“Os Cães que ladram será que vão parar?”

No último sábado, dia 4 de outubro de 2025 o Planet Hemp realizou seu último show em 30 anos de estrada aqui na cidade de Porto Alegre, após anunciar o fim das atividades a banda esta em tour com a “Última Ponta” circulando pelo Brasil.E pensar que ano passado eu vi meu primeiro show do PH (pode acessar a cobertura aqui) e agora em 2025, meu segundo e talvez último? É até difícil acreditar, mas pelo menos tive essa oportunidade de viver dois shows deles, já que eles são uma das bandas responsáveis por me formar e moldar como jovem adolescente “rebelde” e “contra o sistema imperialista” na virada dos anos 90 para os 2000 em Santa Maria, escutava muito eles antes de sair pros rolês de skate.Mas os anos passam o Planet foi e voltou algumas vezes, mas nunca tive a oportunidade de ver eles ao vivo. De adolescente vamos virando jovem “adulto”, adulto “jovem”, o skate não segue mais presente, mas o som e a ideologia ficou encrostada e graças ao caminho que tomei, tive oportunidade de estar nos dois últimos shows e registrar ambos. Mas não vou me alongar. Segue a baixo a cobertura completa realizada em parceria com o portal Scream & Yell e na sequência aquele álbum de fotos completo. “É nosso último show em Porto Alegre e é um dia importante pra caralho. Essa cidade é importante pra gente”, lascou o vocalista Marcelo D2, em algum momento das mais de duas horas de apresentação na capital gaúcha.Para seguir com esta resenha, o escriba parafraseia – e adapta – os sagazes homens-fumaça: acenda um e leia o que eu vou lhe escrever. ‘Dig Dig Dig’ (faixa da qual foi tirada a citação da frase anterior), inclusive, foi a que abriu o show. Clique na imagem para acessar a cobertura com o texto completo de Homero Pivotto Jr, para portal Scream & Yell. Texto introdutório e fotos por Billy Valdez.

