29 de janeiro de 2013

Já são cinquenta anos e em todos os vôos [nos quais estive] nenhum avião caiu. Já é motivo suficiente para agradecer.

Ser grata é uma forma de encontrar uma felicidade apaziguada. Gesto que conforta pessoas crédulas. Mas a mim soa como impotência ou falta de coragem. Falta de coragem de dizer que a felicidade é sempre remota.

Te quero ainda e não sei o que farei sem você neste país desconhecido.

E agora tenho duas horas a minha disposição enquanto aguardo o outro avião. Duas horas quase inúteis num aeroporto impessoal e desprovido de atrações. Café péssimo a um preço exorbitante. Pessoas náufragas nos atrasos dos vôos e nas expectativas.

Dia do meu aniversário e viajo rumo a uma cidade que nunca vi. Língua estrangeira que domino parcialmente. Medo da alfândega e de um retorno forçado. A mágica de Madri e Barcelona me aguarda se tudo ocorrer bem e este avião, mantendo o padrão da minha vida de viajante, não cair.

Lá, desconheço todas as pessoas e sei que encontrarei dezenas de chineses, também desconhecidos. Os chineses desconhecidos me darão algum conforto. Vê-los em todos os pontos turísticos, ruidosos e portando câmeras digitais nervosas, me fará mais inexpressiva e menos importante, sem qualquer chance de destaque ou visibilidade. No hotel, talvez surja uma pessoa que me dê informação com algum zelo. Ou, para minha surpresa, alguém que fale a língua portuguesa. Quem sabe um romeno, vestido com roupas estranhas, que lembram mais um motoqueiro que um estudante. Este romeno ficará feliz em saber que sou brasileira e apesar da diferença de idade, vai desejar conviver comigo. Juntos, riremos dos chineses amontoados nas filas de todos os pontos turísticos. Juntos, trocaremos histórias interessantes. Juntos, estranharemos o sabor de um prato típico. Mas, ao sair para um passeio já incluído no pacote, acompanhada de um grupo repleto de brasileiros incômodos, uma senhora insegura verá em mim o reflexo da filha mais nova. Sempre sou comparada a alguém conhecido.

Tenho um rosto comum que a maioria das pessoas jura já ter visto antes. E esta senhora, apegada a esta simpatia por transferência vai abusar da minha paciência durante todo o passeio, impedindo que eu tenha a liberdade necessária para ver e fotografar. Mal posso ouvir o que diz o guia. Ela fala compulsivamente. E não sei como me livrar dessa situação. Estou completando cinquenta anos e não sei como dizer não para senhoras de aparência insegura e atitudes dominadoras.

Faz calor em Madri, mas não sairemos para beber e ver as ruas ruidosas, repletas de pessoas e desejos.  O primeiro passeio será a visita ao Museo do Prado. Dessa vez os recém-casados me pedirão para fotografá-los.

Aproveito para exibir meus talentos e sugiro que façam determinadas poses, que se coloquem em determinado ângulo. Me agradecem e saem felizes, sem ouvir direito o que o guia está explicando a respeito de um quadro. Este casal vai me importunar sempre, a ponto de eu desistir de acompanhar o grupo em alguns passeios. Decidi não acompanhar o grupo. Ir sozinha para a noite de Madri me assusta e na primeira noite prefiro ficar no hotel. Tenho cinquenta anos e tenho medo. Ficar sozinha no hotel e pedir um sanduiche no quarto é o tipo de jantar que eu deveria evitar, no auge da meia idade. Deveria pagar por um jantar decente.

Mas preciso ficar sozinha. É preciso tempo para pensar nesta viagem arranjada na última hora, para fugir de uma celebração quase impossível. A impressão de que a festa de meu aniversário em família seria um desastre me intimidou e decidi fugir. Fugir em Madri me faz pensar que talvez uma festa pequena, apenas com os familiares mais próximos, seria suficiente. Amanhã preciso sair da cama com uma atitude nova e desbravadora. Mesmo que decida seguir a excursão, devo resistir e dizer não a todos que me vêem como uma pessoa adulta e solitária, uma peça avulsa dentro do grupo. Ter uma máquina semi profissional dá a impressão de que estou disposta a fotografar casais, alguns viajantes solitários como eu e famílias. Meu jeito amistoso sugere que sou tolerante. Como sou capaz ainda hoje de disfarçar meus humores?

Por Eliana Mara Chiossi

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