Mateando vivências: Carijada Kaatártica na FLONA celebra o encontro e a tradição ancestral

Domingo, 1º de março e última Lua Cheia do Verão. Ao amanhecer, sigo rumo ao carijo. A brasa aquece a estrutura onde estão dispostos os cerca de 80 quilos de ramos da erva-mate, colhidos no dia anterior, e uma chaleira já chiando a água para matear. Dou bom dia aos viventes que resistiram à madrugada, de olho na secagem lenta sobre o calor brando do fogo, que não pode apagar. O colega cuidando da lenha me entrega, de pronto, uma pequena, mas gigante, tarefa: “Faz um mate pra nós? Naquele canto ali já tem umas folhas secas”. Não é qualquer um, mas o primeiro da carijada, iniciada na sexta-feira dia 27 de fevereiro. O evento – em sua segunda edição, esta possível graças ao apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da comunidade kaingang local – também é o primeiro realizado em uma unidade de conservação e, ainda por cima, dentro de uma aldeia kaingang, a Retomada Kógünh Mág (“erva grande“, em português). Busco as folhas que já se quebram ao tocar e as coloco no pilão da Nilda – uma das indígenas que plantou a semente da aldeia em que estamos e, quando ancestralizou, deixou a peça de herança para os filhos e netos. Entalhado com as duas metades kaingang, Kamé (Sol) e Kairu (Lua), o pilão é uma entidade em si. Peço a permissão para a cacica Iracema Gah Té, da Retomada Gãh Ré – localizada no Morro Santana, em Porto Alegre –, que, então, acena com a cabeça. Pilo um pouco e, por conta da mistura do cansaço acumulado com a curiosa expectativa que toma conta do ambiente, me contento com a moída grossa. Cevo, provo para aquecer a erva e passo adiante. Por suposto, o primeiro é da Kujá (xamã), que o saboreia, e segue a roda. Conforme passa de mão em mão, vai tornando-se unânime o veredito: a erva está excelente, com um amargor moderado e um defumado marcante. A impressão vai se reafirmando à medida que surgem novas possibilidades: outra cuia com uma moída fina, seguida de uma pura folha para, depois, seguir pela moídas mecânicas de dois soques distintos, uma fina e outra grossa, com mais galhos. O processo de feitio artesanal começou no dia anterior. Na manhã de sábado, foram podadas cerca de 20 árvores de erva-mate em meio à mata nativa. Já no início da tarde, as equipes finalizaram o manejo de dois pés plantados no pátio do professor Léo e recolheram grimpas de araucária e lenha. Na sequência, seguiu-se o processo de sapeco e encarijamento. Estas duas últimas etapas ocorreram com a adesão massiva da comunidade kaingang, movimento que contagiou os participantes da atividade – afinal, a carijada é um método tradicional de origem indígena, e o interesse da aldeia acabou por demonstrar a potência da ação. A erva foi, em fim, colocada no carijo para receber o calor de um fogo de brasa até próximo das 12h do dia seguinte. Após, foi cancheada, pilada, moída e distribuída. No total, o evento recebeu cerca de 20 inscritos, além de dez pessoas da equipe de produção, bem como a participação da comunidade kaingang e dos servidores do ICMBio, totalizando cerca de 50 participantes. Participaram desde bebês de colo e crianças até anciãs e anciões, cada um contribuindo segundo as suas possibilidades. Graças ao trabalho coletivo, o resultado foi uma carijada histórica. A estrutura do carijo foi mantida na FLONA para fins de educação sociambiental pelo ICMBio. Os galhos mais grossos foram encaminhados para famílias da Kógünh Mág e serão aproveitados como lenha. Os galhos mais finos, que sairam no cancheamento, seguiram a diversas mãos para serem aproveitados ou como chá-mate ou curtidos com cachaça. Os viventes voltaram, então, felizes para suas cidades: Porto Alegre, São Lourenço do Sul, São Francisco de Paula, Passo de Torres e Panambi. Outros permaneceram em Canela. Destes, é provável que alguns devam estar estranhando a calmaria na aldeia e na floresta, mas gerando um certo alívio da equipe da produção, que constantemente pedia por taquaras ou eucaliptos a serem manejados, ou por ferramentas a serem emprestadas. Também, certamente, ficou a saudade dos encontros, das prosas, das reflexões, do alimento compartilhado, feito sobre um fogão campeiro construído em uma clareira, das novas amizades ou reencontros inesperados. Estamos, desde então, relembrando dos bons momentos e saboreando o doce amargo de uma erva carregada de tantas histórias. Fica difícil não se perguntar: quando será a próxima? (em breve!) A atividade integra o Projeto “Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre – Um ano de programação na Comuna do Arvoredo (e mais)”, contemplado pelo Edital Sedac n° 25/2024 PNAB – RS, realizado pelo Coletivo Catarse – Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre. Texto: Bruno PedrottiEdição: Anahi FrosFotos:@coletivocatarseAmallia Brandolff – @amalliabrandolffBilly Valdez – @billy.valdezFuá – @marcielysalvadorKokoj (Roberta)Luís Gustavo – @libredasilva

