LUGAR COMUM: A MORTE

Por Eliana Mara Chiossi.

Quem nos dirá, de quem, nesta casa, sem o saber, nos despedimos?
Limites, Borges

Não sei por onde começar este texto. Nem sei se deveria. Por várias razões, eu poderia ter dito não ao pedido de escrever sobre este acontecimento. E não fui capaz de negar. E ainda não sei o que existe dentro de mim que me faz estar aqui, diante desta página, iniciando um texto que será publicado no dia em que completo 50 anos.

Comecei pela foto, que fiz aqui no Chile, onde estou. Fomos a um encontro com amigos, ontem, e havia no quintal esta pilha de manequins, já que o dono da casa fabrica e vende manequins. A disposição deles me assustou, porque vi algo semelhante nas fotos da tragédia das mortes em Santa Maria. E vi esta manequim mulher, olhando para a frente, como se estivesse pronta para ir para o caminhão da morte, mas não ainda. Seu corpo e seu olhar estão querendo fugir, estão querendo não ver. Talvez essa manequim seja eu. Estou acompanhando quase tudo que está acontecendo em Santa Maria através dos noticiários e das redes sociais. E preferia não ver, preferia não ter de saber.

Esta tragédia entra na minha vida no momento em que decidi sair de Porto Alegre para estar comemorando meus cinquenta anos num país que eu ainda não conhecia. Decidi também que faria desta viagem um documentário intimista, um misto de diário de viagem e confissões. Propus a Fran Rebelatto que me acompanhasse para filmar e fotografar, e ela aceitou. E, desde que saímos de casa, tudo tem sido surpresa e emoção. Até que, no dia 27 de janeiro, soubemos do que havia acontecido em Santa Maria. Desde então, esta tem sido a temática de nossas conversas e até de nossos silêncios.

Fran Rebelatto, que é fotógrafa e realizadora audiovisual, viveu em Santa Maria por 10 anos. Estudou na universidade federal, morou nas residências estudantis. Conhece a cidade e conhece intimamente a rotina, a alma, o modo como a cidade acolhe estudantes que vêm de longe para estudar e viver lá. Tem amigos, tem família, tem histórias em Santa Maria. Está abalada porque, acima de tudo, a cidade foi seu abrigo por muitos anos. Foi seu espaço de descobertas, de amadurecimento, de aprendizagens. Santa Maria é uma das casas de Fran.

Eu sou paulistana e, desde que casei, larguei minha cidade natal e aprendi a viver nas cidades alheias. Tive de aprender a tentar fazer de cada lugar em que vivi uma casa para mim e meus filhos, que talvez tenham sofrido com tantas mudanças. Vivi, quando ainda estava casada, em Sergipe e depois em Porto Alegre, de 1994 a 1996. Depois, fui para Salvador onde estive até 2011. Decidi, por motivos muito pessoais, mudar de cidade e de vida e vim para Porto Alegre, onde estou até agora. Porto Alegre tem sido minha casa. Quando cheguei, fui acolhida por Richard Serraria e sua família. Richard havia sido meu aluno em 1995, na época em que fui professora substituta na UFRGS. Depois, para procurar um lugar para alugar, fiquei na casa de Marilia Barcellos, grande amiga e a primeira amiga que me disse qual bairro combinava comigo e no qual eu deveria morar, disse isso como um oráculo, porque hoje vivo no Bomfim. Marilia Barcellos, que é professora na Universidade Federal de Santa Maria há quase um ano, me contou de seu processo de fazer de Santa Maria sua casa. Estou devendo uma visita para ela, na cidade que é dela agora, e nunca fui para Santa Maria. Nunca senti o cheiro da cidade, o tal do vento norte da cidade, nunca tomei um chopp com a Marilia num dos bares que ela gosta.

Se eu não tivesse escolhido voltar para Porto Alegre, esta tragédia me abalaria. Mas talvez menos. Se eu não tivesse viajando com Fran Rebelatto, eu não teria como saber o que sei sobre a cidade, e minha tristeza seria menos próxima dos relatos que tenho ouvido e lido.

Mas entendo muito a dor da Fran, aqui do meu lado, nestes dias no Chile. E, é claro, é maior do que a minha, porque minha empatia é mais generalizada, é empatia pela dor humana, mas não tanto pela cidade e sua história, com a qual tenho pouquíssimos vínculos. Então, para falar do que está acontecendo em Santa Maria, eu serei mais honesta se falar de mim como mãe. E como isto me liga aos pais que perderam seus filhos. E do medo terrível que tenho de que meus filhos, que não moram comigo, sofram algum acidente.

