Quilombo Vila Nova reafirma sua soberania

Lideranças quilombolas lançaram seu Protocolo de Consulta Livre Prévia e Informada na Sala Redenção, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O documento, disponível nos formatos de vídeo e texto, busca fazer com que a vontade da comunidade seja respeitada em processos que possam afetar o território, garantindo o direito assegurado pela Convenção 169 da OIT, tratado internacional do qual o Brasil é signatário. O evento ocorreu na quarta-feira, 10 de setembro. A comunidade vem denunciando que seu direito à consulta, consentimento e mesmo de veto vem sendo sistemáticamente violado por 6 grandes empreendimentos. Entre as ameaças estão a mineração em larga escala de titânio por meio do Projeto Retiro – primeira fase do projeto Atlântico Sul, que visa minerar quase toda a área do município de São José do Norte – que recentemente recebeu a licença de instalação (LI). Além da mineração, os quilombolas do Litoral Médio (faixa que vai de Osório até a foz da Laguna dos Patos) também denunciam os megaparques eólicos que pretendem se instalar na região à revelia dos povos tradicionais. O complexo eólico Bojuru propõe 113 aerogeradores, segundo os estudos da empresa a menos de 10km da comunidade e já tem a Licenç Prévia (LP). Ainda mais ambicioso é o Complexo Eólico Ventos do Atlântico com 290 geradores. O megaprojeto também já tem a primeira das três licenças ambientais, mesmo que muitos dos seus 15 mil hectares disputados estejam sobrepostos ao território do Quilombo Vila Nova. Projetos altamente polêmicos entre pesquisadores e ambientalistas também completam a lista de ameaças enfrentadas. Outros dois parques eólicos ameaçam as águas que cercam a comunidade, intencionando implantar complexos eólicos dentro do mar e da laguna dos patos. Por fim, a comunidade vem sofrendo com as monoculturas de pinus, que vem invadindo o território nas últimas décadas, reduzindo áreas de cultivo e criação de animais. Para enfrentar estas ameaças e garantir seu direito de decidir sobre ações que impactam seu território, os quilombolas elaboraram junto de apoiadores um Protocolo de Consulta Livre, Prévia e Informada. O documento, produzido com apoio de uma equipe de pesquisa em geografia e biologia a partir de quatro oficinas na comunidade, traz cada um dos passos que deve ser tomado caso se deseje realizar algo que possa impactar o quilombo. Reforçando que empresas e empreendedores não tem o direito de entrar no território, o texto produzido coletivamente enfatiza: Só aceitamos que a consulta seja realizada pelo estado brasileiro por meio dos órgãos específicos para tal, como o Instituto Nacional de Reforma Agrária (Incra) e a Fundação Cultural Palmares (FCP). Para garantir que os órgãos responsáveis tomassem ciência do documento, foram convidadas e estiveram presentes no evento representantes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Ministério Público Federal (MPF), Conselho Estadual de Direitos Humanos (CEDH-RS), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SJCDH/RS). Após a exibição do protocolo audiovisual, foi feita a entrega das primeiras edições do documento impresso para as autoridades presentes. O evento de lançamento, que teve 120 participantes, fez parte do Ciclo Cineciência “Raízes Vivas e Horizontes Ancestrais: a terra é o coração do Corpo” e foi a última exibição da série de encontros realizados na Sala Redenção Campus Centro da UFRGS. O Museu da universidade está sediando a exposição homônima, com fotos do Vila Nova e outras comunidades tradicionais como o Quilombo do Morro Alto em Osório e aldeias guarani e kaingang. O protocolo foi o primeiro documento audiovisual do gênero lançado no estado do Rio Grande do Sul. Entre as comunidades quilombolas, outras duas já tinham protocolos escritos, o Quilombo Morada da Paz (Triunfo) e o Quilombo do Morro Alto (Osório). O documento impresso terá ainda um lançamento na própria comunidade ao longo do Fórum dos Quilombos do Litoral Médio, importante espaço de articulação que reúne as 10 comunidades da região. As oficinas de elaboração do documento bem como a produção do vídeo foram realizadas com apoio do Fundo Casa Socioambiental. As ilustrações, diagramação, impressão e os eventos de lançamento da obra impressa estão sendo realizados com apoio do Fundo Brasil de Direitos humanos por meio do projeto Quilombo Vila Nova: Organização e Soberania na Defesa do Território contemplado na chamada Vozes por Direitos e Justiça pela associação da comunidade tendo o Coletivo Catarse como organização parceira. Texto: Bruno PedrottiFotos: Beto RodriguesMapa: Giulia Sichelero e Júlia Ilha – NEGA/UFRGS

