Guará não é pássaro, mas semeia como se fosse um

Ontem, um amigo passarinho voou pro céu. Toda a minha admiração pelo que semeou por aqui! Tive o privilégio dele me apresentar uns pedaços da Mata Atlântica e seu povo, em Minas Gerais, e depois escrever esta matéria sobre ele para a revista da Rede Juçara. Daquelas pessoas lindas, que quase não cabem em si mesmas de tanta energia e amor pela vida, e que nos deixam meio embriagados só de estar por perto. Não tive tempo de repassar a ele as fotos e vídeos que prometi, mas que vão circular por aí, compartilhando um pouco da sabedoria deste irmão que segue agora irradiando sua luz em outras bandas. Gratidão, Guará!   Guará não é pássaro, mas semeia como se fosse um Guará, de Guaraciaba (MG). Mas podia ser de lobo guará, animal raro e extinção, ou um pássaro guará, espalhando sementes de juçara nos quintais e nas matas. Ele as espalha. Seu bico está na ponta dos dedos, de onde jorram mudas. Ele, que já teve o apelido de professor pardal, que recolhe o que não serve para os outros quando enxerga uma função nova para um relé ou uma tábua numa parede, na sala ou na bancada onde dá vida e sobrevida para o que recicla. Diminuir a pressão sobre a natureza, sempre. Comprou um pedacinho de terra em Fervedouro, junto a Serra dos Arrepiados. “Só as duas palmeiras juçara da floresta primária já valeram o preço”, ele fala sério sorrindo. E não tem coragem de subir nelas para não estragar as bromélias. “Deixa o jacu subir”. “Tem que passar juçara na boca de quem está nascendo”, ensina um pai que soube passar ao filho o ofício de sorveteiro, depois de receber a profissão também do próprio pai, avô de Messias. Ele, que também apresentou asas de passarinho para a filha Isadora voar na floresta, e lhe deu raízes para respeitar o ventre da terra, de onde nascem os frutos. “O homem é só mais um”, ele tem certeza, diante da natureza, pensando nos animais e nas plantas. Por que você faz esse trabalho? “Pela fauna. A gente vê os pássaros com fome comendo folha de mamoeiro porque não tem fruto”. Na rodoviária de Viçosa, ele veio entregar mudas de yacom para as comunidades tradicionais e os quilombos de Ubatuba. Chama o IEF – Instituto Estadual das Florestas de IEE – Instituto Estadual do Eucalipto, magoado por quem inventou que esta árvore deve predominar na distribuição de mudas em Minas. É lá que ele deixa as sementes da despolpa para tomar corpo, que depois vai buscar na fiorino da década de 80, da sorveteria Creola, esparramar por aí a palmeira nativa que aprendeu a amar. Para o seu Valdo Pimenta foi uma caixa com 54 pés, que ele vai plantar lá em cima no morro. Se o agricultor ainda nem pegou o gosto, Guará já vai vislumbrando pra ele a escala comercial da polpa. Garante a colheita, subindo em cada pé para buscar a essência dos sorvetes de juçara, juçara com banana e juçara com amora. Todos saboreados com prazer pela população do interior mineiro, uai. E defende que sorvete não é apenas sobremesa, mas alimento. A impressão é que por tudo onde se anda, todo mundo conhece Antônio Carlos Queiroz Cabral, mas não pelo nome oficial. Disfarçado de Guará, até a casa de Seu Dico paramos na estrada muitas vezes para uma prosa. O agricultor humilde, que chegou na região de Araponga só ele e a esposa com a bagagem de roupa e a vontade de trabalhar, hoje produz o segundo melhor café do Brasil, próximo ao Pico do Boné. Vive dos 300 mil pés de café, mas tem paixão pelos 1.500 pés de juçara, que distribuiu para os 10 filhos porque acha bonito. É como uma herança em beleza e tradição. O palmito vai para a mesa no Natal e na Sexta-feira Santa, na mesa dele e de todos que ainda guardam a cultura que receberam. No resto do tempo bebe o suco, que aprendeu a fazer de forma artesanal. Dico, um senhor que já vai lá pelos seus 70 anos é admirador de “Toninho”, “atravessador” do fruto da juçara dos seus quintais em Estouro, para os freezers de sorvete em Viçosa.   Depoimento de Guará sobre sua relação com a Palmeira Juçara: A minha relação com a juçara foi a partir de um garimpeiro, que na margem da minha cidade estava lá num garimpo. Na divisa da casa da minha tia, me ensinou a processar o fruto, há uns 20 anos. Eu passei para o Chico, que trabalhava num parque estadual. Numa visita de professores e alunos da Universidade Federal de Viçosa, o Chico preparou o suco para a turma. Aí, o pessoal levou para o laboratório e já rendeu um doutorado e dois mestrados. No início, foi muito difícil porque ninguém acreditava. Minha esposa mesmo dizia: “já vai catar ‘coquinho’ de novo?”. Hoje, ela sabe a importância que tem. Estamos aí distribuindo mudinhas, difundindo, doando sementes, do jeito que a gente pode fazer. Eu desconheço um outro alimento, não precisa de dois não, apenas um, que contenha o valor nutricional da juçara. Não tem. Nem na carne e nem em lugar algum você vai achar um quilo que tenha a quantidade de vitaminas e minerais de uma polpa. Na fase da alimentação escolar é fundamental. Zinco é para crescimento. Tem cobalto, manganês, cobre, tudo. Acho que tem que unir cada vez mais as entidades e fazer trabalho de base com as crianças. Ensinar a dar mudinha, desde cedo. Promover a cultura de consumo, que nesta região foi introduzida graças ao açaí lá de cima. Mas de inserir o próprio juçara. E ensinar para o produtor que é saúde. As vezes não é vendendo o fruto que ele vai ter lucro, é consumindo. Aí, não vai gastar dinheiro em farmácia e vai ter disposição o dia inteiro para trabalhar.  

