A arte aproximou, e a morte reuniu

Por Eliana Mara Chiossi.

Perry Smith, Truman Capote e Philip Seymour.

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O ator na pele de Truman Capote: Oscar (legenda da foto que foi divulgada pela Veja)

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Truman Capote: encontrado morto em sua casa, morre aos 59 anos, por overdose de barbitúricos e álcool (foto encontrada na página do Facebook dedicada ao escritor)

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Perry Smith: morte por enforcamento, aos 37 anos (http://www.findagrave.com/cgi-bin/fg.cgi?page=gr&GRid=23007)

Esse final de semana foi trágico para o cinema e a arte. Aqui no Brasil perdemos, de forma trágica, Eduardo Coutinho, considerado como um dos melhores e mais ousados documentaristas do país (e com certeza também do mundo). No seu apartamento, no Rio de Janeiro, foi esfaqueado até a morte pelo próprio filho, que também tentou matar a mãe. O filho sofria de esquizofrenia. Com 80 anos, Eduardo Coutinho mantinha 3 projetos em andamento.

Em seu apartamento, em Manhattan, Philip Seymour Hoffman foi encontrado morto, vítima de overdose de heroína. Segundo a polícia, pode ter sido um tipo de substância mais letal adicionada à heroína. Seymour lutava contra a dependência de drogas há vários anos.

Estou trabalhando num projeto sobre o livro A Sangue Frio, escrito por Truman Capote, e passei a semana passada e todo o final de semana relendo o livro e vendo o filme, me detendo nos detalhes, para escrever uma resenha. Decidi ver os extras, e há uma parte onde Seymour fala do processo de “vestir” o personagem Truman, e vi imagens paralelas onde são mostradas cenas da vida de Truman que aparecem no filme e como são interpretadas por Seymour. É de dar arrepios.

Decidi que seria meu tema para a resenha da semana. Mas não sabia por onde começar nem como caminhar no texto. Até que entendi que há um elo muito forte entre Perry Smith – um dos assassinos da família Clutter, que tem tratamento especial no livro -, Truman Capote – que garante a posteridade de Smith – e Seymour, que ganhou seu primeiro e único Oscar em 2006, ao fazer exatamente o papel de Capote, no filme baseado neste mesmo livro – uma obra que deixara Capote famoso e criara, então, o jornalismo literário. Ali, Capote tenta entrar na pele do criminoso, que demonstra mais humanidade, que é melancólico, que não parece feliz. Em uma de suas frases, Truman afirma: “apenas imbecis e doces idiotas são felizes”.

Perry Smith teve uma infância ruim, e depois nada em sua vida pôde ser chamado de felicidade. Era deslocado e solitário. Frustrado porque não foi possível realizar suas aspirações artísticas como violonista e cantor. Desenhava muito bem. Consumia aspirina em excesso devido a um acidente que sofrera. A cirurgia feita o deixou como sequela dores intensas e diárias. Bebia muito.

Truman viveu intensamente o assassinato da família Clutter. Assim que leu a notícia, ligou para seu editor e disse que sentia algo de muito forte naquela tragédia numa cidade do interior. E que estava disposto a fazer algo novo. Parece que houve uma premonição de que seria possível realizar seu projeto de não ficção com o crime hediondo contra uma família pacata.

Ficou na cidade até o momento do enforcamento dos assassinos. Com a publicação do livro, que foi um sucesso, ficou rico e famoso, mas nunca mais foi o mesmo. E nunca mais conseguiu publicar algo relevante. A imersão na história e, mais ainda, a imersão na vida de Perry Smith tocaram forte e modificaram a vida de Truman Capote e certamente influenciaram em seu final.

Seymour sempre se destacou em cada filme que fez, foi indicado ao Oscar três vezes como ator coadjuvante e finalmente recebeu o Oscar pela sua personificação no filme Capote. Há pouco material sobre detalhes de sua vida, mas ele declarou que sempre lutou com a dependência de drogas e que gostava de todas.

Num site sobre ele, encontrei um trecho que me ajudou a conectá-lo a Perry e Capote: “No mês passado, esteve no festival de Sundance, em Utah, para a pré-estreia do thriller ‘O Homem Mais Procurado’, em que interpreta o espião alemão Gunther Bachmann”. Na ocasião, ele disse à Reuters que se identificava com a personalidade de Gunther, um homem que, motivado pela vergonha de um fracasso interior, se dispõe obsessivamente a capturar terroristas pelos meios que fossem necessários. (http://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/noticias/corpo-de-ator-philip-seymour-hoffman-e-submetido-a-autopsia)

A vergonha de um fracasso interior talvez seja uma das linhas que ligam esses três artistas. Por estranha coincidência, coloquei como expressão de busca na internet morte de Capote, porque era isso que eu estava procurando. Nos primeiros resultados só aparecem referências a Seymour…

Cada um a sua maneira foi vestindo a pele do outro, porque era, por assim dizer, semelhante. Esta vergonha interior, esta afirmação de que apenas os imbecis são felizes e a coincidência de que cada um, a seu modo, buscou definitivamente a prórpia morte. Perry, segundo descreve-se, teve chances de sair da casa dos Clutter. Em suas palavras finais, antes de ser executado, teria dito: “Desculpa”. Já Dick, o outro assassino, declarou: “Agradeço a vocês que estão me mandando para um lugar melhor que este”.

Se, ao invés de enforcar Perry, dessem tratamento médico e psiquiátrico, talvez algo diferente surgisse. E isso mudaria a decisão de Capote num momento de vazio, de frivolidades e bloqueio criativo? E como entender o ato de Seymour, envolvido em vários projetos e pai de três filhos?

Não há nada que se entender. Nem para julgar. Mas é certo que estes homens melancólicos deixam este mundo menos bonito. Que tenham encontrado, conforme disse Dick, um lugar melhor que este.

Dedico este texto ao grande mestre Giba Giba, que faleceu no dia 03 de fevereiro.

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