NIA: do embrião a um núcleo com nome e identidade

Construção que vem sendo gestada há alguns anos, o Núcleo de Investigação Artística do Coletivo Catarse/Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre (NIA) nasceu, agora com nome, sobrenome e um objetivo claro: a pesquisa e produção de conteúdos artísticos das mais diferentes linguagens – teatro, escrita, música, audiovisual, dança, tendo como foco o feminino. Formado por pessoas de dentro e de fora do Coletivo Catarse, cooperativa responsável pela gestão do Ventre Livre, a partir da necessidade de criação de uma identidade e de agregar talentos internos e externos. O Coletivo Catarse tem, desde sua fundação em 2004, trabalhado na perspectiva da cultura junto a grupos e artistas, apoiando em projetos específicos, na formatação de projetos próprios e em parceria ou prestando serviço. Quando se convenia como Ponto de Cultura em 2011, incrementa o fazer cultural pelo contato mais próximo. Nos últimos anos, tem aprofundado a sua relação com as artes cênicas através das iniciativas da produtora audiovisual e sombrista Têmis Nicolaidis, que integra, desde 2015, a Cia Teatro Lumbra, referência no Teatro de Sombras contemporâneo, da entrada no Coletivo da atriz, produtora cultural e educadora Lorena Sánchez e da aproximação da atriz, produtora e educadora social Aline Ferraz. A atuação do NIA se divide em pesquisa, produção e formação. Desde 2024, as integrantes já vinham promovendo oficinas de teatro para jovens e adultos. Em 2025, é lançado o primeiro trabalho autoral do embrião do Núcleo, o teatro musical Faces de Eva. Ainda em 2025 estreia o espetáculo multilinguagem Vasalisa, a sabida, que inicia 2026 com uma Vivência Vasalisa, a sabida através de um intercâmbio junto ao Ponto de Cultura Território das Artes. O fazer artístico se dá, também, através do diálogo das linguagens audiovisual e teatral. Como exemplo de produções deste tipo, pode-se destacar os vídeos: Passagem – Do Espiritual da arte, caminhando nos rastros das raízes (2020), Toura (2020) e Fragmentos do esqueleto de uma mulher (2021). Diversas dessas produções tiveram como palco de esboço e concretização a Comuna do Arvoredo, no Centro Histórico de Porto Alegre, também sede do Catarse, com espaços como o Salão Zé da Terreira e a Maria Maria Espaço Cultural. Atualmente, NIA é composto pelas três artistas-pesquisadoras, mas se valendo – e aberto à entrada – de outros profissionais de dentro e fora do Coletivo Catarse para complementar as atividades propostas. Aline FerrazProfessora licenciada em Teatro/UFRGS. Atua em projetos socioculturais, com diversos públicos como crianças, adolescentes e adultos, há quinze anos. Atualmente, trabalha na Escola Espaço do Ator (POA). Trabalhou profissionalmente atuando em espetáculos de Teatro de Rua e de sala, em parceria com grupos como o TIA TEATRO, Ói Nóis Aqui Traveiz, Ubando Grupo, Santo Qoletivo, dentre outros. Lorena SánchezAtriz, produtora cultural e contadora de histórias, com formação em teatro e Educação Social e Popular pela AEPPA – Freire, além de cursar Licenciatura em Artes Visuais. Atua nas artes cênicas desde 1996, com mais de 30 montagens e cinco prêmios de Melhor Atriz. Integra os coletivos “Grimm Para os Pequenos e Gretel”, “Capitu e Outras Mulheres”, “Língua Lâmina”, “Cuidado Que Mancha”, e “Coletivo Catarse”. Mantem seu projeto independente de arte-educação para crianças e adultos maiores SuCatadora de Histórias. Dirige La Lola Produtora. Têmis NicolaidisProdutora audiovisual e sombrista. É integrante do Coletivo Catarse / Ponto de Cultura Ventre Livre. Atuou como editora, roteirista, diretora e produtora de uma parte significativa das produções audiovisuais do Coletivo Catarse. Faz parte da Cia Teatro Lumbra desde 2015, integrando espetáculos de repertório da companhia nas funções de sombrista e produtoras: Sacy Pererê – A lenda da meia-noite, O Marujo e a Tempestade. Em Criaturas da Literatura fez roteiro, atuação, assistência de direção, cenografia e produção. Veja o portfólio da NIA. Texto: Têmis NicolaidisEdição: Anahi Fros

