Desde a retomada do território aos pés da pedreira do Morro Santana (Zona Leste de Porto Alegre) em outubro de 2023 a cacica e kuja (liderança espiritual) Gah Té Kaingang já falava da importância da presença da comunidade no local como forma de preservar as vegetações nativas da região. De fato, ao longo dos quase dois anos no local, a aldeia kaingang e seus apoiadores já realizaram diversos plantios de mudas nativas no local e manejo de invasoras, mas sempre de forma independente e com recursos próprios. Até agora.




Neste ano de 2025, a Gah Ré e sua rede de parceiros dá inicio a um projeto para potencializar o trabalho de reflorestamento e cuidado com as áreas naturais do território, que a comunidade sempre realizou. Contemplada na chamada Reconstruir RS – Apoio à Resiliência Climática e Reconstrução Comunitária, do Fundo Casa Socioambiental, a aldeia recebeu apoio para compra de mudas, equipamentos, a construção de um viveiro e também o manejo dos pinheiros exóticos (Pinus Elliottii), árvore que vem invadindo o Morro Santana e gerando prejuízos ambientais (empobrecimento do solo, redução das fontes de água, aumento do risco de incendios e competição com as plantas nativas).
Ao longo desta primeira etapa, já foram compradas as ferramentas para o trabalho (enxadas, facões, machados, motosserras, roçadeiras, cavadeiras, semeadeiras, entre tantas outras) e se iniciou o processo de manejo dos pinus. Importante destacar que justamente por seu status de árvore exótica e invasora, seu corte está dispensado de licença ambiental, conforme o artigo 3 da Instrução Normativa n 14 de dezembro de 2014 da Secretaria de Estado e Meio Ambiente do Rio Grande do Sul (SEMA/RS). Cabe dizer também que a comunidade está cortando apenas as invasoras que estão dentro do seu território.



Ao participar de um dos mutirões de manejo dos pinus na aldeia, na manhã do domingo 23 de março, foi possível acompanhar um exemplo dos benefícios desta ação para as plantas nativas. Uma palmeira do gênero butiá, da qual fazem parte mais de 20 espécies nativas da América do Sul sendo muitas delas ameaçadas de extinção, estava sombreada pelos pinus que invadiam uma das encostas do morro. Com o manejo, a palmeira passou a receber mais luz solar imediatamente, o que auxilia tanto no seu crescimento quanto na produção dos frutos tão apreciados pelas pessoas e bichos da mata.
Mas o corte dos pinus é apenas a primeira fase. Ao longo das próximas etapas do projeto, as áreas manejadas irão receber adubação orgânica e depois receberão um replantio de espécies nativas dos biomas pampa e mata atlântica. Em paralelo a isso, será construído um viveiro de aproveitando parte das madeiras decorrentes do manejo dos pinheiros.





Por meio deste trabalho, a rede envolvida busca garantir um território cada vez mais equilibrado tanto para as pessoas quanto para os animais que frequentam o local (a aldeia já registrou bugios ruivos, ouriços, aracuãs e diversas outros bichos no seu território). Além de multiplicar espécies nativas e enriquecer ainda mais a biodiversidade local, o projeto também almeja impactos mais profundos a médio e longo prazo, como a redução dos incêndios na região (já que os pinus atuam como propagadores destas queimadas) e proteção das nascentes do Morro Santana. Importante lembrar que, quando o bairro da zona leste sofre com crises de abastecimento pelo sistema municipal de Porto Alegre – como durante as enchentes de 2024 – a aldeia compartilha a água das nascentes que protege com a vizinhança.
Evidente que, para que todos estes sonhos se tornem realidade, será preciso bastante trabalho pesado. Mas, os primeiros passos já foram dados pela extensa rede que caminha junto da aldeia, e a cada passo se aproxima a possibilidade de gerar muitos frutos e espalhar sementes e mudas pelo Morro Santana e outros territórios que lutam em defesa da vida e da natureza. Que venham as próximas etapas!
Apoio:

Projeto contemplado na chamada Reconstruir RS – Apoio à Resiliência Climática e Reconstrução Comunitária tendo o Coletivo Catarse como organização parceira.
texto e fotos: Bruno Pedrotti