O caminho do Sopapo

Ao longo da produção do documentário O Grande Tambor, o Coletivo Catarse teve a oportunidade de desvendar um pouco do que foi a história do Rio Grande do Sul, contada não pelos invasores ou escravizadores, mas pelos descendentes daqueles que foram escravizados. Descobrimos, ou melhor, afirmamos a desconfiança de que algo estava errado com o que aprendemos na escola e com o imaginário cultural que tanto estamos acostumados. Foi uma experiência incrível que nos fez entender mais da nossa identidade gaúcha. O tambor nos abriu portas espirituais e mostrou que não era apenas um instrumento de percussão, mas um guia para um mundo desconhecido e muito poderoso e inevitável para quem entra em contato com o Sopapo.

Tudo isso não seria possível se a família Baptista, mais especificamente Mestre Baptista e Dona Maria, não nos acolhesem e nos passassem seus ensinamentos: a construção do Sopapo, a cosmovisão, o humanidade, o carinho. Mestre Baptista, para a tristeza de quem fica, fez a sua passagem no final do ano passado, deixando esse grande presente, toda essa bagagem recheada de ensinamentos – e uma família.

Dona Sirley, Gustavo Türck, Zé Baptista, Marcelo Cougo, Tiago Rodrigues, Têmis Nicolaidis, Dona Maria e a amiga Simone no Coletivo Catarse.

Dona Sirley, Gustavo Türck, Zé Baptista, Marcelo Cougo, Tiago Rodrigues, Têmis Nicolaidis, Dona Maria e a amiga Simone no Coletivo Catarse.

Em abril deste ano, Dona Maria e Zé Baptista, filho do Mestre, finalmente estiveram em Porto Alegre para festejar os 5 anos do Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo, e Dona Maria, madrinha do Ventre Livre, pode finalmente batizar o Ponto de Cultura. Depois de toda a luta da família de quase 3 anos contra o câncer, que aos poucos ia debilitando Mestre Baptista, essa visita a Porto Alegre foi um momento de chorar um pouco a saudade do querido Mestre, mas, para além disso, foi o momento de pensar em como dar continuidade a essa história. Nessa oportunidade, Zé Baptista nos disse que gostaria de dar continuidade ao trabalho do pai e que sentia ter uma missão:

“Sempre acompanhei meu saudoso pai na sua trajetória, desde o primeiro instrumento até o último Sopapo. A alegria dele era a minha felicidade, pois além de meu pai ele também era, e é… O meu maior amigo. Lembro do último olhar que ele me deu, sem dizer nada… Apenas fixou os olhos em mim… Como se estivesse se despedindo silenciosamente, mas o elo que sempre existiu entre pai e filho continua em mim. Agora sei que tenho que seguir sem ele, mas tenho a presença dele em meu coração. Ao ver o quanto o sonho dele se realizou, nos amigos que ele deixou, no olhar cansado e resignado de minha mãe, sei que esse legado me é deixado por eles. Nada ficou da sua oficina, estou partindo do ponto zero novamente, mas ao ver o sorriso de minha mãe se iluminando ao ver a forma do Sopapo, novamente, sendo construída… Sinto a presença dele perto de mim, é uma energia indomável e sublime. É como se eu pudesse abraçar meu pai novamente e dizer ‘te amo, pai'”.

sopapo001Aqui ao lado está o primeiro protótipo que ele está desenvolvendo, organizando também um espaço para que a sua casa em Pelotas abrigue novamente uma oficina de construção de instrumentos com o enfoque no Tambor de Sopapo. “Me sinto feliz por ter retomado o caminho do Sopapo, minha mãe se emocionou ao ver ele montado (em papelão), assim posso sentir a presença de meu querido pai ao meu lado, sei que ele queria essa continuidade, foi um momento muito especial para todos aqui, poder ver esse modelo (mesmo em papelão) montado… Tem um significado muito importante para nós. Vou seguir trabalhando por aqui, desenvolvendo e projetando as melhorias do instrumento”.

O caminho do Sopapo nunca foi simples, sempre se desdobrou em ramificações incríveis e percorreu caminhos que são difíceis de explicar, mas que, no final, parecem tão óbvios. Perguntamos ao Zé Baptista, ainda, como ele enxergava o papel da sua família nessa empreitada de valorização da cultura afrodescendente no Rio Grande do Sul?

“Um exemplo a ser seguido, não só  por afrodescendentes, mas que devem ser vistos como protótipos humanos de um ideal de fraternidade, buscar sempre a igualdade do ser, ver a todos como irmãos, independente da raça, da religião ou do país de origem. O Sopapo significa resistência, luta, um grito contra a opressão da discriminação social, um degrau para a igualdade do ser humano, como obra divina da criação, pelo símbolo de cultura e sabedoria que cerca esse tambor, pois não é só um tambor… Nele habita um baú de sabedorias culturais e , esquecidas no tempo, é mistico, É um elo com as raízes de todos nós”.

Precisa dizer mais?

Na sequência, segue a figura que é um desdobramento do organograma elaborado por Mário Maia na sua tese de doutorado (O Sopapo e o Cabobu – etnografia de uma tradição percussiva no extremo sul do Brasil). A partir deste organograma e das pesquisas para a produção do O Grande Tambor, o Coletivo Catarse desenvolveu um desenho livre do caminho percorrido pelo Sopapo e suas ramificaçãoes. Com certeza nem tudo foi contemplado, pois essa história já é viva e deve haver desdobramentos que não se tem ideia, porém, é um desenho que traz a noção da rede que se forma ao redor deste instrumento e da importância que reside na sua preservação.

Aos que possuem mais informações, sintam-se convidados a compartilhar para podermos completar esse quadro:

 

Clique para ver o arquivo pdf e visualizar melhor

 

 


Evolução do molde de papelão desenvolvido por Zé Baptista – agora em madeira compensado.


Painel montado em homenagem a Mestre Baptista.


Vídeo montado em homenagem a Mestre Baptista, com imagens do filme O Grande Tambor,
da inauguração do Quilombo do Sopapo, entre outras.

Texto desta reportagem: Têmis Nicolaidis
Edição: Gustavo Türck
Foto do início: Têmis Nicolaidis
Fotos dos moldes do Sopapo: Zé Baptista
Fotomontagem do painel homenagem a Mestre Baptista: Jéssica Hiroko e Leandro Anton (Quilombo do Sopapo)
Vídeo: Nádia Prestes (Quilombo do Sopapo)

Uma ideia sobre “O caminho do Sopapo

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