Ventre Livre e Vale do Arvoredo: Pontos de Cultura em rede

Além de fazerem parte de uma rede estabelecida e consolidada já há um bom tempo – a Rede RS dos Pontos de Cultura -, esses dois Pontos já estabeleceram diversas relações que os colocam em ações próprias e coletivas, ligando elos de atuações culturais, ambientais e políticas. Dia 4 de agosto deste ano, uma segunda-feira, foi realizado encontro online, com apresentação do que é e, principalmente, os efeitos da Política Cultura Viva na prática. Uma promoção do Ponto de Cultura Vale Arvoredo, da região de Morro Reuter, para levar ao conhecimento de suas relações e região de atuação uma política pública que vem transformando a cultura de matriz comunitária de norte a sul do Brasil já há mais de 20 anos. Foi uma atividade exatamente de articulação de pessoas e projetos que ativam essas políticas, com a finalidade de dar apoio e sustentabilidade a iniciativas como as dos pontos de cultura. Aqui abaixo é possível asssistir à íntegra da reunião: Referenciais usados na apresentação (clique para acessar):

Primeiras trocas de uma transição ecológica entre assentados e quilombolas

Nos dias 25 de junho e 29 de julho foram realizados os primeiros intercâmbios entre assentados do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) que produzem arroz agroecológico e a Comunidade Quilombola Vila Nova em São José do Norte. Em junho os assentados visitaram a comunidade quilombola e, depois, agricultores quilombolas participaram do Seminário do Grupo Gestor do Arroz Agroecológico em Eldorado do Sul. O processo de intercâmbios faz parte do projeto “Fortalecimento da Agricultura Quilombola em São José do Norte/RS: Construindo Raízes para a Transição da Produção de Arroz Convencional para Arroz Agroecológico na Comunidade Vila Nova” – da associação quilombola com apoio do Coletivo Catarse, contemplado na Teia da Sociobiodiversidade, uma iniciativa do Fundo Casa Socioambiental em parceria com o Fundo Socioambiental CAIXA. A iniciativa propõe iniciar uma transição agroecológica no cultivo do arroz da comunidade quilombola de São José do Norte. Para isso, conta com o apoio de uma grande referência nesta cultura: a Cooperativa Dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (COOTAP). A rede que a cooperativa organiza rendeu ao MST o reconhecimento como maior produtor de arroz orgânico da América Latina com mais de 300 famílias envolvidas. Em 2025, foram 14 mil toneladas de arroz agroecológico colhidas. Com o apoio da COOTAP, o projeto prevê o resgate de uma tradição agroecológica que muitas famílias foram abandonando em São José do Norte, por conta do êxodo rural, do envelhecimento no campo, e da entrada massiva de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Uma das lideranças da comunidade, Flávio Machado conta que durante sua infância, lembra que os jovens da comunidade se reuniam para juntar fezes secas dos animais de criação para usar na adubação dos cultivos. “Era trabalhoso, mas a receita final era muito maior pra nós”, reflete. No final dos anos 1970, Flávio conta que a comunidade começou a acessar linhas de crédito, mas que para isso, era necessário aderir ao modelo da chamada “Revolução Verde” com fertilizantes químicos e agrotóxicos. O agricultor lembra os mais velhos já questionavam o modelo. Seu avô, João Francisco Xavier, dizia que eles estavam “virando malandros” e não iam mais querer trabalhar. Conforme o tempo passou, Flávio percebeu que, mesmo com maior retorno econômico em produção, o benefício não ficava com os agricultores, mas ia para a indústria de fertilizantes, agrotóxicos e para os bancos por meio dos financiamentos. Pior de tudo, a comunidade ainda ficava com os impactos a saúde humana e ambiental do pacote da mecanização agrícola, além do consequente êxodo rural. Assim, conclui: “Nós fomos convencidos a usar um sistema que só nos adoece, só nos prejudica cada vez mais”. A partir desta crítica, a comunidade vem buscando subsídios para resgatar as práticas agroecológicas do passado. Evidente que, num outro contexto, em que o agroecológico já possui bioinsumos, técnicos capacitados e tecnologias próprias, muitas delas desenvolvidas pelos próprios agricultores e agricultoras. Para isso, a principal ferramenta utilizada é o intercâmbio de saberes com agricultores que já acumulam anos de prática com esta cultura, para isso o diálogo com a COOTAP. No primeiro momento, os assentados Antônio e Dionéia foram até o Quilombo e conheceram algumas das propriedades que produzem arroz. Depois, foi a vez dos quilombolas se deslocarem até a região Metropolitana de Porto Alegre. Ao longo do Seminário do Grupo Gestor do Arroz Agroecológico em Eldorado do Sul, tiveram a chance de observar o diálogo para planejamento da próxima safra, no qual o grupo gestor apresentou as variedades de sementes historicamente cultivadas pelo movimento e os benefícios de cada uma (resistência a pragas, quantidade de água exigida, época ideal de plantio, entre outros fatores). O encontro teve ainda uma conjuntura política e uma previsão climatológica para o perído do plantio com apresentação de Flavio Varone. O metereologista apresentou o Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos (Simagro-RS), plataforma ligada ao governo estadual que oferece monitoramento climático voltado à atividades agropecuárias de maneira aberta e gratuita. Também foram discutidos seguros para o cultivo, certificação e mesmo bioinsumos e maquinas da China. Certamente, a dimensão do cultivo do arroz no quilombo é muito menor do que a grande rede que o MST organiza. Mesmo assim, a comunidade e seus apoiadores entendem que o compartilhamento de experiências e fazeres e o melhor método para encontrar um modelo de cultivo agroecológico para a comunidade, de maneira a integrar os saberes tradicionais com algumas inovações tecnológicas. O caminho ainda é longo, mas as primeiras sementes da transição agroecológica foram plantadas. Texto: Bruno PedrottiFotos: Érico Carvalho e Giulia SicheleroEdição: Anahi Fros