Vasalisa ocupa o Território

Nos dias 20 e 21 de março, a NIA (Núcleo de Investigação Artística do Coletivo Catarse/Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre) esteve realizando um intercâmbio artístico com o Ponto de Cultura Território das Artes em Imbé (RS), o primeiro certificado da cidade. Um espaço gestado por mulheres que promove oficinas, apresentações artísticas e faz um trabalho lindo com crianças, de cuidado, produção cultural e ocupação dos espaços públicos na cidade. A proposta era levar a oficina ‘Pelos Caminhos de Vasalisa’ onde compartilhamos, com 8 mulheres e 1 homem, o processo criativo que envolveu a produção do espetáculo ‘Vasalisa, a Sabida’, inspirado no conto presente no livro ‘Mulheres que correm com os lobos’ de Clarissa Pinkola Estés, apresentado no mesmo dia da oficina, complementando a vivência proposta. Se criou um ambiente sensitivo, de escuta e troca onde as participantes puderam vivenciar um pouco de cada linguagem utilizada em cena. “Vivências em uma manhã de março em pleno outono, que o teatro me ensinou…Antes de falar,Aprenda a escutar,Presença vale mais que perfeição,Que quem não é ouvido faz o quê? GRITA!Toda história precisa de direção, e que, coragem também se ensaia.Coragem! Cor+age (fiquei a pensar sobre as cores da coragem)Quando histórias são construídas em parceriaelas conversam.Conversam sempre.Conversam sobre tudo.Nasce a cena.Em cena, se aprende a transformar emoção em mensagem.Foi no em Mulheres que Correm com Lobos e no teatro que aprendi a transformarHistórias em transformação”. (Depoimento de Sandra Bittencourt – Março de 2026 – Imbé) Esses encontros através da arte e da cultura tem a propriedade de deixar marcas profundas muito rapidamente. É o olho no olho, o acolhimento na estada, se apropriar dos espaços, sentir-se confortável, fortalecer projetos autorais e independentes. O Território nos proporcionou isso. E, também, sentir um pouco da cena cultural de Imbé. Chegamos na sexta-feira (20) e caímos direto numa reunião de mostra de projetos aprovados no PNAB por produtores locais no Castelinho da Cultura, onde funciona a Secretaria Municipal de Imbé. Pulsante e contagiante esse movimento. Agradecemos imensamente ao Território das Artes e suas associadas por receber este projeto e pelo privilégio de ocuparmos este espaço.

