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VII encontro dos Kujás: Danças de Poder Kaingang

Ao chegar no topo do Morro do Osso, Porto Alegre, começamos a sentir o cheiro característico da mistura entre mato e cocô de galinha – não, isso não é ruim. Nos aproximamos de um grande galpão no qual a multidão estava reunida.

O sibilar dos chocalhos e o grave ressoar das batidas ritmadas no chão construíam a atmosfera ritual.

Dentro do galpão de madeira com telhado de zinco, uma roda de espectadores assistia à apresentação da comunidade do Morro do Osso. Os Kaingang de vários cantos da região sul do Brasil compunham a maior parte dos espectadores e estavam presentes desde crianças de colo até lideranças mais velhas.

Os guerreiros e guerreiras que se apresentavam usavam cocares de penas e tinham seus corpos pintados para a batalha. Batiam com o cabo das lanças e com os pés descalços no chão.

Dançavam em uma grande roda que percorria boa parte do interior do galpão. Por vezes, formavam fileiras como que para marchar.

Cantavam no idioma Kaingang, reacendo o fogo da sabedoria milenar. Os líderes dos grupos geralmente cantavam uma frase que era respondida em coro pelos jovens guerreiros.

Além do grupo local, também admiramos a apresentação dos grupos de Votouro e Guarita, ambas do norte do Rio Grande do Sul.

Em uma fala após as apresentações, Douglas Kaingang ressaltou a importância do encontro dos Kujas (cunhãs no brasilês) para resgatar os conhecimentos tradicionais e valorizar a cultura Kaingang.

Segundo Douglas, o evento buscava “ressaltar a presença e a identidade Kaingang em Porto Alegre”. Além disso, também falou dos episódios atuais da política de extermínio que os Kaingang e demais grupos indígenas enfrentam há 500 anos.

Citou episódios recentes de violência sofridas pelos Kaingang nas aleias da Serrinha, Votouro e Passo Grande da Forquilha. Por fim, concluiu: “Esses encontros são importantes para nos fortalecermos em um momento difícil”.

Estreia do documentário Cores ao Vento – navegando pela arte de Silvio Rebello

Hoje, 06/11/18, na cidade de Tapes, será lançado o documentário Cores ao vento – navegando pela arte de Silvio Rebello, uma realização da Secretaria Municipal da Educação e Cultura e a Prefeitura de Tapes, numa coprodução do Coletivo Catarse, do Clube da Sombra e da Lagoa TV.

O filme retrata num tom poético o universo colorido do artista plástico tapense, que dedicou sua vida a arte nas suas mais variadas formas. Transitou na escultura, pintura, fotografia e música. Retratava a paisagem da cidade de uma forma muito peculiar e, ainda, a cultura negra, numa mescla de referências do Rio Grande do Sul e Bahia, lugar onde morou e trabalhou por alguns anos e que transformou significativamente sua produção.

Este filme é uma homenagem e um resgate. Procura dar o devido valor a um artista tão importante e, igualmente, salvaguardar o legado artístico, somando a um conjunto de iniciativas que buscam este mesmo objetivo, como é o caso da recém criada Fundação Silvio Rebello.

Vale ressaltar que o filme foi produzido concomitante a uma oficina de produção audiovisual com jovens da cidade, que, além de produzirem imagens para o documentário, realizaram o seu making of, que em breve estaremos divulgando com um relato sobre este processo.

Filmografia Social – O Grande Tambor precisa bater!

Num momento em que se inicia o mês da Consciência Negra e que se elege presidente um racista confesso, nada mais certo que indicarmos uma produção nossa: O GRANDE TAMBOR.

Neste documentário em longa-metragem, denso, forte, há uma jornada que começa contando a história de um instrumento que foi a base do samba considerado gaúcho, mais cadente, mas que foi sumindo a partir da década de 1970 pela massificação cultural e pela “carioquização” do carnaval nacional. A partir disso, vamos retornando no tempo e observando as origens da ocupação do povo negro no território gaúcho – uma violenta narrativa de escravidão e genocídio, com sequestro de sua prática religiosa para consecução de objetivos mercadológicos do ciclo do charque.

