Huesera: um caminho de recolhimento e expansão
Texto Lorena Sánchez e fotos NIA – Núcleo de Investigação Artística do Coletivo Catarse/Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre (Aline Ferraz, Lorena Sánchez e Têmis Nicolaidis) Há um mês estamos ocupando a Sala Pitangueira, no Centro Cultural da UFRGS, com a nossa Huesera, em busca de seu Coro de Ossos. Chegamos de olhos fechados, e fomos deixando de lado qualquer palavra, deixando que nossos sentidos lembrassem. Espalhamos pela sala nossos objetos pessoais, pequenas relíquias de vidas atravessadas, e transformamos o espaço em território de memórias compartilhadas. A Pitangueira, palavra que vem do tupi antigo pytãg, “vermelho”, tornou-se o chão fértil de um ritual de escuta, respiração e instalação.Memórias nossas, nossos fragmentos, abertos e expostos, para serem vistos por nós mesmas desde um outro lugar. Assim iniciamos… “Entre tesouras, baralhos, fotos impressas com o papel de foto que era comum, antigamente…Entre sensações, lembranças e afetos compartilhados, convertidos em memórias e suas histórias reais…Experiências sensoriais, músicas e o clima frio e chuvoso da tarde. Em meio às incertezas de um mundo em transformação, tentativas de golpes contra nossas conquistas e golpes ferozes contra as nossas memórias e histórias…Vida e Arte em intersecção e Lutas contra as constantes ameaças contra as nossas vidas…Nossos corpos – in submissos – não mais aceitam violações. Huesera re constrói, junta pedaços, canta para os ossos.” Memória do processo por Aline Ferraz Ao longo deste primeiro mês, mergulhamos em leituras, pesquisas e dados que revelam as muitas formas de violência e silenciamento que atravessam a vida das mulheres. Entre números e histórias, buscamos e insistimos em permanecer. Assim como a velha sábia que vem desde as profundezas atrás dos rastros, também seguimos as vozes de mulheres latino-americanas. Ouvimos, cantamos e habitamos canções que são manifestos, denúncias e encantamentos. Vozes que atravessam fronteiras e fazem de um único canto uma forma de resistência. Abrimos oráculos, portais, sentimentos. Erguemos uma tenda com nossos três elementos essenciais e, sob esse abrigo, iniciamos a jornada em busca dos ossos, da nossa loba, daquilo que permanece vivo mesmo depois da devastação. Ali, entre páginas lidas e folhas rasgadas como marcas de peles antigas, os fragmentos encontraram outros fragmentos. Palavras se desprenderam dos livros para criar novos textos, novos corpos, novos manifestos. Seguimos recolhendo ossos. Cada encontro revela um fragmento, uma memória, uma voz. Aos poucos, o coro se forma. E, junto com ele, também nós vamos nos reconstruindo.
