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O peso do underground

texto de Homero Pivotto Jr., jornalista e vocalista da Diokane e Tijolo Seis Furos (TSF).
Foto de Billy Valdez

Me parece um tanto óbvio: o futuro da música vive, há tempos, no underground. Criativamente, é quase incontestável essa percepção. E, comercialmente, se torna cada vez mais viável, já que é no meio independente que se permitem as inventividades sonoras capazes de sacudir a poeira da mesmice que entope o ouvido da massa. Ou será que o povo quer mais do mesmo? Essa discussão fica pra depois. A seguir, música, como diz o Ron Selistre. Segue o baile!

Bueno…. Costumo dizer, quando converso com entusiastas dos sons bacanas ou com reclamões que afirmam não haver mais nada interessante a se escutar, que é no submundo onde estão as pepitas capazes de fazer nossa audição se emocionar. Mas né: quem é o Homero — pai do Benjamin e filho do carbono e do amoníaco… não pera… —, na fila do pão?

Só que agora tio Lee Ronaldo, guitarrista do hoje finado Sonic Youth, deu a morta em entrevista recente: “O rock soa cansado e o melhor do gênero está no underground” (leia mais sobre aqui).

A fala do músico estadunidense foi dada em razão de sua mais recente passagem pelo Braséu, para divulgar o longa-metragem “Ainda Temos a Imensidão da Noite”. Ronaldinho colaborou com a trilha desse filme que narra a história de uma banda punk/psicodélica de Brasília, conforme informações do vasto descampado que é a internet.

Embora eu, monstro de escuridão e rutilância (mas que coisa, sai deste corpo, Augusto dos Anjos), acredite que a percepção se aplique também a outros estilos além do que tem roll como sobrenome, vamos nos ater ao gênero conhecido pelas camisas pretas com nomes de banda. Até porque é nesse metiê que encontro parte considerável dos artistas que satisfazem minhas predileções. Logo, supostamente, é o que tenho mais intimidade para comentar sobre.

Façamos o recorte ainda mais segmentado, com foco em nomes nacionais. Vamos reduzir o escopo ainda mais porque tá pôco (tenho quedas por rima pobre, malz ae)?
Sim! Então, lancemos luz sobre nomes da cena local gaúcha, principalmente, de Porto Alegre. Só na capital do sul do mundo, onde moro, há um punhado de bons exemplos para citar. Então, vamos a eles, sem esquecer de alguns surgidos em outras partes do território nacional.

Não ficou satisfeito? Foda-se.
Digo, faça sua lista e publique em seu perfil nas redes de espionagem social. Ou contribua citando grupos interessantes nos comentários.

Death Ecstasy— Death/thrash de Canoas. Juventude cheia de disposição para sons velozes e vorazes. Em uma definição simplória: um Toxic Holocaust dos Pampas.
Escute:

Death to Lovers — “Life can’t be only this”, diz o verso da faixa de mesmo nome – e minha preferida dos caras. Se a vida fosse só ouvir uns rock gótico/post-punk como o que essa turma faz, por mim não haveria problema.
Ouça:

@facedaex — De experimental? Se é, não sei, mas caberia bem aqui. Uma experiência que mistura post-punk, indie, rock alternativo e outras variações do mesmo tema. E que, ao vivo, é um ‘expetáculo’ catártico.
Confira:

The Murder Ballads Club — O nome inspirado no disco de Nick Cave and The Bad Seeds não é à toa. A musicalidade aqui tem verve dark e folk. É sombria e imponente na mesma medida que elegante e envolvente.

Dá uma ouvida

Manger Cadavre? — hardcore/crust metalizado politizado e consciente, manja? Essa turma sim, e coloca na prática de um jeito bem barulhento.
Manja aí:

Lo Que Te Voy A Decir — manifestação de quem tem o que dizer na forma de um punk/hc urgente. Segundo a descrição dos próprios: “grito surdo, um soco fictício no estômago, uma porrada sonora com o que nos cerca e corrói dia a dia”.
Escute:

Surra — Violência sonora modulada num thrashcore empolgante e sem firula.
Maltrate os ouvidos:

Test — Duo grind/death de inclinações experimentais. Rápido, inventivo e avassalador.
Faça o teste:

SAPO BOI — Oh, boy: a raziada aqui aposta num rock alternativo sujo e ruidoso.
Ouça:

Motorcavera — Rockão que flerta com a experiência sonora pesada. Tem de um tudo nesse trem: barulho, aceleração, intensidade, pedais de efeito aos borbotões e melodias grudentas.
Comece a viagem

Cine Baltimore — Melhor definição é a do próprio material de divulgação da banda: “simplicidade dos Ramones, o experimentalismo do Sonic Youth, o futurismo do Daft Punk, a melancolia irônica dos Kinks e a brasilidade universal dos Mutantes”.
Confira

LAUTMUSIK — Post-punk refinado e cativante adornado com elementos shoegaze. Não por acaso foram escolhidos pelo vocalista Robert Smith para abrir o show do The Cure em São Paulo (2013).
Coloque alto

Gomalakka — Eletro rock post-punk de inspiração urbana. Ora dançante, ora viajante, sempre instigante.
Para curtir na goma e na festa

Furia Rockpaulera — rock paulera com toques de hardcore e elementos do metal (death e thrash, principalmente).
Desce a lenha:

Tigersharks — stoner skate punk que manobra bem pelos lados do Black Flag.
Para deslizar no carrinho ou na vida

Estado Terminal — crust’n’roll de bases motorhedianas e devoto do que mais empolgante a Suécia produziu de similar (do Anti-Cimex ao Wolfbrigade).
Indicado para rodas punk

Hempadura — Hardcore, rap, groove e metal fazendo a trilha para a contestação lírica.
Sente o peso do flow:

Losna — Trio thrash/death há tempos na estrada (desde 2004). Tem à frente duas irmãs.
Escute:

Tormentos Mc’s — Duo hip hop de rimas sagazes e performances viscerais.
Conheça

Warkrust — O nome já entrega: crust d-beat nervoso, sem concessão.
Afaste o sofá e lacre

Paquetá — Surf punk buena onda para dançar para enfrentar a maré.
Vem nessa barca:

Subespectro — Por preguiça de pensar em uma definição, vai aquele recorta e cola safado da page dos caras: “músicas baseadas em diversas referências porém não fugindo da velha escola punk e pós-punk cujos temas são inspirados em experiências abstratas e fenômenos cataclísmicos”.
Dá o play

Conflito — punk/hardcore 80’s, kraut rock, minimalismo e energia juvenil incorporada por gente não tão nova.
Eis:

Dismembration — death metal old school com pitadas de doom e certo groove.
Aqui:

Hideous Monarch — Brutal, como o bom death deve ser.
Escute

The Completers — Dark, post-punk, gótico, whatever que seja sombrio e faça chacoalhar o esqueleto. Para transitar pelo vale das trevas com camisa de botão
Ouça

Syring Vulgaris — Aquele grind/death debochado feito só com guitarra, voz e bateria.
Saca aí

Diokane  — Apesar de não estar na postagem original escrita por Homero, os editores se recusam a esquecer do griteiro dos cusco mais raivoso do Rio Grande do Sul. Um som pra se libertar da focinheira e estraçalhar tudo que ver pelo caminho:

EDIT:
=> Relendo o post, percebi que, inconscientemente, elenquei artistas com as quais já dividi o palco e/ou assisti ao vivo. E acredito ser um excelente critério, pois é ao vivo que uma banda mostra do que é capaz.

=> Além dos que fazem som, o underground se sustenta com iniciativas bacanas que dão visibilidade aos grupos musicais. Seja alternativas de mídia, eventos ou selos. Como os que seguem.

Rádio Armazém — rádio web de Santa Maria eleita a segunda melhor deste ano na categoria “convergência” do Prêmio Profissionais da Música 2019.

Rádio Putzgrila — uma das mais antigas webradios de Porto Alegre. Sempre disponibilizando conteúdo e informação para roqueiros de plantão.

Coletivo Catarse — cooperativa  produtora do Heavy Hour, que traz um conteúdo politica e sonoramente pesado, e de diversos video clipes da cena underground:

Plataforma Records — espécie de palanque criado pelo maestro dos sons estranhos e fora da curva Max Chami para difundir gente que envereda por esse viés sonoro. Tem material do mundo todo!

Sem mais para o momento, despeço-me.

 

 

Texto de Homero Pivotto Jr. editado por Billy Valdez e Bruno Pedrotti.

Entrevista com Daniel Urrutia Laubreaux, juiz de garantia em Santiago do Chile, sobre o contexto socio-político latinoamericano!

Após três programas Heavy Hour seguidos, dedicados à geopolítica latinoamericana, o Coletivo Catarse recebeu na sua sede o juiz de garantia chileno e mestre em estudos latinoamericanos, Daniel Urrutia Laubreaux. Esta entrevista foi realizada pelo time do Heavy Hour no intuito de aprofundar reflexões e entender por um lado – desde uma perspectiva político-judicial, geopolítica e social – os acontecimentos recentes que deixam entrever o terrível incremento do fascismo e do racismo colonial. Por outro, também, a dignidade transformando-se em corpo e ação nas ruas do Equador, Haiti, Chile, Bolívia e, mais recentemente, Colômbia, onde milhares de pessoas, sob o som dos cacerolazos, entoam cantos para o renascer de uma América Latina livre de opressores e verdugos, para uma América Latina indígena. Estes ventos que atravessam a cordilheira sopram inspiração e rebeldia. Desde aqui, sede do Coletivo Catarse, deixa-se a palavra para Daniel, que surpreende os integrantes do coletivo: será que um juiz pode ser, também… revolucionário?!  Agradecemos também a presença de Mauro Cahum da AJD (Associação dos Juízes pela Democracia). 

Coletivo Catarse: Podes nos explicar qual é a função do juiz de garantia?

DU: São os juízes que vem as matérias penais no país, e se chama garantia porque a Constituição lhes dá aos juízes de garantia, justamente, garantir os direitos das pessoas durante o procedimento penal. Vim ao Brasil para participar de uma palestra sobre independência judicial e justiça de liberação. Esse é o conceito que vamos tratar de expor durante o encontro nos escritórios da Escola da Magistratura do Trabalho aqui em Porto Alegre.

CC: Podes nos contar então um pouco do contexto chileno?

DU: Acho que é importante assinalar em relação ao Chile que nós vivemos uma ditadura muito cruel a partir do ano 1973, quando assassinam o presidente Salvador Allende e a muitas pessoas e instauram-se 17 anos de um regime ditatorial absoluto no qual os militares abandonam sua tradição nacionalista e a entregam ao comando econômico da Escola de Chicago, que são basicamente os alunos da Universidade Católica do Chile que vão para Chicago, discípulos de Milton Friedman. Eles voltam ao Chile no ano 1976, 1977 e convencem Pinochet de aplicar o que eles denominam “O ladrilho” que era um livro de prescrições que explicava como devia ser a economia em um mundo neoliberal. De fato, o Chile se converte no experimento do neoliberalismo basicamente porque a ditadura se encarregou que ninguém pudesse reclamar. Então, fundam, a partir dos anos 80, uma situação na qual tudo é privatizado, todos os serviços do Estado são privatizados, se vendem todas as empresas que haviam passado anos, que se podiam conseguir por parte do Estado, da cidadania e são entregues e vendidas a preço muito baixo justamente a membros da elite que estavam com a ditadura. Por isso nós denominamos atualmente a ditadura de ditadura cívico-militar, porque não somente foram os militares senão também muitos civis que ajudaram a instalar esse modelo de espoliação, de expropriação de todo o capital inclusive. Então esta situação na qual se gera um sistema de abuso permanente das grandes massas, das elites sobre as grandes massas do Chile.

