“O que você que?”

Por Eliana Mara Chiossi.

Semana passada dois amigos encontraram um bilhete na rua. Algo que sempre me chama a atenção, tenho vários guardados em casa. Sou fanática por achados nas ruas e sempre me provoca encontrar anotações pessoais, extratos de conta de outras pessoas, coisas assim, perdidas, mas que me levam a ter contato com alguém que provavelmente nunca verei mas que esteve no meu caminho. No pedaço de papel estava escrito:

O que você que?

Eu quero ganhar um pouco de carinho, que alguém sente e converse comigo pra saber como eu tô, o que eu sinto e por que eu sinto isso tudo. Bom, a vontade que eu tenho é de me matar ainda hoje…

assinado: Rafaela

25.10.12

Dizem que amanhã (12/12/12) é o fim do mundo. Hoje uma amiga me contou que estava sendo aconselhada a tirar dinheiro do banco, e eu ri muito porque não estou dando a mínima para essa história de fim de mundo. Acho que o mundo, habitado pelos seres humanos, está fadado a acabar de uma forma ou de outra, mas talvez de forma menos calamitosa e mais visível. Se não somos capazes de cuidar do planeta, se deixamos em ameaça de extinção até a água, que mundo vai sobrar em pouco tempo? Então, esta questão não me mobiliza.

Mas penso que o mundo acaba quando uma pessoa morre. E isso acontece todo dia, para milhares de pessoas no mundo todo. A todo momento, milhares de pessoas morrem, e o mundo definitivamente deixa de existir para elas. E existem pessoas que desejam que o mundo acabe, ainda que estejam vivas. Algumas decidem fazê-lo e se matam, para encerrar seu ciclo.

Me contava uma grande amiga a história de um suicídio que não sai da minha cabeça. Uma jovem estudante, em Aracaju, filha de pais médicos e ricos, havia planejado, junto com amigos da escola, uma viagem para a fazenda de um deles. Tudo acertado, malas prontas e expectativas demais. Inclusive porque nesta viagem ela iria acompanhada do namorado, sua primeira história de amor. Apesar de ter sido aprovada, não obteve os resultados que os pais, sempre exigentes, esperavam. Pais médicos que já projetavam para a filha adolescente a mesma profissão e o mesmo sucesso. Rigorosos, consideravam aquelas notas uma espécie de traição. Talvez, para a vida de Jéssica, os resultados medíocres em algumas disciplinas fossem o resultado do impacto da paixão nova. Os pais não sabiam da história do namorado e nem poderiam imaginar, porque seriam ainda mais rigorosos. Afinal, Jéssica não poderia se desviar dos estudos e era cobrada, diariamente, a ser excelente aluna, troféu que os pais sempre exibiam entre os amigos. Esta primeira falha não foi compreendida. E na véspera da viagem, com o boletim nas mãos, pai e mãe foram taxativos: ela não iria para a tal viagem. Não merecia. Não havia negociação. Que avisasse aos amigos. Jéssica pediu, chorou, prometeu estudar nas férias. Nem pai nem mãe se sensibilizaram. Jéssica implorou. E já chorava muito ao pedir que lhe dessem um crédito, que ela afinal merecia, que sempre fora uma excelente aluna. Não mudaram de opinião. Em certo momento, o pai disse que aquela conversa estava encerrada. Jéssica parou por uns minutos. Quieta, no meio da sala, ollhando para os pais. De repente falou: “Vou mostrar para vocês o que é que está encerrado”. E, correndo pela sala em direção à varanda do apartamento, saltou do décimo quinto andar.

Há muitos estudos sobre suicídio, há muitas produções artísticas que tematizam o suicídio, há muitas histórias de suicídio. Mas, para mim, sempre será um enigma, uma ameaça, uma sombra.

Rafaela pode ter se matado. Rafaela pode ter encontrado o carinho que procurava em outubro deste ano. Quem recebeu este bilhete, será que soube o que fazer? Será que soube o que dizer? Não sei se o mundo acaba amanhã. Penso que não. Mas, talvez para Rafaela e para tantas pessoas que chegam ao limite e desistem, o mundo já tenha acabado. A esta hora, para muitos suicidas resolutos, o mundo já tenha acabado.

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