Cultura Carijeira viva e acesa no RS

Na contramão da mecanização da indústria ervateira, grupos, comunidades e coletivos seguem construindo carijos. No último final de semana de agosto, chegou ao Coletivo Catarse informações e convites da realização de pelo menos 5 carijadas diferentes no estado. Calculam-se cerca de 75 pessoas reunidas simultaneamente em 5 municípios diferentes no sul, centro, litoral norte e serra do Rio Grande do Sul – que, juntas, produziram mais de 150 kg de erva-mate artesanal. Mas por que a ocorrência de tantos eventos deste tipo ao mesmo tempo? Compreende-se que o fator ambiental possa ter uma contribuição fundamental para o timing desse final de semana de agosto – afinal, este é o período do ano que marca o final da dormência em plantas como a Ilex, uma época ideal para a poda. Mas, também, entende-se como uma obviedade que tantas atividades acontecendo simultaneamente fazem parte de um movimento espontâneo que reforça o fato de que a cultura carijeira está viva e extremamente ativa no estado, com um grande número de grupos se relacionando preiodicamente com este modelo de produção artesanal tanto por meio de vivências abertas quanto pela produção para autoconsumo e comercialização. Para Moisés da Luz, a quantidade grande de coletivos e grupos se relacionando com o carijo não é por acaso, mas é fruto de um processo de cerca de vinte anos de formação de multiplicadores dessa cultura. O biólogo explica que isso se iniciou em 2005 com a organização de encontros abertos de carijadas a partir da vivência que tinha com seus pais e avós. “Fomos gerando pessoas multiplicadoras da prática e motivando outras a retomar o saber-fazer de seus ancestrais”, reflete. Esse processo de formação de multiplicadores passa não só por vivências práticas, mas também pela sistematização deste modelo artesanal por meio de trabalhos acadêmicos, como a dissertação de mestrado Carijos e barbaquás no Rio Grande do Sul: resistência camponesa e conservação ambiental no âmbito da fabricação artesanal de erva-mate, de autoria de Moisés e editado também como livro e base de pesquisa para o documentário “Carijo, o filme”. Entre outros materiais, vale citar também o site, a cartilha passo a passo e o audiodocumentário em podcast “Kaárijo”. Entre os resultados desta ação continuada, o biológo cita a patrimonialização da erva-mate, considerando o saber fazer tradicional guarani; a retomada e releitura da história da erva-mate e o reconhecimento de que a erva-mate e seu processo de feitio é de origem indígena (mbyá guarani, kaingang, etc.); o questionamento do conceito de gaúcho da maneira como é trazido pelo tradicionalismo; o aprendizado e autonomia quanto a processar a erva-mate; e o incentivo para as pessoas conhecerem e valorizarem o mundo da agroecologia, das agroflorestas e do viver no campo e a proteção às florestas nativas. Moisés percebe também uma difusão maior de carijos pelo estado, principalmente, nas “regiões mais florestadas, onde os ecossistemas nativos estão mais preservados e entre públicos identificados com a agroecologia, o bem viver, os povos indígenas, autonomia camponesa e de coletivos”. Esta percepção se reforça quando olhamos as carijadas realizadas no último final de semana, tendo como protagonistas grupos e espaços agroecológicos e comunidades indígenas. Em Nova Petrópolis, serra gaúcha, 6 pessoas produziram aproximadamente 20 kg de erva. Foi a primeira carijada organizada pelo Sítio Grūnes Paradies, e as plantas podadas no preparo foram cultivadas no próprio local. Duas das organizadoras haviam participado do primeiro Carijo Serrano Caconde (realizado em São Francisco de Paula em 2022). Já na região sul do estado, em São Lourenço do Sul, 20 pessoas produziram entre 50 e 60 kg. A atividade foi a segunda carijada realizada pelos sítios Enlaçador de Mundos e Espinilho neste ano. As plantas vieram de um erval nativo do Sr. Elmo Blank, antigo produtor de erva-mate da região. Foram manejadas 5 plantas indicadas pelo produtor, que não eram podadas há dez anos. No Vale do Rio Pardo, em Santa Cruz do Sul, a Ecovila Karaguatá organizou a sua segunda carijada. Novamente a erva veio do sítio Cepa Cipó, de Amadeu Krebs, rebrotada depois da primeira carijada no final de 2023. Foram produzidos 13 kg durante a vivência, pela qual circularam 15 pessoas. Em Maquiné, litoral norte do estado, mais ou menos 20 kg de erva-mate foram produzidos, contando também uma pequena produção de chá mate. Foi o primeiro feitio com mudas plantadas no Vale do Rio Ligeiro, reunindo 14 pessoas, em sua maioria vizinhos da região. A iniciativa veio de Kátia Zanini (mobilizadora do Centro de Vivências Vale do Ligeiro, que tem ervas plantadas, mas ainda pequenas) em parceria com Leandro Umman, que tem um plantio de 260 pés de erva-mate no espaço Alma-Viva. Os organizadores também já fizeram uma carijada em Minas Gerais. A família de Kátia Zanini, inclusive, também foi a responsável pela primeira carijada em que integrantes do Coletivo Catarse se fizeram presentes, em Sertão Santana, na primeira década dos anos 2000. Por último, mas não menos importante, a rede do carijo da Amizade realizou sua quarta(!) carijada de 2025. Com organização do Sítio da Amizade e parceiros junto à comunidade mbyá guarani da Tekoá Yvyty Porã (Serra Bonita), em Riozinho. Cerca de 20 pessoas trabalharam coletivamente no feitio de 50 kg, manejando o erval nativo da comunidade indígena. Os povos orginários, aliás, vêm tendo um forte protagonismo no feitio de erva-mate no Carijo no RS. Além da Yvyty Porã, a Tekoá Kaamirindy – também do povo mbyá guarani e localizada no município de Camaquã – produz carijadas regularmente para venda da erva-mate, gerando trabalho e renda para as famílias a partir desta planta de grande importância cultural e espiritual para os guarani. Recentemente, também a comunidade guarani da Tekoá Anhatenguá, na Lomba do Pinheiro em Porto Alegre, realizou sua primeira carijada com apoio do IECAM. E no norte do estado, em Erval Grande, a aldeia Ponkry Chaig (Pinheiro Preto), do povo Dofurêm Guaianá, também vem fazendo a produção de erva de carijo. A Seiva Rebelde, além de uma prática de resgate do Congon Guainá, também abastece o autoconsumo das famílias e a …