CC: Quando falas da elite, estas te referindo somente à burguesia nacional?

DU: Eu acho que é importante que isso está numa tradição latino-americana, ou seja, os impérios foram sucessivamente explorando a região, então, partimos com Espanha e Portugal que exploram a região e logo a criação das repúblicas aeras que denominava Bolívar, então o que temos? Temos grupos pequenos que são brancos, homens heterossexuais, que dominam conjuntamente com representantes do Império de turno, que neste momento podemos denominar como transnacionais que fazem uma aliança para poder conseguir a dominação dos vastos setores tanto dos recursos naturais, basicamente através da exploração dos commodities e pelo tanto manter a população num ambiente de somente utilizar sua capacidade de trabalho, mas numa marginalidade constante para poder explorá-los.

CC: Na transição para a democracia, não houve nenhuma quebra radical com o modelo econômico implementado durante a ditadura…

DU: Claro, acontece que o modelo neoliberal se instalou e neste sentido houve uma revolução, mas ao revés, ou seja à direita, no sentido de instalar este sistema de dominação muito mais claro, muito mais evidente, no qual todos os bens públicos foram entregues ao privado para efeito justamente de conseguir enriquecer pequenos espaços. De fato tanto assim como noutros países da região, que são certas famílias que controlam a parte econômica, então no caso chileno se fala de 7 famílias que são as donas do capital, que são as donas das empresas e que coincide com que o governo militar lhes entregou em concessão ou diretamente em propriedade essas empresas produtivas. De fato, por exemplo, existe uma que se chama Soquimich que é entregue ao genro de Pinochet e ele se converte numa das pessoas mais ricas do país. Piñera, que é o atual presidente, durante os anos 80, a ele foi entregue a concessão dos cartões de credito quando chegaram, então sua fortuna se baseia nesta modelo no qual, ele leva o plástico dos cartões e a ele se lhe dá a concessão dos cartões de crédito,  um capital que está feito diretamente pelo ditador. Então, este modelo de exploração se vê em todos os aspectos da vida. Então as aposentadorias, o irmão do presidente atual, de sobrenome Piñera, evidentemente, ele cria o sistema de fundo de pensões, nós o conhecemos como AFP, o sistema de administração de fundo de pensões. Isso foi em 1980 e ele promete que este novo sistema de capitalização individual, ou seja, quer dizer que todo teu trabalho durante a vida, todos os meses, tens que obrigatoriamente tirar uma porcentagem, mas isso vai num fundo individual, não coletivo. Então, a promessa, era que no ano 2020, as pessoas que haviam começado nos anos 80 a fazer a capitalização individual iriam se aposentar com 100% do último salário que tinha recebido, o qual é absolutamente falso.  As pensões atualmente não estão chegando nem ao 50% do último salário, pelo tanto, quando as pessoas se aposentam, caem na pobreza. A maioria das pessoas no Chile, ao se aposentar, cai na pobreza. Então os fundos de pensões não é um sistema de administração das pensões dos trabalhadores, na realidade é um sistema de poupança forçado para que estes fundos que pertencem aos trabalhadores sejam ocupados pelas mesmas 7 famílias através das ações, porque, com o fundo de pensões o que fazem é que entregam esse dinheiro na bolsa.

CC: ou seja que especulam com o dinheiro das pensões dos trabalhadores…

DU: Exatamente, e além disso, na bolsa onde vão? Nos bancos. Então, os bancos lhes emprestam dinheiro aos mesmos trabalhadores então, meu dinheiro, como trabalhador, se peço um crédito, a banca vai me emprestar com interesses altíssimos quando no fundo esse é o meu dinheiro. Então é um negócio tremendo para os donos dos fundos de pensões que são os mesmos das 7 famílias. Então não é um sistema de pensão senão que um sistema, no fundo, é um sistema de financiamento das elites. É absolutamente terrível entendê-lo a partir deste ponto de vista, que o que tem feito durante 30 anos, é roubar a grana dos trabalhadores e das trabalhadoras.

CC: Em relação às universidades, aqui estão querendo acabar com a universidade pública….

DU: Sim, isso que fizeram no fundo de pensões, se replica na saúde, na educação, no transporte, em todos os âmbitos da vida, se replica que se entrega a privados, a administração, o uso, a propriedade, inclusive na propriedade da água.

CC: Justo, a semana passada, estevimos falando da guerra da água na Bolívia…

DU: que conseguiram no ano de 2002, expulsar esse modelo que Mesa e outros queriam instalar. Esse modelo, no ano 1982, se aprova o código de águas no Chile e justamente o que diz a Constituição é que a água pertence a todos, pertence ao Estado ou a todos os chilenos. Então, hoje em dia temos, por exemplo, o caso de um ministro de governo de Sebastian Piñera, que tem a propriedade de 30.000 litros de água por segundo. Ele, pessoalmente, na sua propriedade tem 30.000 litros de água por segundo. Entendamos que nos anos 80, estávamos em ditadura, não é que a cada pessoa lhes passaram 2 litros de água, senão que disseram: eu quero, eu quero, eu quero. Levantaram a mãos os da elite porque lhes avisaram que se ia a repartir a água, se ofereceu por parte do Estado. O Estado ditador lhes entregou em concessão, por exemplo ENDESA, a filial espanhola, lhe cederam a propriedade de lagos completos no sul do Chile que além disso pertencem aos indígenas. A constituição diz que a água é de todos, mas as concessões as entregaram em propriedade, então podem vender, então que aconteceu: se criou um mercado da água. Agora tem umas coisa tão absurdas que pelas mudanças climáticas tem tido muito pouca chuva em setores que antes não eram desérticos e agora estão se desertificando, estamos falando a 200/100 km da capital de Santiago onde o Estado, para que as pessoas possam beber água, tem que comprar a água aos mesmos a quem se lhes entregou em concessão. Então é absolutamente absurdo e a elite tem tido a desfaçatez de dizer: “não tenho problema, mas me paguem”. Ou seja, “me expropria a água mas me paguem a preço de mercado.” Então quando se lhe deu em concessão nos ano 80 usufruíram e usufruem o que o Estado lhes deu neste mercado da água que tem-se criado.

CC: Quando nos anos 90 acontece o processo de redemocratização, não se pensa, não se consegue levar a cabo um processo revolucionário? Porque tinha vários grupos revolucionários atuando ainda naquele momento…

DU: Sim, a ver. A queda da ditadura se conseguiu justamente por um consenso no qual se cria um grupo que se chama a Concertação de Partidos pela Democracia e essa concertação tinha um programa de governo que justamente era acabar com o sistema neoliberal, dotar de uma nova constituição e fazer mudanças profundas.

CC: Quais foram os partidos que formavam a Concertação?

DU: Desde a Democracia Cristã, passando pelo Partido Socialista, pelo Partido pela Democracia que era um partido cindido do socialista, o Partido Radical. Havia 27 partidos, a Esquerda Cristã, o Partido Humanista. Todos se juntaram para tirar o ditador. Se consegue e logo se fazem eleições livres e chega um democrata cristão. Chega à presidência Patricio Aylwin que é conhecido porque ele diz: “bom, vamos fazer justiça na medida do possível”. Alusões aos direitos humanos sobretudo. E tudo é “na medida do possível”. O problema é que não tinha nada impossível, obviamente, e o possível, em realidade foi bastante reduzido. Então, as mudanças que se quiseram fazer, não se fizeram. E a defesa de estes políticos que estavam nesse momento, os representantes dos partidos era que se fizessem mudanças profundas os militares de novo tomariam o poder.

CC: E alguns militares inclusive não foram julgados neste momento dos crimes cometidos ou sim?

DU: Sim. A ver. É importante assinalar que 20 anos pelo menos depois de ter terminado a ditadura, tem um julgamento mais sério. Então aí cai o chefe da polícia secreta e ao menos 200 perpetuadores militares que são condenados. Podemos discutir se estas condenações são curtas, longas, tem uma serie de situações, mas o certo é que são condenados. Se constrói uma prisão especial para eles, mas é uma prisão. O problema é que todos os presos deveriam ter essa prisão especial, porque se supõe que deve ser condições humanas para todos, mas as outras prisões não são assim.

CC: É, as prisões dos pobres não têm essas condições não…

DU: Não, não. Então se produz um processo no qual o poder judicial consegue realizar condenações mas é muito longo no tempo. Pinochet, de fato, esquivou de sua responsabilidade alegando que estava louco, demente, mas ficou em prisão domiciliar na sua casa e faleceu de velho na sua casa, processado pelos delitos. Então, não há justiça, não há justiça, mas é o que acontece. Os partidos atraiçoam o afã revolucionário de acabar com a Constituição, fazem isso na medida do possível e terminam administrando o modelo neoliberal e inclusive aprofundando o modelo. Todos estes políticos que alguma vez foram exilados, torturados, quando voltam, se acomodam à administração e terminam muitos deles, por exemplo, sendo diretores das empresas que tinham sido entregues por Pinochet aos privados. Então são nomeados diretores, com um salário bastante importante e pelo tanto renunciam a mudar as coisas porque estão acomodados e isso chega até os dias de hoje.  Então, o que acontece no 18 de outubro é que os estudantes secundaristas que têm 14, 15, 16 anos, frente a um aumento de 30 pesos chilenos na tarifa do metrô – estamos falando de menos de um dizimo de dólar – a consigna foi: “não são 30 pesos, são 30 anos” de abuso e eles estabelecem essa campanha de evadir: “não pagar é outra forma de lutar”. Então, evadem o metrô. Rapidamente o que aconteceu é que são vários os secundaristas que fazem isso ao mesmo tempo em Santiago e a reação do governo foi fechar as estações, então se produziu um caos. Fecham as estações e o que acontece é que os secundaristas e outras pessoas que vão se somando rompem as portas das estações e ingressam igualmente às estações e então a resposta do governo foi ordenar a repressão por parte de Carabineros [equivalente a BM aqui só que não são militares] e começa a se produzir um caos maior. Rapidamente acontece que tem um caos que ninguém esperava, ou o governo pelo menos não se esperava e se produz o colapso da cidade de Santiago. O transporte, as pessoas não tinham como se transportar. Tem protestos multitudinários imediatamente e o governo ordena em dois ou três dias, o decreto de estado de emergência e diz que o encarregado do exército – porque isso indica que tudo ficou sob tutela do exército através de um general de zona – e diz que ele pode ordenar o toque de recolher. Eu acho que isso é importante assinalar porque, embora talvez não se possa entender bem, mas o estado de emergência é o primeiro passo, depois tem o estado de sítio, logo de assembleia, tem o estado de guerra e resulta que tem uma divergência constitucional muito importante porque tem que ver com responsabilidades posteriores do presidente, neste caso que no estado de emergência não se podia decretar o toque de recolher. Então o exército decreta o toque de recolher, saem os militares nas ruas, mas há umas horas nas quais se produz, que não tem policiais nas ruas, a polícia se retira e estamos falando de 3,4,5 horas entre as 2 da tarde e as 8 da noite quando não tem forças de segurança. E ali se produz a queima de ao menos 19 ou 20 estações de metrô, se queima completamente a estação. Então há uma investigação na qual a pergunta é quem queima as estações? E se, em realidade se deixou que se queimaram, então porquê? Porque ingressam os militares e os militares não vão cuidar das estações, o qual é muito estranho porque todos os que saibam algo de estratégia militar sabem que uma das primeiras coisas que os militares fazem é assegurar as vias do transporte, então é muito estranho que os militares não tenham ido às estações de metrô. Então se queimaram as estações e isso justifica, no fundo, vem a justificar a repressão, mas o governo, o presidente chama e convoca uma declaração onde diz que o país está em guerra. Ele diz que está em guerra contra um inimigo poderoso, então se produz uma situação muito complexa, tem 7 dias de toque de recolher, a partir das 6 da tarde, se proíbe que as pessoas caminhem nas ruas. Uma situação muito complexa, isso produz ao menos 20 pessoas mortas, 5 diretamente por disparos militares, por disparos de arma de guerra. Os demais aparecem mortos em incêndios em saques.

