Rede Juçara fecha 2012 trabalhando a definição de uma cadeia de valor

Com objetivo de consolidar proposta a ser encaminhada, que deve balizar as próximas ações da rede, de parceiros, gestores e órgãos públicos e financiadores, aconteceram 3 momentos de oficinas nesse ano. O último ocorreu nos dias 4 e 5 de dezembro de 2012, em Porto Alegre, denominado de Oficina de Elaboração do Plano de Melhoria da Cadeia de Valor da Polpa dos Frutos da Palmeira Juçara como estratégia de conservação no Bioma Mata Atlântica.

Esta foi mais uma etapa de um projeto que se iniciou no começo do ano e que complementou o trabalho de outras duas oficinas – uma no Rio de Janeiro (Oficina de Mapeamento da Cadeia de Valor da Polpa dos Frutos da Palmeira Juçara e priorização de Territórios), em 24 e 25 de maio, e outra também em Porto Alegre (Oficina de Construção Participativa de Diretrizes de Manejo Sustentável da Palmeira Juçara), em 4 e 5 de julho. Com participação de produtores, representantes de instituições que trabalham com o uso dos frutos da Palmeira Juçara na região da Mata Atlântica (RS, SC, PR, SP, RJ, ES e MG) e de pessoas ligadas a estruturas governamentais, como o Ministério do Meio Ambiente e de secretarias de estado, se cumpriu uma programação que resgatou os avanços dos trabalhos em rede desde 2008, perpassando pelos gargalos existentes para a produção e, assim, constituindo-se coletivamente uma visão para pautar a atuação em trabalhos futuros em todas as pontas da formação de uma cadeia de valor.

Dessa forma, é importante destacar o enfoque desenvolvido em todos os encontros no uso sustentável da palmeira, entendendo-se que a produção da polpa de seus frutos vêm num processo crescente de consolidação a partir das experiências e ações, de base agroecológica, protagonizadas por agricultores familiares e comunidades tradicionais em todas as regiões do Bioma Mata Atlântica. Isso tudo como parte de um conjunto de ações e experiências locais que tem gerado diversos resultados abrangendo aspectos sociais, ambientais e econômicos, apontando para a promoção de uma cadeia de valor que surge como elemento estratégico para o desenvolvimento local aliado à conservação ambiental.

Com o desenrolar das discussões, com os apontamentos de experiências práticas em todos os territórios e levantando-se possíveis soluções e encaminhamentos, definiu-se o objetivo de se construir uma agenda proativa com ações contínuas que permitam a constituição dessa cadeia de valor bem articulada com as realidades apresentadas. A conservação do bioma e a retirada da espécie da categoria de ameaçada de extinção – acredita-se – seriam consequências naturais dessas ações.

Sendo assim, dentre os pontos elencados como eixos geradores tanto de problemas quanto de soluções a serem descortinados ou desenvolvidos estabeleceram-se os seguintes:

– o entendimento de que o uso do fruto da Palmeira Juçara representa um produto promissor, com alto potencial de mercado, bem como  geração de trabalho e renda;

– por ser um alimento com elevada qualidade nutricional e considerado como básico, vê-se como ideal para inclusão na alimentação escolar, contribuindo com a perspectiva crescente de segurança alimentar;

– o beneficiamento dos frutos gera produção abundante de sementes viáveis utilizadas para cultivo e repovoamento da espécie em larga escala;

– sua produção gera maior estímulo à adoção de sistemas agroflorestais e mudanças nos padrões de produção para formas mais sustentáveis;

– pode integrar ainda a produção de palmito através de ciclos de desbaste em sistemas de produção com adensamento, ampliando o potencial de geração de renda e podendo contribuir gradualmente para suprir a demanda no consumo de palmito, direcionando-se ao mercado regularizado;

– por ser uma espécie de ampla distribuição no Bioma Mata Atlântica, a produção e o beneficiamento voltados aos mercados locais favorece a constituição de cadeias curtas, com menor custo de distribuição e logística;

– a legislação ambiental e as políticas de conservação existentes, hoje, são em maior parte de caráter restritivo e fiscalizador, não tendo gerado, na visão dos participantes das oficinas, nenhum resultado efetivo para a conservação da palmeira, pelo contrário, vêm criando um passivo socioeconômico cada vez maior, que contribui com a desagregação de comunidades rurais no entorno de Unidades de Conservação (de quilombolas e caiçaras, por exemplo), deteriorando e coibindo sistemas tradicionais de produção mais sustentáveis;

– e o problema da exploração clandestina do palmito permanece, muitas vezes criminalizando quem faz a produção sustentável, por este ser colocado no mesmo patamar de palmiteiros que realizam a extração ilegal e por gerar uma situação de exclusão e de formação de um mercado paralelo que facilita o envolvimento com o crime organizado.

