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Heavy Hour 61 – 15.10.19 – $aúde pública em $hopping Alegre

Para o Prefeito de Porto Alegre a saúde pública é uma que$tão de negócio e não de direitos. Só isso explica o clima de intolerância e autoritarismo que rola nesse momento, quando, de forma oportunista, Júnior (o filho do famoso “Filhote da Ditadura”, Marchezan pai) se aproveita de uma decisão do STF para atacar trabalhadoras e trabalhadores da saúde e, principalmente, a massa usuária do SUS na capital do estado. Modelo que deve servir de façanha a toda terra de Osmar, Bolsonaros e demais que pensam em privatizar nossas vidas como solução para todos os males – criados por suas incompetentes gestões. Esta denúncia é um alerta para toda rede que escuta o Heavy Hour! Saúde deve ser inegociável – e para comprovar isso, no Estúdio Monstro, as guerreiras Maria Letícia Garcia (Coordenadora do Conselho Municipal de Saúde de POA), Ana Paula de Lima (Comissão da Atenção Primária do Conselho Municipal de Saúde de POA), Franciele Batistella (Mestra em Enfermagem e enfermeira do IMESF/POA) e o guerreiro João Fontoura (Conselheiro Municipal de Saúde de POA). Temos ainda a reportagem de Bruno Pedrotti e mais um monte de conversas, todas relevantes para tentarmos entender (ou não!) um momento tão crucial das nossas comunidades.

Setlist:
Chico Buarque – Apesar de Você
Legião Urbana – Fábrica
Repressor – Reizinho
Gonzaguinha – É
Tom Zé – Senhor Cidadão
Noir Désir – Un Jour en France
Forka – Troozão
Nirvana – Come As You Are

Pelas trilhas da memória no Quilombo dos Alpes

No ano de 2019, o Quilombo dos Alpes conseguiu realizar um sonho coletivo: acessar o Minha Casa minha Vida. O projeto foi pensado para melhorar as condições de habitação da comunidade construindo 50 novas casas.

O início das obras foi um momento de muita alegria, porém também gerou um problema. Durante a construção, não seria mais possível a realização das trilhas com escolas no quilombo, uma das fontes de renda da comunidade.

Pensando nisso, foi construído um material audiovisual para que os moradores dos Alpes pudessem ir até as escolas falar (e mostrar) um pouco da história do quilombo. O vídeo foi mais uma parceria entre a Associação Quilombo dos Alpes Dona Edwirges, o Coletivo Catarse e o Núcleo de Estudos de Geografia e Ambiente (NEGA UFRGS).

No momento, o Quilombo dos Alpes está fazendo uma vaquinha para pagar custos adicionais da obra. É possível apoiar até a meia noite de quarta feira, dia 16/10.

Heavy Hour 59 – 30.09.19 – Autonomia, Autogestão e Autogoverno contra o capital e o Estado!

Para a estreia do Heavy Hour em Alvorada, nosso time – que ainda está sem seu âncora oficial – recebe, no Estúdio Monstro, Cássio Brancaleone, sociólogo, professor e membro do Sindicato dos Docentes da UFFS, que compartilha conosco sua experiência entre os Zapatistas de Chiapas, no sudeste mexicano. Também conosco está o indigenista que trabalhou 8 anos na FUNAI, cientista social e mestre em psicologia social, João Mauricio Farías, que se autodeclara “pacifista”, mas que não deixa de ressaltar que o direito à vida dos oprimidos passa pela autodefesa (inclusive com “violência”) frente ao terrorismo colonial-capitalista-estatal! Em pé de guerra desde o Wallmapu (Território Mapuche), temos ainda contribuição do camarada Ale Kim Layal, que forma parte da organização Mapuche urbana inchiñ kai che (Nós também somos gente). O diálogo entre essas diversas experiências e formas de praticar a autonomia deixa um bate-papo quente no estúdio com os jornalistas questionando a tutela e a burocracia indigenista como entrave à mudança social verdadeira… De todas formas, este programa é mais uma ocasião de ressaltar nossa profunda admiração e solidariedade com os povos originários, que há mais de 500 anos, incansavelmente, lutam para viver!

Na playlist:
Manu Chao – EZLN… Para Todos Todo…
Rage Against The Machine – Zapata´s blood
Pukutriñuke – Marrichiweu
Subverso + Portavoz – Lo que no voy a decir
O Rappa – Me Deixa
Fusion Bomb – You´re a Cancer To This World
Wechekeche ñi Trawün – Mapudugufinge

Mina Guaíba pauta audiência pública na Assembleia Legislativa na próxima segunda

A possível instalação da maior mina de carvão a céu aberto da América Latina a 16 quilômetros do Centro de Porto Alegre está colocando em alerta um número cada vez mais expressivo de pessoas. A mobilização para evitar o que pode se tornar uma tragédia nas proporções de Mariana e Brumadinho ganha força na segunda-feira (30), quando a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, através da Comissão de Saúde e Meio Ambiente, realiza a Audiência Pública Impactos do Projeto Mina Guaíba.

