Sombras na Pele na ACERGS

por Lorena Sánchez No dia 26 de novembro vivi uma reverberante experiência: um encontro entre luz, sombra e diferentes formas de perceber o mundo. Estive na Associação de Cegos do RS (ACERGS), no Centro Histórico de Porto Alegre, acompanhando a atividade Sombras na Pele, realizada pela Cia Teatro Lumbra, junto de Alexandre Fávero, Têmis Nicolaidis e Fabiana Bigarella, com a presença de Débora de Aranha Haupt, ativista dos direitos das pessoas com deficiência e audiodescritora, e mais de trinta pessoas com diferentes níveis de baixa visão e cegueira.  Logo ao chegar, senti aquela hesitação tão comum de quem enxerga: como me aproximar? como oferecer ajuda sem invadir?  Mas bastaram poucos minutos para entender que essa dúvida é mais nossa que deles, e que o contato humano, quando guiado pelo respeito, se dá com naturalidade. Simples assim.  O grupo foi recebido pela Cia Lumbra e numa primeira instância percorreu um caminho sensorial que começava nos materiais de divulgação (um cartaz elaborado em 3D) e seguia pelos objetos de cena do espetáculo Criaturas da Literatura, pelas texturas, pelas formas e pela vibração quente das lâmpadas. A cada descoberta, percebia-se uma alegria lúdica. A percepção de que o teatro pode, sim, ser vivido plenamente por quem não vê, desde que se prepare o terreno com cuidado, parecia iluminar o rosto e a voz de cada participante.  Por fim, assistimos juntos ao espetáculo, desta vez com audiodescrição aberta realizada pela Déborah. Para mim, que aí estava para captar imagens do acontecimento, esse momento foi revelador. Ver o público vidente e não vidente compartilhando a mesma trilha verbal, sem aparelhos que isolam, como por exemplo fones de ouvido, tão comuns de serem usados quando é oferecida a audiodescrição em alguns espetáculos. E nesse olhar, me fez surgir uma pergunta simples: por que não tornar essa prática padrão sempre que houver acessibilidade? Por que não criar sessões verdadeiramente coletivas, em que todos vivenciam a mesma atmosfera?  Depois da apresentação, uma conversa sincera preencheu a sala. Escutei relatos marcantes: pessoas que perderam a visão de repente, na vida adulta, e precisaram reinventar tudo; memórias duras, mas também um desejo enorme de seguir, de encontrar novas maneiras de existir no mundo. Houve quem narrasse superações diárias, pequenas vitórias que passam despercebidas para quem vê, mas que ali ganhavam tamanho de monumento.  O terceiro momento da experiência, foi particularmente tocante: a Cia Lumbra confeccionou um dispositivo tátil que permitiu que as pessoas compreendessem a diferença entre tamanhos do real e da sombra. É difícil explicar em palavras: era como se, pelas mãos, se abrisse uma janela para um fenômeno que muitos de nós nunca questionamos. Ali, a sombra deixava de ser apenas uma sensação para virar imagem, distância, volume, uma outra forma de perceber e ver.  O que ficou desse dia foi o acolhimento. Dos artistas, dos profissionais, dos professores da instituição, de todos os participantes. Um ambiente que convidava à troca, ao cuidado e ao aprendizado mútuo.  Saí de lá com a impressão de que a acessibilidade, mais do que um recurso técnico, é uma forma de convivência. Uma escolha cotidiana de ampliar mundos e, ao mesmo tempo, abrir o nosso próprio. E com a vontade, que sei não ser só minha, de continuar criando experiências que unem arte, sensorialidade e inclusão de maneira viva, honesta e partilhada. A atividade integra o projeto  25 anos da Cia Teatro Lumbra,que foi contemplado pelo Edital SEDAC nº 26 /2024 Política Nacional Aldir Blanc (PNAB – RS).