DEATH TO ALL em Porto Alegre

Estivemos em mais uma cobertura de show “pesado”, desta vez em parceria com o portal REBEL ROCK, registrando o show da banda DEATH TO ALL, no BAR OPINIÃO em Porto Alegre/RS, com produção: Abstratti Produtora/Overload. Confira texto completo de José Henrique Godoy clicando aqui: DEATH TO ALL – 20/01/2026 – BAR OPINIÃO – PORTO ALEGRE/RS. Confira álbum completo de fotos por Billy Valdez do Coletivo Catarse.

Uma experiência chamada Octopoulpe

Eis que no último dia 08 de dezembro, sim numa segunda – feira, um artista muito “louco” no bom sentido, desembarcou em Porto Alegre e realizou sua segunda passagem na cidade, presenteando quem compareceu no CAOS bar com um espetáculo indescritível. Imagine “um polvo”, agora imagine, uma bateria, um telão, projetor, luzes e músicas extremas com uma banda com umas 6 a 8 pessoas que vão do Jazz ao metal, do rock ao hardcore-punk e tudo isso sendo controlado e tocado por apenas UMA pessoa, isso mesmo um único indivíduo, o Octopoulpe um artista francês, que reside na Coreia e circula pelos “mares” agraciando os undergrounds locais com sua arte visual e sonora. Octopoulpe apresenta uma fusão da música com elementos visuais com uma maestria hipnótica, luzes sincronizada com as batidas e movimentos, edições de vídeo divertidas e muito criativas e algumas vezes imagens do próprio público sendo manipulada ao vivo por ele, tudo isso ao som de muita música pesada autoral e na maioria das vezes extrema, e ao mesmo tempo que ele controla tudo isso, vídeo, luz, projeção ele ainda toca bateria incansavelmente com uma máscara de polvo e uma sunga. Segundo seu site ele se intitula “Geek-Core / Hardcore-Punk with interactive videos” e formou este projeto que já percorreu o mundo em 2015, ao total, Octopoulpe já soma mais de 12 turnês internacionais acumulando mais de 1200 apresentações, incluindo grandes festivais e palcos singelos do undergrounds como o CAOS bar. Você pode conhecer mais sobre o artista no seu site no link abaixo. Site: https://iamoctopoulpe.com/ Instagram: https://www.instagram.com/p/DR2VT2gDueT/ Mas a noite de segunda não contou só com Octopoulpe quem esquentou e preparou o palco foram as bandas, No Gracias, Lençol de Mosca e Diokane e a organização e acolhida do multi artista Octopoulpe é do Juliano Bikeage. Segue a cobertura fotográfica feita por Billy Valdez, fotos da banda Diokane por Mariana Della Giustina.