O evento ocorre às 18h, no Auditório Dante Barone, e deve lotar os mais de 500 lugares em torno do debate do projeto assinado pela Copelmi Mineração, focado  na produção de energia fóssil a partir da queima do carvão extraído.

A mina apresenta diversos riscos para o meio ambiente. O empreendimento ameaça acidificar e contaminar com metais pesados a água que abastece Porto Alegre e região metropolitana, já que ficaria instalado a 535 metros do Parque Estadual Delta do Jacuí- cujo rio contribui com 84,6% de águas limpas na formação do Guaíba. Estima-se que um  total de 4,3 milhões de pessoas serão impactadas na Região Metropolitana pela possível contaminação do entorno, além de eventual poluição atmosférica.

O Comitê de Combate à Megamineração no RS (CCMRS), composto por mais de 100 entidades e que tem em seu corpo técnico cerca de 50 profissionais, entre professores, mestres e doutores, estará na mesa de debates como um dos principais convidados da atividade. O coletivo luta contra um total de 166 projetos de mineração que pretendem se instalar no estado.

O evento, gratuito e aberto ao público, não substitui a necessidade de realização de uma audiência pública em Porto Alegre convocada pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler (Fepam), dentro do processo de licenciamento da mina, mas será mais um importante espaço de pressão da comunidade gaúcha contra o projeto.

A saber

A Copelmi Mineração obteve a autorização de lavra pela União em 1973 e estuda o terreno onde pretende instalar a Mina Guaíba desde 1978. A partir de 2014, vem buscando uma licença prévia de operação junto à Fepam para escavar carvão, areia e cascalho na área de 4,5 mil hectares, equivalente a cerca de 120 vezes o Parque da Redenção.

A intenção da empresa, que vem esgotando o recurso natural no Estado há mais de um século, é retirar 166 milhões de toneladas de carvão bruto em 23 anos de operação, até acabar com a fonte de combustível fóssil existente no local. Além disso, também pretende extrair 422 milhões de metros cúbicos de areia e outros 200 milhões de cascalho.

Para isso, serão retiradas de suas propriedades 72 famílias de agricultores, que cultivam 700 hectares de arroz orgânico e hortaliças,  abastecendo mais de 40 feiras ecológicas na região Metropolitana. O loteamento Guaiba City, condomínio em que residem cerca de 172 famílias também será diretamente afetado caso o empreendimento seja realizado.

Ainda não existe um posicionamento conclusivo ou prazo definido para emissão de parecer final, apesar de já terem sido realizadas duas conturbadas audiências públicas em 2019: uma em Charqueadas (em março) e outra em Eldorado do Sul (em junho), ambas consideradas parte do processo e sem encaminhamentos conclusivos. Ligada à Secretaria da Saúde e do Meio Ambiente do Estado, a Fepam vem sendo pressionada pela sociedade a realizar uma terceira audiência pública em Porto Alegre.

Serviço:
O que: Audiência Pública Impactos do Projeto Mina Guaíba
Quando: 30 de setembro, segunda-feira
Onde: Auditório Dante Barone – Assembleia Legislativa – Praça Marechal Deodoro (Praça da Matriz), 1101, Centro Histórico, Porto Alegre
Horário: 18h (as portas serão abertas às 17h)
Vigília RS em Risco: A partir das 11h, na Praça da Matriz.

Texto e imagem: Comunicação Comitê de Combate à Megamineração no RS.

Entre poeira de carvão e estrondos de dinamite. Breve relato dos impactos da mineração em Arroio dos Ratos.

Alguns integrantes do Comitê de Combate à Mega Mineração no Rio Grande do Sul visitaram, nesse domingo (dia 15/09/2019), a cidade de Arroio dos Ratos. Os habitantes sofrem as consequências diárias da extração de carvão desenvolvida pela empresa Copelmi, que há aproximadamente dois anos retomou suas atividades no local.

O município é um lugar histórico de exploração de carvão, e os moradores mais antigos já estão acostumados com a mineração. Sueli, de 90 anos, relatou que seu marido trabalhou 30 anos pela empresa mineira. Antigamente, os trabalhadores desciam nas entranhas da terra dentro de “gaiolas”, ficavam o dia inteiro dentro das galerias e cavavam a golpe de picareta. Sueli inclusive lembra da morte de mais de 100 trabalhadores, colegas do seu antigo marido. Em 1936, uma enchente inundou completamente as galerias. Os trabalhadores foram afogados dentro da mina. O episódio faz parte da memória histórica e coletiva de Arroio dos Ratos.

Dejalmo Vieira dos Santos trabalhou 29 anos com a empresa Copelmi, hoje está com 61 anos, se aposentou por “invalidez” há 6 anos, sem receber nenhuma indenização por parte da empresa. Porém, como operador de máquina, ele teve a coluna machucada e sofreu de paralisia nos braços e nos dedos, devido aos esforços repetidos. Relatou à reportagem que costumava trabalhar mais de 8 horas sem pausa, tendo que “engolir a comida sentado na máquina”.

