Cultura Carijeira viva e acesa no RS

Na contramão da mecanização da indústria ervateira, grupos, comunidades e coletivos seguem construindo carijos. No último final de semana de agosto, chegou ao Coletivo Catarse informações e convites da realização de pelo menos 5 carijadas diferentes no estado. Calculam-se cerca de 75 pessoas reunidas simultaneamente em 5 municípios diferentes no sul, centro, litoral norte e serra do Rio Grande do Sul – que, juntas, produziram mais de 150 kg de erva-mate artesanal.


Mas por que a ocorrência de tantos eventos deste tipo ao mesmo tempo? Compreende-se que o fator ambiental possa ter uma contribuição fundamental para o timing desse final de semana de agosto – afinal, este é o período do ano que marca o final da dormência em plantas como a Ilex, uma época ideal para a poda.


Mas, também, entende-se como uma obviedade que tantas atividades acontecendo simultaneamente fazem parte de um movimento espontâneo que reforça o fato de que a cultura carijeira está viva e extremamente ativa no estado, com um grande número de grupos se relacionando preiodicamente com este modelo de produção artesanal tanto por meio de vivências abertas quanto pela produção para autoconsumo e comercialização.

Para Moisés da Luz, a quantidade grande de coletivos e grupos se relacionando com o carijo não é por acaso, mas é fruto de um processo de cerca de vinte anos de formação de multiplicadores dessa cultura. O biólogo explica que isso se iniciou em 2005 com a organização de encontros abertos de carijadas a partir da vivência que tinha com seus pais e avós.

“Fomos gerando pessoas multiplicadoras da prática e motivando outras a retomar o saber-fazer de seus ancestrais”, reflete.

Esse processo de formação de multiplicadores passa não só por vivências práticas, mas também pela sistematização deste modelo artesanal por meio de trabalhos acadêmicos, como a dissertação de mestrado Carijos e barbaquás no Rio Grande do Sul: resistência camponesa e conservação ambiental no âmbito da fabricação artesanal de erva-mate, de autoria de Moisés e editado também como livro e base de pesquisa para o documentário “Carijo, o filme”. Entre outros materiais, vale citar também o site, a cartilha passo a passo e o audiodocumentário em podcast “Kaárijo”.

Entre os resultados desta ação continuada, o biológo cita a patrimonialização da erva-mate, considerando o saber fazer tradicional guarani; a retomada e releitura da história da erva-mate e o reconhecimento de que a erva-mate e seu processo de feitio é de origem indígena (mbyá guarani, kaingang, etc.); o questionamento do conceito de gaúcho da maneira como é trazido pelo tradicionalismo; o aprendizado e autonomia quanto a processar a erva-mate; e o incentivo para as pessoas conhecerem e valorizarem o mundo da agroecologia, das agroflorestas e do viver no campo e a proteção às florestas nativas.

Moisés percebe também uma difusão maior de carijos pelo estado, principalmente, nas “regiões mais florestadas, onde os ecossistemas nativos estão mais preservados e entre públicos identificados com a agroecologia, o bem viver, os povos indígenas, autonomia camponesa e de coletivos”. Esta percepção se reforça quando olhamos as carijadas realizadas no último final de semana, tendo como protagonistas grupos e espaços agroecológicos e comunidades indígenas.

Em Nova Petrópolis, serra gaúcha, 6 pessoas produziram aproximadamente 20 kg de erva. Foi a primeira carijada organizada pelo Sítio Grūnes Paradies, e as plantas podadas no preparo foram cultivadas no próprio local. Duas das organizadoras haviam participado do primeiro Carijo Serrano Caconde (realizado em São Francisco de Paula em 2022).

Já na região sul do estado, em São Lourenço do Sul, 20 pessoas produziram entre 50 e 60 kg. A atividade foi a segunda carijada realizada pelos sítios Enlaçador de Mundos e Espinilho neste ano. As plantas vieram de um erval nativo do Sr. Elmo Blank, antigo produtor de erva-mate da região. Foram manejadas 5 plantas indicadas pelo produtor, que não eram podadas há dez anos.

No Vale do Rio Pardo, em Santa Cruz do Sul, a Ecovila Karaguatá organizou a sua segunda carijada. Novamente a erva veio do sítio Cepa Cipó, de Amadeu Krebs, rebrotada depois da primeira carijada no final de 2023. Foram produzidos 13 kg durante a vivência, pela qual circularam 15 pessoas.