Gah Ré reflorestando o morro

Na noite em que nasceu a retomada kaingang do Morro Santana, zona leste de Porto Alegre, em outubro de 2022, a cacica Gah Té defendeu a entrada no território como uma forma de garantir um espaço de moradia para seus filhos e netos e também de proteger as matas e nascentes de água do local. Passados três anos, a comunidade e seus apoiadores conseguiram aprofundar ainda mais o trabalho de preservação. Ao longo de 2025, fizeram o plantio de 400 mudas de 16 espécies nativas diferentes, além de construir um viveiro para armazenar outras 800 mudas e manejar espécies invasoras do território como o pinus e a vassourinha. As ações foram articuladas por meio da rede da Teia dos Povos em Luta no RS. Por meio desta aliança, foi possível adquirir mudas do Assentamento Filhos de Sepé, do Movimento Sem Terra (MST), em Viamão (RS) e ainda do Viveiro Gasparetto, de de Erval Grande. Indicado pelos parceiros da Seiva Rebelde, o viveiro faz um trabalho de proteção das matrizes nativas de erva mate do Alto Uruguai, trabalhando com mais de 20 matrizes diferentes da ilex paraguariensis na região. Vale citar ainda a parceria do grupo de extensão da UFRGS Preserve Morro Santana, que mobilizou uma doção de 800 mudas da Cooperativa de Transporte Transpocred. A rede foi fundamental também para articular os mutirões, principal tecnologia ancestral para a realização do projeto. Porém, nos momentos em que chuvas persistentes aos finais de semana impediram a junção de um número maior de pessoas, a saída foi agilizar os “mutirinhos”. Esta adaptação foi necessária e permitiu seguir caminhando, mesmo que com menos gente. Em tardes de sol que antecederam as tormentas, grupos de quatro ou cinco pessoas saiam da aldeia com ferramentas, terra preta e um balaio repleto de mudas. Pais e filhas plantavam juntos e, entre uma enxadada e outra, proseavam, contavam piadas, riam e sonhavam com um Morro Santana mais biodiverso. Conforme as mudas iam retomando a terra, era reflorestado também o imaginário, com o resgate de um tempo em que a maior cordilheira granítica da cidade tinha mais animais nativos e menos prédios. Tinha muito bicho, até veado tinha aqui no morro! Lembrou Karindé, coordenador do plantio, que se relaciona com a região há mais de 30 anos. Em outra ocasião, enquanto plantava araçás, lembrou que os bugios gostavam de descer das matas e comer as frutas em uma parte do morro que, infelizmente, já foi destruída. Os primatas, aliás, que seguem vivendo na região, eram lembrados com frequência nos momentos de plantio: “Quando elas tiveram dando frutas, os bugios vão todos descer pra cá, pra os lados da aldeia” dizia Karindé. Não por acaso, a maioria das espécies escolhidas para o reflorestamento foram espécies frutíferas. Priorizar plantas que pudessem alimentar os animais do morro foi uma demanda de Gah Té desde o início. Além dos macacos, já foram avistados ouriços, tatus e uma diversidade de aves. As aracuãs – pássaros nativos parecidos com galinhas pretas que andam pelo topo das árvores – foram presença quase constante na comunidade ao longo dos encontros e mutirões. Além dos animais, os plantios foram pensados também nas pessoas. A pedido da cacica, uma das mais plantadas foi a erva-mate, com pelo menos cem mudas incorporadas na agrofloresta da aldeia, nas matas, e também em um erval implementado em um dos mutirões. A árvore símbolo do Rio Grande do Sul também é muito valorizada pelos kaingang, não apenas pelo consumo do chimarrão, mas também por seu uso medicinal e espiritual em batismos e benzeduras. O processo foi todo orientado pela sabedoria kaingang em diálogo com práticas agroecológicas. Os plantios foram realizados a partir do final de agosto, respeitando o “descanso” dos meses mais frios, nos quais segundo Gah Té, é melhor evitar mexer no solo. A partir deste encontro de saberes foram surgindo memórias adormecidas da aldeia grande. Quando a ilex foi incorporada numa parte da agrofloresta em que geralmente se cultiva o milho, a cacica sorriu e lembrou: “Não tem problema, as duas se dão bem, quando meu pai plantava erva-mate, pedia para plantarmos milho junto. Só não pode é plantar com a abóbora, que vai se espalhando por cima e não deixa a erva crescer”. Por sua vez, os apoiadores articulados pela rede da Teia dos Povos também tiveram a chance de compartilhar seus conhecimento ligados à agroecologia. O feijão Guandú, por exemplo, plantado nos espaços do reflorestamento, contribuirá não só com a alimentação, mas também na adubação verde. A espécie ajuda a fixar nitrogênio no solo (mineral importante para a maioria dos cultivos), além de manter a umidade, fornecer sombra temporária e impedir o avanço de espécies invasoras sobre as mudas nativas em adaptação. Outra novidade foi o viveiro, vital para armazenar as mudas até o próximo ano depois do final do tempo de plantio. Distribuir as espécies nativas entre os territórios parceiros e começar a dar os primeiros passos na produção própria de mudas para recuparar a aldeia, o morro e tantos outros territórios quanto possível é outro ponto importante do projeto para educação ambiental. A estrutura, construída utilizando também a madeira dos pinus manejados, tem ainda uma composteira, para que a comunidade possa produzir o próprio adubo orgânico a partir das sobras dos alimentos. A construção foi um dos grandes desafios enfrentados pelo projeto, ja que o local escolhido para dar uso a um local da aldeia era bem úmido e no qual o lixo por vezes acabava se acumulando. Assim, passaram mutirões de limpeza, aterro e organização de canais e caminhos para que a água do morro seguisse seu curso e fortalecesse outra área de banhado ao lado. Novamente, por meio de encontros coletivos, foi possível levantar a estrutura, contornando ciclones, chuvas e frio intensos e seguir avançando mesmo com a equipe reduzida, o que por vezes facilitou ainda o processo de coordenação da equipe de obra. “O ideal para uma obra são três pessoas, um pedreiro e dois auxiliares. Porque aí o pedreiro tem duas pessoas …