Sombras na Pele na ACERGS

por Lorena Sánchez No dia 26 de novembro vivi uma reverberante experiência: um encontro entre luz, sombra e diferentes formas de perceber o mundo. Estive na Associação de Cegos do RS (ACERGS), no Centro Histórico de Porto Alegre, acompanhando a atividade Sombras na Pele, realizada pela Cia Teatro Lumbra, junto de Alexandre Fávero, Têmis Nicolaidis e Fabiana Bigarella, com a presença de Débora de Aranha Haupt, ativista dos direitos das pessoas com deficiência e audiodescritora, e mais de trinta pessoas com diferentes níveis de baixa visão e cegueira.  Logo ao chegar, senti aquela hesitação tão comum de quem enxerga: como me aproximar? como oferecer ajuda sem invadir?  Mas bastaram poucos minutos para entender que essa dúvida é mais nossa que deles, e que o contato humano, quando guiado pelo respeito, se dá com naturalidade. Simples assim.  O grupo foi recebido pela Cia Lumbra e numa primeira instância percorreu um caminho sensorial que começava nos materiais de divulgação (um cartaz elaborado em 3D) e seguia pelos objetos de cena do espetáculo Criaturas da Literatura, pelas texturas, pelas formas e pela vibração quente das lâmpadas. A cada descoberta, percebia-se uma alegria lúdica. A percepção de que o teatro pode, sim, ser vivido plenamente por quem não vê, desde que se prepare o terreno com cuidado, parecia iluminar o rosto e a voz de cada participante.  Por fim, assistimos juntos ao espetáculo, desta vez com audiodescrição aberta realizada pela Déborah. Para mim, que aí estava para captar imagens do acontecimento, esse momento foi revelador. Ver o público vidente e não vidente compartilhando a mesma trilha verbal, sem aparelhos que isolam, como por exemplo fones de ouvido, tão comuns de serem usados quando é oferecida a audiodescrição em alguns espetáculos. E nesse olhar, me fez surgir uma pergunta simples: por que não tornar essa prática padrão sempre que houver acessibilidade? Por que não criar sessões verdadeiramente coletivas, em que todos vivenciam a mesma atmosfera?  Depois da apresentação, uma conversa sincera preencheu a sala. Escutei relatos marcantes: pessoas que perderam a visão de repente, na vida adulta, e precisaram reinventar tudo; memórias duras, mas também um desejo enorme de seguir, de encontrar novas maneiras de existir no mundo. Houve quem narrasse superações diárias, pequenas vitórias que passam despercebidas para quem vê, mas que ali ganhavam tamanho de monumento.  O terceiro momento da experiência, foi particularmente tocante: a Cia Lumbra confeccionou um dispositivo tátil que permitiu que as pessoas compreendessem a diferença entre tamanhos do real e da sombra. É difícil explicar em palavras: era como se, pelas mãos, se abrisse uma janela para um fenômeno que muitos de nós nunca questionamos. Ali, a sombra deixava de ser apenas uma sensação para virar imagem, distância, volume, uma outra forma de perceber e ver.  O que ficou desse dia foi o acolhimento. Dos artistas, dos profissionais, dos professores da instituição, de todos os participantes. Um ambiente que convidava à troca, ao cuidado e ao aprendizado mútuo.  Saí de lá com a impressão de que a acessibilidade, mais do que um recurso técnico, é uma forma de convivência. Uma escolha cotidiana de ampliar mundos e, ao mesmo tempo, abrir o nosso próprio. E com a vontade, que sei não ser só minha, de continuar criando experiências que unem arte, sensorialidade e inclusão de maneira viva, honesta e partilhada. A atividade integra o projeto  25 anos da Cia Teatro Lumbra,que foi contemplado pelo Edital SEDAC nº 26 /2024 Política Nacional Aldir Blanc (PNAB – RS).

Enquanto a Luz Não Chega: primeiras gravações movimentam equipe e locais da cidade

Texto: Lorena Sanchez / Revisão: Anahi Fros / Fotos e vídeo: Maria Luiza Apollo O curta-metragem Enquanto a Luz Não Chega, do Coletivo Catarse, concluiu com êxito seu primeiro período de gravações. Durante uma semana intensa de imersão, a equipe ocupou diferentes espaços da capital gaúcha para dar vida aos personagens Téo e Ciça. A preparação foi minuciosa: visitas técnicas, ensaios de mesa e estudos de luz antecederam as filmagens. O centro das gravações ocorreu em um apartamento no alto do bairro Teresópolis, em Porto Alegre — local que, além de oferecer uma vista inspiradora da cidade, também é um dos cenários principais da narrativa. É lá que se desenrola a história do casal: o amor, o silêncio, o estranhamento e a espera. A luz — ou a ausência dela — assume papel central no projeto, criando atmosferas e tensões dramáticas que não devem ser ajustadas mediante edição na pós-produção, mas construídas ao máximo ao vivo. Um exemplo disso é a marcante Cena 19, ponto de virada da trama, em que o apagão e a escuridão envolvem os protagonistas em uma coreografia precisa de luz, sombra e interpretação. Este é um trabalho que não se desenvolve ao acaso, mas se materializa de uma intenção crescente após anos de trabalho e parceria com a Cia Lumbra — casa há mais de 20 anos de Alexandre Fávero, que assina a Direção de Arte do filme, trazendo toda sua experiência no teatro de sombras para um mix de linguagens pretendido por esta obra audiovisual. Além das filmagens no apartamento, a equipe realizou, no mesmo período, cenas em outras locações que exigiram grande produção. Graças ao planejamento cuidadoso e às parcerias estabelecidas com os locais visitados, as gravações transcorreram de maneira ágil e eficiente. E, somando-se aos protagonistas, um expressivo grupo de figurantes colaborou com entusiasmo e disposição para o processo criativo. Foram muitos momentos em que pessoas e os espaços que acolheram o projeto demonstraram grande receptividade e envolvimento, garantindo condições ideais de trabalho para toda a equipe. A SABER Enquanto a Luz Não Chega é um curta-metragem de ficção produzido pelo Coletivo Catarse (Contemplado na LPG Porto Alegre na linha de Produção de Curtas-metragens), que propõe uma reflexão sobre os impactos da tecnologia nas relações humanas.

