O Rock que morreu? Ou o público que envelheceu?

Começo este texto/cobertura de evento com esta pergunta do título, pois há tempos ouvimos coisas como “o rock morreu”, “o rock vive”, “o rock não morreu”… Aí sempre nos questionamos e buscamos provar que o rock está vivo, sim. E, de fato, ele nunca vai morrer enquanto existir, pelo menos, uma pessoa neste mundo que tenha um pensamento controverso com certos “padrões” da sociedade conservadora, porque sabemos que rock não é só música é atitude.

Pois bem, sobre o rock já falamos – e sobre o público?! Será que envelheceu mesmo?

Claro que sim, assim como as bandas vão envelhecendo, melhorando, se profissionalizando, o público também vai amadurecendo, afinal, somos seres humanos (ainda). Mas e o que isso tem a ver? Afinal, um público mais velho, pela lógica, seria aquele público que trabalha, consequentemente, compra merch das bandas e frequenta mais os shows pagos, certo? Certo! E isso, de fato, acontece… Mas, aí, por que vemos um evento como o 5º Rolê HC, que rolou em São Leopoldo, com boa divulgação, com pessoal trabalhando junto como promoter e com lineup de bandas boas da região – como Lapso de Insanidade, Hempadura e Boca Braba Hardcore, e mais a Baysidekings, banda do estado de São Paulo, da cidade de Santos, e que tem um nome forte no meio hardcore -, e o evento teve menos da metade de público que a casa suporta… Como se explica isso? O erro é da produção, bandas, bar? Muitas vezes, sim, mas, nessa questão, não há dúvidas de que foi do público.

Muito se escuta: “não vou porque o evento termina tarde, não tem como voltar”; “estava chovendo”; “muito longe”; “já fui no de ontem”… Pois, de fato, o evento foi tarde da noite, a primeira banda começou a tocar meia noite, e a última, quase 3h da manhã e terminou era quase 4h. Horário normal para um sábado à noite, mas não mais para um público velho que reclama demais e que até entraria de graça e não compareceu.

E muitas vezes os eventos começam cedo, mas quem diz que esse público chega cedo? Se é que comparece ao evento, pois muitas vezes o evento é aos domingos e começa pela tarde, terminando cedo da noite – aí o pessoal não vai: “trabalho no outro dia”; “era muito cedo”…

Se os eventos fossem como a 15 ou 20 anos atrás, quando as bandas, a maioria, era ruim e mal sabia o que estava fazendo no palco, o equipamento era horrível – e quando tinha equipamento bom as bandas pareciam piores porque não sabiam regular -, até se entenderia. E, pior, nessas épocas, a galera ia e virava a noite, muitos nem entravam nos shows, mas ficavam na frente tomando um “trago”, a distância e o horário não eram o problema. Mas, aí, claro, o público envelheceu, o corpo não aguenta mais o pique, a vontade de ficar em casa no Netflix e redes sociais é grande, como quando eram jovens e a vontade de estar na rua com os amigos era mais forte e se tinha energia de sobra pra farrear a noite toda e no dia seguinte ir para o arco da redenção tomar mais um trago e contar histórias do sábado a noite.

Então, e o público mais jovem? Porque ele não compareceu? Talvez porque hoje a alternativa de festas e locais de concentração seja maior e os produtores/membros de bandas mais “velhas” não conhecem esses lugares e não os frequentam… Será isso um problema?

Talvez sim. Porque não adianta só culpar a falta de espaço na mídia, porque nunca houve espaço para o rock underground na mídia.

As bandas e alguns produtores estão unidos, existem eventos fantásticos e com grande qualidade, mas na hora do evento é sempre uma surpresa: será que vai ter público? Muitas vezes são sempre os mesmos, muito pouco se vê pessoas desconhecidas… E, então, como se conquista a galera que vai a shows de bandas de grande porte que rola dia da semana às 22h? Como se renova o público pagante das bandas underground?

Bom…

Aconteceu nesse início de dezembro o 5º Role HC, evento que a banda Boca Braba Hardcore promove anualmente e, nesta edição, trouxe para o RS a banda Baysidekings, de Santos, que, além do show principal, no sábado, arrumou um show na sexta-feira na Minor House, em Porto Alegre, show com entrada gratuita e ainda rango vegano liberado.

