Fortalecendo o olhar da Fuá

No final de março, a jovem Marciely Salvador, de nome kaingang Fuá (erva nativa usada para fins medicinais e alimentícios pelo seu povo), recebeu uma importante ferramenta para potencializar o trabalho no audiovisual: uma câmera Canon T100 adquirida com apoio do Coletivo Catarse e financimento da ONG Witness.

Apesar de ter apenas 13 anos, Fuá já carrega no currículo trabalhos com fotografia, filmagem e atuação. A aldeia da qual a jovem faz parte, a Retomada Konhun Mag em Canela/RS, vem se aprofundando no audiovisual como ferramenta de luta por direitos e divulgação da sua cultura. Entre tantas produções, vale destacar o curta de ficção “A araucária e a Gralha Azul” realizado em um processo de intercambio com cineastas do Coletivo Beture – indígenas Mebenbokre/Kayapó do Sul do Pará -, o minidoc Expressões Culturais da Aldeia Konhun Mag, a esposição de fotos “Olhar da Fuá” e o curta metragem que irá estrear este ano “Fuá, o sonho”

Além da atuação de Fuá por si só, a jovem ainda descende de um ancestral extremamente importante para o povo kaingang. Seu avô, Zílio Jagtyg Salvador, foi Kuja (liderança espiritual, Xamã/Pajé) e teve forte atuação na luta por terra e território para o seu povo. Falecido em 2017, o ancião foi a inspiração para a Retomada Konhun Mag, realizada por seus filhos, sobrinhos e netos no ano de 2018, um ano após sua passagem.

Para nós, do Coletivo Catarse, Zílio também teve um papel marcante. O ano era 2002 e um grupo de colegas que pouco depois iria fundar o coletivo estava trabalhando no projeto “Índios Urbanos” que deu origem a uma revista e um documentário em fita VHS (ainda não digitalizados). Na época, o povo kaingang estava começando o processo de retomadas nos morros da então zona rural de Porto Alegre/RS, a começar pela Lomba do Pinheiro. Zílio, era uma das lideranças envolvidas com aquela retomada de território tradicional e foi a pessoa que abriu as portas da aldeia para que a equipe entrasse na área. Além de grande ajuda no projeto, a atitude da liderança também inaugurou uma frente de trabalho para os colegas, que passaram as décadas seguintes registrando as lutas dos kaingang.

Revista índios Urbanos. Foto: Jefferson Pinheiro.

Passados vinte anos, é uma satisfação para o Coletivo Catarse poder retribuir a atitude de Zílio e apoiar a continuidade de sua luta nas novas gerações. Que venham muitos outros trabalhos, filmes, exposições fotográficas para a jovem Fuá. E acima de tudo, que os kaingang possam avançar em suas lutas, que outras aldeias e retomadas se consolidem no Rio Grande do Sul – como aconteceu com a Fag Nhim na Lomba do Pinheiro e vem acontecendo com a Retomada de Canela, a Retomada Gah Ré e tantas outras.

Agradecemos ao povo kaingang pela confiança e pela parceria ao longo destes anos e também aos outros apoiadores não indígenas que tecem esta rede de fortalecimento das comunidades. Neste caso, somos particularmente gratos à Witness pelo financiamento que permitiu a compra; à Amália Brandolff, ao Nelson Haas e à Beth Bado do Bonecos da Montanha pelo apoio na entrega da câmera.

Viva a luta do povo kaingang!

reprodução: redes sociais Beth Bado. Foto: Amália Brandolff

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