O pai da professora Bárbara Gomes, também moradora impactada pelo empreendimento da Copelmi, trabalhou durante 15 anos no posto mineiro de Santa Bárbara em Charqueadas. Enquanto medidor, ele era encarregado de entrar dentro da mina depois das explosões. “Tinha vezes que ele chegava, e minha mãe colocava um cobertor na cama, ele deitava, dormia uma hora e voltava a trabalhar. Ele chegava com a pele suja de carvão. Anos depois dele se aposentar, eu brincava de fazer massagem nas costas dele e saia dos poros dele aquela coisa preta do carvão”. Lembra a professora.

Os laudos médicos da empresa afirmavam que ele não tinha carvão no pulmão, porém, Bárbara viu seu pai sofrer de repetidas bronquites. “Laudo médico da empresa fica difícil de a gente acreditar” – aponta. Apesar de tantos anos dedicados à empresa, o pai de Bárbara não ganhou nenhuma indenização médica.

Hoje, ainda se sente o cheiro de enxofre pelas ruas da pequena cidade. Para os moradores do “bairro dos excluídos” – apelido dado por quem vive nessa comunidade a menos de 200 metros do empreendimento mineiro – a tranquilidade acabou. Desde que a empresa de mineração Copelmi retomou suas atividades de extração de carvão no local – há cerca de dois anos, os habitantes de Arroio dos Ratos sofrem com poeira, barulho, rinite e têm as suas casas rachadas por causa de explosões diárias de dinamite.

Rosana Beatriz Crescêncio da Silva mostra o piso do seu banheiro novinho, porém afundado e rachado.

Dejalmo comprou sua casa há menos de um ano, já tem rachaduras nas paredes e os vidros rebentados por causa das explosões.

Além disso, o barulho impede os moradores de descansarem, entre os estouros que fazem tremer as casas e o ruído dos caminhões no meio da noite, os habitantes de Arroio dos Ratos perderam o sono. “A casa treme, a gente se assusta, tem poeira, uma poeira cinza-preta que fica na roupa” – relata Rosana. “Minha casa toda treme, os cachorros ficam horrorizados, e aquele barulho fica a noite inteira, aquele apito das rés das maquinas e caminhões” – explica Bárbara.

Rosana também comenta que, desde que a Copelmi retomou suas atividades, ela e seu marido sofrem com ataques agudos de rinite e bronquite devido à poeira tóxica do carvão.

Antes de se instalar, representantes da empresa visitaram algumas casas e tiraram mais de 120 fotos – esse foi o único contato que os moradores tiveram com a empresa. Apesar de morar a menos de 200 metros das escavações, a sensação geral é a de que a empresa nunca considerou a vida dessas pessoas como suficientemente importantes para serem levadas em conta.

O lugar onde a empresa cava dia e noite sem parar era  um espaço de sustento e lazer dos habitantes de Arroio dos Ratos. Na “Barreira” ou no “esqueleto”, como era conhecido pelos moradores, o pessoal ia pescar, tomar banho e curtir o arroio. Bárbara relata: “Começaram [os empreendedores] destruindo uma parte histórica, que seria o esqueleto, uma coisa que tinha no meio da fazenda que é perto da minha casa. Meu pai cruzava a fazenda para ir pescar no arroio, agora não tem como entrar lá, eles não deixam entrar, como meu pai e todo mundo fazia para ir pescar, curtir o arroio”.

Um dos comerciantes da cidade nos relatou que até a festa da melancia parou nos últimos anos por causa da mineração. E a atividade da Copelmi também trouxe um grande desequilibro ecológico. Os bichos que moravam no lugar das escavações tiveram que fugir do empreendimento buscando refúgio nas casas dos moradores e no antigo lugar onde costumava ser realizada a festa. A invasão de cobras, que fogem das explosões e das máquinas, impossibilita até hoje a realização desse importante evento cultural da cidade.

Além disso, a promessa dos empregos também não se realizou. A maioria dos trabalhadores não são de Arroio dos Ratos. Existem denúncias de que a Copelmi tenha até contratado uma empresa de ônibus para levar e trazer seus trabalhadores dos municípios vizinhos. Rosana relata uma realidade que muitos moradores do município vivem: “Não deu emprego não, eu estou saindo daqui para ir para Charqueadas para trabalhar porque aqui não tem”.

Dessa maneira, o município de Arroio dos Ratos está se transformando pouco a pouco em uma cidade dormitório, na qual os moradores resistem entre poeira de carvão e estrondos de dinamite. Teme-se, dessa forma, que Arroio dos Ratos seja um exemplo do tipo de situação que se poderá viver também em Eldorado do Sul se o projeto de licenciamento da Mina Guaíba for aprovado pela FEPAM.

*reportagem de Clementine Tinkamó (texto) e Bruno Pedrotti (fotos)