Arquivo da tag: Política

Nota Pública das Alternativas de Mídia de Porto Alegre sobre o segundo turno eleitoral

Vivemos um momento muito grave: uma candidatura à Presidência da República defende abertamente o autoritarismo, a violência política e a retirada de direitos dos trabalhadores. Defende, também, restrições à liberdade de expressão e de atividade política. O mundo todo olha para o Brasil com preocupação, e pessoas dos mais diversos matizes políticos rejeitam a candidatura de Jair Bolsonaro por enxergarem ali uma perigosa ameaça à democracia – que, mesmo defeituosa e limitada, nos garante o direito a buscar seu aprofundamento.

Considerando essa realidade, 16 mídias alternativas de Porto Alegre nos reunimos para a construção de ações conjuntas de defesa da democracia e de combate à desinformação proposital que tem servido como estratégia de campanha dessa candidatura. Essa preocupação não significa apoio acrítico à candidatura de Fernando Haddad, mas o entendimento, que tem sido generalizado entre os democratas do Brasil e do mundo, de que não se pode compactuar com o retrocesso que representa a candidatura de Bolsonaro.

Entendemos que a oposição à candidatura de Bolsonaro é um dever de toda a mídia, na medida em que Art. 6º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros estabelece que todo jornalista deve “Opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos”, além de “combater a prática de perseguição ou discriminação por motivos sociais, econômicos, políticos, religiosos, de gênero, raciais, de orientação sexual, condição física ou mental, ou de qualquer outra natureza”.

Conclamamos, assim, as mídias alternativas de todo o Brasil a fazerem o mesmo movimento, de maneira urgente e também visando o futuro: unir-se em ações em defesa da democracia e da liberdade que garantem nossa existência e o direito do conjunto da população a lutar por seus direitos.

Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação (Alice)
Amigos da Terra Brasil
Anú – Laboratório de Jornalismo Social
Boca de Rua
Brasil de Fato RS
Coletivo Catarse
Comunicação Kuery
Esquerda Online
Jornal JÁ
Jornalismo B
Manifesto POA
Mídia Ninja
Nonada – Jornalismo Travessia
Rádio Comunitária A Voz do Morro
Sul 21
TV Nação Preta

Santo Oscar Romero, o martírio da fé pela opressão politiqueira

Por Jacques Alfonsin (originalmente publicado aqui).

A relação entre fé e política se encontra em causa atualmente, no Brasil, pela intensa campanha que os partidos e as/os seguidoras/es dos candidatos vitoriosos no primeiro turno das eleições estão fazendo junto a autoridades religiosas na disputa de votos.

Por uma coincidência notável, o Papa Francisco reconheceu como santos, no domingo passado, entre outras pessoas, Paulo VI e Dom Oscar Romero, arcebispo em El Salvador, assassinado pelo aparato militar de extrema direita liderado por Robert d´Aubuissom, ex major do exército salvadorenho, no dia 24 de março de 1980, quando celebrava missa.

Dom Oscar era um ferrenho opositor do regime de governo então imposto ao país, no qual o violento abuso da polícia política oficial não hesitava em torturar e matar quem ousasse contrariar suas ordens. Padres, religiosas/os e integrantes das comunidades de base, por sua dedicação pastoral, presença militante junto a movimentos populares e vítimas da repressão oficial, em pública afinidade com o arcebispo, eram alvo frequente dos desmandos do esquadrão da morte, organizado para combater qualquer sinal de rebeldia.

Um tempo histórico muito semelhante ao que viveu o Brasil durante a ditadura imposta ao país em 1964 e hoje celebrada pelo candidato Bolsonaro, à presidência da República, no segundo turno das nossas eleições.

Conhecido internacionalmente, justamente por sua coragem e aguerrida defesa dos direitos do povo pobre de El Salvador – à semelhança do que aqui fizeram Dom Paulo Evaristo Arns, Helder Câmara, Pedro Casaldaliga e Tomaz Balduino, entre outros, em defesa das vítimas da ditadura – a morte do agora reconhecido como santo fez surgir uma onda de indignação interna e externa sobre aquele país. Havia uma rumorosa exigência de apuração legal e julgamento dos responsáveis pelo assassinato. O governo de El Salvador permaneceu surdo a toda essa pressão, inclusive aumentando o seu sistema de repressão contra seus opositores e opositoras.