Sombras na Pele na ACERGS

por Lorena Sánchez No dia 26 de novembro vivi uma reverberante experiência: um encontro entre luz, sombra e diferentes formas de perceber o mundo. Estive na Associação de Cegos do RS (ACERGS), no Centro Histórico de Porto Alegre, acompanhando a atividade Sombras na Pele, realizada pela Cia Teatro Lumbra, junto de Alexandre Fávero, Têmis Nicolaidis e Fabiana Bigarella, com a presença de Débora de Aranha Haupt, ativista dos direitos das pessoas com deficiência e audiodescritora, e mais de trinta pessoas com diferentes níveis de baixa visão e cegueira.  Logo ao chegar, senti aquela hesitação tão comum de quem enxerga: como me aproximar? como oferecer ajuda sem invadir?  Mas bastaram poucos minutos para entender que essa dúvida é mais nossa que deles, e que o contato humano, quando guiado pelo respeito, se dá com naturalidade. Simples assim.  O grupo foi recebido pela Cia Lumbra e numa primeira instância percorreu um caminho sensorial que começava nos materiais de divulgação (um cartaz elaborado em 3D) e seguia pelos objetos de cena do espetáculo Criaturas da Literatura, pelas texturas, pelas formas e pela vibração quente das lâmpadas. A cada descoberta, percebia-se uma alegria lúdica. A percepção de que o teatro pode, sim, ser vivido plenamente por quem não vê, desde que se prepare o terreno com cuidado, parecia iluminar o rosto e a voz de cada participante.  Por fim, assistimos juntos ao espetáculo, desta vez com audiodescrição aberta realizada pela Déborah. Para mim, que aí estava para captar imagens do acontecimento, esse momento foi revelador. Ver o público vidente e não vidente compartilhando a mesma trilha verbal, sem aparelhos que isolam, como por exemplo fones de ouvido, tão comuns de serem usados quando é oferecida a audiodescrição em alguns espetáculos. E nesse olhar, me fez surgir uma pergunta simples: por que não tornar essa prática padrão sempre que houver acessibilidade? Por que não criar sessões verdadeiramente coletivas, em que todos vivenciam a mesma atmosfera?  Depois da apresentação, uma conversa sincera preencheu a sala. Escutei relatos marcantes: pessoas que perderam a visão de repente, na vida adulta, e precisaram reinventar tudo; memórias duras, mas também um desejo enorme de seguir, de encontrar novas maneiras de existir no mundo. Houve quem narrasse superações diárias, pequenas vitórias que passam despercebidas para quem vê, mas que ali ganhavam tamanho de monumento.  O terceiro momento da experiência, foi particularmente tocante: a Cia Lumbra confeccionou um dispositivo tátil que permitiu que as pessoas compreendessem a diferença entre tamanhos do real e da sombra. É difícil explicar em palavras: era como se, pelas mãos, se abrisse uma janela para um fenômeno que muitos de nós nunca questionamos. Ali, a sombra deixava de ser apenas uma sensação para virar imagem, distância, volume, uma outra forma de perceber e ver.  O que ficou desse dia foi o acolhimento. Dos artistas, dos profissionais, dos professores da instituição, de todos os participantes. Um ambiente que convidava à troca, ao cuidado e ao aprendizado mútuo.  Saí de lá com a impressão de que a acessibilidade, mais do que um recurso técnico, é uma forma de convivência. Uma escolha cotidiana de ampliar mundos e, ao mesmo tempo, abrir o nosso próprio. E com a vontade, que sei não ser só minha, de continuar criando experiências que unem arte, sensorialidade e inclusão de maneira viva, honesta e partilhada. A atividade integra o projeto  25 anos da Cia Teatro Lumbra,que foi contemplado pelo Edital SEDAC nº 26 /2024 Política Nacional Aldir Blanc (PNAB – RS).