O Grande Tambor recupera a ideia de que a Revolução Farroupilha não foi revolução coisa nenhuma e detalha o papel decisivo do infame Duque de Caxias – um herói da horda fascista vitoriosa no último pleito presidencial – no massacre de Porongos, apresentando a carta enviada aos comandantes brancos do batalhão conhecido como Lanceiros Negros.

Uma viagem de desmistificação. Assista atento, aberto a ouvir muita informação e prováveis contrapontos ao que você sempre entendeu como certo.

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: documentário etnográfico
Temática Social: racismo
Público-alvo: gaúchos interessados em sua história, pessoas de outros estados que acreditam que o Rio Grande do Sul é a Europa do Brasil e que aqui não há negros, músicos interessados em percussão, pessoas que gostam de carnaval e samba
Roteiro: 
(o caminho é bem delineado, a jornada vai detrás para frente no tempo e descortina as camadas históricas da contribuição do povo negro na cultura e realidade do Rio Grande do Sul e Brasil, mas pela duração pode ser considerado muito massante)
Dramaturgia: 
(a fotografia não é das melhores, com diferenças entre câmeras e personagens, sem definição de linguagem, o áudio também demandaria melhor tratamento, o filme parece esteticamente não finalizado, mas isso tudo pela opção de se valorizar o conteúdo, que tem uma boa construção emotiva, de momentos de respiro para reflexão e vários ápices catárticos)
Aprofundamento da Questão Social: 
(a razão da existência deste filme é exatamente ser uma obra que aprofunda a questão do racismo na construção histórico-cultural do Rio Grande do Sul, é pleno neste sentido)

Assista ao filme:

Confira todo o material do projeto aqui no site, clique aqui.

Por Gustavo Türck

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras

Enrico de Angelis, da Los Fastidios: à esquerda da cultura Skinhead

Antes do show da banda Los Fastidios em Porto Alegre, o Coletivo Catarse conseguiu entrevistar Enrico de Angelis, vocalista e único membro da formação original da banda.

Confira abaixo a conversa, na qual Enrico contou um pouco da história da banda, falou de política e mostrou uma visão à esquerda da cultura Skinhead.

Poderia contar um pouco sobre a história da banda e como vocês perceberam a situação política se modificar ao longo destes anos?

A banda nasceu em Verona. Verona é uma cidade no nordeste da Itália. A banda nasceu em 1991 e sou o único “sobrevivente” da formação inicial.

Não é fácil “sobreviver” com a Los Fastidios, se você conferir nossas datas da tour, vai ver que a banda toca ao vivo com frequência. Então tocamos muitos shows, e infelizmente não conseguimos sobreviver somente com a música. Não é fácil se organizar para tocar mais de 100 shows todo ano.

Assim, mudamos algumas formações ao longo do ano e no momento temos um grupo bom, formado não só por pessoas vindas de Verona. Mário, o guitarrista, é de Veneza. O baterista, Baqueta, é de Rovigo. Ciacio, o baixista, vem da Cércia na região da Emília Romanha (norte da Itália).

Como te falei, nossa banda toca muito ao vivo. Rodamos o mundo e agora estamos aqui na América Latina. Essa tour foi mágica: passamos duas semanas entre o México, Brasil e Chile. Hoje é última data da tour. Estou triste por isso, gostaria de poder ficar mais.

Você perguntou também da situação política…

Está muito difícil na Itália como em todos os lugares. Aqui no Brasil percebo que vocês também vivem um momento bem complicado.

Mas estamos aqui para dar nossa energia, nossa música para apoiar o movimento antifascista no Brasil. Esperamos que nossa música possa trazer uma energia positiva para as pessoas neste momento importante para o Brasil.