Juçaras, viveiros e agroflorestas

Depois de mais de uma década de semeadura, cooperados do Coletivo Catarse, kaingangs da Retomada Gah Ré e os parceiros da Cia Lumbra se uniram para o trabalho de coleta e distribuição de mudas de juçaras. A ação ocorreu na terça-feira (19/8). As 150 mudas transplantadas foram encaminhadas para dois viveiros comunitários e duas agroflorestas em formação, em uma rede que envolve a Aldeia Kaingang e dois Pontos de Cultura. As mudas haviam sido semeadas por integrantes do Catarse em um sítio em Triunfo (RS). Porém, como boa parte já estava germinada, as plantas cresceram muito próximas, com pouco espaço para se desenvolverem. Há dois anos, o coletivo e seus parceiros vêm realizando o trabalho de seleção de matrizes, que são deixadas na mata, e a coleta do excedente de mudas, que são distribuidas, doadas e plantadas. O mutirão desta terça foi o primeiro realizado contando com apoio de um projeto. A ação foi realizada dentro do projeto Reflorestamento, resiliência climática e restauração do modo de vida Kaingang em um território em retomada em Porto Alegre – RS, apoiado pelo Fundo Casa Sociambiental, por meio da Chamada Reconstruir RS de 2024. O projeto é fruto de uma parceria com a rede apoiadora da aldeia, a Teia dos Povos e o Coletivo Catarse. Justamente por isso, parte das mudas da palmeira Juçara – espécie-chave da Mata Atlântica – já foram destinadas para o viveiro da comunidade kaingang. Além das 35 mudas que já foram levadas para a aldeia, outras ainda se somarão ao reflorestamento que a comunidade está realizando no seu território com apoio do projeto, totalizando pelo menos 50 mudas. Outras 33 foram doadas para o Ponto de Cultura Vale do Aroverdo, que está implementando uma agrofloresta no seu território, em Morro Reuter (RS), e participou do mutirão de coleta das mudas. O restante das mudas está no viveiro do Coletivo Catarse, na agrofloresta da Comuna do Arvoredo, Centro Histórico de Porto Alegre, de onde devem ser distribuídas entre comunidades e territórios parceiros. Além das mudas de juçara, a Retomada Gah Ré recebeu 50 mudas do viveiro do assentamento Filhos de Sepé, do MST em Viamão (RS). Foram 20 mudas de chal-chal, 20 de aroeira vermelha, 10 de angico e 10 de Ingá. Outra doação importante recebida pela comunidade foi da Transpocred, instituição financeira cooperativa dos segmentos de transporte, logística e correios. A doação articulada pelo grupo de pesquisa da UFRGS, Preserve o Morro Santana, contemplou a aldeia com mudas de erva-mate, guabiroba, butiá, araçá, canela, e araucária, totalizando 600 mudas, das quais 300 já foram recebidas pela comunidade. Neste final da semana, iniciam os mutirões de plantio na aldeia. A princípio a ação está marcada para o sábado 23/08, mas pode ser remarcada a depender das condições do tempo. Para mais informações, fique atento às páginas da Retomada Gah Ré e do Coletivo Catarse no Instagram. Texto: Bruno PedrottiFotos: Bruno Pedrotti, Gustavo Türck e Têmis NicolaidisRevisão: Anahi Fros .

