Oficinas trabalham a salvaguarda de patrimônios culturais no Litoral Negro

Nos dias 10, 11, 14 e 15 de setembro, a sede da Associação Quilombola Vovô Vergilino – localizada no distrito das Capororocas, em Tavares/RS – recebeu uma oficina de salvaguarda de patrimônios culturais a partir do audiovisual e da comunicação. Parte do projeto Festejos e Encontros da Cultura da Tradição Popular das Comunidades Quilombolas da Península do Litoral Norte, do Ponto de Cultura STR Mostardas, contemplado no EDITAL SEDAC nº 25/2024 PNAB Cultura Viva, procurou fazer o diálogo com as referências comunitárias locais e lideranças, estimulando a comunidade a escolher registrar algo da sabedoria popular local: o uso de chás e plantas medicinais.

Ao longo da segunda feira (14), oficineiros e lideranças locais percorreram o território dialogando com as famílias, que apontaram as plantas que usam, contaram suas histórias e a relação que mantêm com cada chá. Tudo foi registrado em vídeo e foto para numa próxima etapa se organizar e disponibilizar este material de maneira livre e gratuita na rede como resultado da oficina.

Na terça feira (15), foi dia de se preparar os chás, usados também como remédios tradicionais aperfeiçoados ao longo de gerações e que ajudam a construir uma saúde comunitária dentro do território, sem depender da indústria farmacêutica. Todas as pessoas entrevistadas disseram tomar poucos remédios comprados e fazem a manutenção da saúde praticamente só com os chás.

Dona Russa, uma das guardiãs desse conhecimento, levantou também outra reflexão sobre as relações de troca e compartilhamento na comunidade. Enquanto caminhava de volta para casa com um maço de chás que havia ganho das vizinhas visitadas, refletiu:

“Saí de casa com um monte de chás, e estou voltando com um monte de chás, só que das plantas que não tenho. As que a gente tem de sobra, compartilhamos. As que não temos, pegamos com as vizinhas. Assim, todo mundo tem acesso a todas as plantas que precisa”.

Para além do distrito das Capororocas, o encontro também trouxe à tona memórias de idas até as matas vizinhas e à Lagoa do Peixe (antes da criação do Parque Nacional) para colher chás e frutas nativas como araçás. Também foram lembradas as relações com a Lagoa dos Patos e com o Oceano Atlântico, recordando também da relação com a pesca e da conservação do peixe e do camarão utilizando-se do sal. Vale destacar ainda que a região tem fortes influências de matriz africana e uma grande presença quilombola. O município de Tavares tem 3 comunidades quilombolas, assim como a vizinha Mostardas. E toda esta região de Osório até São José do Norte possui 10 comunidades quilombolas. É exatamente por isso que a região é reconhecida como Litoral Negro, segundo a históriadora Cláudia Mollet (UFPEL).

Este e outros ciclos de oficinas realizados ao longo de 2025 e 2026 estão sendo promovidos pelo Ponto de Cultura STR Mostardas, dentro do projeto Festejos e Encontros da Cultura da Tradição Popular das Comunidades Quilombolas da Península do Litoral Norte (Edital SEDAC nº25/2024 PNAB RS – Cultural Viva). O Coletivo Catarse/Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre vem atuando junto ao projeto desde outubro do ano passado (confira aqui, aqui e aqui).

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