Como Santo Oscar, no meio intelectual, contara com um forte apoio de Ignacio Ellacuria, um jesuíta que chegou a ser reitor da UCA (Universidade Centro Americana), esse também foi morto juntamente com mais quatro padres uma doméstica e sua sobrinha, em 1989. Nem a movimentação e a pressão externa da ONU conseguiu serem apuradas as responsabilidades pelo assassinato de Dom Oscar Romero e punidos os responsáveis pelas chacinas. Guardadas as diferenças, o mesmo aconteceu recentemente aqui no Brasil, quando o Comitê de Direitos Humanos daquela Organização pretendeu garantir ao ex-presidente Lula habilitar-se à condição de candidato às eleições deste ano.

Restou como lembrança desse assassinato o fato de a mesma ONU, em 17 de junho de 2010, consagrar a data da sua morte (24 de março) como o “Dia Internacional do Direito à Verdade sobre as Violações dos Direitos Humanos e da Dignidade das Vítimas.”

Vale a pena conhecer-se o que este santo homem disse dois meses antes do seu assassinato-martírio, na Universidade de Lovaina, até para se poder formar juízo do que uma ditadura, mesmo fantasiada de democracia – num país como o nosso, onde o ódio, as fake News, os preconceitos ideológicos de toda ordem estão crescendo de forma avassaladora, alimentados por intrigas, fofocas, injúrias e calúnias – pode produzir de modo irreversível:

“A estação de radio arquidiocesana e as instituições educacionais católicas ou de inspiração cristã foram atacadas, ameaçadas, intimidadas, até bombardeadas. Diversas comunidades paroquiais foram fechadas. Se tudo isso aconteceu com pessoas que são os representantes mais evidentes da Igreja, bem podeis imaginar o que ocorreu com os cristãos comuns, os camponeses, os catequistas, os ministros leigos e as comunidades eclesiais de base. Houve centenas e milhares de ameaças, prisões, torturas, assassínios. Como sempre, mesmo na perseguição, entre os cristãos foram os pobres os que mais sofreram. É, pois, um fato indiscutível que, nos últimos três anos, nossa Igreja tem sido perseguida. Mas é importante observar porque ela tem sido perseguida. Nem todos os padres foram perseguidos, nem todas as instituições foram atacadas. Foi atacada e perseguida a parte da Igreja que se colocou ao lado do povo e que se dispôs a defender o povo.” (In “A dimensão política da fé dentro da perspectiva de opção pelos pobres”. Vários autores. São Paulo: Paulinas, 1987, p. 267 e seguintes).

Nem todas/os as/os brasileiras/os consideram advertências graves como essas se justificarem agora, mesmo diante do passado e da repetida agressividade manifestada no discurso do candidato Bolsonaro. Não pensa assim grande parte do laicato cristão do Brasil. Já no mesmo domingo da canonização de Dom Oscar Romero, a Caritas, a Comissão de Justiça e Paz da CNBB e o Conselho Indigenista Missionário, entre outras organizações desta parte do povo lançou um manifesto assinado por seus representantes, cujo teor já se encontra disponível em vários sites da internet, intitulado “Democracia: Mudança com Justiça e Paz”. Ali, entre outros avisos, pode-se ler o seguinte, com base no preâmbulo da nossa Constituição:

“No processo eleitoral em curso, um movimento antidemocrático fere estes valores supremos assegurados pela Constituição e apela ao ódio e à violência, colocando o povo contra o povo. Demoniza seus opositores, classifica-os de comunistas e bolivarianos, menospreza a população do nordeste brasileiro e tenta semear o ódio e o medo. Esta atitude já se concretiza por meio de agressões e assassinato contra os que manifestam posições divergentes. A Constituição sai ferida com esta intolerância que nega a diversidade do povo brasileiro, estimula preconceitos e incentiva o conflito social. Estes candidatos e seus seguidores, que pregam a tortura e a pena de morte, sustentam que as mulheres podem ter menos direitos que os homens, usam de violência contra a população LGBT, discriminam negros, índios e quilombolas com insultos, racismo e xenofobia. Em resumo, atacam a democracia pelo desprezo dos seus valores republicanos.”