Primeiras trocas de uma transição ecológica entre assentados e quilombolas

Nos dias 25 de junho e 29 de julho foram realizados os primeiros intercâmbios entre assentados do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) que produzem arroz agroecológico e a Comunidade Quilombola Vila Nova em São José do Norte. Em junho os assentados visitaram a comunidade quilombola e, depois, agricultores quilombolas participaram do Seminário do Grupo Gestor do Arroz Agroecológico em Eldorado do Sul. O processo de intercâmbios faz parte do projeto “Fortalecimento da Agricultura Quilombola em São José do Norte/RS: Construindo Raízes para a Transição da Produção de Arroz Convencional para Arroz Agroecológico na Comunidade Vila Nova” – da associação quilombola com apoio do Coletivo Catarse, contemplado na Teia da Sociobiodiversidade, uma iniciativa do Fundo Casa Socioambiental em parceria com o Fundo Socioambiental CAIXA. A iniciativa propõe iniciar uma transição agroecológica no cultivo do arroz da comunidade quilombola de São José do Norte. Para isso, conta com o apoio de uma grande referência nesta cultura: a Cooperativa Dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (COOTAP). A rede que a cooperativa organiza rendeu ao MST o reconhecimento como maior produtor de arroz orgânico da América Latina com mais de 300 famílias envolvidas. Em 2025, foram 14 mil toneladas de arroz agroecológico colhidas. Com o apoio da COOTAP, o projeto prevê o resgate de uma tradição agroecológica que muitas famílias foram abandonando em São José do Norte, por conta do êxodo rural, do envelhecimento no campo, e da entrada massiva de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Uma das lideranças da comunidade, Flávio Machado conta que durante sua infância, lembra que os jovens da comunidade se reuniam para juntar fezes secas dos animais de criação para usar na adubação dos cultivos. “Era trabalhoso, mas a receita final era muito maior pra nós”, reflete. No final dos anos 1970, Flávio conta que a comunidade começou a acessar linhas de crédito, mas que para isso, era necessário aderir ao modelo da chamada “Revolução Verde” com fertilizantes químicos e agrotóxicos. O agricultor lembra os mais velhos já questionavam o modelo. Seu avô, João Francisco Xavier, dizia que eles estavam “virando malandros” e não iam mais querer trabalhar. Conforme o tempo passou, Flávio percebeu que, mesmo com maior retorno econômico em produção, o benefício não ficava com os agricultores, mas ia para a indústria de fertilizantes, agrotóxicos e para os bancos por meio dos financiamentos. Pior de tudo, a comunidade ainda ficava com os impactos a saúde humana e ambiental do pacote da mecanização agrícola, além do consequente êxodo rural. Assim, conclui: “Nós fomos convencidos a usar um sistema que só nos adoece, só nos prejudica cada vez mais”. A partir desta crítica, a comunidade vem buscando subsídios para resgatar as práticas agroecológicas do passado. Evidente que, num outro contexto, em que o agroecológico já possui bioinsumos, técnicos capacitados e tecnologias próprias, muitas delas desenvolvidas pelos próprios agricultores e agricultoras. Para isso, a principal ferramenta utilizada é o intercâmbio de saberes com agricultores que já acumulam anos de prática com esta cultura, para isso o diálogo com a COOTAP. No primeiro momento, os assentados Antônio e Dionéia foram até o Quilombo e conheceram algumas das propriedades que produzem arroz. Depois, foi a vez dos quilombolas se deslocarem até a região Metropolitana de Porto Alegre. Ao longo do Seminário