A empatia que me liga a esta história também tem outro lado. Sou professora, vi alunos me confessando sofrimentos, tentei ajudar alunos durante meus quase 30 anos de atuação como professora e perdi alguns alunos. Mas nunca vivi uma situação tão dramática como esta e como estão sentindo os professores da Universidade Federal de Santa Maria.

No começo da viagem de Porto Alegre para o Chile, que fizemos em três partes (de Porto Alegre a Buenos Aires e de Buenos Aires a Mendonza e, depois, de Mendonza para Santiago), vendo a imponência da cordilheira, estávamos alegres e confiantes num filme que estamos fazendo ao sabor do improviso, do amor pela arte, da vontade de falar de mulheres e assim falar também das pessoas que encontramos quando nos deslocamos, quando viajamos. Quando deixamos nossa casa e aceitamos o desafio de estar nas fronteiras. Estávamos cansadas da primeira viagem de ônibus de Buenos Aires até Mendonza, porque o ônibus era desconfortável e parava muito. Cansadas, compramos passagem para seguir viagem e paramos num café para comer e esperar o horário do outro ônibus. De repente, Fran comentou que seria bom poder conversar com uma senhora, sentada ao lado da janela do café e lendo um livro. Com roupas e acessórios de quem estava acampando, aparentando quase sessenta anos. Decidimos que eu a abordaria, para saber se ela poderia conversar conosco, se aceitaria ser filmada, ser fotografada. Era Sílvia.

Sílvia fechou o livro e imediatamente me convidou para sentar. Fran chegou logo depois. Eu disse a ela que um dos motivos da viagem é que eu estava mudando radicalmente minha vida e estava muito abalada com a chegada dos cinquenta anos. E ela falou que sentia que, apesar de ter sido bom ter feito cinquenta anos e estar ativa, era dificil em muitos aspectos. Falamos de invisibilidade, de desgaste do corpo, de um futuro mais curto a nos esperar, de perdas, de nossos filhos, de nosso desejo de ter uma vida com mais qualidade, de dar sentido a nossas vidas. De fazer as melhores escolhas. De escolher melhor como viver, já que estávamos num momento de passagem para a segunda etapa. De maneira otimista, se vivêssemos até os cem anos, estaríamos na segunda fase, na meia idade.

Mas esta nossa conversa foi regada a um choro comum, com as mãos dadas e abraçadas. Algo ali nos comovia, maior do que nós mesmas. E não sei descrever o que exatamente acontecia ali. De repente, Sílvia me deu de presente o livro que estava lendo. Chorei ainda mais porque era meu primeiro presente de aniversário. E o título do livro, do jornalista Tomás Eloy Martínez, me deixou muito mobilizada. Sílvia nos contou que estava saindo para uma parte da Argentina, mas que antes visitara o Monte Aconcágua. Não, ela não escalou aquela altura imponente. Mas acampou abaixo do monte, para viver a sensação de ter estado lá. Sílvia quer fazer tudo que desejar fazer para se sentir viva. Nos despedimos, e fiquei olhando aquele corpo franzino, carregando a bagagem pesada de mochileira. Sílvia partiu, mas ficou comigo, dentro do meu coração, dentro da minha memória.

Depois de Sílvia, outras mulheres apareceram e nos deram suas histórias: Grace, Cristina, Georgina. E ainda vamos visitar outras, que estão como migrantes no Chile, vivendo uma vida sofrida, tentando estar em casa numa terra que não lhes pertence.

O título do livro é: “Lugar comum: a morte”. E é muito irônico que tenha sido este livro meu primeiro presente. E que durante esta viagem de celebração da vida e do amor pela arte, tenha acontecido a tragédia em Santa Maria. Isto faz com que Santa Maria entre no filme, como entrou no coração de Fran e no meu. E nas nossas conversas, a todo momento.

Disse num texto no Facebook que sofri uma queimadura grave em 2009 e dizia para os amigos que se tivesse de criar um personagem ou fazer um conto sobre queimadura, eu me sentia mais preparada para isso, pois tinha chegado muito próxima de uma dor lancinante, de um processo de recuperação doloroso e diário. Isto é meu ser, minha essência: sou escritora e todas as histórias me interessam. As histórias felizes e as histórias tristes. Mas as histórias que envolvem perda de filhos me apavoram. E eu escrevi dois ou três textos sobre este tema, e quase não tenho coragem de reler.