Na Itália, a situação não é muito diferente. Temos um governo de coalizão entre um partido recente chamado Movimento Cinco Estrelas, que tem integrantes de esquerda e direita. É um grande caos. pois querem fazer um partido do “Novo Milênio”, ou algo diferente da política tradicional, mas eles não são nada, pois não tem valores. Acredito que um partido político precisa de valores em comum para unir as pessoas, e eles não tem. Além disso, este partido fez uma aliança com outro extremamente racista, o Liga Norte.

No momento nosso primeiro ministro é uma pessoa terrível, ele é o homem que quer fechar todos os portos e deixar os refugiados que tentam chegar na Itália morrerem no mar. O problema, na Itália, como em toda a Europa, é que os partidos de extrema direita estão usando a situação dos refugiados.

Posso garantir a você que não existe realmente uma crise dos refugiados, porque na Europa temos espaço para todas as pessoas. Mas os partidos de direita estão usando a situação, que chamam de problema ou crise, para espalhar suas mensagens racistas fodidas; para criar uma situação de medo e pânico. É uma loucura, pois as pessoas absorvem este discurso e se sentem ameaçadas e passam a agir com raiva e ódio.

Acredito que se as pessoas conversassem com os refugiados, perceberiam que os imigrantes são ótimas pessoas. Por exemplo, em Verona temos um projeto que apoia um clube de futebol chamado Virtus Verona, que joga na terceira divisão.

Nosso time está recebendo refugiados no momento. Vivo numa cidade muito fascista, então é difícil; mas, sou muito orgulhoso do meu time, porque estão fazendo um trabalho importante acolhendo estes refugiados. Com estes caras, temos um pequeno grupo chamado Rude Firm que busca envolver os refugiados na vida das arquibancadas. Garanto a você que esta é a melhor experiência da minha vida.

Os refugiados são ótimas pessoas. Mas, o problema na Europa é que as pessoas têm medo da situação. Acho que a melhor maneira de superar isso, seria se sentar na mesa com os refugiados, conhecê-los, conviver com eles, compartilhar refeições com eles, como fazemos todos as semanas.

Se as pessoas conversassem com os refugiados, iriam entender que eles são pessoas como você e eu. Não existe crise de refugiados.

Também acredito que a Europa explorou a África por séculos. Acho que é hora de devolvermos algo a estas pessoas. Mas, muita gente na Europa não pensa como eu.

Então na Itália existe um grande problema, com essa situação de medo. Mas o problema não é só na Itália, em toda a Europa os partidos de extrema direita estão usando essa estratégia política do medo para se espalhar e crescer; e o problema é que eles realmente estão crescendo.

 Aqui no Brasil temos um senso comum que costuma associar os Skinhead à extrema direita. Poderia contar um pouco sobre a cultura Skinhead de uma perspectiva a esquerda?

Sim, isso acontece mundialmente…

Mas sobre a cultura Skinhead, eu poderia dizer que ela nasceu ao misturar diferentes culturas negras e brancas. Então, para mim, ser Skinhead significa ser realmente anti fascista, anti racista. As raízes do movimento são negras e brancas.

Infelizmente hoje, o movimento Skinhead é visto com maus olhos. Eu responsabilizo a grande mídia corporativa por isso. É muito fácil para eles: as pessoas dão mais atenção sobre notícias sobre quando os Boneheads – (cabeças de osso) pois não gosto de chamar esta gente de Skinhead – atacam os ciganos ou os imigrantes. Isso rende grandes notícias e audiência para essa mídia.

Ao mesmo tempo existem muitos Skinheads envolvidos nos movimentos anti fascista e anti racista. Mas, para a grande mídia isso não é importante: não é notícia. Assim, no final você pode ler muita coisa na grande mídia falando sobre os Boneheads fascistas.

Mas acho que os Boneheads fascistas precisam ir para a escola e estudar. Acho que eles perderam algo, que só sabem sobre os últimos anos e não olham para as raízes do movimento que dizem seguir.

Felizmente neste momento existem muitos livros e muito conteúdo de qualidade circulando na internet. Hoje você pode entender melhor a história e a verdadeira cultura do movimento Skinhead.