do Grupo Gestor do Arroz Agroecológico em Eldorado do Sul, tiveram a chance de observar o diálogo para planejamento da próxima safra, no qual o grupo gestor apresentou as variedades de sementes historicamente cultivadas pelo movimento e os benefícios de cada uma (resistência a pragas, quantidade de água exigida, época ideal de plantio, entre outros fatores). O encontro teve ainda uma conjuntura política e uma previsão climatológica para o perído do plantio com apresentação de Flavio Varone. O metereologista apresentou o Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos (Simagro-RS), plataforma ligada ao governo estadual que oferece monitoramento climático voltado à atividades agropecuárias de maneira aberta e gratuita. Também foram discutidos seguros para o cultivo, certificação e mesmo bioinsumos e maquinas da China. Certamente, a dimensão do cultivo do arroz no quilombo é muito menor do que a grande rede que o MST organiza. Mesmo assim, a comunidade e seus apoiadores entendem que o compartilhamento de experiências e fazeres e o melhor método para encontrar um modelo de cultivo agroecológico para a comunidade, de maneira a integrar os saberes tradicionais com algumas inovações tecnológicas. O caminho ainda é longo, mas as primeiras sementes da transição agroecológica foram plantadas. Texto: Bruno PedrottiFotos: Érico Carvalho e Giulia SicheleroEdição: Anahi Fros

Saberes das ervas medicinais na Retomada Gah Ré

Na manhã ensolarada do último sábado, dia 26, Dia dos Avós, a Retomada Gah Ré realizou o Encontro de Ervas Medicinais. A comunidade, no Morro Santana, zona leste de Porto Alegre/RS, abriu suas portas para compartilhar com os fóg (não indígenas) um pouco dos saberes da medicina tradicional Kaingang. Depois de uma defumação com refej (erva nativa conhecida como macela, ou marcela, em português) para limpar as energias do ambiente, a cacica, avó e Kuja (curandeira/pajé) Iracema Gãh Té deu as boas vindas aos 30 participantes e explicou como seria a dinâmica do encontro. Kapri, filha da liderança, contextualizou a atividade, realizada em meio a um processo de reflorestamento na aldeia e valorização dos saberes originários de relação com a natureza. “Todo esse trabalho que a gente faz, é tudo pela mãe terra, que nos fortalece. Nós somos ligados a mãe terra”, concluiu Kapri. Depois da abertura e apresentação, os participantes foram divididos em dois grupos, um para buscar lenha na mata e outro para higienizar os ingredientes que seriam utilizados. Numa aula prática, Gãh Té ensinou o preparo de um xarope de sete plantas: bananinha-do-mato, cipó mil homens, erva cidreira, capim cidró, guaco, macela e espinheira santa. Ao final, o preparado foi coado e ainda misturado com mel. A Kuja explicou que o xarope é ideal para gripes e resfriados, principalmente aqueles que atacam o sistema respiratório, com tosse e catarro, ajudando também em casos de asma, bronquite, sinusite e rinite. A atividade fez parte do projeto Reflorestamento, resiliência climática e restauração do modo de vida Kaingangem um território em retomada em Porto Alegre – RS, apoiado pelo Fundo Casa Sociambiental por meio da Chamada Reconstruir RS de 2024. O projeto – fruto de uma parceria com a rede apoaidora da aldeia, a Teia dos Povos e o Coletivo Catarse, como organização parceira – vem fazendo o manejo de espécie invasora no território da comunidade, construindo um viveiro e reflorestando o local com espécies nativas. Em breve, mais atualizações. Texto: Bruno PedrottiImagens: Bruno Pedrotti e Luis Gustavo RuwerRevisão: Anahi Fros