“O candidato deste movimento quer se valer de eleições democráticas em sentido contrário para dar legalidade e legitimidade a um governo que pretende militarizar as instituições, garantir impunidade aos abusos policiais, armar a população civil e reduzir ou cortar programas de direitos humanos e sociais. Em poucas palavras, é o abandono do Estado Democrático de Direito. O Brasil é um país de desigualdades sociais profundas em que os ricos estão cada vez mais ricos à custa dos pobres cada vez mais pobres. Estes candidatos antidemocráticos atendem às imposições do sistema financeiro e da política neoliberal que atacam direitos sociais, ambientais e o patrimônio do país. As possíveis consequências deste programa são: o fim do décimo terceiro salário, a diminuição do Bolsa Família, a extinção das cotas nas universidades e a privatização sumária das estatais. Na verdade, tais medidas constituem a intensificação do Governo Temer, que está produzindo desemprego, sofrimento e abandono da população.

“Tais políticas, já receberam veemente condenação do reconhecido líder mundial, o Papa Francisco: “Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata.” (Evangelii Gaudium, 53).

“Este movimento apoia um candidato que pretende ser um político novo, salvador da pátria, que está no Congresso há quase trinta anos, trocou de partido oito vezes e não aprovou um projeto sequer para melhorar as condições de vida do nosso povo, votando contra todas as políticas sociais que beneficiariam os trabalhadores e trabalhadoras, principalmente, os mais pobres. Por tudo isso, nós, integrantes de organizações da sociedade civil, portadores da convicção da inafastável dignidade da pessoa humana, fundamento dos direitos humanos, não podemos nos omitir. Respeitamos todos aqueles que, por motivos variados, tenham votado no 1º turno sem atentar para estes valores, mas queremos dialogar francamente com todos. A possibilidade de se instalar um governo como esse movimento deseja, retoma o passado de ditadura já superado. Nosso Brasil pode ter divergências, porém sem ódio. Há necessidade do crescimento da economia com diminuição da desigualdade. Com base nestes valores, temos o dever fraterno de alertar a todos os nossos concidadãos e concidadãs, para que sua escolha no 2º turno contemple os princípios aqui defendidos e o candidato que os representa, integrante de uma ampla frente democrática pluripartidária, para assegurar um futuro de Justiça e de Paz para o Brasil. Brasília, 15 de Outubro de 2018.”

Aviso dado, parece conveniente pensar-se em recebê-lo, antes que o pior aconteça.

Um zap para a tia…

Bom dia, tia! Tudo bem?

Gostaria de entender o porquê a senhora ou vocês aí gostam do Bolsonaro, ou por que acham que ele é o melhor. A senhora acredita mesmo nesses vídeos que só atacam o PT e pessoas diferentes e que nunca mostram um plano de governo?

O simples discurso dele já está fazendo pessoas matarem, colocarem fogo e muito ódio despejado em nome dele… A senhora já pensou que isso pode aumentar?

Eu também não gosto do PT, na última eleição não votei. Mas é tanto ódio sem provas que não entendo.

Mas, nessa eleição, o Bolsonaro me ataca diretamente e ele é explícito contra os negros, gays, indígenas, movimentos sociais, questões de meio ambiente… Eu trabalho numa produtora cultural, trabalhamos e estamos em contato direto com a realidade dessas pessoas, produzimos filmes, eventos, projetos e, desde 2016, estamos vendo de perto todo o corte realizado pelo Temer, a extinção e fim de muitos projetos que vinham mudando a vida de muitas pessoas de bem.

Não estou falando de programas sociais do governo, mas, sim, de recursos destinados a pequenos agricultores, editais de cultura, educação, saúde…

Concordo que tem que mudar, mas a mudança não vai vir pelo nosso presidente, vai é vir de nós. Ele apenas vai ajudar a essa mudança acontecer, e não vejo Bolsonaro ajudando. Vejo que ele vai exterminar as minorias – no caso, eu, meu pai, mãe e diversas pessoas com quem eu convivo.

O plano de governo dele é difícil de se achar e tem cada coisa absurda, é tanta prova que ele nunca fez nada e só enriqueceu… E o discurso dele está incitando pessoas a cometerem barbaridades!

Envio também desculpas pelo texto longo, é que gosto muito de todos vocês. Mesmo pela distância e falta de contato, sempre lembro de todos com carinho, e estamos num momento bem delicado. Por isso gostaria de entender a sua posição… E seguir dialogando sobre essa questão, colocando contraponto…

Um beijão grande e ótima semana para todos! Saudades.