Plantando e espraiando juçaras

Numa dessas andanças pela cidade de Porto Alegre, encontramos o Seu Ramão. Amante de uma boa prosa e dos bichos, ele nos contou de seu refúgio na natureza, onde cuida de um cavalo, algumas galinhas e pavões, um pequeno sítio em Glorinha. Se interessou pela história do Coletivo Catarse com a Palmeira Juçara (Euterpe edulis) e levou para o sítio dois pés dessa espécie fundamental para o ecossistema da Mata Atlântica. Vale dizer que o Coletivo Catarse acompanha há quase 15 anos a luta contra a extinção desta planta nativa tão apreciada por pessoas e animais da floresta. Nesse intervalo de tempo, já foram produzidos mais de 50 vídeos sobre a juçara, desde reportagens curtas até o documentário seriado “O ser Juçara”. Integrantes do Coletivo já atravessaram grande parte do território da Mata Atlântica, do Rio Grande do Sul até Rio de Janeiro e Minas Gerais, conhecendo e registrando as histórias dos povos que se relacionam com a palmeira. Mais do que apenas comunicar, nos tornamos um elo nesta rede, espalhando também sementes e mudas da juçara. Tudo começou quando, acompanhando a produção de polpa dos frutos da juçara no Litoral Norte gaúcho, recebemos dos produtores alguns sacos com sementes recém despolpadas. Ao longo de um dos planejamentos estratégicos do Coletivo, há oito anos, no sítio da família de uma das colegas, as mudas foram semeadas em meio a uma nesga de mata nativa remanescente em meio a lavouras de monocultivo. Na primavera de 2023, então, voltamos ao local e percebemos que as plantas haviam atingido um estágio de crescimento avançado e se encontravam muito próximas, necessitando de mais espaço para crescer de maneira saudável. Começou, então, um trabalho em várias etapas, retirando-se o excesso de mudas e distribuindo-as entre os parceiros – e verificando que aquelas mudas que foram deixadas na mata agora com espaço passaram a se desenvolver melhor em relação às que estavam no juçaral adensado. Ao longo dos dois últimos anos, foram entregues mudas para a FAUPOA, Retomada Gah Ré, Ponto de Cultura Vale do Arvoredo e tantos outros que fica até dificil recordar de todos. Sem falar no Seu Ramão, que, além de nos cativar com sua prosa boa, também nos inspirou a atualizar este histórico. A gente espera, em breve, ver os bichos e as plantas bem criados, Seu Ramão! Obrigado pela camaradagem! *Nas fotos, Ramão em frente à @comunadoarvoredo e seus pavões, em Glorinha. Também nossas mudas plantadas no Centro Histórico, na Zona Norte e Morro Santana, além do nosso viveiro de juçaras, nos fundos da sede.

