“Não vejo porquê o espanto!”

[Juarez Negrão / Ocupa Mídia]

“Acerca das polêmicas criadas em cima do episódio, não vejo porquê o espanto!

Sou de Porto Alegre (nascido e criado), e todo santo dia tenho de lidar com as dificuldades criadas pelo racismo estrutural dessa sociedade que é uma das mais conservadoras, violentas e segregadoras do Brasil! Nos deparamos com as consequências do racismo estrutural seja no desemprego, seja na violência diária das favelas, seja no genocídio disseminado de nosso povo, nas dificuldades econômicas,etc. O que acontece é que toda essa catrefa que se beneficia dessa estrutura podre (e provavelmente façam parte de algum grupo neofascista que pratica violência contra gays, negros e outras minorias), resolveu assumir o seu ódio publicamente.

Para quem acha que existe algum tipo ingenuidade ou provocação no fato de eu ter permanecido no parque, estava apenas passeando em um ambiente público (como faço de rotina todo domingo), e vestindo roupas que costumo andar. Não tenho nenhuma vocação para mártir e fiquei assustado com tamanha ira pelo simples fato de eu estar usando uma camisa vermelha com a estampa do Che Guevara e um boné da CUT!

Essa gente que sai para a rua com uma bandeira brasileira e quer falar em democracia deveria ao menos saber respeitar o meu direito de ir e vir numa praça pública, seja de vermelho, branco ou amarelo. Dizem ser democratas mas no fundo são regidos por um ódio racial desmedido e uma intolerância sem fim…

Porto Alegre continua a viver as hipocrisias da “ditadura racial Brasileira” e certamente é a pólis que impõe mais dificuldades aos rompimentos segregadores implementados nas instituições executivas, legislativas e judiciária, e as consequências dessas distorções acabam por favorecer e fortalecer ao aumento desses grupos que guiam-se pelos mais nefastos e deploráveis sentimentos!

Posso afirmar que foi uma das experiências mais desagradáveis de minha vida, apesar de vivenciar todas as nuances dessa estrutura racista formatada nas relações sociais, nunca vi tanto ódio direcionado, ao ponto de temer ser linchado ou agredido em praça pública.

Nunca acreditei nessa “democracia branca” que permite aos neofascistas e nazistas aqui do Sul fazerem o que bem entendem sem que haja punições contra suas loucuras! Acredito na resistência e nas lutas sociais pelo rompimento dessa estrutura racista do estado como única forma de tentar melhorar esse processo do qual são vitimados 83 jovens negros por dia nesse país, e no domingo eu seria só mais um.

Ser negro no Rio Grande do Sul não é diferente do que ser negro em qualquer lugar desse mundo, mas posso afirmar que as peculiaridades criadas por essas estruturas racistas nos credenciam a estar entre os seguimentos sociais que mais sofrem com a violência e a segregação no planeta!

O que mais me assustou foi ver e constatar que existiam pessoas negras e até descendentes de originários fazendo coro junto a esses filhotes da KKK como se não se importassem com as consequências sociais caso sejam efetivados o que eles reivindicam, com a volta do regime militar e o impeachment da presidenta eleita. Querem devolver o poder institucional para quem tanto amordaçou, matou e torturou os povos e nações desse país!

Estão tentando criar “falsas polêmicas” em cima de problemas gerados pela corrupção que existem desde que o Brasil é Brasil e que foram sustentados e modernizados pelo regime durante muito tempo (e que hoje em dia continuam a engrossar a conta bancária dos militares pensionistas que recebem verdadeiras fortunas do estado Brasileiro), para tentar articular um golpe de estado e atrapalhar as melhorias que precisam ser feitas para termos um país menos injusto!

Acredito que a reforma política seja uma das maneiras de tentar um certo equilíbrio nas correlações de forças parlamentares para equalizar as desigualdades institucionais e por consequência diminuir o ímpeto neofascista que se espalha pelo Brasil, do contrário corremos o risco de retroceder a práticas que podem transformar o Brasil no palco de uma guerra civil declarada, tendo no racismo sua principal justificativa!
Abaixo a ditadura racial brasileira, cotas parlamentares já!”
Juarez negrão
Diretor presidente da Rede Macumba de Comunicações

Juarez Negrão por Ocupa Midia

juarez responde

Fotos por Ocupa Mídia, nas manifestações “pacíficas” de 15 de março.

5 thoughts on ““Não vejo porquê o espanto!””