Em Maquiné, litoral norte do estado, mais ou menos 20 kg de erva-mate foram produzidos, contando também uma pequena produção de chá mate. Foi o primeiro feitio com mudas plantadas no Vale do Rio Ligeiro, reunindo 14 pessoas, em sua maioria vizinhos da região. A iniciativa veio de Kátia Zanini (mobilizadora do Centro de Vivências Vale do Ligeiro, que tem ervas plantadas, mas ainda pequenas) em parceria com Leandro Umman, que tem um plantio de 260 pés de erva-mate no espaço Alma-Viva. Os organizadores também já fizeram uma carijada em Minas Gerais. A família de Kátia Zanini, inclusive, também foi a responsável pela primeira carijada em que integrantes do Coletivo Catarse se fizeram presentes, em Sertão Santana, na primeira década dos anos 2000.

Por último, mas não menos importante, a rede do carijo da Amizade realizou sua quarta(!) carijada de 2025. Com organização do Sítio da Amizade e parceiros junto à comunidade mbyá guarani da Tekoá Yvyty Porã (Serra Bonita), em Riozinho. Cerca de 20 pessoas trabalharam coletivamente no feitio de 50 kg, manejando o erval nativo da comunidade indígena.

Carijo em Maquiné


Os povos orginários, aliás, vêm tendo um forte protagonismo no feitio de erva-mate no Carijo no RS. Além da Yvyty Porã, a Tekoá Kaamirindy – também do povo mbyá guarani e localizada no município de Camaquã – produz carijadas regularmente para venda da erva-mate, gerando trabalho e renda para as famílias a partir desta planta de grande importância cultural e espiritual para os guarani. Recentemente, também a comunidade guarani da Tekoá Anhatenguá, na Lomba do Pinheiro em Porto Alegre, realizou sua primeira carijada com apoio do IECAM.

E no norte do estado, em Erval Grande, a aldeia Ponkry Chaig (Pinheiro Preto), do povo Dofurêm Guaianá, também vem fazendo a produção de erva de carijo. A Seiva Rebelde, além de uma prática de resgate do Congon Guainá, também abastece o autoconsumo das famílias e a comercialização em feiras e por meio da rede da Teia dos Povos em Luta no RS.


Reflorestamento

Para suprir a falta de ervais nativos na maioria dos territórios, muitas aldeias vêm realizando plantios de erva-mate. No mesmo final de semana de tantas vivências de carijo, na Retomada Gah Ré, do povo Kaingang no Morro Santana, zona leste de Porto Alegre, indígenas e apoiadores (entre eles o Coletivo Catarse) realizaram um plantio de cerca de 70 mudas, incorporadas na agrofloresta da aldeia e também plantadas em um erval implementado ao longo do mutirão.

Tantas iniciativas envolvendo o manejo artesanal da erva-mate parecem contradizer diversas fontes que se encontram nos mais variados formatos tanto online quanto impressos – e muitas dessas, não por acaso, financiadas pela industria ervateira – que tratam o Carijo como algo sempre relacionado a um passado distante. Esses conteúdos costumam mencionar este e outros métodos de produção artesanal como práticas arcaicas que não existem mais, que teriam acabado exatamente com o advento de uma indústria inovadora e mais eficiente.

Na visão de Moisés da Luz, este discurso é propagado por “um segmento da população que não convive ou rejeita o público da agroecologia e dos povos indígenas”. Composto por setores do agronegócio, empresariado industrial e uma parte do chamado tradicionalismo gaúcho. Na visão do pesquisador, esta visão está relacionada tanto por um preconceito contra as práticas e saberes agroecológicos e indígenas quanto por uma ideologia de superioridade da indústria, calcada nas noções de desenvolvimento e progresso.

No entanto, apesar dessas tentativas de apagamento histórico, nota-se fatualmente que a chama carijeira segue acesa. Seus principais guardiões – os povos originários, camponeses e grupos e espaços de agroecologia – seguem mantendo essa cultura não só com a prática regular das carijadas, mas também por meio dos diversos plantios de erva-mate, do cuidado com as florestas e até mesmo com a simples divulgação virtual desses encontros, visando alcançar a cada vez mais pessoas todo este conhecimento raiz do Estado do Rio Grande do Sul.

Vida longa ao Carijo!

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