Ponto Mínimo

Por Eliana Mara Chiossi.

O sol nas bancas de revista
me enchem de alegria e preguiça
quem lê tanta notícia?

Hoje acordei com a imagem de um objeto. A partir dele queria escrever um texto, mas não consegui lembrar o nome. Isso tem me acontecido com alguma frequência. Objetos simples, de uso cotidiano, fogem do meu vocabulário. Isso me irrita e me deixa sem sossego. Até que o nome volta à mente e é um alívio. Freud estudou este fenômeno em algum dos seus textos. Se bem me lembro, é quando fala dos lapsos. Hoje acordei pensando num compasso.

Pensando na imagem de mim mesma como um ponto, a partir do qual tudo gira, isto que gira é um compasso. O compasso traça um, dois, vários círculos a partir de mim. E me liga a vários outros pontos que estão na área que circunda o ponto. Estes outros pontos são pessoas, fatos, objetos, pensamentos, emoções, afetos. Tudo que acontece comigo, enfim. E também o que não acontece. Meus sonhos, meus desejos, meus medos, meus amores secretos não realizados não acontecem em realidade, mas estão em mim.

Vivi metade da minha vida em São Paulo, minha cidade natal. Seis anos em Aracaju. E dezesseis anos em Salvador. Pensando no compasso girando em cada cidade que vivi, obviamente que as conheci parcialmente. Em São Paulo, imaginei fazer parte de uma comunidade, a dos “paulistanos”. Mas, depois de passar muito tempo em Salvador, estava quase fazendo parte da comunidade imaginada dos soteropolitanos. Hoje vivo numa cidade em que a questão da identidade regional é muito forte. Há um forte movimento em torno do “ser gaúcho”. E isso já me causou alguns problemas, já me deixou irritada algumas vezes, já me deu vontade de ir embora. Hoje não mais. Simplesmente alguns acontecimentos me fizeram entender que posso passar por isso sem ser afetada. Gosto de muitos gaúchos que conheço, desgosto de outros tantos, mas, na média, estou bem nesta cidade. Aqui conheci pessoas incríveis, raras, preciosas. E as que estão ao meu lado são suficientes para seguir e seguir bem.

Hoje fui ao centro da cidade, fazer uma tomografia dos dentes. Depois segui por uma rua do centro, a Alberto Bins, em busca de uma mochila adequada para sair com minha câmera fotográfica. Em algum momento, estava num ponto da cidade onde nunca havia estado e isto me causou desconforto. Cheguei a ter um pouco de medo. E fiquei aliviada ao retornar para a área que conheço e por onde consigo caminhar tranquila.

Nasci e vivi em São Paulo por 25 anos. Vivi quase vinte anos em Salvador. Assim como a maioria dos paulistanos e dos soteropolitanos, não conheci essas cidades totalmente. E Porto Alegre é uma cidade que conheço, a cada dia, um pouco mais. E há momentos em que sinto um enorme prazer de conhecer lugares que me agradam, como o Bar Odeon, por exemplo. Ou como a Iha da Pintada, que pode ser considerada outro município, mas é Porto Alegre para mim. Fui até Itapuã. Passei um dia maravilhoso lá. Já descobri um cemitério bem pequeno, em Belém Velho.

Já aproveitei o calor para tomar sorvete na barraca 40 do Mercado Municipal e lá também já comi um peixe bom, almoçando com amigos.

Sou um ponto, e Porto Alegre gira em torno de mim. É o território oficial onde minhas emoções estão localizadas. Porque em Porto Alegre está minha rua, onde está meu prédio, onde está meu apartamento, onde está meu quarto, onde está minha cama, lugar que abriga meus momentos de choro, sonho, prazer e alegria. Minha cama, onde muitas vezes coloco livros, celular, cadernos, papéis, fotografias.

Uma cama pode ser um lar. Minha mãe dizia, quando eu chorava aparentemente sem motivos: “Vá chorar na cama que é lugar quente”.

A cama é o lugar onde, muitas vezes, desligo meus botões e paro de pensar no mundo.

Chávez morreu. O mundo espera que saia uma fumaça branca que confirme que temos novo papa. E outros acontecimentos importantes seguem o curso da vida macroscópica, da vida que é manchete de jornais.

Nesta terça-feira nublada, estou feliz porque voltei para casa, depois de andar em ruas estranhas de Porto Alegre e encontrei minha cama no mesmo lugar. Lugar seguro, lugar quente, lugar que conheço. Habito minha cama como se ela fosse minha ilha. Uma ilha quadrada, porque estou dentro de um quarto quadrado. Com janelas para outros apartamentos e uma réstia de visão da rua. Os ruídos da cidade chegam aqui amortecidos. Mas ouço: latidos, buzinas, choro de crianças, algazarra no intervalo da escola, ônibus, vento, chuva forte. Minha cama mora em Porto Alegre. Mora comigo. Somos companheiras. Minha cama acolhe meus sonhos. E até os pesadelos. Gosto do que vejo ao redor dela. E fecho os olhos para imaginar círculos maiores, vou girando o compasso e vejo o supermercado, a locadora de vídeos, a minha livraria preferida (a Palavraria), algumas vizinhas amigas, o parque da Redenção, a Venâncio Aires, a João Pessoa, a cidade baixa, onde gosto de ir ao cinema. E assim, se quiser, posso chegar até o aeroporto, que me acolhe nas minhas chegadas e partidas desta cidade que é minha agora.

Não estou interessada em notícias hoje. Meu compasso está girando em torno de pontos mínimos, pontos de afeição. Estou mais calada. Entretanto, cheguei em casa repleta de cenas, de imagens, de conversas e ruídos que ouvi no Centro. Vida ruidosa da cidade. Vida pulsante da cidade. Vida inexplicável da cidade. Pessoas apressadas, ladrões à espreita, policiais, hotéis, lojas, bares, histórias privadas tornadas públicas quando falam alto no celular. Cheguei em casa e parei para escrever. Mas estou agitada. A cidade está em mim. Não tenho medo de estar entre porto-alegrenses. São todos como eu: humanos e pecadores. Que o novo papa chegue, sinceramente, não me interessa. O destino da Venezuela e da América Latina será alterado pela morte de Chávez, e eu deveria estar interessada por isso. Mas hoje não. Hoje peço que me deixem ficar aqui, no ponto mínimo que me abriga. Minha cama, meus desejos e meus sonhos.

Foto da capa: Eliana Mara Chiossi

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