Um guarda-chuva e a tolerância

“Porque eles me lembram crianças, velhinhos, cegos, os moradores de rua. E toda a classe de seres que em algum momento são tratados como pedras no caminho.”

Por Eliana Mara Chiossi*

Muitas vezes, como escritora, vivi a mesma sequência de fatos: uma imagem se impõe para ser escrita e ou consigo realizá-la em forma de texto ou ela migra para o arquivo dos textos não escritos mas ensaiados. E uma imagem, quando se impõe, faz um trabalho de convencimento quase bruto porque se impõe e se repete mais vezes, como que solicitando urgente parto. No caso da crônica que agora decido finalmente escrever para dar corpo a esta imagem persistente, foi o testemunho de Temis Nicolaidis que me acelerou para terminar este texto em gestação, dizendo que também estava vendo a mesma cena repetir-se.

Talvez mais do que em outras cidades, a chuva em Porto Alegre tem dias de tempestade e descargas elétricas. Raios, trovões e muito vento acompanham a rotina da chuva e alteram a rotina dos moradores. Andando pela cidade na época de chuvas encontro sempre uma cena que me intriga: os guarda-chuvas jogados no lixo. Além da quantidade de guarda-chuvas que são descartados, percebo que são jogados com violência, porque estão sempre numa posição em que se flagra desprezo e impaciência.

Ao comprar um guarda-chuva podemos escolhê-lo levando em conta alguns aspectos: cor, modelo, resistência, para levar na bolsa ou para pendurar. Em dias de chuva repentina, sempre aparecem vendedores ambulantes que oferecem guarda-chuvas por preços irrisórios. Quem compra um guarda-chuva por um preço tão baixo sabe bem que não é resistente. Mas há algo em nós que nos faz repetir o erro. Compramos sim o guarda-chuva mais barato, mas não levamos em conta a sua duração limitada. E praguejamos quando, ao usá-los para nos proteger de uma chuva forte, ele nos deixa na mão, bem no meio do caminho. Quando estamos na condição de pedestres é claro que se soma a isso, nos irritando ainda mais, os banhos de água suja que levamos provocados pela passagem de automóveis e ônibus. E o coitadinho do guarda-chuva, silenciosamente, recebe toda nossa descarga de ódio.

As repetidas vezes em que vi guarda-chuvas jogados na rua ou nas lixeiras, tive um insight de falar da intolerância e dos alvos escolhidos para sua prática. E não sei bem como bordar este caminho. Como escrever, para não cair no erro das generalizações? Quero falar da intolerância nos nossos pequenos gestos tão esquecidos nos textos grandiosos e eloquentes a favor da tolerância. Este texto que escrevo, portanto, tem a única missão de dar corpo a este insight que nem sei funciona para outras pessoas, além de mim mesma.

Quero pensar a tolerância a partir de seu negativo, tomando como ponto de partida ou provocação a cena de alguém que joga fora um guarda-chuva de uma forma descontrolada, quadro que mistura de raiva e indignação. A falta de tolerância é base de muito do ódio que circula pelo mundo.  E muitas vezes se fala no tema a partir de atos institucionais ou de comportamentos globalizados ou eventos sociais de grande escala. E está certo que seja assim, pois é preciso lutar pela tolerância entre os povos,  tolerância para entender e aceitar as diferenças entre grupos, tolerância para construir um mundo conectado e equilibrado.

Mas os pequenos gestos, aqueles que expressam melhor nossas subjetividades do que nossos discursos, são os que me interessam neste texto. Como se pudessem ser a sinalização minúscula, quase escondida, do que somos e de nosso grau de prática contra a intolerância. Talvez, dito melhor, seja a prova dos nove da nossa coerência.

Desconfio hoje, mais do que antes, de todo discurso grandiloquente, que não seja praticado na nossa “atuação mínima” no cotidiano. Há muitos que saem dos palanques ou das reuniões em que ideias de tolerância são defendidas e maltratam o guardador de carros, o garçom, a caixa do supermercado. Há muitos que defendem o meio ambiente e não separam o lixo. Há muitos de nós que defendemos a liberdade de expressão e criticamos aqueles que expressam ideias diferentes das nossas numa discussão em família.

Eu poderia dizer que se trata, talvez, de aferir o valor de nossa atuação no âmbito público com a que temos no âmbito privado. Mas eu ainda estaria falando em larga escala. Sartre diz, numa frase muito citada, que o inferno são os outros. Vou chamar aqui os outros de guarda-chuvas. Os outros vulneráveis, os outros diferentes, os outros que deveriam nos servir e não nos servem, os outros que deveriam nos proteger da chuva mas, ao contrário, nos deixam na mão na hora que mais precisamos. A vulnerabilidade de um guarda-chuva “imprestável” começa na hora da compra, primeiro equívoco. E a intolerância opera quando esquecemos de sua limitação e o obrigamos a agir fora de suas possibilidades intrínsecas. Para quantas chuvas nos servirá um guarda-chuva de R$ 5,00? Para que tipo de chuva nos abrigará um guarda-chuva descartável? Dito de outra forma: como podemos cobrar do guarda-chuva descartável uma atuação que lhe é impossível?

Os automóveis molham nossas roupas, os patrões nos esperam na hora imposta e não toleram nossos atrasos, nossa prisão como trabalhadores dentro do sistema nos impede de ficar em casa, tranquilos e com os filhos, quando a chuva é rebelde e violenta. Tudo se junta nesse gesto: jogamos no lixo, com ódio, o guarda-chuva indefeso. Talvez alguns de nós jogue o guarda-chuva na calçada e pise em cima, num gesto ritualístico que informa aos céus nosso ódio e decepção. Ninguém consegue jogar fora o guarda-chuva com calma, com respeito. Ele, o guarda-chuva, está morto e mal enterrado. E talvez este gesto repetido nas ruas sirva apenas a mim, que tenho pena deles. Porque eles me lembram crianças, velhinhos, cegos, os moradores de rua. E toda a classe de seres que em algum momento são tratados como pedras no caminho.

Enquanto a chuva cai, impiedosa, e o sistema não permite que voltemos para casa, as vítimas primeira de nossa intolerância serão estes objetos sinceros. Que servem como alerta para nosso exercício mínimo da tolerância e da compreensão.

 * escritora e oficineira de literatura

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