Um artista em formalização e exposição

Juarez Negrão é um artista plástico, poeta, vivente das artes e da cultura popular. Um cidadão que circula bastante entre Novo Hamburgo e Porto Alegre, trafegando pelos trilhos do trem, viajando para além dos limites municipais, tem encontrado ancoragem neste grande espaço de acolhimento que é a Comuna do Arvoredo, especificamente nos empreendimentos que ali habitam – o Coletivo Catarse/Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre e a Maria Maria Espaço Cultural. Nessa trajetória, entre conversas, mostruários de xilogravuras e esculturas para a venda e subsistência do artista, rolou a conexão entre o Coletivo e a arte de Juarez, de formas e cores que traduzem as influências de matriz africana em meio à urbanidade da Grande POA. “A temática presente na produção do artista se aproxima das coisas que são tratadas desde cedo pelo Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre, que já teve como artista residente o grande Paulo Montiel, pintor dos orixás, e que temos telas de seu acervo sob nossa responsabilidade. Dessa forma, foi feito e aceito o convite para que ele, Juarez, seja nosso parceiro nessas e outras empreitadas. Estamos comemorando isso e também o fato de que, para melhor atender as necessidades da vida burocrática que envolvem também o ofício da arte, conseguimos auxiliar ele a concluir a etapa de sua formalização como um MEI. Parece pouco, mas isso ajuda o artista a receber diretamente de projetos culturais, fazer os seus próprios projetos, receber de contratos com entes públicos, vendas de seu trabalho, entre várias outras coisas. De pão, vinho e muito mais vive o homem e o artista. Que daqui pra frente seja sempre mais!” – é o que reflete Marcelo Cougo, um dos historicamente responsáveis pelo Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre no Coletivo Catarse. Desde o dia 14 de setembro, está acontecendo a Exposição Diáspora, de Juarez Negrão, no Ponto de Cultura Casa da Praça, que fica na Rua Cacequi, 19, bairro Boa Vista, em Novo Hamburgo – com entrada gratuita. A exposição fica aberta até o dia 14 de outubro, nas quartas-feiras, das 18h30 às 22h, e, nas quintas-feiras, das 9h às 12h e 13h às 18h. Também é possível agendar visitação em outros horários pelo telefone (51) 99243.7730. A Galeria Casa da Praça apresenta o trabalho autoral do artista plástico Juarez Negrão, morador de Novo Hamburgo, residente da Casa da Praça e aluno da Escola Municipal de Artes Carlos Alberto de Oliveira. Na exposição “Diáspora”, através da história, ancestralidade e cultura afro-brasileira, Juarez apresenta um universo negro, de rica cultura e resistência, com técnicas como pintura, escultura e xilogravura. A seguir, algumas fotos da exposição realizadas por Billy Valdez, quando da inauguração em 14 de setembro. O apoio ao artista plástico Juarez Negrão é também parte do projeto “Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre – Um ano de programação na Comuna do Arvoredo (e mais)”, que foi contemplado pelo Edital Sedac n° 25/2024 Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) – RS – Cultura Viva. Estão previstas a produção de telas e exposição dos trabalhos de Juarez na sede do Ponto.