O 5º Role HC foi um evento lindo, que este ano correu em São Leopoldo, organização impecável, cronograma seguido à risca, Embaixada do Rock com atendimento sempre perfeito, equipamentos bons e muita qualidade dos shows das bandas convidadas – Lapso de Insanidade, Hempadura e os anfitriões do evento, Boca Brada HC.

Baysidekings surpreendeu muito, o show agradou bastante e as mensagens entre as músicas que o vocalista Milton mandou eram sempre muito boas, sem falar na humildade dos caras, foram muito receptivos e até presentearam uma galera com CDs, camisetas, posters, adesivos – é raro de ver isso.

Seguimos, na resistência, luta e ativismo.

Rolê Hardcore

MAIS QUE UM JOGO – Copa Conquistadores da América

A América Latina teve sua história construída em cima de sangue, contradições, exploração e resistência. Séculos depois do Manifesto de Cartagena e do Cruce de Los Andes, mais uma vez a Coroa está levando o que é nosso.

Torneio mais importante do continente, a Libertadores da América homenageia em seu nome os líderes das guerras de independência do século XIX. Personagens que lutaram para a construção deste novo mundo, que apesar da escravidão e do extermínio dos povos originários, foi construído por uma mistura de cores, idiomas, crenças e culturas.

O futebol – esporte bretão cujas regras nasceram em universidades – também foi (re) construído e transformado no sul do mundo. O futebol sul-americano – que pode ir desde o jogo bonito brasileiro até o estilo de jogo renhido associado aos platenses – tornou-se uma daquelas coisas nossas, sudacas, nosso tesouro em uma terra onde muito da prata, do ouro, das pedras preciosas (e tantos outros recursos naturais) já foram saqueados. Como Eduardo Galeano conta em Futebol ao sol e à Sombra, foi graças à linguagem do futebol que trabalhadores expulsos do campo se entendiam com trabalhadores expulsos da Europa. “Linda viagem, a que havia feito o futebol: tinha sido organizado nos colégios e universidades inglesas, e na América do Sul alegrava a vida de gente que nunca tinha pisado numa escola”, escreveu o autor uruguaio.

Porém, eis que depois de levar nosso ouro e nossa prata, a Metrópole levou nosso futebol.

Quando a final do torneio que homenageia San Martín, Bolívar, O’Higgins, Artigas, Miranda e até mesmo o nosso brasileiríssimo Dom Pedro (isso sem falar de Manuela Sáenz, Juana Azurduy e tantos anônimos que fizeram deste continente algo possível) tem a sua final disputada na capital do mesmíssimo reino que por tantos anos rapinou este continente, uma final longe de sua gente e de suas cores, nos roubam o futebol.

Nos roubaram o futebol quando os estádios viraram arenas. Nos roubam o futebol quando futuras promessas não chegaram a estrear nas equipes principais, sendo levadas para clubes europeus com os quais não podemos competir financeiramente. Nos roubaram o futebol quando estabeleceram que os canais de televisão – e não os torcedores e clubes – decidiriam o horário das partidas. Nos roubam o futebol quando limitam a forma de torcer à determinados lugares no estádio. Nos roubam o futebol quando um ingresso custa três dígitos, mas não há nenhuma garantia de segurança ou comodidade. Nos roubaram o futebol e nos deixaram com um show adaptado ao gosto da metrópole, para o rei aplaudir de pé.

A violência no futebol não é uma exclusividade sul-americana, porém, o jeito como a Conmebol lidou com o problema é um reflexo da(s) crise(s) que tantos países do continente estão atravessando. Eles –Domínguez, Leoz, oPlatini, Infantino e tantos outros – vão seguir lucrando com um torneio cada vez mais espetacularizado cujas finais (únicas) serão disputadas preferencialmente bem longe do torcedor. Nós ficamos com a disputa da Conquistadores da América.

Movimento Grêmio Antifascista

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Texto publicado originalmente AQUI.

