Visita ao cultivo de arroz orgânico: mais um passo na busca da transição agroecológica quilombola
Recentemente, o Assentamento Filhos de Sepé, em Viamão/RS recebeu representantes da Comunidade Quilombola Vila Nova, de São José do Norte. A visita, realizada no dia 27 de março, faz parte de uma série de intercâmbios entre assentamentos de reforma agrária do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o quilombolas na busca pela transição agroecológica dos cultivos de arroz na comunidade do chamado litoral negro. No calendário agrícola do cultivo de arroz no sul do país, o final do verão e início do outuno sinaliza o tempo de colher e preparar o solo para o próximo cultivo. A Produção do cereal no assentamento é organizado por meio da Cooperativa Dos Trabalhadores Assentados Da Região De Porto Alegre (Cootap) e Cooperativa dos Produtores Orgânicos da Reforma Agrária de Viamão (Coperav). Os quilombolas, por sua vez, fazem parte da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Sao Jose do Norte (Cooafan), contando com apoio do Coletivo Catarse, cooperativa de trabalho e comunicação. Além desta rede, o intercâmbio contou ainda com um grupo de visitantes dos movimentos Coordinador Nacional Agrario (CNA) e Guardia Interetnica Campesina, da Colômbia, e do Comité de Unidad Campesina (CUC) e Coordinadora Nacional de Viudas de Guatemala (Conavigua), o penúltimo também da Guatemala. Depois de momentos de apresentação e diálogo, todos percorreram e conheceram de perto as diferentes etapas dos ciclos de produção e beneficiamento do arroz ecológico. Na lavoura experimental, João Prieto Félix, o Gimino, técnico em gestão ambiental e assessor da Coperav, mostrou um pouco da diversidade de grãos com os quais o assentamento vem trabalhando: arroz negro, vermelho, cateto, aromático, variedades usadas no sushi e até mesmo um arroz de sequeiro trazido de Goiás. As variedades de sequeiro são aquelas plantadas sem irrigação constante, principalmente no cerrado. Gimino explicou que a variedade vem sendo testada para contornar o consumo limitado de água, e que os testes têm apresentado excelentes resultados. Esta limitação se dá justamente peo fato de área de 10 mil hectares do assentamento estar dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) do Banhado Grande, vizinha ao Refúgio de Vida Silvestre (Resbio) Banhado dos Pacheco, um dos últimos redutos do cervo-do-pantanal no Rio Grande do Sul, espécie em vias de extinção. A área úmida protegida pela Unidade de Conservação é que fornece a água para o cultivo do arroz, além de abastecer o consumo humano de parte da Região Metropolitana de Porto Alegre. Justamente por conta da inserção neste ambiente extremamente sensível, a legislação ambiental define limites no uso da água e proíbe o uso de agrotóxicos e fertilizantes sintéticos. Longe de impedir a produção, os cuidados com o ambiente impulsionaram uma experiência que vem se tornando referência para o continente. A rede da qual o Filhos de Sepé e outros nove assentamentos em sete municípios gaúchos fazem parte é reconhecida pela maior produção agroecológica de arroz da América Latina. No ano de 2026, a colheita foi estimada em 14 mil toneladas, com 2,8 mil hectares cultivados e 290 famílias envolvidas no processo. Entre os fatores que explicam resultados tão expressivos está um intenso trabalho coletivo para construir autonomia e evitar a dependência de insumos do agronegócio. Isso se dá tanto pela produção de sementes próprios, bioinsumos e parcerias institucionais para acesso à maquinário e tecnologia como via intercâmbios de conhecimentos em busca da autonomia na produção. O grupo vindo do quilombo já trabalha com o cultivo de arroz e tem algumas experiências com o modelo ecológico moderno, além das vivências com os mais antigos na ecologia tradicional – que já produzia alimentos antes da invasão do modelo do agronegócio. Hoje, a comunidade busca resgatar os conhecimentos dos mais velhos, combinando com novas técnicas que vêm sendo desenvolvidos em espaços como o Filhos de Sepé e, ainda, saberes técnicos do campo das ciências agronômicas – sempre com censo crítico e respeito à natureza. “A faculdade de agronomia traz toda a visão da indústria. Não tem essa visão de plantar orgânico, produzir a própria semente, como eles faziam antigamente. Vim hoje pegar um pouco da parte técnica que estou aprendendo lá e dar seguimento nesses processos por aqui”, comentou Matheus, jovem quilombola e estudante de agronomia da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Ao longo da visita, o grupo conheceu a Unidade de Produção de Bioinsumos Ana Primavesi, biofábrica inaugurada em 2023 no assentamento. Dionéia, da Cootap, explicou um dos métodos utilizados para a produção de biofertilizantes. Batizada de Solo vivo, a técnica consiste em reunir materias da propriedade e arredores, na proporção de 10% de biomassa rica em nitrogênio, 30% de material verde e 60% de material lenhoso. A mistura então é exposta ao calor, que mata os organismos que não são benéficos para o solo. Após fica maturando para, depois, ser utilizada na forma líquida. “A gente recolhe os materiais da mata nativa. A ideia é que o solo se pareça com a terra preta do mato”, explicou Dioneia, após reforçar o convite para particpação em uma oficina específica sobre o metódo para a comunidade quilombola. Além do Solo Vivo, a unidade trabalha também com a reprodução de microorganismos isolados e até mesmo com homeopatia. Já as aplicações dos compostos é feita via drone. Os maquinários utilizados também foram outro ponto de interesse dos visitantes, com destaque para os equipamentos fruto de uma parceria com a Universidade de Brasília (UnB) em convênio com a Universidade Agrícola da China (CAU), semeadeiras, plantadeiras voltadas para o arroz pré-germinado. O último ponto da visita foi a Indústria de Arroz Orgânico Assentamento Filhos de Sepé, com estrutura de secagem e armazenamento pra 100 mil sacos de arroz. Visitantes e anfitriões seguiram dialogando sobre diversos processos, como as embalagens à vacuo disponíveis no mercado e outras práticas para garantir uma maior durabilidade do alimento. Evidente que a escala em que os quilombolas irão aplicar os conhecimentos é técnicas é menor que as de um dos assentamentos referência a nível continental na rizicultura agroecológica. Ainda assim, o encontro teve um importante papel de disparador, semeando diversas ideias nos participantes. Resta ainda …