 

Visão de Futuro

De conclusão de um minucioso trabalho que agregou visões tão diversas quanto as realidades de todas as pontas envolvidas em um trabalho em rede que reuniu regiões de estados como RS, SC, PR, SP, RJ, ES e MG, montou-se uma frase-símbolo do que se entende por ser uma visão de futuro para os trabalhos com a Palmeira Juçara: “Cadeia de Valor da Juçara, da agricultura familiar agroecológica estruturada, como instrumento de conservação da Mata Atlântica, de desenvolvimento socioambiental e de segurança alimentar e nutricional para a população brasileira.”

 

Oficina de Mapeamento da Cadeia de Valor da Polpa dos Frutos da Palmeira Juçara e priorização de Territórios

Confira como foi a primeira oficina de 2012 assistindo ao vídeo a seguir (ou clique aqui para ver no Youtube – http://youtu.be/Zlnx8Cq_8ds).

Café Biodiverso da Rede Juçara

Além do interesse em manter a Palmeira Juçara em pé e utilizar o potencial socioeconômico dos seus frutos, o que une as pessoas envolvidas com as atividades da Rede Juçara é, sem dúvida, a produção agroflorestal. Proveniente das espécies nativas do bioma Mata Atlântica, uma série de alimentos literalmente viajaram até os locais das oficinas e pousaram na mesa do Café Biodiverso durante as pausas das atividades. No vídeo a seguir (clique aqui para assistir no Youtube – http://youtu.be/kRZDaYFznYM), um dos intervalos da Oficina de Construção Participativa de Diretrizes de Manejo Sustentável da Palmeira Juçara, o pessoal se deliciou com framboesa silvestre, amendoim torrado e no estilo pé-de-moleque, bergamota, laranja, pastel com polpa de butiá, croquete de pinhão, bolachas e pãos caseiros, suco de gabiroba, jabuticaba, butiá, araça vermelho e, é claro, de juçara. Uma ação para promover a biodiversidade que está presente no entorno da palmeira, para demonstrar o que um sistema agroflorestal pode produzir e para fortalecer a ideia de que a agricultura familiar é viável e que precisa apenas de organização e apoio público para garantir sustentabilidade.


 

O Projeto

As oficinas fazem parte do projeto “Palmeira Juçara e Comunidades: manejo sustentável e promoção da cadeia de valor dos frutos”, contemplado pelo Programa PDA Mata Atlântica, do Ministério do Meio Ambiente e proposto pela ONG ANAMA (www.onganama.org.br) articulado com a Rede Juçara. Visa à construção de políticas públicas para o desenvolvimento do manejo sustentável da Palmeira Juçara (Euterpe edullis) e para promoção da cadeia de valor dos seus frutos, que são demandas fundamentais para a efetivação de ações de conservação da espécie, ameaçada de extinção, e do Bioma Mata Atlântica, reconhecido como um dos mais biodiversos do planeta e mais ameaçados – caracterizado pela sua grande extensão, ocupação por populações humanas e intenso processo de fragmentação, o bioma acumula um grande passivo social.

Nesse contexto, a agricultura familiar e tradicional vem sendo submetida a uma dupla exclusão: primeiramente por não ter sido contemplada pelas políticas públicas de modernização do meio rural a partir da década de 1970 e, em segundo lugar, por viver e se situar em áreas chave para a preservação ambiental, o que incompatibiliza a atividade agrícola à aplicação da legislação ambiental. Comunidades rurais vêm sofrendo processos de empobrecimento, desagregação comunitária e desestruturação de arranjos produtivos locais tradicionais, provocados pelo êxodo rural e mudanças no padrão de produção e consumo de alimentos. Dessa forma, entende-se que se faz pertinente a implementação de políticas públicas integrais (custeio, investimento, infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento) que auxiliem num novo processo de desenvolvimento territorial calcados no interesse destas comunidades, na produção agrícola, no extrativismo e na conservação ambiental.

A utilização dos frutos da Palmeira Juçara para produção de polpa e sementes assume exatamente posição estratégica nessa conjuntura porque, promovendo a agroecologia, pode fortalecer a permanência das populações rurais em suas comunidades, com geração de renda, inclusão social e a valorização da cultura e identidades locais. Este é um tipo de desenvolvimento que contribui consideravelmente para reduzir a pressão de corte sobre a palmeira, principalmente para extração do palmito, e para a implementação de uma agenda positiva para repovoamento da espécie e restauração de paisagens. Estes são resultados que relacionam-se intimamente à presença da polpa de juçara na alimentação escolar e mercados regionais formais e informais, que, mesmo incipientes, são uma realidade no desenvolvimento da cadeia de valor da Palmeira Juçara.

Fonte: Gustavo Türck (redação, fotos e imagens) e Têmis Nicolaidis (fotos e imagens)/Coletivo Catarse (www.coletivocatarse.com.br) – para maiores informações ou fotos com maior definição, entrar em contato pelo e-mail gustavo.turck@coletivocatarse.com.br.

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