Oficinas de Inclusão Digital com ênfase em produção audiovisual em Mostardas

Numa parceria fechada entre Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre/Coletivo Catarse e o Ponto de Cultura STR Mostardas, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc, no projeto Festejos e Encontros da Cultura Popular (Edital SEDAC 25/2024), serão oferecidos 5 ciclos das oficinas em escolas públicas e em áreas de quilombos do município do litoral médio do estado. Na última quinta-feira (17/07), o Coletivo esteve em reunião em Mostardas com a coordenação do projeto, na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, e, em conjunto, na Secretaria de Educação, definindo quais escolas receberiam quais oficinas e o período de realização de cada uma – o projeto ainda prevê, com outros parceiros, oficinas de música, bricadeiras da cultura popular, capoeira e outras atividades com festejos típicos. “Esta oficina que fica a nosso cargo, de Inclusão Digital, que vai acontecer a partir da instrumentalidade da produção audiovisual, um metiê clássico nosso, surgiu da ansiedade de se ver um aparelho tão importante como o telefone celular servindo para coisas construtivas. Quando o Tadeu (Perciúncula, coordenador do Ponto de Cultura STR Mostardas) veio falar com a gente, destacou isso, e encaixou exatamente com uma série de propostas com esse tipo de reflexão que viemos fazendo em nossas produções e oficinas recentes. Vamos levar isso para os oficineiros, mostrar alternativas de usos e procurar montar processos com início, meio e fim – podendo ser a realização de um filme, por exemplo.” – é o que comenta Gustavo Türck, um dos responsáveis do Coletivo Catarse pelas oficianas. O Ponto de Cultura STR Mostardas é uma grande referência já há muitos anos na região – que também é chamada de Litoral Negro do Rio Grande do Sul. O conceito, cunhado pela historiadora Claudia Mollet, leva em conta o grande número de comunidades quilombolas entre Osório e São José do Norte – são 10 comunidades até o momento – e as contribuições dos africanos e seus descendentes para a cultura da região. Com tantas manifestações culturais latentes e trabalhos de resgate de suas cidadanias e costumes constantes nos territórios, o Ponto já desenvolveu projetos e trabalha exatamente como um apoiador com suas ações na área da cultura, memória e patrimônio. E este projeto é mais uma iniciativa que visa a registrar, oferecer capacitação e a promover festejos típicos como o Terno de Reis.

Fortalecendo o olhar da Fuá

No final de março, a jovem Marciely Salvador, de nome kaingang Fuá (erva nativa usada para fins medicinais e alimentícios pelo seu povo), recebeu uma importante ferramenta para potencializar o trabalho no audiovisual: uma câmera Canon T100 adquirida com apoio do Coletivo Catarse e financimento da ONG Witness.

Coletivo Catarse na 10ª edição da Festa da Biodiversidade

Ao longo da segunda quinzena de maio, ocorreu a 10ª décima edição da Festa da Biodiversidade. Neste ano, o encontro somou uma série de atividades descentralizadas, além da tradicional festa do Dia Internacional da Biodiversidade, celebrado durante todo o dia 22 de maio, no Largo Glênio Peres, em frente ao Mercado Público de Porto Alegre. O evento reuniu coletivos, organizações socioambientais, comunidades tradicionais, artistas e a população em geral em uma celebração da diversidade biológica e cultural. E o Coletivo Catarse esteve junto mais uma vez no apoio a esse grande festejo público, sendo responsável pela rádio poste, além da estrutura de som e técnica das atividades.

