A Nós Companhia de Teatro é um rizoma gigante de pessoas, ideias, feitos e afetos que existe há 21 anos expressando arte através do drama, da comédia, da poesia. Celebrando esse longo caminho, conversamos com Everson Silva, um dos fundadores e diretores da companhia, para entender melhor a dimensão deste grupo que tem seus limites re-traçados a todo momento, a cada novo processo artístico.


1 – Fala um pouco sobre a tua trajetória de artista e o que te motiva a continuar fazendo arte?

Sempre fui um artista autoral e independente, de formação pedagógica. Sempre trabalhei com uma característica de criação e produção em grupo, meus trabalhos se tornam um meio de relação externa com o meu interior.

A cada obra desenvolvo e pesquiso uma linguagem, um método, uma relação a ser explorada.  Apesar de ser uma vida de grande trabalho e pouco recurso, a arte alimenta o meu ser criativo e a ferramenta teatro é um elo com a sociedade. Dentro do teatro me relaciono com as pessoas mais interessantes, desenvolvo arte, experimento coisas novas, crio, movimento o corpo e, por algum motivo, não consigo deixar de fazer. Já pensei em seguir outros rumos diversas vezes e por vários motivos, mas logo minha cabeça e corpo recebem um novo roteiro, uma nova ideia, um novo estímulo à criação da cena. Esses mundos me encantam, asim como os artistas da cena.

Tenho 21 anos de dedicação à arte do teatro e nesses anos, 26 obras sendo dirigidas por mim. E assim vou indo… Entre caminhos…

2 – Sobre a Nós Companhia de Teatro. Como surge, quem faz e como se organiza para fazer acontecer?

A Nós Companhia de Teatro surge a partir do momento que eu identifico um pulso por dirigir. Tipo, esse espetáculo precisa existir. E aí, a partir do momento em que esses espetáculos começam a tomar conta da minha cabeça, eu começo a tentar juntar amigos que topem essa ideia de montar esses espetáculos. E isso vai acontecendo. Aos poucos, claro, a Nós Companhia de Teatro tem 18 anos. Eu tenho 20, 21 anos de teatro. Eu entrei na UFRGS para fazer artes cênicas, eu fiz dois anos e não me formei, depois fiz pedagogia. Mas esse período todo de ficar fazendo teatro, que eu geralmente não conto na academia, ele começou a me buscar desse lugar de que eu não conseguia achar uma estrutura mais interessante. E aí eu comecei a criar espetáculos e as pessoas começaram a vir a montar comigo.

Como é que ela se organiza hoje? Ela tem duas pessoas que são os gestores, que sou eu e a Raquel.  a Raquel Tessari foi a primeira atriz da companhia. Ela foi a primeira pessoa que me disse sim, que queria ser dirigida, que aceitou ser dirigida por mim. E hoje, na companhia, é a que mais fez espetáculos. E aí a partir disso eu e a Raquel, somos os gestores da companhia, no sentido de tudo que a Nós Companhia de Teatro precisa. Do currículo da Nós, das notas fiscais, CNPJ. O administrativo da Nós, quem faz somos nós. Mas aí a Nós se organiza através dos seus projetos. Então, cada espetáculo, tipo Nós Performance, Elas, Nós em Off, Oxitocina, cada espetáculo a gente pede uma pessoa para ser o produtor e esse produtor é o responsável administrativamente pelo projeto. Então, se ele precisa de currículo da companhia, ele pede para nós, para mim ou para a Raquel. Já, o currículo do projeto quem organiza é aquele produtor junto com o diretor do projeto específico. No caso do Oxitocina, o diretor sou eu e a produtora é a Silvana. Nós organizamos esse projeto em cima das diretrizes da companhia. Então, eu e a Raquel temos uma horizontalidade, que todo mundo pode somar, mas tem uma hierarquia sim, que a gente permite com que as pessoas organizem também a companhia. Mas, é a partir desse vínculo com os projetos que a nós se sustenta.

Cada projeto ali quando está em temporada, ele dá 5% de recolha do seu líquido para a companhia. Aí a companhia tem um caixa e esse caixa da apoia qualquer necessidade de qualquer projeto. Tipo, o projeto precisa de sala para ensaiar. Pega daquele caixinha ali. Ah, o projeto vai precisar de panfleto para imprimir. Pega daquele caixinha. Porque sempre quando um produto está em temporada, volta 5% para aquele valor. É mais ou menos assim que a gente vai se organizando.

Um dos nossos valores é sempre trabalhar com os profissionais que estão na companhia. Tipo, vamos gerar trabalho para nós mesmos. Então se eu posso ser ator e produtor, que eu seja os dois. Posso ser ator e figurinista? Quando na falta de alguma função, como agora no Oxitocina a gente teve algumas faltas, que não tinha esses profissionais, a gente convida amigos e pessoas de fora que já passaram pela nossa vida, para compor o espetáculo.

O Oxitocina, Mulheres em Trama, com a Letícia Virtuoso e o Dança da Meia-Noite, e tem mais três projetos a vir aí, né? Que são: Amor, o Musical, o primeiro musical da companhia; Palavra, onde os atores só podem dizer o que quando eles abrem o livro e o que está escrito ali. Então tem esses projetos todos acontecendo dentro da companhia, que vieram aí depois da pandemia. A gente veio com Nós Performance depois da pandemia e aí todos esses projetos se abriram aí para acontecer.

3 – Só este ano a Nós ensaiou, divulgou e apresentou 3 espetáculos próprios em teatros importantes, se envolveu com montagens de outros grupos, além de estar com projetos em andamento para serem estreados ainda este ano. Como tu enxergas o envolvimento da Companhia, tendo esta atuação tão pulsante, numa cidade como Porto Alegre?

Eu acho que a gente tem ainda um alcance pequeno dentro de Porto Alegre. Apesar de conseguir participar de editais importantes, de conseguir capitanear dinheiro com editais, não é sempre mesmo que acontece. Não é sempre mesmo. Embora a gente tenha uma atuação forte dentro da cidade, não acho que temos uma visibilidade de importância artística dentro da cidade. Se a gente tivesse uma sede, a gente teria ali um envolvimento maior em relação à cidade como ponto de cultura mesmo. Por mais que a gente já tenha 18 anos de vivência, tem lugares que a gente ainda nem chegou e uma sede pode ser bem importante para estabelecer um vínculo cultural mais sólido com a cidade. Que as pessoas dissessem: “Ali existe a Nós – companhia de teatro”. Por enquanto a gente existe muito num lugar que é das pessoas. Porque a gente ensaia itinerantemente em tudo que é espaço. Então, o que nos une são o vínculo com as pessoas.

Então, as pessoas se somam a essa companhia porque também tem esse desejo de criar. Por mais que a gente tenha como principal objetivo, seja remunerar as pessoas, a gente tem um poço independente por criação. Então acho que isso nos soma. E como muitos de nós se relacionam com muitas pessoas, a gente consegue ter espaços abertos de ensaio. A gente ensaia em qualquer lugar. E acho que as pessoas que estão na nossa volta, como artistas, não só os que estão na companhia, mas as pessoas na nossa volta nos reconhecem como artistas. A gente consegue entrar em alguns eventos, no sentido de colaborar com oficina, enfim, porque nos reconhecem como produtores culturais. Mas, sem ter sede, eu ainda acho isso sempre muito frágil. E a gente só tem visibilidade enquanto a gente está atuando. Atuando assim, estar ali ao vivo, na prática. 

4 – A Nós Performance Teatral é um acontecimento potente tanto no quesito produção, quanto na própria natureza da montagem. Comenta o que tornou viável essa produção tão desafiadora e, também, fala um pouco sobre a escolha da performance como possibilidade expressiva no teu trabalho.