CC: O que nós recebemos como informação foi que estas pessoas que foram encontradas nos incêndios tinham sido mortas antes, assassinadas e logo, jogadas nestes incêndios para fazer desaparecer os corpos.

DU: Tem que ser muito responsável com as coisas que se dizem, isso está em investigação. Então tanto pode ser que efetivamente seja assim, como não.

CC: O mesmo tu dizes sobre denúncias de centros clandestinos de tortura?

DU: A mesma situação, a ver, eu não sei se é necessário ter centros de tortura quando tens os centros normais de detenção onde os podem torturar igual, então tem uma situação na qual, evidentemente, a desinformação e a situação que está acontecendo faz que as pessoas assinalam que pode existir essa situação, porque nós vivemos uma ditadura muito cruenta onde efetivamente estava cheio de centros de detenção ilegais então é muito razoável que se pensa que vai voltar a se repetir a situação, então isso é parte das investigações que se estão fazendo atualmente. Eu pessoalmente tive que ir justamente por uma situação de um centro de detenção que se falou que era de tortura, no Centro de Santiago, na estação de metrô Baquedano, ao menos, nós, com a força pública, irrompemos no lugar, não tinha detidos por exemplo.

CC: Mas não seria possível que eles soubessem da sua chegada?

DU: É pouco provável que tenha acontecido. Mas é parte da investigação. Agora, que existam centros de detenção e tortura, ou seja, centros de tortura clandestinos, eu, responsavelmente tenho que dizer que é pouco provável, o que não quer dizer que não seja possível. Porque se tu quer torturá-los na delegacia para que o vai fazer clandestinamente, embora quisesses desaparecê-los, também não há, e isso é responsável dizer que não há uma política de desaparição.

CC: Bom, nas redes sociais, vimos circular por exemplo uma lista de 13 mulheres desaparecidas, com seus nomes e sobrenomes…

DU: Pelo menos até a semana passada, de 130 pessoas que dizia-se que estavam desaparecidas, o Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH), cujos funcionários fizeram um labor incrível em campo, eles mesmos assinalaram que não haviam pessoas desaparecidas exceto uma ou duas que ainda não se encontravam. Então, da situação na qual se diz que há muita gente desaparecida, isso eu devo dizer que não é verdade.

CC:  E como se fazem estas investigações?

DU: O que acontece é que o INDH o que faz através dos seus funcionários, é que eles recebem informações e todos informamos se tem alguém desaparecido. Então o que faz o instituto é se comunicar com as pessoas através das redes sociais e falar com a pessoa a ver se está e onde está, se foi detido, se não foi detido. Têm acesso aos registros de detenção, então muitas vezes o que acontece é que efetivamente tem pessoas que foram para o protesto e não aparecem, se faz a denúncia e acontece que aparece detida em outro lugar e se encontra no registro público. É uma situação na qual, até o momento, não tem uma circunstância em que se possa dizer que há uma situação estendida de desaparições de pessoas. Ou seja, durante horas sim, não se sabia onde estavam mas logo, aparece a situação na qual efetivamente se corrobora que a pessoa esteve detida em algum lugar e logo foi deixada em liberdade ou fica presa, dependendo da investigação no caso particular. Tem gente que se encontra detida com processos penais em prisão pública.

CC: Quantas pessoas estão detidas agora?

DU: Tem tido múltiplas detenções, mais de 2000 pessoas detidas em geral, inclusive mais, mas a informação que eu tenho até o início de semana é que há umas 500 pessoas que estão detidas em relação a esta situação e que ficaram em prisão preventiva sobretudo nas regiões. Muitas delas têm que ver com participação em saques de supermercados e coisas assim. Não todos e não todas estão acusadas de participar de manifestação, de protestar, mas, alguns estão imputados por danos. O que acontece é que o governo invocou a lei de segurança interior do Estado pelo qual estes processos se tornam mais complexos porque as penas aumentam por causa da lei de segurança do Estado. Tem gente que está em prisão preventiva mas o importante é que estão com defensor público ou privado em prisões públicos e não estão atualmente, sujeitas nem a tortura, nem a nenhuma situação, exceto o que significa estar nas prisões latino-americanas o que já significa uma situação degradante. Eu quero ser muito claro, neste mês há violações graves aos direitos humanos, são sistemáticas e efetivamente foram produzidas pelos agentes do Estado, então temos neste caso mais de 20 assassinatos ou mortos, vai ter que se definir na investigação também mas há diretas indicações de militares, e não todos os militares que dispararam estão presos.

CC: Mas todos foram identificados?

DU: Sim, eu diria também que há mais de 400 querelas, ou seja, denúncias em tribunais com nomes e sobrenome a respeito de casos de tortura, casos de torturas sexuais onde justamente é o INDH que toma os testemunhos e faz uma pequena investigação para saber do que se trata, quem foi, qual foi o oficial. Têm muitos vídeos, porque atualmente todos gravam o que acontece, a maioria das coisas podem ser gravadas sobretudo na via pública, pelo tanto tem muita informação que permite sustentar as acusações contra os agentes do Estado. Esses processos estão sendo levados por fiscais do Ministério Público que ao menos até agora dá garantia de seriedade, vamos ver porque não levamos nem um mês. Mas, pelo menos o que se percebe é que tem uma vontade de levar adiante e clarificar os fatos, pelo menos levar adiante aqueles agentes do Estado que cometeram as violações aos direitos humanos. De fato, por exemplo, em um colégio, um liceu de meninas, ingressaram força de carabineiros com a escopeta antidistúrbios e dispararam a queima-roupa nas meninas,  meninas de 15 anos, 14 anos. Este funcionário foi separado da instituição, era o maior da comissaria, nem mais nem menos, era o encarregado da comissaria e é separado das suas funções e ficou em prisão noturna em seu domicilio por uma parte, impossibilitando-o de sair do país além da proibição absoluta de se aproximar das vítimas e das famílias, mas não ficou em prisão preventiva.

CC: Ou seja quem dispara a queima-roupa a meninas não ficou em prisão preventiva mas tem 500 pessoas que protestam legitimamente e que se encontram em prisão preventiva?

DU: Para ser honesto, as acusações que pesam sobre as pessoas não são somente acusações de manifestação, ou seja, quer dizer que estão acusados de participar em saques.

CC: Sim, mas um saqueio, dentro de um país que, como tu mesmo explicastes, funciona basicamente como uma empresa e onde existe um nível tremendo de exploração, não é justo fazer um saqueio?

DU: Eu sou representante do Estado também e pelo tanto não vou afirmar isso aqui porque quero chegar a meu país e não estar preso.

Mauro Cahun : Eu gostaria de fazer uma pergunta porque sempre, no Brasil e acredito que também nos demais países de América Latina se fez uma divulgação que o Chile é o modelo, o modelo do bem estar social, de tudo funcionando, as coisas estando as mil maravilhas, agora estes protestos evidenciam que não era aquilo que se dizia ser, o que saiu errado, o que que gerou essa inconformidade da população geral no Chile?

DU: O que acontece é que era para a elite, ou seja, este era o modelo, o modelo funcionava para o 10%, 5% da população. Mas o resto, a maioria da população não tinha capacidade de participar de esse bem-estar então é isso que produz o estalido social, é a acumulação dos abusos por parte dos governos, por parte da elite, por parte dos empresários que exploram ao povo e em um determinado momento, o povo falou: “já basta, até aqui chegamos. Não vamos a continuar a suportar a continuação da espoliação.” Isso é o que produziu o estalido e assim se denomina, é um estalido social que o governo tenta, através da repressão, controlar e não conseguiu.

CC: E podes nos falar um pouco de esta denúncia que foi realizada em contra do próprio presidente Piñera?

DU: Sim, isso tem uma acusação constitucional que está contemplada na Constituição da ditadura que se refere justamente à possibilidade de fazer um juízo político a altas autoridades do Estado e entre eles ao presidente da República, mas isso é responsabilidade política. De toda maneira, existe uma querela ante meu tribunal, justamente por responsabilidade penal à qual eu, evidentemente, não vou me referir, porque sou um dos juízes que vê o tema. Em relação à causa política sim, está nas mãos da câmara de deputados que têm que apresentar, ao menos 10 deputados têm que apresentar um escrito onde a câmara de deputados aparece como acusador e o senado como jurado político.

CC: Como está composto o senado no Chile?

DU: O que acontece é que as eleições, o espectro político é um espectro no qual creio que tem-se voltado aos 3 terços aproximadamente. Me refiro a que o senado está a um terço na direita, um terço de algo que se poderia denominar como centro e um terço que é de esquerda, mais ou menos, era o que tradicionalmente no Chile, os espectros distribuíam estes cargos no senado e no congresso. Até a última eleição o que tínhamos era uma amarra da ditadura que era o sistema binominal de eleições que o que fazia era que as duas maiores coalizões elegiam um de cada um em uma circunscrição o qual assegurava o empate. Agora, e foi uma conquista da administração de Michelle Bachelet foi mudar este sistema de eleição a um sistema proporcional, mais ou menos. Agora isso permite, permitiu a entrada por exemplo, da Frente Ampla, isso permite que não seja duas coalizões que controlem, que não seja uma de direita sobre representada que é justamente o que acontecia antes das eleições passadas e o congresso atualmente está com esta distribuição dos três terços. Obviamente, inclusive o partido comunista consegue mais assentos, Camila Vallejo, Karol Cariola, etc. então, conseguem assentos que antes não podiam ter conseguido porque se perdiam porque não conseguiam ser parte das duas coalizões grandes.

CC: Vimos nas ruas gente pedindo uma nova Constituição, poderias nos falar um pouco mais de como se desenvolve esse assunto no seu nível institucional?

DU: Eu não sei se nas ruas estava a nova Constituição como uma das petições assim: “queremos uma nova Constituição porque esta Constituição está ruim.” Não o vejo assim. O que ocorre é que o que a rua diz é que basta do abuso, o que acontece é que para terminar com o abuso tu tens que mudar a Constituição. São coisas diferentes. Claro, de isso se agarra a direita para dizer que ninguém está pedindo uma nova Constituição, então, que não se mudem as regras do jogo, mas resulta que tu não podes por exemplo mudar o sistema de pensões porque está na Constituição, está amarrado para o benefício da elite. Então, os reclamos que podem ser setoriais, ou seja são setoriais entre aspas porque afeta à maioria da população, mas o reclamo de saúde, o reclamo de meio ambiente, ou reclamos dos povos originários, o reclamos das pessoas pobres, justamente se tu somas tudo, dá a ver que se deve mudar as regras do jogo. O pedido de mudanças das regras do jogo é terminar com os abusos e isso é uma nova Constituição.

CC: Mas existe um diálogo com os representantes do Estado para chegar a uma mudança da Constituição?

DU: É muito difícil porque a rua não tem, a rua é todos e ninguém. Porque não há representantes.

CC: Mas não tem certa organização desde as ruas mediante assembleias populares?

DU: Mas isso passou, podemos reconhecer depois de um mês e o que houve foram cabildos, assembleias territoriais, sim,  não é que exista uma organização. Ou seja, de que há articulação sim, mas antes de isso também havia, mas é muito difícil porque não se assume como em um movimento de massa etc. onde há um partido que leva esta situação por exemplo, não sei, como a vanguarda organizada, não existe nada disso, o qual também dá uma perspectiva distinta a esta explosão popular. Podemos ler que exista uma vanguarda que leva a isso, ao menos não estão reconhecidos, ou não se sabe, não se reconhece. Atualmente, nós temos muitas informações, o twitter, o Instagram, o Facebook, etc. vão vendo, por exemplo, aparecem os chamados a se juntar, alguém os têm que fazer. Bom este alguém, não se sabe quem é.

CC: É bem parecido com o que está passando em França com os Coletes Amarelos, uma forma de organização diferente que também nasce de um “basta já de abusos”, claro, estamos falando de um contexto muito diferente mas também os pedidos giravam em torno do “basta de miséria social, estamos com raiva e queremos que Macron se vá e mudar de forma estrutural as coisas”, E depois de um ano, ainda tem movimento.

DU: Sim, eu acho que ali tem um tema, a Frente Ampla faz dois, três dias e sua líder natural que é Beatriz Sánchez, a ex-candidata na última eleição vai  à Praça Itália e a expulsam da Praça Itália. Então não são os partidos tradicionais que, no qual também a Frente Ampla cai, embora de tradicional não tenha nada porque não tem nem dois anos, mas estão todos mais ou menos fora… obviamente a direita está fora da rua, ou seja, não poderia aparecer ninguém da direita na rua. De fato, tentaram, o partido republicano em formação, acho que assim se chama, que é de José Antônio Kast, que é um fascista que estava tentando capitalizar por exemplo, isso dos coletes amarelos, ele chama a que se organizem em defesa da propriedade, e isso gerou outra situação.

CC: Bom aí se deu outro significado aos Coletes Amarelos.

DU: Então, por sorte não funcionou. Tem certos setores populares que pensavam que iam entrar em suas casas, então se organizaram para defender mas em realidade todos rapidamente se deram conta que não era aí o assunto, sem prejuízo que tem gente que acredita que possa ser assim…

CC: Faço parte de alguns grupos que pensam a questão do futebol como um meio de transformação política e para nós chamou muito a atenção o posicionamento de alguns jogadores, jogadores famosos da seleção do Chile. A gente viu a questão dos torcedores organizados, das barras, da barra da Garra Blanca, torcedores de La U, se organizando para ir junto com a galera, como que tu enxerga isso? A gente aqui nunca imaginaria isso, aqui no Brasil, jogadores desse nível de  Seleção,  de se manifestarem tão fortemente, primeiro não querer jogar e depois num jogo da seleção, fazer aquele gesto tão simbólico de tapar, o que repercute isso?

DU: Geralmente, os jogadores de futebol são de setores popular, são pessoas que têm dinheiro porque jogaram futebol mas senão estariam na droga, estaria no narcotráfico. Porque essa é a realidade das periferias no país. Então, eles se deram conta que esse sistema de abuso também não pode continuar porque assumem que suas famílias tiveram sorte, porque podem ter luxo, viagem, mas não é o que acontece com as pessoas da sua população, com seus amigos, quando vêm a seus amigos da infância, estão presos, estão na droga, estão em uma situação ou precarizados sem possibilidade de , ou provavelmente eles mesmos têm que estar ajudando quando alguém da família, dos vizinhos, e claro, ele tem e podem aportar mas resulta que alguém fica doente aqui no Chile, em Santiago e resulta que tem que fazer um bingo, fazer algo para conseguir o dinheiro porque se tu não tens dinheiro, tu morres, porque não há saúde, não há saúde pública. Então, os jogadores tiveram esta percepção ou essa sensibilidade porque é algo que vêm em seu lugar de origem. Não todos, a maioria, mas também, os torcedores, ou seja, as barras, as barras do Colo-Colo, a barra da Universidad de Chile também são de extração popular e inclusive organizaram assembleias territoriais nas quais discutem acerca do que tem que ser mudado, então o fizeram em Praça Itália, inclusive, ou seja, Piñera, conseguiu que a barra do Colo Colo e a barra da U de Chile estejam juntas, então isso se chama como um milagre deste processo. Faz um mês estavam disparando, e agora, o que acontece por exemplo é que em Praça Itália se deu isso de que acima do cavalo que é de um general que está ali no lugar central, um dia se subiu a Garra Blanca, estava aí acima a bandeira e no outro dia estava a Universidade do Chile e se alternavam, de forma assim comunitária.

CC: Não achas que esta união de vários sectores da população, inclusive de time de futebol tem que ver, talvez de forma contraditória, com um incremento da repressão que terminou por unir em vez de dispersar às pessoas?

DU: O primeiro é que todas as pessoas de classes populares no Chile sabem que os abusos são generalizados. Então, há uma sensação de abuso generalizado por isso quando se diz: “não são 30 pesos, são 30 anos” é porque tudo é abuso, então isso é o primeiro. O segundo, efetivamente, do lado que o Estado queira, através da repressão, ou do terror, justamente, se eu vou te disparar na cabeça para que, ou percas um olho, ou fiques com a marca, é justamente para fazer com que não saias a protestar.

CC: Sim, com certeza, mas não houve um efeito contrário às intenções do governo, porque estamos vendo que as pessoas seguem nas ruas, que não estão com medo, até rebatizaram a Praça Itália de Praça da Dignidade…

DU: Bom, efetivamente isso tem sido assim. Então tem uma situação agora que isso possa significar que outra coisa, não sabemos, é que a rua foi o que puxou os limites do possível e pelo tanto os setores políticos tiveram que chegar a um acordo que tiveram que fazer uma nova Constituição. Agora vêm as armadilhas posteriormente que é outra situação. Se desmobiliza, bom não passou nada, os políticos voltam às suas coisas etc. e começam tudo de novo neste sistema de mudar para que tudo siga igual, que seguro já estão fazendo, não pode haver ingenuidade. Porque é muito chamativo quando revisamos em internet a declaração quando terminam depois de dois dias de trabalho às 3 da manhã, terminam a assinatura de um acordo, todos os setores políticos, a cara dos representantes da UDI, União Democrática Independente, que são da direita, é a cara de alguém absolutamente derrotado. Sacaram muito, fazem até memes com essas caras. Mas é porque evidentemente, em algum momento se dão conta que perderam, mas, perderam 30 anos de privilégios, Agora, quando vai ser isso, nos próximos 2 ou 3 meses, ou abril que seria a data do plebiscito que fixaram, abril que está à volta da esquina também.

CC: E este plebiscito que forma teria?

DU: O primeiro que tem que dizer é que isso é um acordo político que não há uma lei, ou seja até que haja um procedimento de lei onde isso se assine pelo congresso e seja lei da república, a reforma constitucional, porque isso é uma reforma à Constituição. Para reformar à Constituição, se precisa pelo menos 2 terços de todos os membros do senado, do congresso digamos. Isso não aconteceu, o que tem é um acordo político e de fato a informação agora é que tem dois setores da direita que estão tratando de embarcar, de dizer que não era tão assim. Então há setores da esquerda que dizem que os 2 terços são inaceitáveis e a direita. Os extremos, ao que parece, estão se juntando para dizer que não aconteça isso, uns porque dizem que é muito pouco e outros porque dizem que é muito. Então aí tem um problema no qual os espectros constitucionais têm dito, os dois terços não são neutros, ou sejam dois terços se precisam para fazer a reforma à Constituição que permita lhe perguntar ao povo, isso são os dois terços. Mas o outro dois terços a que se refere, não é a mesma coisa, é quando se eu já não tenho Constituição como assembleista tenho que tomar uma decisão junto a todos os assembleístas, porque tem que escolher se é assembleia constituinte ou é mista, ou seja com políticos de carreira e assembleistas escolhidos, ou somente assembleistas escolhidos, isso está dentro do acordo que ainda não se assinou, não tem nada assinado e é isso o que dizem as ruas: Não ganhamos nada, até o momento não se tem ganhado nada. Mas é diferente, acho que é importante assinalar, é diferente os 2 terços porque primeiro, precisas 2 terços de todos os setores políticos para reformar à Constituição que permita perguntar ao povo o plebiscito, então não se fez nada. Só tem um acordo político. E logo, na assembleia, já estando em estado da assembleia, a situação é que isso é de todos os assembleistas para que fique algo na Constituição. Os dois tercio de uma maioria que não pode ser uma maioria simples porque estamos falando da Constituição e se supõe que são as novas regras do jogo para todos e a ideia é que todos estejam maiormente representados. O tema dos dois tercio, ao parecer, há um consenso ao menos entre os especialistas que é razoável ter aos 2 tercio ao momento de discutir dentro da assembleia. Então, ou tem uma confusão ao respeito dos 2 terços ou se não dizes que é que há um poder de veto em respeito a um dos terços. Sim, mas ao revés, também podia ser que signifique que faça a diferença entre que a água volte a ser propriedade de todos ou não. Então não está fácil o panorama e há uma confusão e desta confusão se estão aproveitando alguns setores. Um porque talvez queiram avançar mais e é muito entendível, mas eu, acho que haja possibilidade no país de estabelecer, por exemplo, assembleias territoriais que digam: “nós somos os representantes do povo, e isso se faz desta maneira porque isso é uma revolução”, o que vai acontecer é que vão sair os militares, que não estão na assembleia e que são mais de 40.000 pessoas armadas e vai acabar tudo, e não vamos ter nada.

CC: E a relação dos militares chilenos com Estados Unidos?

DU: Estados Unidos, e isso é importante assinalar, é responsável justamente por manter o status-quo para que eles se beneficiem. Não há nenhuma novidade no que estou dizendo. Na América Latina, EUA atua através da doutrina Monroe de aí para adiante e em relação aos exércitos, EUA mantêm cooperação, a operação UNITAS, o Comando Sul, etc, que está com suas bases em Honduras, Colômbia, todos os países têm suas bases de EUA, inclusive Chile e Argentina.

CC: Acabamos de ganhar a nossa agora, nós não tínhamos e agora temos.

DU: claro, ou o fazem diretamente como em Colômbia, ou em Centro América em Honduras, ou o fazem através da OTAN, ou Nações Unidas através de operações de paz, isso é o caso chileno. Então quando acontece esta situação da queima do metrô e o presidente chileno diz que estamos em guerra contra um inimigo poderoso, ao outro dia, sai o secretário de Estado norte americano, o criminoso Pompeo, que diz: “Nós temos informação que são os russos os que estão fazendo isso, então Almagro [Luis Almagro, secretário geral da OEA], outro criminoso, corrupto, sai dizendo que são cubanos e venezuelanos. Isso a essa altura é absolutamente FALSO. É, tanto porque ao analise dos vídeos, porque tudo está gravado, lamentavelmente o que tem é que uns meninos que se organizaram do Colo Colo e foram queimar uma estação, por exemplo, é o que tem no vídeo é que o menino entra com uma camiseta do Colo Colo. Então, ele não é venezuelano, ele, não é cubano, também ninguém de Venezuela, nem de Rússia escreveu em russo para dizer que companheiro, não sei, Ilitch, vai e queime a estação, não. Agora, tem que ver se teve organização maior, ou não, mas isso é outro tema. Mas o que é certo é que EUA e Luis Almagro tentaram levar água ao seu moinho geopolítico. Então, isso a essa altura, é falso, de fato, os fiscais que levam a investigação, o Ministério Público no Chile é autônomo constitucionalmente, ou seja, não é parte do governo. Então, os que investigam os delitos não são parte do governo, isso é bastante importante, porque a um dos fiscais que estão investigando isso dos incêndios, lhe perguntaram, lhe falaram: e a informação, o presidente falou que eram venezuelanos, cubanos, falou que tem uma minuta, de fato publicou-se uma minuta do governo que dizia que eram venezuelano e cubano porque acreditaram nos gringos, então porque os gringos dizem a Piñera que são venezuelanos e cubanos e ele acredita, porque é um imbecil, porque no fundo que é o que temos, ou seja, dos criadores de há armas de destruição massivas em Iraque, agora são cubanos e venezuelanos que queimam as estações de metrô de Santiago. Ou seja, qualquer pessoa, razoavelmente, entende que é uma estupidez. Ou pelo menos me demoro um pouco para saber se é verdade, não chego no outro dia e digo que é o que está acontecendo. Incomodaram à senhora de Piñera porque falou que era como uma invasão alienígena o que estava acontecendo. Então, ali há uma situação na qual evidentemente EUA está tentando, como falamos, levar água ao seu moinho e através de seus bispos, neste caso, Luis Almagro, corrupto Almagro, está tentando também levar água ao seu moinho, então é uma situação complexa e quando se vê o que acontece na Bolívia é mais preocupante e mais inaceitável ou seja há informação que o que está acontecendo na Bolívia está financiado diretamente por grupos de evangélicos norte-americanos.

CC: Logo que começaram os protestos no Chile, o povo ir para rua, aqui, o governo de direita, se aproveitou para fazer um balão de ensaio, ou seja, aqui vamos precisar de um novo AI 5, do fechamento do regime. Os milicos que estão no governo, que estão no poder já se arvoram dentro mais ou menos daquela linha do tipo, ah, são russos, cubanos, venezuelanos, e a gente precisa se cuidar também já mais ou menos fazendo um balão de ensaio que isso talvez tenha que ocorrer aqui no Brasil, uma ruptura, mais do que a gente já tem, justamente para defender o Estado deste tipo de situação, ali depois a gente vê isso acontecer na Bolívia. Vemos por exemplo, o presidente constantemente elogiar o Pinochet e ontem mesmo saiu uma notícia que a ALESP, um deputado quer fazer uma homenagem ao Pinochet, como que isso reverbera, como que vocês enxergam isso?

DU: Eu acho que assistimos a uma impressionante reconfiguração do fascismo em latino América, e é muito preocupante, porque não sei se faz 4 meses, um ano, podíamos, na Bolivia, pensar no que está acontecendo. No caso chileno é distinto, se produz outro fenômeno que não tem a ver com o tema boliviano, mas isso também tem ido, quando miramos centro- América, também podemos observar que são os mesmos padrões. Honduras, o caso de Honduras que tem sido sempre o porta-avião de EUA na região com a base de Palmerola. Honduras se sustenta por um regime teocrático, narcotraficantes e evangélicos que estão se dando as mãos com o departamento norte americano, afirmando ali não sei que coisa. O irmão do presidente hondurenho foi recentemente condenado por tráfico em EUA e ele se mantém no poder, quando nada se faz em Honduras sem o beneplácito da embaixada gringa. Então, a pergunta é o que há detrás? E lembrem que Evo, o tema da reeleição a tira de Honduras, Evo replica o processo de Honduras para poder ir à reeleição, não sei se o conhecem.

CC:  O do direito a ser reeleito?

DU: Sim. O mesmo que fez Juan Orlando Hernández em Honduras faz um ano, dois anos, o fez Evo depois.

CC:  E tu, como juiz, que pensas do processo levado a cabo por Evo Morales na Bolívia ?

DU: A ver, Evo produz uma revolução indígena e isso é um processo indiscutível, indesmentível e são os indígenas no poder.

CC: que é uma coisa que nunca aconteceu antes…

DU:  E isso produz uma irrupção da margem e produz-se então um deslocamento das linhas do possível em Latino América, que era que os marginais, os pobres, os indígenas estão no poder. Evidentemente, isso causou um “irritamento” da classe “branca”, ou que se dizem brancos, que finalmente termina, primeiro em tratar da cisão de Santa Cruz e de outro, que se produz faz uns anos atrás, que Evo consegue controlar, evidentemente soltando muito para os empresários mas por outro lado é política.

CC: Acordos com os criadores de gados, a queima da Chiquitania…

DU: Tinha que ser feito? Isso choca evidentemente com outras coisas, sim, mas é política e é governabilidade finalmente. E além disso, quando houve mortos com Evo, de repressão, ou seja sendo honestos, não sei talvez podemos falar de um, dois ou três, não sei, poderíamos ver esses 12 anos para revisar…

CC: Houve sim, inclusive indígenas….

DU: Sim, sobretudo com o tema do TIPNIS, mas não é a indiscriminada repressão. Então produz-se esta situação e eu acho, honestamente, que o erro de Evo foi se assegurar na reeleição, ou seja, Evo comete o erro de seguir com o caudilhismo e não soltar quando, por exemplo, Cristina Fernández teria podido fazer a mesma coisa, mas diz, não, não, vou de vice-presidente e justamente foi uma jogada mestra porque permite recuperar o poder e ela igual está dentro do poder. Não é a presidenta mas está dentro. Por outro lado, nos perguntamos, mas Evo, a que olhou? Olhou o exemplo de Correa, que nomeia a Lenin [Lenin Moreno] que o traiu, traiu a todo o povo. O que passa é que processos revolucionários são processos revolucionários e isso no caso de Bolívia é muito evidente, mas o que acontece que Bolívia, o MAS, primeiro se suja as mãos com corrupção, não tem muito que assinalar, o MAS gera uma casta de funcionários burocratas com altos indícios de corrupção. Agora, se cria uma burguesia nova, é coisa de ir Al Alto, imagino que vocês têm podido viajar a Bolívia, tem uma arquitetura nova Aymara, então se produz que há melhores condições econômicas. Está bem, mas outra coisa é assegurar o processo em um tema de caudilhismo torcendo a vontade popular. Ao fim, quando fez o plebiscito lhe falaram que não. Então se te dizem que não, até aí chegas, tem a humildade, mas assegura o processo, ou seja, Choquehuanca, ou mesmo Garcia Linera, não sei.

CC: Mas então, porque não assegurou a transição?

DU: O factor equatoriano.

CC: Teve medo da sua própria gente?

DU: Sim, claro. “Evo es pueblo”. Então somente Evo é povo.

CC: Como uma forma de se agarrar ao poder…

DU: Sim, mas por outro lado também temos que ser justos, implicam com ele porque é índio.

CC: Claro!

DU: Primeiro que ninguém lhe diz, não sei quanto tempo leva Merkel no poder, mas Merkel deve levar uns 12 anos pelo menos, mas é alemã! É branca!

CC: Fiquei com uma pergunta, quando falavas que nos protestos no Chile havia um certo rechaço aos partidos políticos tradicionais nas ruas de Santiago ao mesmo tempo em que se vê uma grande representatividade dos símbolos Mapuche e uma destruição dos símbolos materiais do colonialismo, vimos à estátua de Pedro de Valdivia cair, entre outras, como tu enxergas essa articulação. Sinto que há um certo desejo de criar uma sociedade nova e uma organização política que não passe pela estrutura política partidária.

DU: A ver, primeiro a Frente Ampla nasce na crítica ao sistema político tradicional, se eleva nesta parte ou consegue entrar criticando justamente tanto à direita como à Concertação, ou à Nova Maioria, que denominou ante o governo Bachelet. Então, a esquerda tradicional lhe reclama que são umas criancinhas, que são ingênuos etc, mas que tiveram mais visão que todos os outros, e a Frente Ampla reclama que os velhos de esquerda se acomodaram. O outro que é interessante, que saltou e que tu estás dizendo é que o povo está muito mais próximo dos povos originários, neste caso dos Mapuche, que as elites. A elite rechaça ao indígena e o povo está composto por indígenas, o povo chileno. Então, que é o que acontece, podemos ver uma coisa que se viu em redes, quer dizer, o mesmo que tem acontecido com os Mapuche todo este tempo, quer dizer, a repressão que permanentemente se faz contra os Mapuche, os inventos da polícia, a repressão da polícia, as montagens da polícia, agora o fazem contra todos, agora sim, acreditamos nos Mapuche que viveram isso que nós estamos vivendo agora, eles tinham razão. Então, nós resistimos mas há quem leva resistindo faz 500 anos, que são os Mapuche. Por isso aparecem tantas bandeiras Mapuche, porque tem uma reivindicação da resistência da luta dos indígenas chilenos.

CC: da nação Mapuche.

DU: perdão, não são chilenos, dos Mapuche no Chile que é distinto. No território que se chama Wallmapu.

CC: E uma das suas reivindicações justamente foi que se se chega a criar uma nova Constituição, poderiam ter sua autonomia territorial garantida?

DU: A ver, no mundo indígena como em muitos outros lugares, tem gente para todo digamos, e tem grupos que reivindicam independência, outros, autonomia, a outros lhes dá o mesmo. No Chile, os Mapuche são mais de um milhão e meio de pessoas, há alguns que são urbanos, e que justamente são urbanos pobres e outros que são rurais que têm comunidades e outros que são rurais e que não vivem em comunidades, uns que são evangélicos, e outros que são católicos e outros que não são nada e assim. Então, há uma dispersão, agora, aos grupos mais políticos dentro dos Mapuche, ao menos esta autonomia territorial.

CC: A CAM [Coordinadora Arauco-Malleco] por exemplo.

DU: Claro, a CAM, eu não escutei eles falarem em processo independentista em principio mas sim de autonomia. O Conselho de Todas las Tierras com Aucán Huilcamán, sempre foi mais criticado pelos funcionários internacionais, os incomodam aí, muito. Aucán e esta organização planteou agora o auto-governo, então vamos ver qual é a situação, o claro é que há dispersão como em qualquer outro povo e nação. Tem muitos caminhos e muitos interesses também. Mas pode ser que a CAM e o Conselho de todas las Tierras se juntem ou não, mas sim, existe uma situação, pelo menos, de reivindicação. Agora, os Mapuche estão silenciosos neste processo, entre outras coisas porque eles precisam tempo para suas coisas, porque as conversam, as escutam, e na forma e na cosmovisão Mapuche, é primeiro escutar então não vão sair às ruas a gritar agora.

CC: Mas também houve vários protestos em Temuco organizados por coletivos Mapuche.

DU: Sim e não. Porque os que protestam sempre vão a protestar, mas eu te estou falando da comunidade, as comunidades estão escutando porque essa é sua maneira de atuar então, vão demorar talvez, ou talvez vão fazer outra coisa. O importante é que façam eles o que tenham que fazer de acordo ao que eles queiram fazer e não que venha alguém a dizer para eles como eles têm que fazer as coisas. Porque efetivamente, aconteceu essa situação. Grupos de esquerda tentaram se meter no território e eles são os que têm que tomar suas decisões desde seus conhecimentos e desde suas formas ancestrais. São eles que resistiram 500 anos, os grupos de esquerda revolucionários não levam nem 100, o que importa aqui é o processo de autonomia e se alguém que queira ajudar, bem-vindo, sempre que seja aceitado, porque se chega alguém e lhe diz: isso se faz assim, os vão a tirar.

CC: Sim e está bem que o tirem…

DU: E tem que ser assim mesmo.

 

Expo Cine Hardcore – Patrimônio ContraCultural

*texto da divulgação

A exposição tem o objetivo de tornar acessível para a sociedade filmes e documentários sobre a contracultura underground e suas expressões culturais ativistas, tais como música, tatuagem, moda, artes visuais, skate, protestos, entre outros.

A atual conjuntura do país, de alta fragmentação da sociedade e difusão de notícias e informações falsas, traz para o evento um sentimento de união e compartilhamento de pensamentos críticos e questionamentos sobre o que estamos fazendo e, principalmente, o que não estamos fazendo!

A segunda edição tem em cartaz os documentários “Viver para Lutar” – que retrata a cena anarcopunk no Brasil nos anos 90, e que neste primeiro episódio retoma a importante ligação entre o punk, o anarquismo e o feminismo que floresceu naquele período – e Reativos: Firmes e Fortes – que traz a história de Gabriel Tomazzoni e Edson Fernandes, que mais uma vez marcam a cena do Hardcore em Porto Alegre com a banda “Reativos”, produzindo eventos, agitando e principalmente, mostrando o quanto a cena underground de Porto Alegre é importante, com boas músicas, boas histórias, muitas parcerias e sempre firmes e fortes.

Todo cinema pede pipoca, portanto, PIPOCA OPEN!! (traga sua cumbuca).

Atividade  é GRATUITA. Porém o pessoal conta com colaborações espontâneas para cobrir pequenos custos e viabilizar próximos eventos com o mesmo ideal!!

Local:  Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, localizado no centro de Porto Alegre, mais exatamente na Rua dos Andradas esquina com a Caldas Júnior!

A COMUNA DE QUITO: por dentro da insurreição no Equador

-Conteúdo originalmente publicado no blog Facção Fictícia. Não foram citados os autores do texto nem das fotos.

No início de outubro, uma onda de protestos tomou as ruas do Equador contra os cortes no subsídio da gasolina e, consequente aumento dos custos de vida. A agitação se transformou no maior levante popular do país das últimas décadas. Marchas indígenas chegaram à capital Quito e ocuparam o prédio do Parlamento e milhares de manifestantes enfrentaram as forças policias do presidente Lenin Moreno, obrigando o governo a mudar sua sede da capital do país para tentar escapar da insurreição popular. Moreno é o sucessor e ex-vice presidente de esquerda Rafael Correa, que chegou ao poder impulsionado pelos movimentos sociais da década de 1990 e governou o país por 12 anos sob o mesmo padrão neoliberal e pacificação/cooptação dos movimentos sociais aplicado por outros governos de esquerda na América Latina – como PT no Brasil. A convergência de vários grupos do campo, da cidade, estudantes, mulheres e indígenas foi o que permitiu uma radicalização da luta que se transforma agora numa insurreição popular. Foram contabilizados até agora 554 feridos, 929 prisões e 5 mortes nos 9 primeiros dias repressão as manifestações.

Conduzimos essa entrevista com companheiros diretamente das barricadas nas ruas do Equador para debater algumas das questões mais relevantes sobre a mobilização.

Manifestantes invadem parlamento em Quito, dia 8 de outubro de 2019.
1. Os governos do Brasil, Argentina e instituições ligadas à União Europeia declaram apoio ao governo de Lenin Moreno no Equador e denunciam a revolta popular da classe trabalhadora e povos indígenas. Obviamente, essas instituições sabem que as políticas de austeridade também estão em sua agenda e temem que o mesmo cenário se espalhe pelas Américas e outras partes do globo. Como vocês enxergam a resistência às políticas de austeridade e corte de subsídios afetando a vida cotidiana no Equador? Qual o caminho que, na sua opinião, levou a população das cidades e aos indígenas a dizer basta? Existe um sentimento anticapitalista compartilhado nas ruas?

A resistência que está acontecendo nesse momento que já tem oito dias, já constitui uma data importante, um evento histórico. É a maior revolta dos últimos anos, historicamente não sei, mas seguramente é a maior greve dos últimos anos, que tem como protagonista os indígenas, porque os levantes do passado não duraram tanto tempo como está durando agora.

A austeridade e a política de redução de subsídios afetam a vida cotidiana no Equador, mas creio que há uma divisão de classe no que está acontecendo nesses dias na cidade de Quito e no Equador inteiro. Há uma parte da população que não entende as razões do protesto e que dizem que na verdade o governo não está aumentando o preço da gasolina mas apenas retirando um subsídio que existia. O que não entendem é que aumentar a gasolina é aumentar o preço das passagens, por exemplo. Um aumento de 10 centavos para um estudante de universidade pública é muito. Comprar alimentos nesse período também aumentou. Para as pessoas que tem negócios, que vão comprar coisas para seu uso cotidiano e ganham o mínimo, isso os afeta muito. Por exemplo, o saco de batata que estava a 18 dólares há 10 dias agora está de 30 a 35 dólares. Digamos que há um efeito imediato do aumento do preço da gasolina, já que os subsídios fornecidos anualmente permitiam um acesso maior a cesta básica e a outros tipos de bens de consumo. Além disto, a maior parte dos alimentos, vegetais e verduras que são cultivadas na Sierra (a região dos Andes) ou, por exemplo, as bananas cultivadas nas plantações da Costa, são todos transportados em caminhões a diesel. A maior parte dos ônibus urbanos, também. Há uma conexão entre os subsídios e a cesta básica, se aumenta um aumenta todos os preços, como já vem aumentando.

Escultura “Esfera de movimientos oscilantes”, em Quito, dia 8 de outubro.

E como disse, há uma questão de classe, a classe média pode ser que não sinta essas medidas, mas a maior parte da população já está sentindo. E os indígenas sabem que não vão conseguir vender seus produtos, e quando tiverem que vender para as pessoas da cidade, vão ganhar muito pouco. No final, acaba sendo uma cadeia na qual o produtor direto é o que vai ganhar menos, e eles sabem disso. É necessário que se entenda que aqui o alimento nas grandes cidades chega pelo campo, então há aí um efeito direto do aumento do preço da gasolina sobre os pequenos produtores no campo, onde a maioria dos companheiros indígenas vivem.

Sobre o sentimento anticapitalista nas ruas, a esquerda durante os últimos 12 anos esteve muito dividida, desde que o Rafael Correa chegou ao poder, um governo que se dizia de esquerda e que chegou ao poder capitalizando os protestos sociais dos anos 90 e da primeira década dos anos 2000. Desta forma, muito dos protagonistas destes tempos de luta entraram para o governo. Durante esses anos haviam pessoas que acreditavam neste projeto de governo, e que depois se deram conta que ele seguia uma direção muito capitalista. Isso impediu que houvesse uma verdadeira união na esquerda. Agora, neste momento histórico, não creio que houve um processo de crescimento pelo qual os movimentos sociais estavam articulados até chegar a este momento de explosão. Mesmo se aconteceram diversas coisas no campo social nos últimos anos, não havia um encaminhamento claro a respeito da organização revolucionária e comunitária, digamos. É como se os movimentos sociais estivessem adormecidos e, da noite para o dia, graças ao “paquetazo”*, todo o povo de repente se uniu, e isso permitiu que se radicalizasse a luta. Houveram, por exemplo, muitos bloqueios nos bairros, nos arredores das cidades, em pequenos povoados e isso manteve vivo os 8 dias de paralisação em que estamos.

*Paquetazo: refere-se o decreto 883 do governo de Lênin Moreno e seu pacote econômico, em espanhol usa-se a expressão para dar um sentido negativo

Parlamento ocupado em Quito, 8 de outubro.
2. No dia 8 de outubro, milhares de indígenas chegaram marchando à capital Quito e ocuparam o prédio do Parlamento. Como se deu esta mobilização indígena na cidade neste dia? Em torno de quais pautas e ações eles estão se organizando?

Na realidade os indígenas chegaram no dia 7 de outubro, na segunda-feira houve uma batalha campal na cidade de Quito que durou 5 ou 6 horas entre sobretudo estudantes, movimentos sociais e cidadãos de Quito que procuravam manter a polícia ocupada para permitir a entrada dos companheiros indígenas. Lembramos que estamos vivendo em Estado de Exceção, então os militares estão nas ruas e tinham bloqueado neste momento as principais entradas de Quito, as entradas Norte e Sul, para impedir que os indígenas vindos de outras províncias pudessem entrar. Mas, estes estavam tão bem organizados, que não teve inteligência militar capaz de parar a sua determinação. E o fato da luta ocorrer no centro da cidade, também permitiu abrir brechas para que os indígenas pudessem chegar até o centro histórico.

Bem no momento em que conseguimos que a polícia recuasse, vimos chegando os caminhões cheios de gente, e as motos que acompanhavam a caravana indígena, foi um momento muito emocionante. Eles foram diretamente até o Parque El Arbolito, ao lado da Universidade Salesiana onde está organizado um apoio logístico ao movimento. No dia seguinte se convocou uma concentração no Parque El Arbolito e foi decidido tomar a Assembleia. Chegando lá, uma primeira delegação entrou e aos poucos foram entrando mais gente, enquanto havia milhares de pessoas na porta da Assembleia querendo entrar. A polícia lançou bombas de gás no meio das pessoas, o que criou um movimento de pânico. Pessoas poderiam ter stido mortas pisoteadas porque muitos, não podiam respirar, outros muitos corriam em várias direções. Enquanto isso a polícia continuava atirando bombas de gás e balas de borracha nos manifestantes. Nesse momento começou uma repressão muito grande. A Assembleia, estrategicamente, é como um pequeno forte, situada em cima de um morro; para protege-la, a polícia se posicionou em um ponto mais alto e tinha condições de acertar os manifestantes com franco-atiradores. Consequentemente houve um número muito grande de feridos e alguns mortos, já que policiais estavam em uma posição estratégica para reprimir.

A ideia de ir até a Assembleia era uma das ações que o movimento indígena havia decidido executar durante estes dias que estiveram em Quito. Até ontem (quarta-feira, dia 9/10), havia bastante preocupação, porque não havia estratégia clara, enquanto o Governo não recuava e estava aumentando a repressão. Inclusive, o fato da polícia ter lançado bombas de gás dentro de centros de paz e espaços de acolhimento, como a Universidade Salesiana e a Universidade Catolica, causou muita indignação e, de uma certa forma, atingiu o Governo porque a notícia circulou, apesar do cerco midiático que as grandes mídias e o Governo estão tentando manter.

Hoje (quinta-feira, dia 10/10) pela manhã, 8 policiais foram detidos pelo movimento e trazidos para a grande assembleia popular e indígena na Casa da Cultura onde havia cerca de 10.000 ou 15.000 pessoas. Os jornalistas dos grandes meios de comunicação que estavam lá acabaram transmitindo ao vivo a assembleia, mesmo que não o fizessem da melhor maneira. Isso permitiu de certa maneira quebrar o cerco midiático divulgando, por exemplo, o fato que um companheiro liderança indígena de Cotopaxi, Inocencio Tucumbi, foi morto. Ele desmaiou após ter inalado muito gás lacrimogêneo e em seguida foi pisoteado por um cavalo da polícia. Isso até então não tinha saído na grande mídia. De repente apareceram os mortos nos grandes canais de TV’s e foi se tornando evidente para o grande público que sim, o Governo está matando e está criando um nível de repressão muito grande!

Então, a estratégia de hoje teve êxito. Como eu te disse, ontem ainda não havia estratégia muito precisa, mas hoje já estávamos mais organizados. Houve uma missa, e foi organizado um corredor humano de 1 km da Casa da Cultura até o Hospital para poder encaminhar o corpo do nosso companheiro, muita gente aplaudiu, foi também um momento de grande emoção. Nos despedimos dele com muita honra, porque era um grande companheiro de luta. Também prometeu-se naquele momento que em sua memória a luta iria continuar. Também foi um momento para juntar forças, para descansar, para pensar sobre a estratégia a seguir nos próximos dias e para compartilhar essa dor geral pensando naqueles que caíram, naqueles que estão feridos e nos dar animo para seguir lutando.

A exigência da CONAIE (Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador) em seguida foi clara, dizendo que se o Governo radicalizasse a violência, obviamente a rua também iria em resposta se radicalizar.

Chegando a noite, os policiais foram libertados e foram entregues na frente da Assembleia, em meio à uma grande manifestação. Pelo fato da Assembleia e da Casa da Cultura estarem próxima, havia uma espécie de manifestação-plantão permanente na frente da Assembleia e a zona estava repleta de manifestantes. Havia esta noite cerca de 30.000 pessoas no local. Foram então entregues os policiais e os indígenas deixaram claro que eles haviam sido detidos por terem entrado em uma zona que havia sido declarada zona de paz. Foram portanto detidos, mas estavam sendo entregues são e salvos. Diferente da prática da polícia, pois no dia em que a Assembleia foi tomada, houveram cerca de 80 presos. E quase todos foram soltos, ontem, com marcas de violência e machucados.

3. Os povos indígenas declaram seu próprio estado de exceção em seus territórios, ameaçando prender agentes do estado que ousariam entrar nessas regiões. Como se dá essa autonomia e organização territorial dos povos? E quais são esses povos?

Sobre o Estado de Exceção decretado nos territórios indígenas, isto explica também o episódio todo que eu te contei. Pois neste momento a Casa da Cultura e toda a região ao redor estão sendo considerados como territórios indígenas, então foi considerado que os policiais violaram a soberania excepcional dos povos indígenas e por isto fora detidos. Isto aconteceu também em outros territórios indígenas nesta semana, onde foram detidos militares que violaram estes territórios, foram sequestrados ônibus e veículos blindados de militares. Isto acontece porque os povos indígenas, desde há tempos já exigem a autonomia em seus territórios e possuem sua própria lei indígena. Quando acontece algum problema dentro destes territórios, alguém roubando ou causando problemas, o caso é resolvido pela justiça indígena, sem passar pela justiça estatal.

Então, a partir do momento em que o Governo decretou o Estado de Exceção, em resposta os indígenas decretaram também o Estado de Exceção em seus territórios como uma forma de diminuir o nível de repressão e também de pressionar os militares e a polícia que, seja na rua ou nos territórios, reprime os povos, para que estes saibam que correm o risco de serem detidos, como aconteceu. Como disse, em diferentes territórios, militares e policiais foram retidos, desarmados e, depois de alguns dias, foram soltos após ter passado pela justiça indígena. Isso funciona claramente no sentido de expor na frente da pessoa acusada tudo que ela fez, dependendo do delito cometido e em relação a este se decide o castigo a ser sofrido pelo preso de modo comunitário.

E sobre as etnias, digamos que a CONAIE está dividida entre todos os povos indígenas e outros povos incluindo cholos (mestiços) e povos negros do equador. Existem os indígenas do litoral, os povos da Serra Norte, da Serra Central, da Serra do sul e os do oriente, da região Amazônica e todos se articulam através da Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador.

4. Existem rumores – criados pela grande midia vinculada ao governo – de que a CONAIE está fazendo acordos com o governo e parece que este último está tentando dividir o movimento entre bons e maus. Más nas últimas horas (10/10), no entanto, houve notícias de que não há acordo entre a CONAIE e o governo. Quanta chance essas tentativas tem de ser bem-sucedidas? Quanto a CONAIE estaria disposta a radicalizar o movimento ou negociar? E que influência ou representação efetiva a CONAIE tem em relação aos povos indígenas?

É claro que houve rumores, fofocas, mentiras e falsidades feitas pelo governo e pela mídia que obviamente tentam dividir a luta popular que hoje está ocorrendo nas ruas de Quito e em todo o Equador. Deve-se dizer que essas grandes organizações como a CONAIE, o FUT (que é o maior sindicato dos trabalhadores do país) historicamente também tiveram momentos em que negociaram, em períodos de fraqueza, e essas negociações não chegaram a nenhum lugar. E, por serem grandes organizações, também estão dentro de um cenário super-político; portanto, às vezes os próprios movimentos os vêem como estruturas políticas ambíguas. Mas isso é normal, além disso, devemos ver a capacidade organizacional que eles têm, neste caso especialmente a CONAIE, com seu papel histórico, considerando que no passado ela conseguiu derrubar vários presidentes. Nesses dias também temos visto a força das agremiações de transportadores e motoristas de táxi que paralisam a cidade e aquela dos estudantes que saíram às ruas. A verdade é que os transportadores têm um papel histórico muito mesquinho no Equador e eles decidiram sair da greve logo de que conseguiram aumentar o preço das passagens. Enquanto as pessoas e especialmente os estudantes conseguiram manter a luta nas ruas e os indígenas imediatamente se juntaram. Tanto o movimento urbano quanto o movimento indígena logo conseguiram descentralizar a atenção que era inicialmente exclusivamente para os transportadores.

Então sim, houve esses rumores. Mas hoje também tem o fato de que houve atenção para os polícias presos e, com aquilo, os jornalistas que foram imediatamente para lá. Os líderes de cada grupo indígena e o próprio presidente da CONAIE, o Sr. Vargas, declararam publicamente que não vão negociar com o governo porque que o sangue dos mortos não pode ser negociado e que, para iniciar um diálogo, eles colocam como condição a eliminação do decreto 883 (o “paquetazo”), que o FMI deixe o país, e que a ministra do Interior Maria Paul Robles e o ministro da Defesa, Oswaldo Jarrín, renunciem imediatamente, pois são os culpados pela morte dos companheiros que caíram nestes dias.

Obviamente, há uma grande pressão das bases. Nos dias anteriores, havia poucas reuniões, principalmente de líderes e alto comando de organizações políticas Mas hoje (10/10) foi decidido fazer essa assembleia popular que durou muitas horas e toda decisão era fruto de uma consulta a população, as bases que estavam lá e que, como eu disse, eram umas 10 a 15 mil pessoas e tudo foi então decidido coletivamente. Também podemos dizer que a pressão das bases está permitindo que a liderança também tome decisões radicais, e não seja vendida, por desespero, por medo de ser presa ou por dinheiro que o governo desejar dar a eles por debaixo da mesa.

A CONAIE, em geral, tem uma enorme representatividade. No Equador, se você pensa nos povos indígenas, pensa diretamente na CONAIE. É uma organização muito grande, com uma estrutura política incrível e também comunicativa, estratégica. Hoje vimos muito bem como eles conseguiram “virar la tortilla” e colocar o governo em dificuldade.

5. O governo acusa Correa de estar por trás das manifestações. Mas, ao olhar aquelas, não parece que os correistas estejam tendo um papel protagonista. Qual é o papel de Correa na fase atual, tanto nas marchas quanto na possibilidade de cooptação e saida “pacífica” ou eleitoral do conflito?

Obviamente, o governo acusou Correa, acusou Maduro, disse que Correa havia viajado para a Venezuela e que a partir daí ele desenvolveu um plano para desestabilizar o governo. Agora eles também dizem que por trás do tumulto nas ruas estão o Latinquín, que é uma “pandilla” (uma gangue) e as FARC, ou seja, esse senhor não sabe mais o que dizer. Obviamente, culpar Correa é uma coisa que ele está acostumado, tem dois anos que Correa tem sido culpado de tudo. Apesar de Correa ser um corrupto que deve pagar pelos crimes contra a humanidade, pela repressão que ocorreu durante seus governos, pelos casos de corrupção, não se pode culpá-lo por tudo que é de responsabilidade do atual governo, que comanda o país há mais de dois anos. Então há essa acusação geral por parte de toda a direita  que, neste momento, apóia Lenin Moreno e esse costume de culpar Correa toda vez que há uma crise: se falta dinheiro é porque Correa o levou; se há criminosos é porque Correa fez leis que liberavam criminosos; se há muitos migrantes é por causa da lei da mobilidade – o governo anterior sempre é o culpado.

Dito isto, apesar do fato de que nos últimos meses, no ano passado, nas mobilizações e marchas que contra o governo – que eram muito menores do que são agora, pois agora é uma verdadeira revolta – os correistas estavam sempre presentes e isso criava problemas para alguns movimentos sociais, que não queriam estar junto com eles. Isso nos fez pensar que eles ainda estariam presentes nas marchas desses dias, pois também são um grupo muito consistente. De fato, no primeiro dia foram marchar e foram reprimidos, no segundo também apareceram mas estavam por trás da marcha e queimaram dois pneus fora do Banco Central enquanto mais a frente os estudantes tentavam entrar no centro histórico e enfrentavam a polícia. Depois daquele dia os correistas praticamente desapareceram, as pessoas não lhe deram espaço. Hoje (10/10) estávamos fazendo entrevistas com alguns companheiros auto-organizados e perguntamos a eles: e Correa? E todos responderam com muita clareza: não sou correista, não estou aqui por Correa, Correa não nos paga. E isso é evidente: os correistas não estão nas marchas, certamente um ou outro há, mas não estão de forma organizada.