Muitas pessoas estão escrevendo e falando coisas tão bonitas, tão comoventes sobre Santa Maria, que me deu uma enorme covardia escrever este texto que pouco acrescenta. Só posso falar de mim. Para ser honesta, para compartilhar minha verdade, me sinto como qualquer mãe de Santa Maria que chegou para ver a lista dos nomes dos mortos e viu que seu filho ou filha não estava ali e que, apesar da solidariedade aos que perderam seus filhos, sentiu um alívio, chorou um choro misto de alegria e culpa. Um choro que mistura pena pelos que perderam os seus filhos e um choro de alívio porque seus filhos estão vivos. Este é um conflito, e ninguém pode negar que ocorre.

Em 2007, um avião saiu do Brasil e caiu. Morreram todos. Isso foi num domingo. Na segunda de manhã recebi um telefonema do meu ex-marido quase chorando. Me assustei. E ouvi ele me contar que estaria naquele vôo, que, de última hora, sem saber o motivo, pediu para ficar e não participar do evento que aconteceria em Oslo, na Noruega. Ele chorava, porque por um triz estaria morto. Meus filhos, por um triz, estariam órfãos. Eu, por um triz perderia um grande amigo. Nas revistas, sairam fotos de todos os mortos. A foto de meu ex-marido não estava entre elas. E isto foi um alívio, uma grande alegria.

A morte é nosso terreno comum, nossa morada certa, é para onde caminhamos todos os dias da nossa vida. Na hora da morte de alguém, sempre pensamos na nossa vida, no sentido que há no modo como escolhemos viver. Neste momento tão trágico, tão horrível, tão absurdo, devo confessar que quero morrer, sim, antes dos meus filhos. Porque, se alguma coisa fatal acontecer para eles, a vida para mim deixará de ter qualquer sentido.

E talvez isso me aproxime tanto de todos os pais e mães que perderam seus filhos para este lugar comum que nos liga desde que nascemos. E eu devo confessar que meu coração está dividido entre o choque, a solidariedade e o alívio. E espero que não me culpem por isso. O livro que Sílvia me deu me liga a ela. Sílvia tem um filho e teme, diariamente, pela sua vida, deseja, diariamente seu bem-estar. E, certamente, como eu, pede que, existindo Deus, ele seja gentil e deixe nosso filhos em paz e nos leve antes.

Fecho este texto com um poema que fiz e tenho sempre um medo enorme de reler, mas para explicar que sinto uma imensa solidariedade pelos pais que perderam seus filhos por assassinato – porque foi isso o que aconteceu em Santa Maria. Por irresponsabilidade, ganância e desrespeito à vida, tantos jovens perderam o seu futuro.

Régua

Seria do tamanho de um soco no estômago. O tamanho de um soco, vindo
de mão muito grande e bruta, no estômago de um bebê. Soco bruto e grande
no estômago de um bebê prematuro. Seria do tamanho de uma agulha
grossa, furando um olho. O tamanho de uma agulha grossa e enferrujada,
furando o olho surpreso. Seria do tamanho de uma bala quente, estourando
os miolos da mulher assustada. Seria do tamanho de um estupro de
meninas vítimas da guerra. Uma menina apenas, estuprada por vários
soldados quentes, munidos de socos, calor e balas. Seria uma calda quente
despejada no ouvido. Uma calda quente, no ouvido, tortura para durar
horas. Ouvido estourado, miolos quentes, tortura despejada, meninas,
bebês, olho furado. Seria uma dor tão grande quanto um corpo vivo sendo
esquartejado, enquanto vivo. Ou, então, uma lista infinita de dores que cabem
na imaginação e na realidade humana. Nada poderá medir a dor que você
vai sentir quando seu filho for assassinado.

One thought on “LUGAR COMUM: A MORTE”

  1. É um absurdo desejar tão pouco, mas a essa altura do campeonato, com tanta violência e descaso, o que desejo para o meu filho é que ele sobreviva ao trânsito, às drogas, aos assaltos, aos inúmeros erros do nosso dia a dia.
    Temos tudo para ser gente, mas sem sombra de dúvida estamos nos transformando em bonecos, manequins alquebrados abandonados em algum lugar que era para ser um jardim.
    Muito bonito o seu texto. É um texto dolorido de se ler, por razões óbvias, mas é precioso e honesto.
    beijoss

    Lelena

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