A Nós Performance é um grande resgate, é um grande jogo, é um grande montar do quebra-cabeças, é uma grande articulação da minha cabeça que fez com que aquilo acontecesse, porque envolve muitas coisas, muitas coisas mesmo. Eu lancei primeiro a Nós Performance muito pequenininha, ali para 20 pessoas. 20 artistas que estavam fora da cena, 20 amigos que estavam um pouco fora da cena, 20 pessoas que tinham essa sede de se encontrar, de trabalhar, de criar um espetáculo novo, de fazer uma coisa nova, de conhecer pessoas novas. Essas pessoas estavam com essa sede. Elas não estavam num grupo físico, num coletivo que elas tivessem participando. Essas pessoas já acompanhavam a nossa companhia de teatro, então, tinham visto algumas coisas da companhia e sabiam da minha seriedade em relação ao trabalho mas a gente não tinha trabalhado junto. Então, eu vou nessas pessoas, algumas até com muito receio assim do tipo: “Se eu chamar essa pessoa, esse projeto vai ter que acontecer, né?!”, esse medo assim de tipo: “Tá, será que eu consigo fazer isso ou não?”. Mas, então, eu fui em 20 pessoas e expliquei o projeto, isso pó pandemia, querendo um espetáculo que as pessoas vissem muitas pessoas em cena, que vissem uma galera e a ideia era com 20 pessoas, atores muito potentes para que a gente faça um espetáculo de celebração à arte, a arte que existe em nossos corpos. Fui juntando pessoas de vários grupos: da dança, do cinema, da música, do teatro e, essas pessoas, foram achando ali um espaço muito conveniente de troca artística e todas elas iam experimentar a sua linguagem dentro da performance e isso também aguçou essa galera. A gente ensaiou durante dois meses e fui pegando as histórias desses artistas e colocando na cena e isso foi encantando aquelas pessoas. Depois da pandemia a gente teve uma grande perda, uma grande baixa em relação à nossa arte, à nossa atividade. Eu queria voltar com um projeto que fosse potente pra companhia, então, tinha que ter pessoas novas, porque aí novas pessoas iam nos divulgar, novos artistas iam estar dentro da companhia. 

A outra parte foi que, depois do projeto, depois de estreado, no primeiro ano, fui procurar alguém para ser o produtor. Trouxe Kacau Soares ali pra ser a produtora, porque ela já estava ali no corpo do Elas. E a produção, ela anda lado a lado comigo, a gente monta junto as coisas. A gente vai desenvolvendo tudo junto, né? Eu fico um vampirinho no pescoço ali da pessoa. Como é uma obra minha, eu priorizo muito a produção, é sempre uma potência mesmo. Divido com as pessoas, mas também direciono muito. Então, Kacau foi uma parcerona nesse lugar, aonde eu e ela, até hoje, construímos junto essa produção. Mas aí tem o grande feito. Tem um momento em que 20 pessoas não são suficientes pra que esse projeto comece a acontecer. Assim, não é suficiente. A gente fez estreias, mas ele precisava de um volume maior. Aí é onde eu começo a abrir oficinas pra quem quer participar desse espetáculo e crio um projeto que os artistas da companhia, e aí faço um convite praquelas 20 pessoas que são as titulares do projeto dizendo: “Vocês querem participar da companhia?”. Então, eu brilho os olhos daquelas pessoas. Porque, agora, eu quero fazer com que esse espetáculo aconteça com 100 pessoas. As mesmas cenas, com 100 pessoas. As pessoas, tipo, eu quero muito! E aí eu começo a abrir oficinas de performance pra fazer o espetáculo com pessoas diversas, com pessoas que estivessem há muito tempo no teatro e não estavam mais praticando ou realmente seriam a primeira experiência delas. Então, além disso, tem outros todos os motivos. De encontrar as pessoas, de ser um exercício, de estar com a gente. Claro, tem um leque aí de opções e coisas que fazem com que as pessoas venham pra fazer a performance. Isso nos desestabilizou um pouco, exigiu mais de mim. Porque eu tinha que estar fazendo oficinas, pra que mais gente estivesse na próxima temporada. Isso foi, de alguma maneira, agregando tantas pessoas e se formou um vínculo muito forte. Eu queria estar com as pessoas. Então, o diretor, pra Nós Performance, é diferente do diretor do Oxitocina. É diferente do Elas. Cada projeto também exige de mim ser um tipo de diretor. 

5 – A tua direção é evidente nos processos de montagem, ainda assim, tem muito espaço para a colaboração das e dos artistas envolvidos. Como tu vê o caminho da autoralidade nas produções da companhia?

Um dos grandes desejos realizados é que a Nós Companhia de Teatro possa ser um espaço de experimento para todos os tipos de artistas e funções. Hoje conseguimos ter 3 diretores de cena, roteiristas, dramaturgos e por aí vai. Ter um grupo que as pessoas possam experimentar coisas novas e as suas próprias funções, onde a remuneração é dividida entre todos e todos participam, é  um desejo realizado. Um grupo para por as ideias e essas ideias não ficarem só no imaginário, mas se tornarem reais, esse é um grande trunfo. As pessoas vão entendendo que é fazendo com quem pilha fazer e que o nosso caminho quem constrói é a gente mesmo.