15 anos de Heavy Metal

A banda Mortticia natural da cidade de Alegrete/RS, no último dia 15 de novembro celebrou seus 15 anos de tragetória na 6ª edição do MORTTFEST, festival que a própria banda sustenta anualmente para fortalecer parcerias, fazer novas amizade e dispor de um evento com qualidade estrutural para as bandas da cena underground se apresentarem e está última edição aconteceu no Nosso Tap Room no 4º distrito em Porto Alegre. Além do show da anfitriã que embalou em alto, bom som e posicionamento politico com seu repertório com sons do álbum A Light In The Black e seus últimos singles lançados Mother (2024) e Mistakes (2025), na finaleira do set a música Life Is On (One Flower) contou com a participação de Tom Zinsky vocalista da banda It’s all Red. Mas a noite não foi só da Mortticia ela foi recheada com muito som pesado de diversos subgêneros do Metal, com shows das bandas. The Truck on Fire’s Band, com um autêntico Heavy n’ Roll: peso, swing e ironia, com o timbre de vocal lembrando muito Type O Negative. A banda Código Penal com seus 25 anos misturando rap, hardcore/metal e muita consciência social em suas letras. E fechando a noite quem ferveu o palco foi a banda Exequator, banda de Bagé/RS fortalecendo o intercâmbio entre as cenas underground do estado executando com grande maestria seu metal com variações de rock progressivo direto do extremo sul do estado. Mas o MORTTFES não foi só show de Metal. Teve ainda merch das bandas e mais banca da blackbag666, chaveiros.horror e flash tattoo com a carollunard. O evento foi uma realização da @defendersoftherage com apoios da Back In Black , Chaveiros Horror, Estúdio José Florêncio, Ethnos Rock, O Subsolo , Open Stage e Hell Yea Music Company. Segue aquele álbum com fotos de Billy Valdez do Coletivo Catarse. Esta cobertura foi em parceria com o portal O’Subsolo.

Centro Ecológico: 40 anos em defesa da agroecologia

A primeira entidade privada sem fins lucrativos no Rio Grande do Sul a prestar assessoria a produtores rurais exclusivamente com foco em agricultura ecológica, e que tem estreita ligação com o surgimento de diversas feiras no estado, acaba de completar 40 anos. Passadas quatro décadas, o Centro Ecológico (CE) continua a acompanhar de forma direta e sistemática mais de 80 grupos de agricultores familiares. A data foi celebrada com uma vasta programação, conferida de perto pelo Coletivo Catarse. Uma grande estrutura foi montada junto à Paróquia São Luiz Rei, em Ipê, a Capital Nacional da Agroecologia e sede do CE, reunindo, nos dias 25 e 26 de outubro, centenas de pessoas e iniciativas ligadas a essa caminhada. Técnicos, famílias de agricultores, professores, ambientalistas e consumidores de orgânicos, principalmente de Porto Alegre, prestigiaram os dois dias de atividades. A Organização da Sociedade Civil (OSC) atua desde 1985 na Serra gaúcha e no Litoral Norte, viabilizando, desde então, avanços sustentáveis no contexto da agroecologia e da produção agrícola com base conservacionista. Mas é preciso puxar alguns fios dessa história antes de falarmos dos êxitos da iniciativa. Vivemos tempos onde plantar sem o uso de agrotóxicos e adubos químicos não é mais visto por uma sufocante maioria como coisa de sonhadores ou até mesmo “malucos”, como eram taxados os produtores brasileiros que passaram a adotar práticas ecológicas nas lavouras na década de 1980. A visão predominante na época do surgimento do CE era de que a agricultura “moderna” seria a única forma viável e eficiente de produzir alimentos em larga escala. E sair dessa lógica era estar fadado ao fracasso. Relembrando esse período e citando o filósofo Arthur Schopenhauer, o professor Alberto Bracagioli Neto, do Departamento de Horticultura e Silvicultura da Faculdade de Agronomia, de Licenciatura em Educação no Campo e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR-UFRGS), exemplifica: “A verdade passa por diversas fases. Primeiro a agricultura ecológica, como se chamava na época, foi ridicularizada. Depois, ela é duramente contestada, durante muito tempo, pela força do agronegócio. E a terceira fase, que é considerada a mais clara em evidências, por conta de todos os problemas ambientais e climáticos do planeta que estamos vivendo, tem mostrado que a agroecologia não é uma alternativa: ela é a alternativa para termos futuro. O Centro Ecológico foi a grande cunha que abriu esse tema, demonstrando, na prática, que era possível sim uma agricultura sem utilização de insumos químicos. E hoje, cada vez mais, existem evidências, teses de mestrado e doutorado a respeito dessas evidências”. Contrapondo a ordem estabelecida A trajetória do Centro Ecológico começa em meio a uma ebulição política e socioeconômica, um período de intensas contradições e conflitos no meio rural brasileiro. A propagandeada modernização agrícola implementada pelo Regime Militar dentro da falaciosa Revolução Verde – calcada no uso intensivo de fertilizantes sintéticos, agrotóxicos, sementes transgênicas e maquinário agrícola – dependia fortemente de financiamentos estatais, que também foram afetados pela crise do “milagre econômico”. Foi no mesmo ano que surgiu a União Democrática Ruralista (UDR), entidade criada para representar grandes proprietários rurais como resposta ao Plano Nacional de Reforma Agrária e em enfrentamento ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), nascido um ano antes. Na contramão dos impactos socioambientais negativos desse cenário, que começaram a tornar latentes a degradação do solo, a poluição da água e do ar, a perda de biodiversidade devido à monocultura, a concentração de terras e a exclusão de pequenos agricultores que, incentivados pelo crédito fácil, endividaram-se pesadamente para adquirir o pacote tecnológico, além de apresentarem problemas de saúde associados ao uso de químicos, a inquietude de uma jovem agrônoma, que mudou o curso de sua própria história, impulsiona o início do que viria a ser o Centro Ecológico. Filha e neta de pecuaristas, Maria José Guazzelli entrou no curso de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1973, tendo se graduado em 1977. “Era o boom da soja, calendário para o uso de venenos e adubos, e aquilo me desestimulou muito a seguir pelo caminho da agricultura”, conta. Ainda antes de se formar, no início de 1974, ela fez um primeiro curso sobre Pastoreio Voisin – método intensivo de pastejo que busca o equilíbrio entre o solo, a pastagem e o gado, aumentando os índices de produtividade e melhorando o bem-estar animal, resultando em uma produção mais sustentável e de baixo custo – com o professor Luiz Carlos Pinheiro Machado. Uma das aulas foi sobre vida no solo, ministrada pelo agrônomo José Lutzenberger. “Aquilo abriu uma outra perspectiva pra mim em termos de tudo, mas ainda muito focada na pecuária”, recorda. Maria José foi para a França em 1978 fazer um mestrado em Pecuária. Lá, conheceu a agricultura sem veneno. “Quando larguei minha pós-graduação de produção animal, fui estudar a produção agrícola. Na época, na Europa, era principalmente a biodinâmica a existente. Quando retornei ao Brasil, em 1980, já profissional há alguns anos e com experiência de trabalho em campo, vi o quanto essa agricultura que aqui estava era muito ignorante”. Esse retorno foi o início de uma intensa e transformadora jornada. A profissional participou da elaboração da pioneira, em termos de Brasil, Lei dos Agrotóxicos do Rio Grande do Sul (Lei 7747/82). Aliás, legislação essa alterada pelo atual governador Eduardo Leite em junho de 2021, com a anuência de sua base de governo no Legislativo, liberando o uso no território gaúcho de substâncias proibidas nos países em que são fabricadas. Mas, no passado, a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, presidida pelo então deputado Antenor Ferrari, foi quem abriu espaço para essas discussões inovadoras, conforme destaca Maria José. “Não podíamos fazer esse debate fora de um lugar que não fosse seguro porque a ditadura corria solta ainda. Sempre que discutíamos que era viável produzir sem veneno, dentro das argumentações para a criação da lei, nos diziam que isso era impossível. Foi aí que resolvemos, um grupo de técnicos e técnicas, mostrar que era possível”, recorda. Veio dessa negativa o impulso para …

Encontro de Culturas Periféricas reúne cerca de 300 pessoas para debater arte e democracia na Feira do Livro de Porto Alegre

No dia 8 de novembro, o Coletivo Catarse esteve fazendo a transmissão ao vivo do evento. Centenas de pessoas se reuniram para conferir uma programação diversificada, mesclando debates com poesia, literatura e música, em evento organizado pelo Comitê de Cultura no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Ao longo de todo o sábado (8), estiveram presentes no Espaço Jovem Banrisul, na 71ª Feira do Livro de Porto Alegre, nomes como Manuela d’Ávila, do Instituto “E Se Fosse Você?”, Winnie Bueno, pesquisadora e ativista antirracista, Denise Pessôa, deputada e presidente da Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, Susana Kaingang, jurista, advogada, educadora e pesquisadora indígena e Richard Serraria, compositor, pesquisador sopapeiro e poeta, Rafa Rafuagi, rapper e gestor do Museu do Hip Hop RS e Negra Jaque, rapper, gestora do Galpão Cultural, secretária do Hip-Hop no RS e escritora. (…) – texto do site do MinC, leia a íntegra, acesse aqui.

Quilombo Vila Nova lança Protocolo de Consulta no Fórum dos Quilombos do Litoral Médio

Na quinta, 16 de outubro, a comunidade quilombola Vila Nova, no distrito do Capão do Meio, São José do Norte/RS, promoveu o lançamento do seu Protocolo de Consulta Livre, Prévia e Informada. Realizado ao longo do Fórum dos Quilombos do Litoral Médio, o evento teve a presença de lideranças das comunidades que compõem o fórum. O documento busca garantir os direitos da comunidade frente aos megaempreendimentos que tentam se instalar no território. Entre as ameaças estão o projeto Atlântico Sul de mineração de titânio e os parques eólicos Ventos do Atlântico e Complexo Eólico Bojuru. Os quilombolas denunciam que não foram consultados em relação a nenhum destes empreendimentos. Destacam ainda que, de acordo com a Convenção 169 da Organização internacional do trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário, os povos e comunidades tradicionais precisam ser consultados sobre questões que afetem seus territórios.   Entre as mais de 100 pessoas presentes, estiveram também a  vice-prefeita de São José do Norte, Vanessa Oliveira (PP), Jorge Amaro, Vereador pelo município vizinho de Mostardas. A atividade teve a entrega do documento impresso e uma exibição da versão em vídeo, além de apresentações de manifestações culturais típicas da região como o Terno de Reis e o Ensaio de Pagamento de Promessas com Luis Faustino e o grupo cultural do quilombo Vovô Virgilino.  As oficinas, a pesquisa e a edição do audiovisual foram realizados com apoio do Fundo Casa Socioambiental. A versão impressa do documento recebeu apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos por meio do projeto Quilombo Vila Nova: Organização e Soberania na Defesa do Território contemplado na chamada Vozes por Direitos e Justiça pela associação da comunidade tendo o Coletivo Catarse como organização parceira. Já o evento de lancamento na comunidade fez parte do projeto Quilombo Vila Nova recebe o Fórum Quilombola do Litoral Médio contemplado na PNAB de São José do Norte na categoria Eventos Tradicionais. Texto: Bruno PedrottiFotos: Giulia Sichelero

“Os Cães que ladram será que vão parar?”

No último sábado, dia 4 de outubro de 2025 o Planet Hemp realizou seu último show em 30 anos de estrada aqui na cidade de Porto Alegre, após anunciar o fim das atividades a banda esta em tour com a “Última Ponta” circulando pelo Brasil.E pensar que ano passado eu vi meu primeiro show do PH (pode acessar a cobertura aqui) e agora em 2025, meu segundo e talvez último? É até difícil acreditar, mas pelo menos tive essa oportunidade de viver dois shows deles, já que eles são uma das bandas responsáveis por me formar e moldar como jovem adolescente “rebelde” e “contra o sistema imperialista” na virada dos anos 90 para os 2000 em Santa Maria, escutava muito eles antes de sair pros rolês de skate.Mas os anos passam o Planet foi e voltou algumas vezes, mas nunca tive a oportunidade de ver eles ao vivo. De adolescente vamos virando jovem “adulto”, adulto “jovem”, o skate não segue mais presente, mas o som e a ideologia ficou encrostada e graças ao caminho que tomei, tive oportunidade de estar nos dois últimos shows e registrar ambos. Mas não vou me alongar. Segue a baixo a cobertura completa realizada em parceria com o portal Scream & Yell e na sequência aquele álbum de fotos completo. “É nosso último show em Porto Alegre e é um dia importante pra caralho. Essa cidade é importante pra gente”, lascou o vocalista Marcelo D2, em algum momento das mais de duas horas de apresentação na capital gaúcha.Para seguir com esta resenha, o escriba parafraseia – e adapta – os sagazes homens-fumaça: acenda um e leia o que eu vou lhe escrever. ‘Dig Dig Dig’ (faixa da qual foi tirada a citação da frase anterior), inclusive, foi a que abriu o show. Clique na imagem para acessar a cobertura com o texto completo de Homero Pivotto Jr, para portal Scream & Yell. Texto introdutório e fotos por Billy Valdez.