Encontro na Guatemala reúne mais de 140 ativistas da democracia na América Latina

Entre os dias 6 e 8 de maio aconteceu na cidade de Panajachel, Guatemala, o encontro “Democracias bajo ataque – de la crisis a la estrategia” – um evento promovido pelas organizações Global Exchange e FOCO. Às margens do Lago Atitlán – La Abuela Lago -, foram expressas e discutidas conjunturas estruturais dos países latinoamericanos e a ascenção de modelos autoritários derivados daquilo que já foi a história de quase todos os países do continente americano. Estiveram presentes mais de 140 pessoas representando instituições, movimentos e comunidades da Guatemala, El Salvador, Nicarágua, Honduras, México, Chile, Uruguai, Brasil, Colômbia, Equador, Peru, Canadá e Estados Unidos. Dia 1 – 06/05 A noite anterior foi de receptivo e apresentação cultural. Na manhã da terça-feira, xamãs mayas, representantes da raiz humana da região da Guatemala, fizeram todos os presentes saudarem os elementos da Natureza para que os trabalhos se iniciassem. O encontro “Democracias bajo ataque” partiu do ponto de contextualização conjuntural, com um painel que apresentou Nancy Okail, egípcia exilada nos USA, trazendo aspectos da Primavera Árabe no Egito e suas implicações globais; Daniel Valencia, hondurenho, discutindo o estado das alternativas de mídia em centroamerica; e, finalizando esta primeira parte, o uruguayo Raúl Zibechi, tratando do ponto-de-vista da luta de movimentos sociais contra o Capitalismo de Morte e as alternativas democráticas que já existem nos territórios sudamericanos – como o MST e as próprias áreas indígenas. Na tarde do primeiro dia, após a sequência das contextualizações que trouxeram considerações sobre o novo mandato do regime de Trump e também as lutas sociais diretas e com participação não institucionalizada de setores da população e as práticas de guerra híbrida como o lawfare, partiu-se para as reflexões em grupo. Levantando pontos sobre as ameaças que estão surgindo com a frente autoritária presente no continente e sobre as limitações que cada um observa de seus territórios e experiências, fechou-se com uma sistematização imensa e diversa de vários aspectos negativos que devem dar chão para as próximas discussões. Na metodologia empregada, foram previstas etapas que, em fim, servem para enxergar as veias abertas da América Latina, entendendo que o “inimigo” é um monstro grande que pisa fuerte, e que se deve levar as reflexões a um caminho de prática de proteção das mais variadas democracias – características dos povos que as praticam, com vistas a uma vida e, sim, um mundo melhor. Este um mote subjetivo que carrega há décadas o desafio de se tornar realidade. Dia 2 – 07/05 No segundo e pesado dia, com a mesma metodologia de um turno de contextualização e outro de construção, apresentou-se o panorama midiático no continente das Américas, das iniciativas de alternativas aos meios hegemônicos e as constantes perseguições – e violência – que seguem ocorrendo, mesmo sob governos que se dizem progressistas – como é o caso do Chile. Passou-se também pela visão da necessidade da construção de meios indígenas de comunicação para populações indígenas e para comunicar com o “externo”, mas com a lógica indígena – “temos que saber o que se passa na cidade, mas a cidade tem que saber o que se passa nos territórios”. Este foi um chão construído para as discussões que se espalharam nas mesas de 6 grupos, convidados a dissertar e apontar estratégias, exemplos e sugestões na superação de temas como Democracia – conceito e modelo; ameaças vindas do Estado; cultura; informação; desigualdades históricas e sistêmicas; e movimentos sociais. O ousado evento se pôs a pleno no choque de ideias e pontos-de-vista, que na maioria convergem, fazendo correr uma visão diversa, autônoma, geograficamente transversal e com a sabedoria e história dos povos indígenas como um verdadeiro norte. Dia 3 – 08/05 Último dia de evento “Democracias Abajo Ataque” às margens de La Abuela Lago. Se iniciou com saudação ao essencial à vida – o Sol e a Água. Se seguiu com a reflexão sobre o que se debateu, quais as impressões individuais e coletivas sobre os contextos e como, enfim, devem-se criar ações para que a sociedade latinoamericana não só mantenha o que é essencial a sua vida, mas que enfrente as ondas autoritárias que se põem ativas e fortes, mais ainda, em todos os países da região. Terminou-se, como em quase todos os encontros deste tipo – destacando-se o histórico Fórum Social Mundial, claro -, com um grande sentimento de esperança e dever cumprido. Ascendeu-se à certeza de que a sabedoria ancestral é a base para um mundo melhor e possível e que não se deve aceitar NENHUM PASSO ATRÁS! Para mais informações e detalhes dos paineis e pontos-de-vista abordados pelos participantes, acesse o Instagram oficial do encontro: https://www.instagram.com/democraciasenlasamericas/ * La Abuela Lago (O Lago Avó) Todo o evento ocorreu na beira do Lago Atitlán, que está há cerca de 1.500 metros de altitude e que margeia também 3 vulcões – conta a história que são estes que inspiraram Saint-Exupéry a criar o cenário do planeta moradia do Pequeno Príncipe. O lago se formou há mais ou menos 80.000 anos por erupções destes vulcões e é berço da civilização Maya. Ali, os povos que remanescem e perseveram, vindos deste tronco civilizatório, constroem toda a sua vida a partir deste corpo d’água – “Por que la abuela lago? Porque sem ela não existiríamos!”. É uma visão e conexão de pertencimento e essencialidade, que gera uma conexão inexorável de existência – vive-se porque se vem dali, porque se está ali, há gerações, e cuida-se porque ali se vai ficar. A manutenção deste lago na luta contra a poluição proveniente do “progresso” capitalista é evidente, e las abuelas indígenas são a linha de frente para a sua preservação. ** A participação do Coletivo Catarse neste evento se deu, entre outras coisas, também pela relação histórica que mantém com lideranças, ativistas e comunicadores que fazem a luta integrada latinoamericana. Neste caso, em específico, destaca-se todo um trabalho em conjunto com o estadunidense Michael Fox – que recentemente lançou uma série de podcasts chamada Under The Shadow, tratando da história do domínio dos Estados Unidos …

