A primeira entidade privada sem fins lucrativos no Rio Grande do Sul a prestar assessoria a produtores rurais exclusivamente com foco em agricultura ecológica, e que tem estreita ligação com o surgimento de diversas feiras no estado, acaba de completar 40 anos. Passadas quatro décadas, o Centro Ecológico (CE) continua a acompanhar de forma direta e sistemática mais de 80 grupos de agricultores familiares. A data foi celebrada com uma vasta programação, conferida de perto pelo Coletivo Catarse. Uma grande estrutura foi montada junto à Paróquia São Luiz Rei, em Ipê, a Capital Nacional da Agroecologia e sede do CE, reunindo, nos dias 25 e 26 de outubro, centenas de pessoas e iniciativas ligadas a essa caminhada. Técnicos, famílias de agricultores, professores, ambientalistas e consumidores de orgânicos, principalmente de Porto Alegre, prestigiaram os dois dias de atividades. A Organização da Sociedade Civil (OSC) atua desde 1985 na Serra gaúcha e no Litoral Norte, viabilizando, desde então, avanços sustentáveis no contexto da agroecologia e da produção agrícola com base conservacionista. Mas é preciso puxar alguns fios dessa história antes de falarmos dos êxitos da iniciativa. Vivemos tempos onde plantar sem o uso de agrotóxicos e adubos químicos não é mais visto por uma sufocante maioria como coisa de sonhadores ou até mesmo “malucos”, como eram taxados os produtores brasileiros que passaram a adotar práticas ecológicas nas lavouras na década de 1980. A visão predominante na época do surgimento do CE era de que a agricultura “moderna” seria a única forma viável e eficiente de produzir alimentos em larga escala. E sair dessa lógica era estar fadado ao fracasso. Relembrando esse período e citando o filósofo Arthur Schopenhauer, o professor Alberto Bracagioli Neto, do Departamento de Horticultura e Silvicultura da Faculdade de Agronomia, de Licenciatura em Educação no Campo e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR-UFRGS), exemplifica: “A verdade passa por diversas fases. Primeiro a agricultura ecológica, como se chamava na época, foi ridicularizada. Depois, ela é duramente contestada, durante muito tempo, pela força do agronegócio. E a terceira fase, que é considerada a mais clara em evidências, por conta de todos os problemas ambientais e climáticos do planeta que estamos vivendo, tem mostrado que a agroecologia não é uma alternativa: ela é a alternativa para termos futuro. O Centro Ecológico foi a grande cunha que abriu esse tema, demonstrando, na prática, que era possível sim uma agricultura sem utilização de insumos químicos. E hoje, cada vez mais, existem evidências, teses de mestrado e doutorado a respeito dessas evidências”. Contrapondo a ordem estabelecida A trajetória do Centro Ecológico começa em meio a uma ebulição política e socioeconômica, um período de intensas contradições e conflitos no meio rural brasileiro. A propagandeada modernização agrícola implementada pelo Regime Militar dentro da falaciosa Revolução Verde – calcada no uso intensivo de fertilizantes sintéticos, agrotóxicos, sementes transgênicas e maquinário agrícola – dependia fortemente de financiamentos estatais, que também foram afetados pela crise do “milagre econômico”. Foi no mesmo ano que surgiu a União Democrática Ruralista (UDR), entidade criada para representar grandes proprietários rurais como resposta ao Plano Nacional de Reforma Agrária e em enfrentamento ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), nascido um ano antes. Na contramão dos impactos socioambientais negativos desse cenário, que começaram a tornar latentes a degradação do solo, a poluição da água e do ar, a perda de biodiversidade devido à monocultura, a concentração de terras e a exclusão de pequenos agricultores que, incentivados pelo crédito fácil, endividaram-se pesadamente para adquirir o pacote tecnológico, além de apresentarem problemas de saúde associados ao uso de químicos, a inquietude de uma jovem agrônoma, que mudou o curso de sua própria história, impulsiona o início do que viria a ser o Centro Ecológico. Filha e neta de pecuaristas, Maria José Guazzelli entrou no curso de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1973, tendo se graduado em 1977. “Era o boom da soja, calendário para o uso de venenos e adubos, e aquilo me desestimulou muito a seguir pelo caminho da agricultura”, conta. Ainda antes de se formar, no início de 1974, ela fez um primeiro curso sobre Pastoreio Voisin – método intensivo de pastejo que busca o equilíbrio entre o solo, a pastagem e o gado, aumentando os índices de produtividade e melhorando o bem-estar animal, resultando em uma produção mais sustentável e de baixo custo – com o professor Luiz Carlos Pinheiro Machado. Uma das aulas foi sobre vida no solo, ministrada pelo agrônomo José Lutzenberger. “Aquilo abriu uma outra perspectiva pra mim em termos de tudo, mas ainda muito focada na pecuária”, recorda. Maria José foi para a França em 1978 fazer um mestrado em Pecuária. Lá, conheceu a agricultura sem veneno. “Quando larguei minha pós-graduação de produção animal, fui estudar a produção agrícola. Na época, na Europa, era principalmente a biodinâmica a existente. Quando retornei ao Brasil, em 1980, já profissional há alguns anos e com experiência de trabalho em campo, vi o quanto essa agricultura que aqui estava era muito ignorante”. Esse retorno foi o início de uma intensa e transformadora jornada. A profissional participou da elaboração da pioneira, em termos de Brasil, Lei dos Agrotóxicos do Rio Grande do Sul (Lei 7747/82). Aliás, legislação essa alterada pelo atual governador Eduardo Leite em junho de 2021, com a anuência de sua base de governo no Legislativo, liberando o uso no território gaúcho de substâncias proibidas nos países em que são fabricadas. Mas, no passado, a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, presidida pelo então deputado Antenor Ferrari, foi quem abriu espaço para essas discussões inovadoras, conforme destaca Maria José. “Não podíamos fazer esse debate fora de um lugar que não fosse seguro porque a ditadura corria solta ainda. Sempre que discutíamos que era viável produzir sem veneno, dentro das argumentações para a criação da lei, nos diziam que isso era impossível. Foi aí que resolvemos, um grupo de técnicos e técnicas, mostrar que era possível”, recorda. Veio dessa negativa o impulso para …
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