Gah Ré reflorestando o morro

Na noite em que nasceu a retomada kaingang do Morro Santana, zona leste de Porto Alegre, em outubro de 2022, a cacica Gah Té defendeu a entrada no território como uma forma de garantir um espaço de moradia para seus filhos e netos e também de proteger as matas e nascentes de água do local. Passados três anos, a comunidade e seus apoiadores conseguiram aprofundar ainda mais o trabalho de preservação. Ao longo de 2025, fizeram o plantio de 400 mudas de 16 espécies nativas diferentes, além de construir um viveiro para armazenar outras 800 mudas e manejar espécies invasoras do território como o pinus e a vassourinha. As ações foram articuladas por meio da rede da Teia dos Povos em Luta no RS. Por meio desta aliança, foi possível adquirir mudas do Assentamento Filhos de Sepé, do Movimento Sem Terra (MST), em Viamão (RS) e ainda do Viveiro Gasparetto, de de Erval Grande. Indicado pelos parceiros da Seiva Rebelde, o viveiro faz um trabalho de proteção das matrizes nativas de erva mate do Alto Uruguai, trabalhando com mais de 20 matrizes diferentes da ilex paraguariensis na região. Vale citar ainda a parceria do grupo de extensão da UFRGS Preserve Morro Santana, que mobilizou uma doção de 800 mudas da Cooperativa de Transporte Transpocred. A rede foi fundamental também para articular os mutirões, principal tecnologia ancestral para a realização do projeto. Porém, nos momentos em que chuvas persistentes aos finais de semana impediram a junção de um número maior de pessoas, a saída foi agilizar os “mutirinhos”. Esta adaptação foi necessária e permitiu seguir caminhando, mesmo que com menos gente. Em tardes de sol que antecederam as tormentas, grupos de quatro ou cinco pessoas saiam da aldeia com ferramentas, terra preta e um balaio repleto de mudas. Pais e filhas plantavam juntos e, entre uma enxadada e outra, proseavam, contavam piadas, riam e sonhavam com um Morro Santana mais biodiverso. Conforme as mudas iam retomando a terra, era reflorestado também o imaginário, com o resgate de um tempo em que a maior cordilheira granítica da cidade tinha mais animais nativos e menos prédios. Tinha muito bicho, até veado tinha aqui no morro! Lembrou Karindé, coordenador do plantio, que se relaciona com a região há mais de 30 anos. Em outra ocasião, enquanto plantava araçás, lembrou que os bugios gostavam de descer das matas e comer as frutas em uma parte do morro que, infelizmente, já foi destruída. Os primatas, aliás, que seguem vivendo na região, eram lembrados com frequência nos momentos de plantio: “Quando elas tiveram dando frutas, os bugios vão todos descer pra cá, pra os lados da aldeia” dizia Karindé. Não por acaso, a maioria das espécies escolhidas para o reflorestamento foram espécies frutíferas. Priorizar plantas que pudessem alimentar os animais do morro foi uma demanda de Gah Té desde o início. Além dos macacos, já foram avistados ouriços, tatus e uma diversidade de aves. As aracuãs – pássaros nativos parecidos com galinhas pretas que andam pelo topo das árvores – foram presença quase constante na comunidade ao longo dos encontros e mutirões. Além dos animais, os plantios foram pensados também nas pessoas. A pedido da cacica, uma das mais plantadas foi a erva-mate, com pelo menos cem mudas incorporadas na agrofloresta da aldeia, nas matas, e também em um erval implementado em um dos mutirões. A árvore símbolo do Rio Grande do Sul também é muito valorizada pelos kaingang, não apenas pelo consumo do chimarrão, mas também por seu uso medicinal e espiritual em batismos e benzeduras. O processo foi todo orientado pela sabedoria kaingang em diálogo com práticas agroecológicas. Os plantios foram realizados a partir do final de agosto, respeitando o “descanso” dos meses mais frios, nos quais segundo Gah Té, é melhor evitar mexer no solo. A partir deste encontro de saberes foram surgindo memórias adormecidas da aldeia grande. Quando a ilex foi incorporada numa parte da agrofloresta em que geralmente se cultiva o milho, a cacica sorriu e lembrou: “Não tem problema, as duas se dão bem, quando meu pai plantava erva-mate, pedia para plantarmos milho junto. Só não pode é plantar com a abóbora, que vai se espalhando por cima e não deixa a erva crescer”. Por sua vez, os apoiadores articulados pela rede da Teia dos Povos também tiveram a chance de compartilhar seus conhecimento ligados à agroecologia. O feijão Guandú, por exemplo, plantado nos espaços do reflorestamento, contribuirá não só com a alimentação, mas também na adubação verde. A espécie ajuda a fixar nitrogênio no solo (mineral importante para a maioria dos cultivos), além de manter a umidade, fornecer sombra temporária e impedir o avanço de espécies invasoras sobre as mudas nativas em adaptação. Outra novidade foi o viveiro, vital para armazenar as mudas até o próximo ano depois do final do tempo de plantio. Distribuir as espécies nativas entre os territórios parceiros e começar a dar os primeiros passos na produção própria de mudas para recuparar a aldeia, o morro e tantos outros territórios quanto possível é outro ponto importante do projeto para educação ambiental. A estrutura, construída utilizando também a madeira dos pinus manejados, tem ainda uma composteira, para que a comunidade possa produzir o próprio adubo orgânico a partir das sobras dos alimentos. A construção foi um dos grandes desafios enfrentados pelo projeto, ja que o local escolhido para dar uso a um local da aldeia era bem úmido e no qual o lixo por vezes acabava se acumulando. Assim, passaram mutirões de limpeza, aterro e organização de canais e caminhos para que a água do morro seguisse seu curso e fortalecesse outra área de banhado ao lado. Novamente, por meio de encontros coletivos, foi possível levantar a estrutura, contornando ciclones, chuvas e frio intensos e seguir avançando mesmo com a equipe reduzida, o que por vezes facilitou ainda o processo de coordenação da equipe de obra. “O ideal para uma obra são três pessoas, um pedreiro e dois auxiliares. Porque aí o pedreiro tem duas pessoas …