Coletivo Catarse está na Guatemala para discutir estratégias de defesa às democracias latinoamericanas

Em virtude de um histórico de trabalhos nas áreas de ativismo da comunicação, com enfoque na defesa dos direitos humanos de diversas populações ao longo de duas décadas, o Coletivo Catarse participa entre os dias 5 e 8 de maio do evento “Democracias bajo ataque – de la crisis a la estrategia”. A presença do Coletivo também é fruto de relações consolidadas com diversos ativistas de caminhada reconhecida, como o jornalista estadunidense Michael Fox, com quem realizamos duas séries de podcasts: “Brazil on fire”, sobre a escalada do fascismo contemporâneo no Brasil – clique aqui -, e “Under the shadow”, sobre a história da ação dos Estados Unidos na América Central, destacando os 200 anos da Doutrina Monroe – clique aqui. O encontro ocorre na cidade de Panajachel, Lago de Atitlán, Guatemala. Cerca de uma centena de representantes de diversos países das Américas levarão seus pontos de vista e farão a reflexão práticas sobre os riscos do ataque à democracia a partir do avanço de ideários extremos aproximados ao fascismo, da criminalização da sociedade civil e dos movimentos sociais que se opõem a essas ideias, que são cada vez mais devastadoras. É um espaço para trocas, também, à construção de alternativas e estratégias de enfrentamento dessas forças autoritárias – já muito aprofundadas principalmente nas Américas -, tendo como guia a força de organização das resistências populares, comunitárias e indígenas. Todos os países participantes têm histórico no tema e também avanços a compartilhar – exemplos, ideias de como movimentar um continente, um mundo de uma forma diferente. O representante do Coletivo Catarse, já na chegada à Ciudad de Guatemala neste domingo, ao se apresentar como proveniente de Porto Alegre e atuante junto aos povos origináros, aos excluídos, ao meio cultural de base comunitária, entre tantos outros, escutou de pronto a resposta de um mexicano: “A capital do Fórum Social Mundial”. Um outro mundo já foi possível em algum momento. E por que, novamente, não o seria? Confira os materiais do evento com a listagem de participantes e a programação. Canais de comunicação:Cuenta oficial del evento (Democracias en las Americas)FOCO: Facebook, X (Twitter) e InstagramGlobal Exchange: Facebook, X (Twitter), Instagram , BlueSky e  YouTubeRompeviento TV: YouTube Ao final, será feita nova publicação com os resultados.

