Zabriskie Point: olhos cansados de ver e ouvir demais

Por Eliana Mara Chiossi.

Um texto, se escrito de acordo com a lógica convencional, tem início por uma letra maiúscula e termina com um ponto final. Um texto curto pode ser comparado a um voo doméstico que tem cidade de origem e cidade de destino. Posta a comparação, já não serve. Se o voo tem uma ou mais conexões deixa de ser curto. Ocorrendo atrasos, a duração se altera. Os atrasos podem ser causados por causas técnicas, meteorológicas, catastróficas, terroristas ou de causas não catalogadas. O caminho de um texto pode passar por uma série de turbulências, tantas quantas estiverem dentro do corpo do autor.

Disposto a ler o mundo, sai o escritor a observar o que acontece ao seu redor ou ao redor do mundo em que vive. A dimensão dos fatos oscila entre o horror e o sublime. Enquanto um bebê nasce nos braços de pais amorosos, um menino é assassinado pelo próprio pai. No mar inspirador e distante jazem corpos desaparecidos de um avião que sumiu do mapa.

O escritor encontra, na frente da garagem de um prédio, marcas azuladas de pneu. Ele sabe que o carro passou por cima de algum trecho com tinta azul. Mas prefere inventar a história de um carro mágico que voa, só pode sair à noite e tem pneus azulados. Os fatos pesam. Os fatos têm realidade demais. A arte liberta o fato para sua exposição plástica: fatos voadores, fatos azulados. Se não for morbidez, que interesse é possível demonstrar aos detalhes de um assassinato macabro?

Uma parte do meu corpo reclama e me leva a sessões frequentes de fisioterapia. Colocam os aparelhos que vão estimular com calor e eletricidade a parte específica. A máquina faz sua parte. A fisioterapeuta bem jovem, com voz delicada, fica próxima para qualquer necessidade. Cobre meu corpo com uma manta, para me manter aquecida. Diz que posso aproveitar e relaxar, mas na sala há uma televisão com a Emissora Dominadora ligada. Saem outros pacientes. Somos quatro: eu e três fisioterapeutas jovens. Eu aguardo. Eles estão com seus aparelhos celulares. Falam entre si dentro da sala e falam entre si pelo Facebook. Em alguns momentos, saem da sala, mesmo estando ali. Estão concentrados, digitando. Têm os olhos estranhos. Partiram. Estou sozinha. Eu, as formigas elétricas e a televisão. Minha cabeça viaja. Chego ao Rio de Janeiro, dias atrás.

Estou visitando minha filha e meu neto. Deixamos Miguel na escola. Eu e Gabriela vamos ao Shopping Tijuca para resolver algumas coisas obrigatórias. Depois, tomamos um café enquanto colocamos a conversa em dia. Trocamos nossas alegrias, angústias, dúvidas, piadas e alguns ressentimentos contra pessoas comuns. Estamos saudosas. Não estamos dispostas ao consumo. O clima temperado do ar condicionado ajuda. Decidimos fazer manicure e pedicure. Ao chegar, o canto das sereias aparece e nos oferecem o Spa dos Pés. Estamos felizes. Aceitamos. Um pouco mais caro. Tudo bem. Deve valer a pena. As poltronas são maravilhosas. Rimos. Conversamos. Chega a hora do tal do Spa dos Pés. Começa. Não sentimos nada. Termina. Ué? É isso só? É. Respondem as funcionárias. Na hora de pagar, reclamo. As funcionárias que nos atenderam estão por perto, temerosas. Mas peço para falar com a gerente, que demonstra atenção e me ouve com polidez. No entanto, percebo que na sua resposta há uma intenção de punir as funcionárias. Aí, perco a tolerância e digo que estou reclamando contra ela, que propôs um pacote, com pouco produto e pouco tempo, para economizar e que pode ser acusada de fazer propaganda enganosa. Sugiro que retire ou modifique o modo de divulgar a promoção. E elogio as funcionárias. Percebo um alívio no ar. Talvez mais do que alívio.

Ao descer as escadas, eu e minha filha pensamos que aquilo tudo não faz diferença para nós. Nem para ninguém. Talvez ficar horas num shopping tire o juízo das pessoas. Talvez a televisão ligada todo o tempo. Talvez o Facebook onipresente. Não o suporte e a mídia em si, mas nós e nossa forma de sucumbir. Eu e Gabi, para tirar o humor daquilo, pensamos que, se questionados, os pés diriam ter gostado. Afinal, era o Spa dos Pés. Qual será o tempo dos pés para gostar de um spa?

Um shopping desnorteia, a televisão sempre ligada desnorteia, a rede social na qual estamos sempre ligados desnorteia. Não tenho a menor ideia de como responder a essa pergunta. Por que será que estas sereias nos agarram tão rápido? Obviamente, aqueles que resistem vão dizer que é possível resistir. Luxuosa exceção. Sempre guardo a cena final do filme Zabriskie Point. Explosões de artigos de consumo e também de livros. Na tela grande, é de muito impacto a visão das explosões sucessivas e o desfile dos objetos que boiam a nossa frente. Tudo está estilhaçado, desafiando nossas crenças e nossos afetos. Mas ninguém tem forças para chegar até a sua casa e encontrá-la demolida. Algum abrigo é necessário mesmo quando o abrigo signifique a nossa própria prisão.

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