O caminho de Vasalisa

“Vasalisa, a Sabida” convida o público a embarcar em uma jornada sensorial e reflexiva, inspirada no conto russo homônimo, conforme reinterpretado por Clarissa Pinkola Estés, em seu livro “Mulheres que Correm com os Lobos” (2018). Com duração de 50 minutos, o espetáculo combina áudio drama, contação de histórias, teatro de animação, bem como a dança em ação cênica, criando uma experiência de múltiplas linguagens que fomenta a conscientização acerca da psique feminina em suas diversas nuances, bem como, possíveis outras visões do ponto de vista do olhar das mulheres sobre as relações em sociedade. Um espetáculo híbrido, em processo final de gestação, que percorre a jornada de iniciação feminina em seus saberes, onde, por meio de seus sentidos, as mulheres aprendem a nutrir suas ideias, destacando a importância do resgate da intuição e da presença das mulheres no mundo, tão subjugadas pelo patriarcado. Como guardiãs do fogo criativo, estão profundamente conectadas aos ciclos de vida, morte e renascimento que permeiam a natureza, definindo assim o significado de ser uma mulher iniciada. A obra se baseia na fábula do folclore russo, “Vasalisa, a Bela” – recopilação do folclorista russo Aleksandre Afanasev (1826/1871), na versão de Clarissa Pinkola Estés, apresentada no livro Mulheres que correm com os lobos (2018). O conto foi reinterpretado, neste trabalho, por meio de uma pesquisa autoral que busca resgatar e valorizar as subjetividades e o modus operandi da atuação feminina na sociedade, promovendo a reflexão acerca da invisibilização e do silenciamento das mulheres pelo sistema patriarcal ao longo dos tempos, desde a sua institucionalização. A encenação está sendo concebida a partir da linguagem do áudio drama, ou seja, de uma história dramatizada em áudio, que transporta o espectador para distintos cenários a partir de uma composição de sonoridades entrelaçadas à narrativa da contação de histórias. Desse modo, a questão da acessibilidade e inclusão, já são trazidas em seu conceito, através da audiodescrição para pessoas com deficiência visual. A pesquisa opera na perspectiva de uma cena expandida, definida por Gabriela Monteiro, em seu artigo A Cena Expandida: alguns pressupostos para o teatro do século XXI, como, “aquela que se articula diretamente a áreas artísticas distintas, em uma espécie de convergência que tangencia conhecimentos oriundos das artes cênicas, visuais, das mídias audiovisuais, da performance, da dança, da literatura e da fotografia”. Fazendo parte do escopo das teatralidades contemporâneas. Aline FerrazRoteiro em áudio, direção, dramaturgia, cenários e elementos cênicos, figurinos e atuação. Têmis NicolaidisRoteiro em áudio, direção, dramaturgia, cenários e elementos cênicos, figurinos e atuação Lorena SánchezDireção de Produção e assistência de direção cênica Raul VogesDireção de movimento coreográfico Marcelo Cougo e Marcelo EguezTrilha sonora original Billy ValdezFotografia e registro audiovisual Gustavo TürckProdução sonora Ethiéne GuerraAssistência e confecção de figurinos. RealizaçãoColetivo Catarse/ Ponto de Cultura Ventre Livre e Projeta Matricêntrica. ApoioComuna do Arvoredo