Eu acredito que o movimento Skinhead foi a primeira subcultura, ao longo do século passado,  a unir pessoas negras e brancas dentro da Europa.  Antes desse movimento, negros ficavam com os negros, e os brancos ficavam com os brancos. O movimento Skinhead foi a união.

Talvez este seja o motivo pelo qual os fascistas tentam sabotar o movimento: porque acho que eles vem este movimento como realmente perigoso. Porque acredito que o movimento Skinhead foi o início de um novo movimento, de uma nova subcultura internacional. Mas, ao mesmo tempo, os fascistas tentam destruir este movimento, porque essa união é muito perigosa para eles.

Enrico de Angelis,
vocalista da banda Los Fastidios.

Entrevista: Bruno Pedrotti
Imagens: Billy Valdez

Filmografia Social – Da evolução revolucionária, passando pelo gangsta rap até a ostentação…

Para onde mais vai o hip-hop? Bueno, de onde saiu, passou a ficar fácil de se saber. A série Hip-Hop Evolution, na sua segunda temporada no catálogo Netflix, traça o caminho de um tipo de música que nasce na periferia de Nova Iorque e ganha o mundo, explodindo no cenário pop – não sem antes construir seu lastro como uma expressão de uma camada de população amassada pelo racismo e as políticas de exclusão do sistema capitalista, que gera tanto uma violência interna, entre seus protagonistas, como externa, como uma trilha sonora de manifestações violentas que ocorreram pelos anos 1980/1990.

Pois o hip-hop passa muito rapidamente de uma “brincadeira” em festas do gueto estadunidense para se tornar por mais de 2 décadas na grande expressão da voz de quem está sofrendo com a violência policial diretamente. Uma galera passa a cantar e descrever o seu submundo, faz chegar aos recantos dos Estados Unidos a visão de que são pessoas que podem se comunicar – e com a intenção de responder – sobre os ataques que sistematicamente uma White America (América branca) tenta os impor. Daí surgem grupos como o N.W.A (Niggers With Atitude – Negros Com Atitude), já da costa oeste, straight out of Compton, diretamente saídos de um bairro violento da periferia de Los Angeles, explodindo as mentes e sendo alvos seguidos da “lei” com o grande clássico Fuck tha Police (Foda-se a Polícia). Era como muitos conseguiram responder às agruras concretas do racismo institucional.

O hip-hop também foi responsável por muitas vitórias da liberdade de expressão nos Estados Unidos. Grupos fudamentalistas sempre tentaram ao longo dos tempos calar seus produtores, mas após lutas longas em tribunais, a porta estava aberta para expandir o campo da poesia e do ritmo das ruas – e daí veio a libertinagem, a linguagem chula, a expressividade e agressividade sexual, que objetificava a figura feminina, mas a mantinha protagonista, até o surgimento da ostentação, já com umas 3 décadas de desenvolvimento, as figuras destacadas do hip-hop deixavam de parecerem pastiches de cafetões que se enchiam de correntes e de ouro como uma sátira para virarem exatamente essas pessoas, trocando a crítica social pela ode ao hedonismo sem limites – os negros, enfim, haviam chegado lá. Assista a essa sequência de uma seleção de músicas ano a ano e veja a transformação dos rappers. E para onde se vai agora?

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: documentário
Temática Social: racismo institucional, drogadição, machismo
Público-alvo: pessoas interessadas no multiculturalismo e fãs de hip-hop como uma identidade cultural de um extrato social
Roteiro: 
(delineia muito bem a linha temporal e a localização das expressões do hip-hop, esclarece bem a que estão servindo cada grupo retratado e nos guia a um processo evolucionário que vai explicando com boa dose de detalhes as relações estabelecidas em cada fase e/ou grupos)
Dramaturgia: 
(filmagem padrão de documentário contando com vários inserts de flash back e construção de caracteres artística do estilo hip-hop/grafite)
Aprofundamento da Questão Social: 
(dá para entender muito bem de onde vêm as pessoas e para onde elas estão se encaminhando, quais as relações sociais estabelecidas, o contexto social que estão inseridas e quais seus desdobramentos)

Por Gustavo Türck

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras