Carijo de las Brujas e uma retomada da erva-mate uruguaia

Já era noite escura do sábado, 30 de agosto, quando a cerração e as nuvens se abriram. A luz da última lua cheia do inverno iluminou o topo da coxilha do Mirante da Quebrada, sede do Centro Agroecológico Pindó Azul, na Quebrada de Los Cuervos, cidade e departamento de Treinta y Três. Tons de branco contrastaram com o vermelho do fogo e coloriram os mais de trinta quilos de erva no primeiro carijo da era moderna no Uruguai.

Bruno Pedrotti

“O brilho contagiou os viventes ali reunidos com otimismo e alegria. Entre tantas prosas que tive naquele momento de euforia me lembro de uma com nosso anfitrião José Puigdevall, vulgo Pepe, um dos pioneiros no trabalho com as plantas nativas do lado uruguaio da bacia da Lagoa Mirim, entre elas a erva-mate.

Sorrimos admirando aquele luar e a beleza do céu noturno uruguaio – muito menos poluído por luz artificial do que do lado brasileiro. Lembramos que, quando tantos obstáculos pareciam nos dizer para cancelar ou adiar o carijo, a lua cheia – ideal para a poda das árvores de erva-mate – foi um dos fatores que nos levou a manter o evento – assim como a proximidade com a primavera, período desaconselhável para esse manejo por conta do ciclo reprodutivo da Ilex paraguariensis.”

Levar todos fatores possíveis em consideração era extremamente importante, já que se tratava de um dos ervais nativos do Uruguai – país mais aficionados por mate do Cone Sul. Os uruguaios consomem tanto ou mais mate que o Estado do Rio Grande do Sul. Números oficiais de cada país falam em uma média de 8,5 a 10 kg por habitante ao ano no Uruguai, 9 pelos gaúchos, 6,5 na Argentina, 2,5 no Paraguai e 1 kg se considerando o Brasil como um todo.

Apesar de importar do Brasil quase toda a erva que consome, o paisito tem, sim, ervais nativos conforme os anfitrões fizeram questão de reforçar durante o evento. Além da Quebrada de Los Cuervos – local que recebeu a carijada e que tem a presença da planta registrada em toda a toponímia local, das Sierras del Yerbal aos arroios Yerbal Chico e Yerbal Grande (Serras do Erval, Riacho Erval Pequeno e Erval Grande) -, os ervais nativos também se encontram em outras 13 zonas, entre elas Taquarembó, Cerro Largo, Rivera, Lavalleja, Rocha, Artigas e Aiguá, sendo este último considerado o local mais ao sul do domínio da planta. Porém, esses ervais são pouco ou nada utilizados, apagados por um discurso de que “o Uruguai não tem erva-mate”.

Justamente para combater esta narrativa, a Pindó Azul convocou, além do Coletivo Catarse (com apoio dos parceiros Alexandre Fávero e Filipe Teske) e do Maestro carijeiro Moisés da Luz (coordenador técnico e de pesquisa do Projeto Carijo), cerca de 30 pessoas de iniciativas ligadas a alguns desses ervais nativos. Como o Más Yerba, que desenvolve um trabalho de conservação, turismo e feitios em pequena escala de erva-mate em Aiguá. Além de um maior aproveitamento dos ervais nativos do país, muitos participantes também estão diretamente engajados no plantio da ilex no território uruguaio. Aliás, estudos recentes indicam que – com o aumento do calor e umidade por conta da emergência climática – o vizinho tende a ficar cada vez mais apto para o cultivo da planta (pelo menos em se tratando de clima).

Por enquanto, as populações desta planta nativa sobrevivem no país por conta de adaptações aos períodos de seca durante o verão. Não por acaso, o erval manejado para o Carijo ficava justamente na mata ciliar do arroio Yerbal Chico, com muitos pés de erva crescendo dentro da barranca do rio.