Quilombo Vila Nova reafirma sua soberania

Lideranças quilombolas lançaram seu Protocolo de Consulta Livre Prévia e Informada na Sala Redenção, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O documento, disponível nos formatos de vídeo e texto, busca fazer com que a vontade da comunidade seja respeitada em processos que possam afetar o território, garantindo o direito assegurado pela Convenção 169 da OIT, tratado internacional do qual o Brasil é signatário. O evento ocorreu na quarta-feira, 10 de setembro. A comunidade vem denunciando que seu direito à consulta, consentimento e mesmo de veto vem sendo sistemáticamente violado por 6 grandes empreendimentos. Entre as ameaças estão a mineração em larga escala de titânio por meio do Projeto Retiro – primeira fase do projeto Atlântico Sul, que visa minerar quase toda a área do município de São José do Norte – que recentemente recebeu a licença de instalação (LI). Além da mineração, os quilombolas do Litoral Médio (faixa que vai de Osório até a foz da Laguna dos Patos) também denunciam os megaparques eólicos que pretendem se instalar na região à revelia dos povos tradicionais. O complexo eólico Bojuru propõe 113 aerogeradores, segundo os estudos da empresa a menos de 10km da comunidade e já tem a Licenç Prévia (LP). Ainda mais ambicioso é o Complexo Eólico Ventos do Atlântico com 290 geradores. O megaprojeto também já tem a primeira das três licenças ambientais, mesmo que muitos dos seus 15 mil hectares disputados estejam sobrepostos ao território do Quilombo Vila Nova. Projetos altamente polêmicos entre pesquisadores e ambientalistas também completam a lista de ameaças enfrentadas. Outros dois parques eólicos ameaçam as águas que cercam a comunidade, intencionando implantar complexos eólicos dentro do mar e da laguna dos patos. Por fim, a comunidade vem sofrendo com as monoculturas de pinus, que vem invadindo o território nas últimas décadas, reduzindo áreas de cultivo e criação de animais. Para enfrentar estas ameaças e garantir seu direito de decidir sobre ações que impactam seu território, os quilombolas elaboraram junto de apoiadores um Protocolo de Consulta Livre, Prévia e Informada. O documento, produzido com apoio de uma equipe de pesquisa em geografia e biologia a partir de quatro oficinas na comunidade, traz cada um dos passos que deve ser tomado caso se deseje realizar algo que possa impactar o quilombo. Reforçando que empresas e empreendedores não tem o direito de entrar no território, o texto produzido coletivamente enfatiza: Só aceitamos que a consulta seja realizada pelo estado brasileiro por meio dos órgãos específicos para tal, como o Instituto Nacional de Reforma Agrária (Incra) e a Fundação Cultural Palmares (FCP). Para garantir que os órgãos responsáveis tomassem ciência do documento, foram convidadas e estiveram presentes no evento representantes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Ministério Público Federal (MPF), Conselho Estadual de Direitos Humanos (CEDH-RS), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SJCDH/RS). Após a exibição do protocolo audiovisual, foi feita a entrega das primeiras edições do documento impresso para as autoridades presentes. O evento de lançamento, que teve 120 participantes, fez parte do Ciclo Cineciência “Raízes Vivas e Horizontes Ancestrais: a terra é o coração do Corpo” e foi a última exibição da série de encontros realizados na Sala Redenção Campus Centro da UFRGS. O Museu da universidade está sediando a exposição homônima, com fotos do Vila Nova e outras comunidades tradicionais como o Quilombo do Morro Alto em Osório e aldeias guarani e kaingang. O protocolo foi o primeiro documento audiovisual do gênero lançado no estado do Rio Grande do Sul. Entre as comunidades quilombolas, outras duas já tinham protocolos escritos, o Quilombo Morada da Paz (Triunfo) e o Quilombo do Morro Alto (Osório). O documento impresso terá ainda um lançamento na própria comunidade ao longo do Fórum dos Quilombos do Litoral Médio, importante espaço de articulação que reúne as 10 comunidades da região. As oficinas de elaboração do documento bem como a produção do vídeo foram realizadas com apoio do Fundo Casa Socioambiental. As ilustrações, diagramação, impressão e os eventos de lançamento da obra impressa estão sendo realizados com apoio do Fundo Brasil de Direitos humanos por meio do projeto Quilombo Vila Nova: Organização e Soberania na Defesa do Território contemplado na chamada Vozes por Direitos e Justiça pela associação da comunidade tendo o Coletivo Catarse como organização parceira. Texto: Bruno PedrottiFotos: Beto RodriguesMapa: Giulia Sichelero e Júlia Ilha – NEGA/UFRGS

Um mundo em uma caixa

Entre os dias 10 e 16 de agosto, no Ponto de Cultura Vale Arvoredo, em Morro Reuter, aconteceu o retiro artístico RETIRAMBE – um encontro de imersão artística de Teatro Lambe Lambe. Durante os 7 dias, foram criadas histórias que coubessem em uma caixa, em que um espectador torna-se uma plateia inteira. A delicadeza de uma dramaturgia em miniatura contrasta com as potentes possibilidades que este tipo de linguagem poética pode atingir. O retiro teve condução de Denise Di Santos, considerada uma das cocriadoras do Lambe. Ao final, no sábado, uma apresentação coletiva, com “casa cheia” em cada espetáculo – mais de uma vez! – e a participação de Ubiratan Carlos Gomes, com sua viola caipira, trazendo trilha sonora ao vivo e contos de sua carreira como criador do grupo Anima Sonho de teatro de bonecos, juntamente a seu irmão Tiarajú Carlos Gomes. Registros por Têmis Nicolaidis, nesta visita que o Coletivo Catarse/Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre fez no dia 16.

Trapos e Farrapos – Negrinho resgata ancestralidade

O grupo de teatro Trupi di Trapu está em cartaz com o espetáculo Trapos e Farrapos – Negrinho dentro das celebrações de seus 17 anos de trajetória. A peça infantojuvenil conta a lenda de Negrinho do Pastoreiro, bastante popular no folclore da Região Sul do Brasil – um conto clássico da oralidade cuja origem se dá no século XIX e é associada ao fim do período de escravidão no país. Esta é uma história sobre um menino escravizado que, após ser duramente castigado por seu patrão, recebe um milagre e passa a ser um protetor de objetos perdidos. Uma obra construída e contada de forma lúdica, em alguns momentos divertida, mesclando elementos e técnicas de teatro de sombras, bonecos, danças e cantos, com muito dinamismo, cores e figurinos bem trabalhados e detalhados. Ao mesmo tempo em que conta sobre a escravidão e a crueldade dos senhores de engenho, o espetáculo traz falas contemporâneas, trazendo reflexões sobre o racismo, a exploração do trabalho e abusos de poder por quem o detém – assuntos infelizmente muito presentes na sociedade atual. Outro ponto que chama atenção é que o espetáculo traz elementos da cultura afro para um papel de destaque, de grande presença na história, com o Negrinho seguidamente interagindo com Mãe Oxum – e ela atendendo a seus chamados, ou seja, uma quebra com a visão comumente explorada de pedidos de auxílio à Virgem Maria, por exemplo, claramente descolando-se, portanto, o enredo que envolve o menino da religião católica. Trapos e Farrapos – Negrinho prende a atenção de crianças e adultos, uma imersão cultural rica e divertida que segue em cartaz nos dias 9 e 10, 16 e 17 de agosto, aos sábados e domingos, na Sala Álvaro Moreyra, em Porto Alegre. Após, a peça segue para o Teatro Carlos Carvalho, na Casa de Cultura Mario Quintana, com apresentações marcadas para os dias 22, 23 e 24 de agosto. Segue as redes do grupo para mais informações e novidades. Te programa e vai prestigiar! A Trupi di Trapu e a cultura popular agradecem. – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – A cobertura deste evento integra o histórico apoio do Coletivo Catarse / Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre a este tipo de iniciativa cultural. Grande parte dos ensaios da peça ocorreram na Comuna do Arvoredo, na sede do Ponto. Texto e fotos: Billy ValdezEdição: Anahi Fros FICHA TÉCNICA:Autor: Anderson GonçalvesEncenação: Ajeff Ghenes, Alessandra Souza e YanniksonDireção Artística: Anderson GonçalvesDireção de sombras e figuras: Têmis NicolaidisDireção musical e trilha sonora: Alan BarcelosMúsica “Viajante dos Pampas”: letra de Lorena SanchezVoz em “Pastoreio de Oxum”: Marietti FialhoBonecos, cenário e adereços: Anderson Gonçalves, Mari Falcão e Ajeff GhenesMáscaras: Atelier Lu AntunesFigurinos: Mari Falcão e Ajeff GhenesIluminação: Vigo CigoliniProdução: Trupi di Trapu – Teatro de Bonecos