Plantando e espraiando juçaras

Numa dessas andanças pela cidade de Porto Alegre, encontramos o Seu Ramão. Amante de uma boa prosa e dos bichos, ele nos contou de seu refúgio na natureza, onde cuida de um cavalo, algumas galinhas e pavões, um pequeno sítio em Glorinha. Se interessou pela história do Coletivo Catarse com a Palmeira Juçara (Euterpe edulis) e levou para o sítio dois pés dessa espécie fundamental para o ecossistema da Mata Atlântica. Vale dizer que o Coletivo Catarse acompanha há quase 15 anos a luta contra a extinção desta planta nativa tão apreciada por pessoas e animais da floresta. Nesse intervalo de tempo, já foram produzidos mais de 50 vídeos sobre a juçara, desde reportagens curtas até o documentário seriado “O ser Juçara”. Integrantes do Coletivo já atravessaram grande parte do território da Mata Atlântica, do Rio Grande do Sul até Rio de Janeiro e Minas Gerais, conhecendo e registrando as histórias dos povos que se relacionam com a palmeira. Mais do que apenas comunicar, nos tornamos um elo nesta rede, espalhando também sementes e mudas da juçara. Tudo começou quando, acompanhando a produção de polpa dos frutos da juçara no Litoral Norte gaúcho, recebemos dos produtores alguns sacos com sementes recém despolpadas. Ao longo de um dos planejamentos estratégicos do Coletivo, há oito anos, no sítio da família de uma das colegas, as mudas foram semeadas em meio a uma nesga de mata nativa remanescente em meio a lavouras de monocultivo. Na primavera de 2023, então, voltamos ao local e percebemos que as plantas haviam atingido um estágio de crescimento avançado e se encontravam muito próximas, necessitando de mais espaço para crescer de maneira saudável. Começou, então, um trabalho em várias etapas, retirando-se o excesso de mudas e distribuindo-as entre os parceiros – e verificando que aquelas mudas que foram deixadas na mata agora com espaço passaram a se desenvolver melhor em relação às que estavam no juçaral adensado. Ao longo dos dois últimos anos, foram entregues mudas para a FAUPOA, Retomada Gah Ré, Ponto de Cultura Vale do Arvoredo e tantos outros que fica até dificil recordar de todos. Sem falar no Seu Ramão, que, além de nos cativar com sua prosa boa, também nos inspirou a atualizar este histórico. A gente espera, em breve, ver os bichos e as plantas bem criados, Seu Ramão! Obrigado pela camaradagem! *Nas fotos, Ramão em frente à @comunadoarvoredo e seus pavões, em Glorinha. Também nossas mudas plantadas no Centro Histórico, na Zona Norte e Morro Santana, além do nosso viveiro de juçaras, nos fundos da sede.

