institucionais para acesso à maquinário e tecnologia como via intercâmbios de conhecimentos em busca da autonomia na produção. O grupo vindo do quilombo já trabalha com o cultivo de arroz e tem algumas experiências com o modelo ecológico moderno, além das vivências com os mais antigos na ecologia tradicional – que já produzia alimentos antes da invasão do modelo do agronegócio. Hoje, a comunidade busca resgatar os conhecimentos dos mais velhos, combinando com novas técnicas que vêm sendo desenvolvidos em espaços como o Filhos de Sepé e, ainda, saberes técnicos do campo das ciências agronômicas – sempre com censo crítico e respeito à natureza. “A faculdade de agronomia traz toda a visão da indústria. Não tem essa visão de plantar orgânico, produzir a própria semente, como eles faziam antigamente. Vim hoje pegar um pouco da parte técnica que estou aprendendo lá e dar seguimento nesses processos por aqui”, comentou Matheus, jovem quilombola e estudante de agronomia da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Ao longo da visita, o grupo conheceu a Unidade de Produção de Bioinsumos Ana Primavesi, biofábrica inaugurada em 2023 no assentamento. Dionéia, da Cootap, explicou um dos métodos utilizados para a produção de biofertilizantes. Batizada de Solo vivo, a técnica consiste em reunir materias da propriedade e arredores, na proporção de 10% de biomassa rica em nitrogênio, 30% de material verde e 60% de material lenhoso. A mistura então é exposta ao calor, que mata os organismos que não são benéficos para o solo. Após fica maturando para, depois, ser utilizada na forma líquida. “A gente recolhe os materiais da mata nativa. A ideia é que o solo se pareça com a terra preta do mato”, explicou Dioneia, após reforçar o convite para particpação em uma oficina específica sobre o metódo para a comunidade quilombola. Além do Solo Vivo, a unidade trabalha também com a reprodução de microorganismos isolados e até mesmo com homeopatia. Já as aplicações dos compostos é feita via drone. Os maquinários utilizados também foram outro ponto de interesse dos visitantes, com destaque para os equipamentos fruto de uma parceria com a Universidade de Brasília (UnB) em convênio com a Universidade Agrícola da China (CAU), semeadeiras, plantadeiras voltadas para o arroz pré-germinado. O último ponto da visita foi a Indústria de Arroz Orgânico Assentamento Filhos de Sepé, com estrutura de secagem e armazenamento pra 100 mil sacos de arroz. Visitantes e anfitriões seguiram dialogando sobre diversos processos, como as embalagens à vacuo disponíveis no mercado e outras práticas para garantir uma maior durabilidade do alimento. Evidente que a escala em que os quilombolas irão aplicar os conhecimentos é técnicas é menor que as de um dos assentamentos referência a nível continental na rizicultura agroecológica. Ainda assim, o encontro teve um importante papel de disparador, semeando diversas ideias nos participantes. Resta ainda …