Eu acho que as pessoas cansaram, algumas, de esperar que a coisa acontecesse. E viram na Nós, ou em mim, que vamos fazer com quem tá a fim de fazer. Se tem dinheiro ou se não tem dinheiro, eu não vamos deixar de fazer. A gente vai tirar dinheiro de algum lugar, vai construir de alguma forma e vai lutar e construir com os recursos que a gente tem. Então, quem vai se identificando com essa ideia são pessoas que desejam realizar coisas, independente do que o caminho se apresenta. Então, a força da realização que talvez tenha em mim, se expande aos outros e vai se somando às suas potências. Aí eu acho que a gente vai tendo um grupo que se fortalece em si mesmo. Eu acho que o caminho dessa autoralidade que tu fala é permitir que as pessoas consigam ser elas mesmas, que as pessoas consigam ter espaço do seu trabalho. Ou se quer experimentar alguma coisa nova. A gente é um grupo de formação. “Se tu não tem nenhuma formação em vídeo, então senta junto ali com a Têmis, porque a Têmis vai estar te passando conhecimento”. A gente vai estar trocando e tu vai estar experimentando. Então, isso eu acho que é muito forte dentro do nosso grupo.

Tem gente que nunca foi produtor e começou a ser produtor e aí a gente começou a construir junto e assim vai. Então tipo, agora tá tendo a dança da meia-noite, que é o texto é de outras pessoas, o diretor é outro e tudo dentro da Nós. Isso é uma maravilha, porque a gente tem um projeto que não é dirigido pelo Everson e nem produzido pelo Everson, que nem o Mulheres em Trama vai ser, mas que é dentro da companhia. A gente já tem contrato de que  esses projetos são da companhia mas são projetos independentes à minha atuação dentro daquele projeto e isso é muito legal. A gente vai descobrindo essas fendas.

Porque a gente começa a entender que o coletivo alimenta o próprio coletivo. Então, se todo mundo somar com a sua forcinha, né? Pô, tem um fotógrafo, tem alguém que filma, tem um artista em cena, tem alguém que põe a luz. Ali, a gente cria uma obra e todo mundo ganha. Pode ser pouco, mas todo mundo ganha e tá em exercício. Então, se a gente se unir, se a gente se apoiar, a gente consegue ir longe. A gente conseguir enxergar isso foi realmente o ápice da grande transformação da Nós.

6 – Na tua visão, qual seria o contexto ideal para um trabalhador da cultura, como tu, trabalhar com dignidade?

Falando de mim e dentro do meu universo, eu acho que uma sede seria um espaço de solidez. Um espaço onde a gente conseguiria fazer apresentações do nosso espetáculo, ou fazer qualquer tipo de outro evento, participando de editais, das temporadas em teatro, o que a gente já consegue fazer fora. Mas a gente agora teria que conseguir um lugar pra dentro, um lugar fixo, onde a gente pudesse expandir ali. Aulas, o nosso cenário, estabelecer a Nós companhia de teatro.

E aí eu acho que todo o espaço cultural que já tenha, sei lá, a partir de cinco anos estabelecido, tivesse que receber uma quantia do governo, de ajuda de custo, sabe? Que fosse dois mil reais por mês. Mas esses dois mil reais pagariam a internet,a luz…Posso estar subestimando o valor, mas que o governo entendesse que aquele espaço é útil pra cidade e ele pudesse somar ali com esse apoio, demonstrando que aquele espaço é relevante para a sociedade, apoiando a sua subsistência. Então, que pudesse ter, pelo menos, uma ajuda de custo, que pagasse o básico. Não precisa nem pagar o salário das pessoas, mas que pagasse o básico pra que aquele projeto pudesse estar estável. Mas eu acho que, pra mim, trabalhar com dignidade agora começa a vir, né? Tô com 43. Quero ter uma sede que a gente ali pudesse se estabelecer. Porque a gente fica espalhado pela cidade, é importante a gente se reconhecer num lugar físico e dizer: “Isso aqui somos nós.”. Essa é a Nós companhia de teatro. Pra mim agora seria isso.

Agora, quem já tem a sua sala, com certeza vai anunciar outras coisas. Porque a itinerância cansa, ela tira um couro da gente, ela nos deixa sempre carregando coisas pra lá e pra cá. Mas, enfim, vamos ver o que que acontece pelo caminho. Obrigado pelas perguntas, obrigado mesmo. É sempre bom refletir.

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