Boletim sonoro: entrevista bilíngue entre rádios comunitárias do Brasil e do Chile durante o ELAOPA

Direto de Santiago do Chile, durante o XV Encontro Latino-Americano de Organizações Populares Autônomas (ELAOPA), a Rádio A Voz do Morro realizou uma entrevista bilíngue com a Rádio JGM, ambas integrantes da Rede Coral de coletivos de comunicação popular. Caso você ainda não tenha lido a primeira reportagem sobre o encontro, clique aqui. A iniciativa se inspirou em uma experiência anterior, quando integrantes das rádios comunitárias uruguaias Germinal e La Villa FM estiveram em Porto Alegre para uma transmissão simultânea  com A Voz do Morro. Na ocasião, primeiro os brasileiros entrevistaram os uruguaios e em seguida, foi a vez deles conduzirem a entrevista. O intercâmbio entre as rádios chama atenção para as lutas por território, moradia, acesso à água e vida digna nos bairros periféricos — seja aos pés da cordilheira chilena ou nos morros brasileiros. Os coletivos reforçam a urgência de consolidar redes comunicação popular latinoamericanas (como a Rede Coral), buscando a apropriação dos meios e a criarem suas próprias narrativas. Reproduzimos aqui o áudio e a tradução da entrevista bilíngue, realizada em 26 de janeiro de 2025, na comunidade La Bandera, em Santiago, Chile. Primeiramente, ouviremos Frecia Ramírez, representante da Rádio JGM, entrevistando Vítor Ramon, da Voz do Morro. Depois, os papéis se invertem. Entrevista da Rádio A Voz do Morro (Brasil) com a Rádio JGM (Chile) Vitor Ramon – Rádio A Voz do Morro: Salve, salve, povo! Estamos aqui diretamente de Santiago, Chile, conversando com o pessoal da Rádio JGM. Estamos com a companheira aqui — peço que se apresente. Frecia Ramírez – Rádio JGM: Olá, meu nome é Frecia Ramírez. Faço parte da Rádio JGM, sou produtora desde o ano passado e integro a equipe que coordena essa maravilhosa experiência de comunicação. Vitor Ramon – Rádio A Voz do Morro: Dale! Você pode nos contar um pouco sobre a história da rádio? Como ela se organiza, como começou? Frecia Ramírez – Rádio JGM: A Rádio JGM começou há 17 anos como uma iniciativa emergencial, criada por estudantes de jornalismo da Universidade do Chile com o apoio de acadêmicos e pesquisadores. Ao longo dos anos, passou por várias transformações. A cada ano, temos uma rádio JGM diferente, pois ela é moldada por quem a compõe. Atualmente, está sendo organizada por estudantes, professores e funcionários públicos que se dedicam a promover o aprendizado em comunicação — não apenas para estudantes de jornalismo, mas também para estudantes de diversas áreas que veem a comunicação como uma ferramenta de transformação social. Vitor Ramon – Rádio A Voz do Morro: Dale! No Brasil, chamamos essa relação entre universidade e comunidade de “extensão” ou “extensão popular”. Não sei qual é o nome que vocês usam, mas qual a importância da universidade estar diretamente conectada aos bairros, à comunidade? Frecia Ramírez – Rádio JGM: Nós incentivamos principalmente quem passa pela Rádio JGM a adotar uma perspectiva alternativa à publicidade dominante, pois já temos grandes conglomerados criando uma imprensa hegemônica — e não é esse