Facebook: cartografia múltipla para o dia das mulheres

Por Eliana Mara Chiossi. Trindade O caldeirão reluzia. Há tempos sem utilidade. O exílio forçado de tantas irmãs e amigas. Acima do fogão, uma sequência de vidros inclassificáveis. Era preciso sentir o aroma para traduzir seus poderes. Não sei explicar o início de tudo, daquele final de tarde anunciando a tragédia. Águas reservadas por sete dias, na recolha sistemática de orvalho e asas perdidas de libélulas. A ação planejada dos ventos e a influência exata dos movimentos da lua. O choro das mulheres violentadas furava nossos ouvidos. Nossos lábios estavam selados. O caldeirão continha água e fervura insistente. Lá fora, no quintal repleto de árvores nervosas, muitos homens aguardavam. Nada prendia seus corpos. E ainda assim, não se movimentavam. A substância do medo dava contorno ao ar. No centro do pátio, ainda em transe, ela dizia palavras antigas. Deu a ordem tão esperada. Os trabalhos foram iniciados. Sobre a cabeça de cada um deles, água fervendo e rezas seculares.

Sessão Bodoqe de Cinema XVII

Nesta terça, 18 de março, tem o reinício das sessões de cinema do Coletivo Catarse e Comitê Latino-Americano com um documentário de Oliver Stone, Ao Sul da Fronteira. Um filme de um diretor estadunidense consagrado (Platoon é uma obra sua) que traz o seu olhar sobre as modificações políticas ocorridas em países da América do Sul na última década.

Oficina de Quadrinhos e Cartum

Ponto de Cultura Ventre Livre promove Oficina de Quadrinhos e Cartum com Santiago e Rafael Correa. Será no dia 17 de março das 13:30h às 16:30h, no Chalé da Cultura – serviço de saúde comunitária do GHC, que fica no pátio interno do Hospital Conceição, rua Francisco Trein, 576, Porto Alegre. Informações pelo telefone 3357-2288. Inscrições pelo e-mail [email protected]. A oficina é gratuita e as vagas limitadas, corre lá!

Ação que pede proibição de milho transgênico da Bayer será julgada

Do Terra de Direitos. Encontrar alimentos derivados de milho que não contenham transgênicos é uma raridade. Embalagens de farinhas, biscoitos, óleos entre outras vêm marcadas pelo triângulo amarelo com o “T” de transgênico, rotulagem que significa uma conquista de organizações sociais e movimentos populares para obrigar empresas alimentícias a informar o consumidor sobre a origem do alimento.

Como você toma chimarrão?

O Projeto Carijo está em fase final. Terminaremos neste mês de março e lançaremos filme, cartilha e livro sobre a produção artesanal de erva-mate e tudo o que envolve este conhecimento ancestral. Mas para fechar o filme, achamos que seria interessante termos um mosaico de como as pessoas tomam o seu chimarrão, portanto, estamos abrindo um canal para receber fotos deste momento tão presente no dia a dia dos gaúchos e daqueles que adotam o chimas como um costume. Faça uma foto sua preparando, tomando um mate bem gostoso ou envie uma imagem interessante da sua cuia sendo utilizada, elas serão colocadas nos créditos finais do filme, que será distribuído em DVD, pela internet e veiculado em canais de televisão. Envie para o e-mail [email protected]! E passa o mate, vivente!