  1. Olá Juarez!
    Eu como participante da manifestação do último Domingo LAMENTO imensamente o episódio. Concordo contigo que isso não faz parte da democracia que almejamos!
    E em nome da maioria dos manifestantes te peço desculpas! Sempre há uma minoria extremista (de ambos os lados) que estragam tudo!!
    Mas não posso concordar com certas palavras que usastes… “Fascismo, Democracia branca…”
    Usando tbm, da nossa democracia, me permito te dizer que esta é uma manobra “velha” de vitimização de classes! SOMOS TODOS IGUAIS!!!! Branco, preto, amarelo…
    E se eu não posso me manifestar contra a corrupção, o roubo de R$88 MILHÕES da Petrobrás, desemprego, e mesmo pagando 40% em impostos sob o que ganho… E não recebo de volta em saúde, educação, e segurança… Se você trata tudo isso como manifesto de elite, coxinhas e… Então, não reclame de “falta de democracia!”
    Obrigada!

  2. Meu chapa, eu e muita gente não tenho nada contra pessoas com cor de pele diferente da branca, ou seja, da raca negra.
    O que me deixa PUTO, é os negros quererem levar vantagem em tudo, COTA em tudo que é esfera da sociedade, porque? tu ta querendo dizer que o negro não tem capacidade de conseguir galgar certos cargos ou vagas nas universsidades por conta propria? deste jeito meu amigo, o vc esta se auto descriminando, quando tu comessa pedir Cota em tudo que e lugar tu ta te excluindo da sociedade que luta todos os dias para ganhar o seu espaço, seja o cidadao preto branco ou amarelo…
    quanto a voce estar na rua em pleno dia 15.03.15. com bone da cut e camiseta do che guevara, eu acho que tu pediu para levar chumbo, pois tu teve o dia 13.03.15 para fazer isto. Não no dia em que todo o Brasil foi as ruas contra o comunismo que o PT ta tentando imperar por aqui.
    E me desculpa pois se depender dos Brasileiros de verdade que foram as ruas no dia 15 as ideias de che guevara não irão funcionar por aqui, tu que uma Cuba? va para Cuba. pois o Brasil ninguem vai transformar em uma Cuba…

  3. Juarez acho que tens razão em muitas coisas que escrevestes, porém o racismo não parece te muito a ver com a situacão comentada. Participaste de uma espécie de GRE-NAL usando a cor errada de camiseta! Desculpe, mas em POA isso é mais importante que a cor de pele…

  4. As ofensas do Juarez são direcionadas àquelas minorias de extrema direita que são sim racistas, fascistas e qualquer outro adjetivo que o Juarez quiser usar.

    No dia 15 de março estas minorias provaram não ser tão minoria assim. Eu testemunhei mais de um grupo neo nazista no meio da manifestação. Estou falando de grupos com ocorrências policiais registradas e de pessoas que respondem processos judiciais e que são investigadas pela polícia civil, e que estavam de verde e amarelo lá no meio.

    Não estou entrando no mérito do ato de ser manifestante de direita, porque nas grandes manifestações da esquerda CONTRA O GOVERNO de 2013, também tinha de tudo nas ruas. Nada mais óbvio que uma manifestação de direita também abarcar tudo quanto é imundícia da extrema direita.

    E não, não somos todos iguais. Só quem não anda pela cidade, não entra nas vilas, não OUVE mais do que fala é que não entende a dicotomia entre o asfalto e o barro. Eu gostaria que fôssemos todos iguais, mas não é o caso. Quem disser o contrário ou desconhece a realidade do negro no Brasil, ou então é racista e criminoso mesmo.

  5. Em relação à ideia do Juarez de aparecer com uma camiseta do Che Guevara lá realmente é uma burrice, mas o escracho que ele tomou é muito mais errado. Presumo que ele estivesse no coxinhaço que estava acontecendo ali e que foi removido pela Brigada Militar a pedido dos manifestantes.

    Sobre racismo, o Juarez estava lá e presenciou pessoalmente, ele deve estar se referindo à forma como os “black bloc” da manifestação, aqueles da linha de frente estavam tratando ele. Então quem não estava lá na linha de frente abstenha-se de falar do que não viu, não ouviu e não sabe.

    A marcha do dia 13 era petista e nacionalista, na minha concepção o cunho daquela marcha era exatamente igual ao do dia 15, mas isto é a ótica anarquista. Em Porto Alegre a marcha petista foi no dia 12, no mesmo dia da marcha de esquerda anti governista que não se misturou. Então não teve marcha dia 13.

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