SAMBAÊA no Ventre Livre

No sábado 12 de julho, o Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre recebeu na garajona da Comuna do Arvoredo a vivência de Samba de Roda SAMBAÊA, com Treinela Jane Oliveira e Treinel Maskote, respectivamente das escolas Associação de Capoeira Angola Navio Negreiro (ACANNE) e Africanamente Escola de Capoeira Angola. A vivência foi aberta e gratuita, recebendo 20 pessoas. Maskote e Jane explicaram que o Samba de Roda é uma manifestação cultural do Recôncavo Baiano, que tem uma forte ligação com a Capoeira e com o Samba de Caboclo feito nos Candomblés da Bahia. Apesar de partilhar esta raiz Bantu – grande grupo linguístico e cultural que reúne mais de 400 povos africanos nas regiões de Congo, Angola, Gabão, Zâmbia, Namíbia, Zimbábue – o samba de roda é diferente dos outros sambas de maior presença no Rio Grande do Sul. O ritmo afrobaiano usa principalmente instumentos de percussão, como atabaques e pandeiros. As palmas e as canções de pergunta e resposta completam a manifestação cultural, que também costuma ser dançado por duas pessoas no centro da roda, balançando os quadris e sem tirar os pés do chão – parecido com a forma de “amassar o barro” no feitio de casas de pau a pique – diferente do Samba Carioca, por exemplo. Jane contou que uma das primeiras referências que teve nesta cultura foi sua avó, que fazia parte do Candomblé. Falou também de importância de Mestre Renê Bittencourt da ACANNE. Maskote por sua vez lembrou do Mestre Renato Beabá, da Malta dos Guris e Gurias de Rua, como uma importância referência do samba de roda em Porto Alegre, que inclusive fazia sambas de roda e rodas de capoeira na Comuna do Arvoredo no final dos anos dois mil. Por ser uma manifestação nova para alguns, o foco da vivência foi apresentar os fundamentos básicos, a começar pelas palmas. Maskote reforçou sua importância no samba de roda, explicando que, quando batidas fora do tempo, podem atrapalhar os demais instrumentos. Na sequência, Jane compartilhou dinâmicas para soltar os corpos e dar os primeiros passos do samba. Em roda, os oficineiros explicaram alguns fundamentos de entrada e saída, reforçando sempre a reverência aos atabaques e a relação entre os seus toques o que é dançado. Por fim, encerraram com o ritual do samba de roda. Os atabaques e pandeiros ecoaram na garajona da Comuna do Arvoredo e colocaram os corpos em movimento. As palmas marcaram o compasso e as cantigas repetiram aquilo que antes fora cantado pelos mais velhos e os ancestrais. O frio e umidade deram lugar momentaneamente ao calor humano e alegria típicos da cultura popular afro nordestina, deixando no final aquele gostinho de quero mais. Felizmente, para quem participou ou ficou com vontade de chegar nas próximas, haverá muito mais, já que o projeto “SAMBAÊA – Fortalecendo a cultura afro baiana em POA” foi contemplado no Edital da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento a Cultura PNAB POA e estará desenvolvendo diversas atividades ao longo do ano. Para saber das próximas vivências e encontros de samba de roda, acompanhe as páginas do Africanamente Treinel Maskote e Treinela Jane e da Treinela Jane e Treinel Maskote.

Fortalecendo o olhar da Fuá

No final de março, a jovem Marciely Salvador, de nome kaingang Fuá (erva nativa usada para fins medicinais e alimentícios pelo seu povo), recebeu uma importante ferramenta para potencializar o trabalho no audiovisual: uma câmera Canon T100 adquirida com apoio do Coletivo Catarse e financimento da ONG Witness.

“O Despertar do Sol” convida a respeitar a natureza e os povos indígenas

Lançado no dia 07 de junho, o curta revela um olhar sobre a cosmopercepção Mbya Guarani, registrando um pouco do modo de ser e viver na Tekoá Tavaí (Canelinha-SC). Os indígenas compartilham ao longo da obra um pouco da sua cultura, da maneira de se organizar e da sua relação de convivência harmoniosa com a natureza.

Coletivo Catarse na 10ª edição da Festa da Biodiversidade

Ao longo da segunda quinzena de maio, ocorreu a 10ª décima edição da Festa da Biodiversidade. Neste ano, o encontro somou uma série de atividades descentralizadas, além da tradicional festa do Dia Internacional da Biodiversidade, celebrado durante todo o dia 22 de maio, no Largo Glênio Peres, em frente ao Mercado Público de Porto Alegre. O evento reuniu coletivos, organizações socioambientais, comunidades tradicionais, artistas e a população em geral em uma celebração da diversidade biológica e cultural. E o Coletivo Catarse esteve junto mais uma vez no apoio a esse grande festejo público, sendo responsável pela rádio poste, além da estrutura de som e técnica das atividades.