Deste pitoresco e singular erval dentro de uma canhada ao fundo de um campo nativo da pampa, com ovelhas e gado bovino, foram podadas cerca de seis plantas e transportadas até o Mirante da Quebrada há alguns quilômetros dali. Vale destacar que o mirante fica na sede da Pindó Azul, associação civil com mais de 20 anos de experiência. Nessas décadas, vem realizando plantios de frutas nativas, reflorestamento nativo, trabalho com sementes crioulas, plantas medicinais, óleos essenciais, bioconstrução, apicultura orgânica, educação ambiental, ecoturismo. Tudo isso em uma área de 120 hectares, cedidos pelo Instituto Nacional de Colonización (INC, órgão público semelhante ao INCRA brasileiro), inserido dentro de uma área protegida nacionalmente, a Paisage Protegida Quebrada de Los Cuervos.

Reunidos neste local tão especial, os participantes atravessaram a madrugada, resistiram ao pesado sereno que voltara a baixar, degustaram licores de frutas nativas como pitanga e araçá e curtiram, inicialmente pelo protagonismo de um grupo bem especial de mulheres, que literalmente assumiu o carijo, cantos sensoriais, milongas, candombes, sambas da fronteira e tantas outras expressões culturais. Ao amanhecer, saborearam um mate e pilaram manualmente as 3 dezenas de quilos com a exuberante paisagem da quebrada ao fundo.

A erva binacional acabou ficando mais grossa do que os brasileiros estão acostumados, mas um pouco mais fina do que o padrão uruguaio, com poucos galhos e um tom de verde escuro típico de ervais nativos. Não que isso seja considerado um problema, afinal, o encontro se propôs justamente a um intercâmbio, reafirmando o território de fronteira não como limite excludente, mas como um espaço de trocas e compartilhamentos que acaba gerando uma cultura única e extremamente rica.

Também por isso, este carijo, ainda mais que qualquer outro, não se encerra com a erva pilada e dividida entre os participantes. Até porque, para muitos hermanos, a erva só está pronta depois de 6 a 24 meses de descanso, quando o verde dá lugar a uma cor amarela típica dos padrões preferidos no Uruguai e Argentina.

E, para além da erva, as alquimistas presentes também experimentaram diversos usos para os restos não utilizados como galhos, ramos e folhas caídas. Reforçando o já destacado protagonismo feminino, o encontro teve a participação de muitas mulheres e organizações focadas em biocosméticos, medicinas naturais e saberes nativos e ancestrais (como a SaludaTerritório e Mainoi Botica Natural). Las brujas queimaram os galhos saídos do cancheador e, com suas cinzas, fizeram rapé. Ramos muito curtos foram usados para fazer tinturas para uso em shampoo e outros cosméticos naturais, e um panelão de folhas caídas foi fervido para tingir bolsas e roupas com o seu verde.

Fica, assim, a reflexão sobre a diversidade de usos que esta planta pode ter. E segue também a vontade e disposição de se seguir rompendo os limites impostos pela colonização e tecendo-se redes com a diversidade de grupos que salvaguardam os fazeres artesanais no vasto território de domínio da Ilex. Afinal, a erva-mate não tem fronteiras, como não tinham os povos originários que começaram a se relacionar com esta planta e a consolidaram como uma das bases culturais do Cone Sul. Conectar estes territórios e voltar a circular os saberes em torno das práticas de seu manejo artesanal é uma maneira de fortalecer a autonomia das comunidades, a conservação dos ecossistemas naturais e a integração cultural entre nações vizinhas.

A depender do Coletivo Catarse, esta é apenas a primeira de muitas ações com os hermanos!

Realização: Centro Agroecológico Pindó Azul e Coletivo Catarse. Apoio do Ministério de Educación y Cultura, LAPPU (Laboratório de Arqueologia del Paisage y Patrimonio del Uruguay), Universidad de Republica Centro Universitario Regional del Este (CURE/UDELAR) e Instituto Nacional de Colonización (INC_Uruguay).

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