Milhares de indígenas marchando rumo a Quito no dia 9 de outubro.” (Foto de Rodrigo BUENDIA / AFP)

Dois dias atrás, no dia da assembléia, o padre Tuárez – presidente do Conselho de Participação do Cidadão e foi demitido por ser fanático religioso – disse que Deus havia lhe dito que Correa era o Salvador e que ele precisava voltar, coisas assim. Ele tentou se infiltrar nas mobilizações e as pessoas o colocaram para correr. Ou seja, essa possibilidade não existe. Isso também é o interessante: nem os partidos políticos nem os políticos tradicionais foram capazes de se apropriar do que está acontecendo. As únicas autoridades digamos mais “políticas” que têm legitimidade e que neste momento estão liderando as mobilizações são as do sindicato FUT e da CONAIE. Na verdade, é todo o povo que fica nas ruas, e isso é muito assustador para a direita, para a burguesia, para os banqueiros, para os “donos” do país porque a rua não aceita nenhum dos líderes políticos. Então, a solução pode ser que o “paquetazo” caia e que por algum momento retorne a calma, mas obviamente isso não poderá durar muito tempo. Outra possibilidade é que Lenin Moreno renuncie, e o “paquetazo” permaneça e o governo tentaria distrair o povo que ele se acalme e para que a atenção fique no fato de Moreno ter saído ou o fato de que um governo popular possa realmente ser construído, um governo nascido das ruas – e esses rumores já estão circulando. Então imagine o que estão pensando a direita, a burguesia equatoriana. Eles não absolutamente podem permitir que as ruas ganhem, porque isso significaria que depois de 12 a 13 anos se mostra às pessoas algo que na percepção comum não existe mais, isto é, ir às ruas é bom e se você se organizar, se resistir, se continuar insistindo, alcançará seu objetivo. Essa seria uma reação em cadeia que permitiria novamente que as pessoas acreditassem em suas possibilidades. Eles sabem disso e é por isso que estão todos unidos para evitá-lo.

6. Como o bloco no poder está enfrentando as manifestações? Existem divisões possíveis (entre os partidos, nas Forças Armadas…)?

O bloco no poder está todo unido. Os maiores líderes políticos (Lenin Moreno, Guillermo Lasso, Jaime Negot, Álvaro Noboa) estão todos unidos. Correa obviamente não diz nada porque o que ele quer fazer é capitalizar o que está acontecendo nas próximas eleições. Ele sabe bem que não é conveniente para ele falar muito porque o governo já está dizendo que a culpa é dele e não é estratégico para ele se envolver demais. Basta que as pessoas pensem que “tudo era melhor quando ele estava lá” e nas próximas eleições é muito provável que ele possa ganhar. O presidente está agora em Guayaquil, que é o refúgio dos social-cristãos, o partido de direita, que todos temiam que fosse vencer na próxima eleição. Mas agora não parece possível porque, certamente, ele não vai ter o voto da Serra, de cidades como Quito, Ambato, Riobamba, das comunidades indígenas. Então todos estão unidos, tentando usar todos os meios possíveis para criminalizar o protesto.

Quanto às Forças Armadas, agora temos um Ministro da Defesa treinado em Israel, pelo Mossad e pela Escola das Américas, um louco fascista, um militar. Há quatro dias, o governo criou uma cadeia nacional de uma hora, na qual esse louco falou metade do tempo, ameaçando, dizendo que as Forças Armadas saberão se defender, que não devem ser provocadas, que as pessoas precisam manter a calma porque se não a repressão será feroz, como se estivéssemos na ditadura. Isso claramente levou as pessoas a serem bastante indignadas. Ainda não se sabe, não existem dados precisos sobre deserções dentro do exército ou da polícia. O certo é que o papel histórico do exército sempre foi reprimir o povo e, em um determinado momento, quando o descontentamento popular já é evidente, eles tentam alcançar uma estratégia para impedir a existência de um governo popular e se apresentam como mediadores para criar um novo governo, mas que geralmente sempre termina sendo pior que o anterior. Então é possível que em algum momento as Forças Armadas comecem a criar rupturas dentro da organização popular e também a tirar o apoio do presidente.

Lenin Moreno saiu de Quito, mas deixou seus cães devidamente abastecidos.
7. Como o movimento transformou a vida cotidiana na cidade de Quito? E como se organiza o dia dia nos espaços ocupados pelos manifestantes?

É impressionante o nível de solidariedade que se instalou aqui na cidade, que alguns tem rebatizado a Comuna da Quito, justamente porque não são apenas indígenas, não são apenas os estudantes, não são apenas manifestações. Há bloqueios feitos nos bairros que estão organizados. Como no Centro Histórico, o bairro de San Juan por exemplo, se organiza autonomamente. Quando a manifestação chega lá, pessoas te dão comida, água. No dia de ontem, quando a tensão se deslocou para os arredores de San Juan, na parte alta do Centro histórico, haviam vários moradores que chegavam trazendo pedras, pessoas que desde as janelas das casas davam aos manifestantes materiais para poder queimar ou para se proteger do gás de pimenta. Na porta das casas, haviam pessoas que nos davam água.

Cozinha comunitária organizada pela CONAIE.

Dentro das casas haviam pessoas que recebiam e ajudavam os feridos, oferecendo um espaço para que os médicos voluntários pudessem os atender, já que as ambulâncias não conseguiam chegar até lá. Tem muitos médicos voluntários, muitos deles estudantes de medicina, de enfermaria, que estão ajudando nas ruas, dando assistência emergencial aos feridos para evitar que haja mortos ou que as feridas se agravem. Temos portanto um aparato médico incrível, muito organizado.

Temos locais de recepção de alimentos, faço parte de um destes grupos no Whatsapp porque o lugar onde eu trabalho está funcionando como ponto de coleta de produtos. E por todo centro, por todas as Universidades, tem lugares funcionando como cantinas populares, como espaços de acolhimento para as pessoas de fora que vieram à Quito para lutar. Estes lugares estão cheio de doações e, por vezes, nem sabem onde levar todas estas doações que recebem. Tem cozinhas comunitárias, onde pessoas vem oferecer seu tempo para preparar alimentos. Ontem, eu estava conversando com pessoas de uma cozinha comunitária, no Parque Arbolito, havia ali um senhor que foi ferido enquanto a polícia atacava o Parque, porque apesar do ataque a cozinha continuou no local, ajudando as pessoas. Foi um bairro de Quito que montou a cozinha, se organizando através de uma igreja evangélica, estava ali o pastor e suas três panelas gigantes. Me disseram que haviam alimentado 700 pessoas apenas neste dia. Conheci também uma senhora muito humilde do sul de Quito, com a qual eu conversei, que tinha um pequeno negócio e veio pela tarde com uma pequena van, junto com seu filho, passando pelo Parque distribuindo café e pão para as pessoas. Então realmente, a comida não falta, há comida por toda parte, hoje mesmo eu já comi quatro vezes, por todo canto há pessoas te chamando para comer algo e às vezes se ofendem se você recusa porque é uma forma de doação.

Tem pessoas organizadas para apagar os gases de pimenta, ou para cuidar das pessoas atingidas pelos gases. Tem todo tipo de organização, tem pessoas que se encarregam de cuidar das crianças. (Tosse forte, “foi mal, é o efeito dos gases nos pulmões”.) Tem pessoas que organizam brincadeiras para as crianças. Tem pessoas que passam o dia cantando, tocando música. É realmente muito muito interessante o que está acontecendo aqui. Por isto, alguns falam aqui da Comuna de Quito, alguns dizem que de certa forma já ganhamos neste ponto de vista, no nível da auto-organização espontânea. Mas foram muitas assembleias para poder organizar o que está acontecendo agora. E creio que esta é a maior vitória, e esperamos que isso poderá continuar, este espírito de auto-organização. Este fato de mostrar que juntos já podemos resistir 8 dias e paralisar um país por 8 dias, para dizer que nossos direitos sejam respeitados.

8. Como o movimento planeja se organizar a partir de amanhã?

Hoje, durante todo o dia (10/10), houve uma manifestação, com a entrega dos policiais que haviam sido detidos, com o chamado para continuar a luta e os indígenas ainda estão aqui em Quito. Hoje foi um dia de tranquilidade, paz, luto. De fato, a CONAIE anunciou três dias de luto, não sei se isso significa que nos próximos três dias haverá apenas marchas pacíficas. Mas acho que estrategicamente também pode servir um pouco, por exemplo, hoje foi um dia “pacífico”, mas muitas coisas foram alcançadas, a atenção da mídia foi alcançada, a barreira da mídia foi quebrada. Apesar do fato de que eles cortaram nosso sinal de telefone celular e a Internet, o que dificultou a documentação de mídias independentes e pessoas desde os telefones celulares particulares. Então, acho que todos estamos nos preparando para uma longa resistência, se no início pensávamos que poderia terminar de um momento para o outro, depois do que vimos nesse últimos dias, entendemos e temos a sensação de que isso durará muito mais tempo – e é por isso que devemos organizar estrategicamente os momentos de luta e não queimá-los imediatamente. É importante tentar gerar opinião pública, quebrar a barreira da mídia, criar novas estratégias de combate, além das manifestações, dos momentos de riot, dos momentos de conflito com a polícia. Isso não significa que uma coisa esteja certa e outra errada, mas que precisamos usar todas as ferramentas possíveis para obter a vitória.

Certamente a luta continuará! Hoje prometemos diante do caixão do camarada morto pela polícia, que a luta continuará!

Mobilização na frente da Fepam exige audiência pública da Mina Guaíba em Porto Alegre

Nesta sexta feira (dia 13/09/2019) das 11 até as 13 horas, entidades do Comitê de Combate à Megamineração no RS fizeram uma ação em frente a sede da Fepam, na avenida Borges de Medeiros 261. O grupo pressionou o órgão estadual para promover uma audiência pública do projeto Mina Guaíba (de mineração de carvão) na cidade de Porto Alegre. Além disso, também se manifestou contra a instalação de um polo carboquímico no Estado.

Além de informar a população que passava pelo centro de Porto Alegre conversando e usando caixas de som, os defensores do meio ambiente também coletaram assinaturas em um abaixo assinado. A organização do evento estima que centenas de pessoas tenham sido impactadas pela atividade ao passar pelo local, assim como os funcionários da Fepam que saiam em horário de almoço.

Diversos especialistas alertaram para os riscos socioambientais deste projeto que busca implementar a maior mina de carvão da América Latina a menos de vinte quilômetros da capital. Membros das comunidades impactadas também se manifestaram em defesa da agricultura orgânica praticada no local disputado pela mineradora.

Segue abaixo a cobertura ao vivo feita pela comunicação do Comitê de Combate à Megamineração no RS.