tipo de comunicação que queremos reproduzir, seja em suas fontes ou em seus formatos. Convidamos quem integra a JGM a romper com esses estereótipos, a buscar vozes alternativas, a colocar no centro os movimentos sociais — os que exigem água, moradia, os que estão aqui no ELAOPA. Queremos tornar essas vozes visíveis, construir formas alternativas de comunicação. Também reconhecemos o privilégio de estarmos vinculados à Universidade do Chile — temos apoio e financiamento, e isso nos compromete a praticar (e convidar outros a praticar) uma comunicação comunitária, baseada em práticas coletivas. Buscamos romper com os padrões da comunicação hegemônica, trazer temas como educação de mulheres, infância, e outras vozes silenciadas. Muitos têm voz, mas apenas uma classe social está representada nos grandes meios. Para romper com isso, convidamos à desconstrução da comunicação — a “soltar o rádio”, transformá-lo, por que não, em algo visual, em outras formas de expressão que façam sentido nas comunidades. Esse trabalho é construído com a conexão entre três níveis dentro da universidade: professores, técnicos e estudantes. Isso impulsiona a própria universidade a ir além de si, a ir para outros territórios. Não para ensinar o que é comunicação — porque nem nós a conhecemos por completo — mas para desmontá-la e praticá-la. A prática, o “aprender fazendo”, está no coração da rádio. Vitor Ramon – Rádio A Voz do Morro: Baita! Conta pra gente sobre essa relação entre a cordilheira e o morro. Para além do ELAOPA, como você vê esses intercâmbios culturais e comunicacionais em que as duas rádios estão envolvidas? Frecia Ramírez – Rádio JGM: A Rádio JGM faz parte de diversas redes de comunicação, como a Rede Coral, a Associação Mundial de Rádios Comunitárias e a Associação Nacional de Comunicadores e Meios Comunitários. Participamos de todos esses espaços, e hoje estamos no ELAOPA 2025 porque entendemos a comunicação como uma ferramenta de transformação social. Convidamos todos que estão ouvindo a também se perguntar: o que estamos vendo? E por que não estamos vendo outras coisas? O nosso chamado é sempre para trocar o canal da televisão, desligar os grandes rádios e sintonizar nos meios independentes e comunitários. E, mais do que isso, que cada pessoa possa construir sua própria comunicação — porque nossa voz importa, e precisamos lutar para que ela seja representativa. Precisamos de meios que nos representem, e que fortaleçam, de mãos dadas, a comunicação popular e as organizações de base. Vitor Ramon – Rádio A Voz do Morro: Bom, quer deixar uma mensagem final pra gente? Frecia Ramírez – Rádio JGM: A mensagem final é que possamos replicar esse tipo de encontro em todos os territórios. Que os meios comunitários e independentes se multipliquem e se fortaleçam — e isso só será possível com nossa participação, nos envolvendo, não sendo apenas ouvintes passivos. O chamado é para apoiar esses processos de comunicação comunitária, para entender a comunicação como uma ferramenta acessível a todos — independentemente da idade, da força ou da classe social. Entrevista da Rádio JGM (Chile) com a Rádio A Voz do Morro (Brasil) Vitor …

