Cerca de 20 pessoas se reuniram em São Lourenço do Sul nos dias 18 e 19 de abril , na chamada Costa Doce Gaúcha, para um encontro de feitio artesanal de erva-mate. Utilizando o método do Carijo, produziram coletivamente cerca de 30 quilos da planta para infusão.
Ao longo da manhã do sábado, dia 18, foram podadas duas plantas adultas de Ilex paraguariensis da variedade Cambona – conhecida pelas folhas grandes, com algumas chegando ao tamanho de uma mão -, que não recebiam manejo há quase 30 anos. No final da tarde, iniciou-se o sapeco e encarijamento.

A atividade reuniu participantes de São Lourenço, Porto Alegre, Jaguarão, Canguçu e até mesmo de Ilópolis, Capital Gaúcha da Erva-Mate. A inciativa reuniu pessoas de todas as faixas etárias, de crianças a idosos, todos com alegria e disposição compartilhando juntos o fazer coletivo. A organização foi da rede que vem produzindo uma série de carijadas na região de São Lourenço desde 2023, com alguns integrantes engajados nesta cultura e facilitando manejos artesanais desde 2018, principalmente na região sul do estado.
O espaço que acolheu o evento foi O Jardim – Espaço Cultural, que reúne ações de arte, cuidado e convivência como cerâmica, costura, bordado, beneficiamento e tingimento natural de lã; compostagem; plantas medicinais, socialização e arte juntamente com a AMAFE/SLS – Associação Mães Atípicas Fênix de São Lourenço do Sul, karaokê, cinema e tantos outros. Reunidos no local e contemplando uma madrugada de céu limpo e estrelado típico da lua nova, os viventes secaram a erva por cerca de 15 horas utilizando lenha de Maricá – a árvore nativa conhecida pela excelente brasa havia sido cortada pela companhia elétrica que atua no unicípio (CEE Equatorial) no ano anterior. Por fim, colocaram a erva no soque mecânico e no pilão, para, depois, fazer a partilha.
Tudo isso regado a boa prosa, a música de Jerônimo J. R. Silva – que foi da milonga ao reggae em canções combativas e de valorização da sociobiodiversidade – e comida deliciosa, com direito a galeto, carreteiro e até mesmo sushi vegano.
Enquanto os presentes se deliciavam com a erva recém produzida, circulou pela roda uma infinidade de ideias. Novos carijos, mateadas, atividades, pessoas e grupos para entregar um pacote da erva novinha . Tudo para seguir divulgando esta cultura carijeira, fomentando encontros, partilhas e manter a roda circulando com a brasa acessa.
O encontro ainda teve o importante papel de reafirmar a potência da cultura carijeira ao sul do estado, onde grupos e coletivos seguem divulgando e praticando esta cultura ancestral de origem indígena. Na região, são manejados tanto ervais plantados quanto nativos em áreas de transição com a Mata Atlântica e mesmo em áreas florestais do pampa.
De fato, o que se verifica hoje no Rio Grande do Sul é uma forte presença do carijo, de Norte a Sul e ainda no Noroeste e nos Vales do Litoral. Pelo trabalho e dedicação de tantos grupos diferentes de pessoas a esta cultura, tudo indica que a prática só deve crescer, alcançando cada vez mais viventes e resgatando esta prática ancestral em cada vez mais territórios.
Que o Carijo siga forte ao sul e no estado como um todo, conectando e acalentando vivências e encontros. Viva a cultura carijeira!
Texto: Bruno Pedrotti
Fotos: Giulia Sichelero
Edição: Anahi Fros

