Talk Exu #7 – Acessibilidade: Uma conversa sobre cultura, sensibilidade e adaptação

Foi ao ar no dia 26 de junho, o último episódio do Talk Exu dentro do projeto “Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre – Um ano de programação na Comuna do Arvoredo (e mais)”, contemplado pelo Edital Sedac n° 25/2024 Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) – RS – Cultura Viva, fechando um ciclo de 6 programas que trouxeram pautas diversas, encontros culturais e políticos importantes, sempre presenciais e com transmissão ao vivo pelo canal do Youtube do Coletivo (aqui você pode conferir todos os episódios). O Talk Exu é um Talk Show em formato de videocast criado pelo Coletivo Catarse de forma independente e fomentado por política pública em 2025 e 2026. O programa #7 trouxe a acessibilidade para o foco do diálogo, recebendo Simone Dornelles, tradutora e intérprete da Linguagem de Libras, com formação certificada pelo MEC, que atua desde 2011 em espaços culturais como museus, peças de teatro, contação de histórias bilíngue Libras/Português, shows musicais, mídias para TV e redes sociais, entre tantas outras iniciativas culturais; Luiz Portinho, pessoa com deficiência, Procurador Federal aposentado, fundador e voluntário da Associação RS Paradesporto; e Elaine Antônia do Nascimento, coordenadora do Setor de Cultura da ACERGS, professora de Braille e que está concluindo a graduação em Licenciatura em Educação Especial, dedicando-se à promoção da inclusão e da acessibilidade. A atração artística, ficou por conta de Angelo Primon que explorou a sensorialidade através da música instrumental do Oud Árabe e do Sitar Indiano. Confira!

Sombras na Pele na ACERGS

por Lorena Sánchez No dia 26 de novembro vivi uma reverberante experiência: um encontro entre luz, sombra e diferentes formas de perceber o mundo. Estive na Associação de Cegos do RS (ACERGS), no Centro Histórico de Porto Alegre, acompanhando a atividade Sombras na Pele, realizada pela Cia Teatro Lumbra, junto de Alexandre Fávero, Têmis Nicolaidis e Fabiana Bigarella, com a presença de Débora de Aranha Haupt, ativista dos direitos das pessoas com deficiência e audiodescritora, e mais de trinta pessoas com diferentes níveis de baixa visão e cegueira.  Logo ao chegar, senti aquela hesitação tão comum de quem enxerga: como me aproximar? como oferecer ajuda sem invadir?  Mas bastaram poucos minutos para entender que essa dúvida é mais nossa que deles, e que o contato humano, quando guiado pelo respeito, se dá com naturalidade. Simples assim.  O grupo foi recebido pela Cia Lumbra e numa primeira instância percorreu um caminho sensorial que começava nos materiais de divulgação (um cartaz elaborado em 3D) e seguia pelos objetos de cena do espetáculo Criaturas da Literatura, pelas texturas, pelas formas e pela vibração quente das lâmpadas. A cada descoberta, percebia-se uma alegria lúdica. A percepção de que o teatro pode, sim, ser vivido plenamente por quem não vê, desde que se prepare o terreno com cuidado, parecia iluminar o rosto e a voz de cada participante.  Por fim, assistimos juntos ao espetáculo, desta vez com audiodescrição aberta realizada pela Déborah. Para mim, que aí estava para captar imagens do acontecimento, esse momento foi revelador. Ver o público vidente e não vidente compartilhando a mesma trilha verbal, sem aparelhos que isolam, como por exemplo fones de ouvido, tão comuns de serem usados quando é oferecida a audiodescrição em alguns espetáculos. E nesse olhar, me fez surgir uma pergunta simples: por que não tornar essa prática padrão sempre que houver acessibilidade? Por que não criar sessões verdadeiramente coletivas, em que todos vivenciam a mesma atmosfera?  Depois da apresentação, uma conversa sincera preencheu a sala. Escutei relatos marcantes: pessoas que perderam a visão de repente, na vida adulta, e precisaram reinventar tudo; memórias duras, mas também um desejo enorme de seguir, de encontrar novas maneiras de existir no mundo. Houve quem narrasse superações diárias, pequenas vitórias que passam despercebidas para quem vê, mas que ali ganhavam tamanho de monumento.  O terceiro momento da experiência, foi particularmente tocante: a Cia Lumbra confeccionou um dispositivo tátil que permitiu que as pessoas compreendessem a diferença entre tamanhos do real e da sombra. É difícil explicar em palavras: era como se, pelas mãos, se abrisse uma janela para um fenômeno que muitos de nós nunca questionamos. Ali, a sombra deixava de ser apenas uma sensação para virar imagem, distância, volume, uma outra forma de perceber e ver.  O que ficou desse dia foi o acolhimento. Dos artistas, dos profissionais, dos professores da instituição, de todos os participantes. Um ambiente que convidava à troca, ao cuidado e ao aprendizado mútuo.  Saí de lá com a impressão de que a acessibilidade, mais do que um recurso técnico, é uma forma de convivência. Uma escolha cotidiana de ampliar mundos e, ao mesmo tempo, abrir o nosso próprio. E com a vontade, que sei não ser só minha, de continuar criando experiências que unem arte, sensorialidade e inclusão de maneira viva, honesta e partilhada. A atividade integra o projeto  25 anos da Cia Teatro Lumbra,que foi contemplado pelo Edital SEDAC nº 26 /2024 Política Nacional Aldir Blanc (PNAB – RS).