Rádio comunitária A Voz do Morro participa do XV ELAOPA em Santiago do Chile

Foto destacada: Antônio – Cooperativa de Trabajo Audiovisual Trashumante Nos dias 25 e 26 de janeiro, a rádio comunitária A Voz do Morro esteve em Santiago do Chile para cobrir o XV Encontro Latino-Americano de Organizações Populares Autônomas (ELAOPA). O evento reuniu mais de 400 lutadores e lutadoras sociais na Población La Bandera, na periferia da capital chilena, território marcado pela resistência e pela atuação do Movimiento Solidario Vida Digna, anfitrião do encontro. Foto: Repórter Popular Delegações de mais de 100 movimentos sociais participaram da atividade, com participantes vindos do Chile, Argentina, Uruguai, Brasil, Paraguai, Estados Unidos e Alemanha. Os debates abordaram temas como território e comunidade, lutas das trabalhadoras do setor público e privado, desafios do movimento estudantil, luta socioambiental e memória, cultura e agitação. Do morro à cordilheira Mais de dois mil quilômetros separam o Morro Santana — ponto mais alto da crista de morros de Porto Alegre — da Cordilheira dos Andes. E foi até lá que nosso correspondente, Vitor Ramon, aportou com seu olhar atento, representando a Rede Coral de coletivos, em uma cobertura colaborativa entre veículos parceiros como o Coletivo Catarse  e o Repórter Popular. Para custear a viagem, uma campanha solidária foi aberta. Além disso, uma ecotrilha foi organizada junto ao Preserve Morro Santana. As iniciativas somadas a apoios do canal Voz Trabalhadora, do Coletivo Catarse e de diversos apoiadores anônimos arrecadou mais de 3 mil reais. Durante a passagem por Santiago, foi possível estreitar laços com outras iniciativas de comunicação popular, como a rádio JGM, também integrante da Rede Coral (experiência que será compartilhada em breve). Mas, para além das ondas sonoras das rádios comunitárias, acompanhamos outra tradição da cultura libertária expressa, com a pintura de um mural em conjunto com os coletivos Brigada Muralista Ana Luisa (Chile), Pinte e Lute (Florianópolis) e o antigo Muralha Rubro Negra (Porto Alegre). A grande arte conjunta com a consigna “Apoio mútuo” ganhou cor nas ruas que deram origem à tradição libertária do muralismo combativo. Nos retoques finais, cada coletivo deixou sua marca na pintura, assinando a construção coletiva. No alto da Cordilheira, a Bola 8 — uma das marcas mais características do Morro Santana — foi pintada como elo simbólico entre territórios distantes, mas unidos pela solidariedade, pela luta e pela arte.   Assista o primeiro vídeo da cobertura produzido pela Voz do Morro sobre o mural pintado em Santiago: Relação histórica e combativa A relação do Morro Santana com o ELAOPA é histórica, com presença marcada desde a primeira edição do encontro, em 2003, junto ao Comitê de Resistência Popular da Zona Leste. O encontro surgiu como alternativa autônoma e combativa ao Fórum Social Mundial, com ênfase na luta contra a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), cuja votação estava prevista para o ano seguinte. Já em 11 de outubro de 2009, um mural foi pintado na Vila Estrutural, no Morro Santana, em alusão ao “Último Dia de Liberdade das Américas” — referência à invasão europeia em 1492. A ação foi um desdobramento do VII ELAOPA, realizado naquele ano em Buenos Aires, Argentina. Em fevereiro de 2010, ocorreu o VIII ELAOPA na Colonia de Vacaciones del Sindicato de Artes Graficas, próximo a Montevidéu (Uruguai). O Combate Audiovisual (uma espécie de “braço audiovisual”) da Voz do Morro produziu um documentário sobre o encontro. Em julho daquele ano, uma comissão de uma rádio comunitária uruguaia veio para Porto Alegre conhecer a experiência local, momento em que foi realizada uma transmissão simultânea na Voz do Morro junto as rádios comunitárias uruguaias Germinal e La Villa FM. Além disso, os ELAOPAS de 2019 e  2023 também tiveram coberturas audiovisuais realizadas pelos coletivos Repórter Popular e Coletivo Catarse, que contam com integrantes da rádio A Voz do Morro.