Filmografia Social – Mr Robot

Mais uma história de futuro distópico, como The Handmaid’s Tale – mas, no caso, poderia-se relativizar e dizer que é mesmo utópico… Mas por quê? Porque Elliot faz a revolução.

Um rapaz solitário, de realidade esquizofrênica, um gênio dos computadores, está no meio de um emaranhado que segura todo o sistema financeiro e político mundial. Elliot é um programador que passa a batalhar contra um império por dentro – mas por dentro mesmo, nas sequências de código que contrói e desconstrói, demonstrando que a liga da vida cotidiana do mundo real é muito mais virtual do que se imagina.

Mas as coisas acontecem mesmo é ali fora da tela e do sistema binário de zeros e uns, ali no escritório ele é acossado pelo chefe, em casa, tem dificuldades de se relacionar com a “família”… Aos poucos, vai-se desvendando um passado de violência que é a raiz de seus delírios atuais.

Mr. Robot é um seriado que está em sua terceira temporada, pasas no canal USA, mas é fácil de ser encontrado em aplicativos de torrent como Popcorn Time entre outros – com legendas em português, inclusive. Indispensável para entender, sim, as relações de poder atuais com o uso da tecnologia e como isso acaba por influenciar diretamente as vidas de todos.

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: ficção científica/drama existencial
Temática Social: solidão, assédio, opressão social
Público-alvo: pessoas que curtem filmes como V de Vingança e Clube da Luta, que entendem de programação, de sistemas integrados, ou que se interessem por grandes conspirações e a derrubada de grandes corporações que dominam governos
Roteiro: 
(a história é confusa, porque Eliot é confuso, e o roteiro conseguiu expor isso majestralmente, só não leva os cinco sois catárticos em razão de que a complexidade atingida dificulta por vezes entender a linha temporal dos acontecimentos – e isso pode ser aborrecedor)
Dramaturgia: 
(fantástica! A estética é das melhores já realizadas, com enquadramentos que poderiam ser considerados ridículos em qualquer oficina de produção audiovisual, mas que funcionam e dizem muito sobre o ambiente que se quer retratar. As atuações do personagem principal, Elliot – Sam Esmail, o Fred Mercury do recém lançado Bohemian Rapsody -, e seu “pai” – Christian Slater, sim! – são absurdas, mas todos estão muito bem, inclusive personagens secundários que normalmente seriam insonsos)
Aprofundamento da Questão Social: 
(esta avaliação é interessante, pois considero não dar os cincos sois pela mesma razão que não daria os 3, há um aprofundamento das questões relacionadas a assédio e solidão no seriado, mas é sutil, é preciso um olhar muito atento e, ao mesmo tempo que isso pode passar despercebido exatamente por não ser mais superficial na trama, tem ação no subconsciente de quem assiste e faz tocar mais fundo)

Por Gustavo Türck

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras

Heavy Hour 17 – 27.11.18 – Questão Indígena de novo em pauta, porque Bonoro odeia índios!

Programa com Roberto, do Conselho Indigenista Missionário, Clémentine Marechal, antropóloga e parceira do Coletivo Catarse no Projeto Resistência Kaingang, Iracema Gá Teh Nascimento, xamã Kaingang, e Jósimo, membro da etnia Puyanaua, do Acre. Em pauta o patrulhamento absurdo que vem sendo realizado ilegalmente por seguidores de Bolsonaro em áreas indígenas e a situação geral de desespero que toma conta dessas populações de sul a norte – mas também com espaço para valorização dessas culturas!

Apresentação de Gustavo Türck (@GustavoTurck), Marcelo Cougo e Billy Valdez.

Nosso Livreiro Bolívar (51-989.050.672) também da a sua dica de mais uma importante leitura!

Quem toca neste programa:
Bloco 1
Anthrax – Indians
Hell Bound – Black Storm
Machete Bomb – Temporada de Caça

Bloco 2
Black Moon Riders – She Dies
Primus – Lacquer Head
Heart Attack – Fight to Overcome

Bloco 3
Amitraz – Concepção
Bayside Kings – Tired of this Earth
Motörhead – In the Name of Tragedy
Legião Urbana – Índios

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