“Enquanto a Luz Não Chega” faz eventos de oficina em escolas e pontos de cultura

Como divulgação didática das artes envolvidas e também uma das contrapartidas do projeto, o Coletivo Catarse e a Cia Lumbra têm levado o processo de trabalho do curta-metragem como uma atividade para expor uma metodologia que vem entrelaçando o teatro de sombras e a produção audiovisual em diversas parcerias nos últimos anos. Iniciando o giro no Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo, no 1º de maio, os responsáveis por roteiro e direção, Gustavo Türck e Têmis Nicolaidis – que também faz parte da Cia Lumbra -, apresentaram os filmes “A Viagem de Jacinto” e “Criaturas da Literatura – Drácula” como uma caminhada histórica na construção de uma linguagem que deve culminar exatamente com o lançamento do curta “Enquanto a Luz Não Chega”. Ambos conversaram com educadores populares presentes e que entendem também aquele ponto de cultura como uma referência na região do bairro Cristal, zona sul de Porto Alegre, na construção de espaços que fazem a reflexão sobre o papel da cultura no desenvolvimento da arte e na construção de possibilidades de desenvolvimento pessoal e profissional. Viviane Marmitt, parte do coletivo NuTA (Núcleo de Teatro de Animação do Quilombo do Sopapo) e uma das responsáveis pela organização da 17ª semana de aniversário do Ponto, explicou o convite a este encontro: “A 17ª Semana do Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo foi pensada para aproximar a comunidade do entorno do Bairro Cristal com o Ponto de Cultura. Muita gente ainda não conhece profundamente o que a gente faz, e a nossa ideia foi trazer para cá vários tipos de atividades, vários tipos de arte, vários tipos de pessoas que trabalham com arte, com disseminação da arte e cultura. Essa foi a motivação de trazer o Coletivo Catarse e a Cia Lumbra, justamente para proporcionar uma atividade diversa, porque também é algo diferente o cinema e as sombras, o teatro de sombras, juntos numa mesma obra“. Em um outro momento, em 11 de junho, foi a vez da EMEF Porto Novo – na Comunidade Porto Novo, bairro Santa Rosa de Lima, Zona Norte de Porto Alegre – receber a oficina. Com presença de Alexandre Fávero, responsável pela direção de arte, e Gustavo Türck, duas turmas do 9° ano do Ensino Fundamental encheram a sala de multimeios da escola para também conversar sobre como uma arte milenar – as sombras – pode se incorporar numa outra que recém completou pouco mais de um século de existência – o cinema. Esta atividade na Porto Novo também serviu como uma intersecção de projetos, servindo de “aula inaugural” de um processo de oficinas de produção audiovisual que devem ocupar 5 semanas numa parceria da escola com o Coletivo Catarse/Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre “Nos últimos tempos, a gente tem notado uma participação cada vez maior dos jovens – e até mesmo das crianças – no uso dos dispositivos eletrônicos para fazer fotografias, vídeos e até mesmo para fazer a edição desses materiais. É um meio de expressão, de comunicação, que usa a música, que usa as imagens em movimento e é uma maneira de eles se conectarem com os amigos, com os parentes e com pessoas que às vezes estão muito distantes deles. Essa linguagem audiovisual passa a ser dinâmica, que corresponde a essa velocidade desse mundo contemporâneo. Então, é fundamental que nós que trabalhamos com conteúdo audiovisual nos aproximemos das escolas e desse interesse desses jovens por essa linguagem. E, aí, vem uma questão que é muito interessante, que é o tempo de cada um em se relacionar com os dispositivos, com os meios e com as linguagens. Eu trabalho com a linguagem do teatro de sombras, que é muito antiga, muito primitiva e extremamente artesanal. E ela se difere um pouco, apesar de ter muitas semelhanças, com o tempo de produção dessas imagens. E o cinema, que é essa linguagem que tem ainda um outro tipo de relação diferente do teatro, que é uma arte que se caracteriza por ser feita ao vivo. Então, quando a gente leva essas duas linguagens, que se complementam, que se conversam e que se aproximam, mas também possuem características muito específicas, a gente consegue chegar próximo de uma ideia de uma relação e de possibilidades de novas maneiras de se expressar. E com essas oficinas de audiovisual, no contexto do uso dos telefones celulares, das câmeras mais compactas e também de programas pra gente fazer essa edição dessas imagens, me parece que a gente consegue alinhar diferentes maneiras de oferecer pra esse público que já usa e que cada vez tem mais necessidade de entender procedimentos, entender processos criativos e utilizar isso nas suas redes, nos seus territórios criativos. É uma alegria a gente poder estar fazendo parte dessa evolução de audiovisual junto com esses jovens que estão aí curiosos e interessados em usar esses meios.” – comenta Alexandre Fávero, da Cia Lumbra, que há mais de 30 anos desenvolve sua arte em sombras. As oficinas de produção audiovisual que tiveram esta “aula inaugural”, em conjunto com o Projeto Enquanto a Luz Não Chega, agora devem seguir em quatro quartas-feiras seguidas, trabalhando a autoestima e o pertencimento do território numa comunidade relativamente nova que é a Porto Novo – uma área de loteamentos imobiliários populares criada pelas remoções de moradores, principalmente das Vilas Dique e Nazareth, na última década e meia. É um projeto que anda através de uma emenda impositiva, de responsabilidade do Coletivo Catarse, numa parceria com agentes comunitárias de saúde da US Santíssima Trindade e a escola. As oficineiras serão Lorena Sánchez e Maria Luiza Apollo – ambas também fazendo parte da equipe do filme Enquanto a Luz Não Chega. Ainda se prevê mais uma atividade de oficina envolvendo o projeto em escola, que se realizará em 01/07, na EMEF Nossa Senhora do Carmo, na Restinga, em ação com o Ponto de Cultura TV Restinga – um encontro que também fará parte do circuito de lançamento do filme! (Aguarde divulgação!) * Aqui abaixo você poderá conferir os filmes “A Viagem de Jacinto”, …