Saberes das ervas medicinais na Retomada Gah Ré

Na manhã ensolarada do último sábado, dia 26, Dia dos Avós, a Retomada Gah Ré realizou o Encontro de Ervas Medicinais. A comunidade, no Morro Santana, zona leste de Porto Alegre/RS, abriu suas portas para compartilhar com os fóg (não indígenas) um pouco dos saberes da medicina tradicional Kaingang. Depois de uma defumação com refej (erva nativa conhecida como macela, ou marcela, em português) para limpar as energias do ambiente, a cacica, avó e Kuja (curandeira/pajé) Iracema Gãh Té deu as boas vindas aos 30 participantes e explicou como seria a dinâmica do encontro. Kapri, filha da liderança, contextualizou a atividade, realizada em meio a um processo de reflorestamento na aldeia e valorização dos saberes originários de relação com a natureza. “Todo esse trabalho que a gente faz, é tudo pela mãe terra, que nos fortalece. Nós somos ligados a mãe terra”, concluiu Kapri. Depois da abertura e apresentação, os participantes foram divididos em dois grupos, um para buscar lenha na mata e outro para higienizar os ingredientes que seriam utilizados. Numa aula prática, Gãh Té ensinou o preparo de um xarope de sete plantas: bananinha-do-mato, cipó mil homens, erva cidreira, capim cidró, guaco, macela e espinheira santa. Ao final, o preparado foi coado e ainda misturado com mel. A Kuja explicou que o xarope é ideal para gripes e resfriados, principalmente aqueles que atacam o sistema respiratório, com tosse e catarro, ajudando também em casos de asma, bronquite, sinusite e rinite. A atividade fez parte do projeto Reflorestamento, resiliência climática e restauração do modo de vida Kaingangem um território em retomada em Porto Alegre – RS, apoiado pelo Fundo Casa Sociambiental por meio da Chamada Reconstruir RS de 2024. O projeto – fruto de uma parceria com a rede apoaidora da aldeia, a Teia dos Povos e o Coletivo Catarse, como organização parceira – vem fazendo o manejo de espécie invasora no território da comunidade, construindo um viveiro e reflorestando o local com espécies nativas. Em breve, mais atualizações. Texto: Bruno PedrottiImagens: Bruno Pedrotti e Luis Gustavo RuwerRevisão: Anahi Fros

Encontro na Guatemala reúne mais de 140 ativistas da democracia na América Latina

Entre os dias 6 e 8 de maio aconteceu na cidade de Panajachel, Guatemala, o encontro “Democracias bajo ataque – de la crisis a la estrategia” – um evento promovido pelas organizações Global Exchange e FOCO. Às margens do Lago Atitlán – La Abuela Lago -, foram expressas e discutidas conjunturas estruturais dos países latinoamericanos e a ascenção de modelos autoritários derivados daquilo que já foi a história de quase todos os países do continente americano. Estiveram presentes mais de 140 pessoas representando instituições, movimentos e comunidades da Guatemala, El Salvador, Nicarágua, Honduras, México, Chile, Uruguai, Brasil, Colômbia, Equador, Peru, Canadá e Estados Unidos. Dia 1 – 06/05 A noite anterior foi de receptivo e apresentação cultural. Na manhã da terça-feira, xamãs mayas, representantes da raiz humana da região da Guatemala, fizeram todos os presentes saudarem os elementos da Natureza para que os trabalhos se iniciassem. O encontro “Democracias bajo ataque” partiu do ponto de contextualização conjuntural, com um painel que apresentou Nancy Okail, egípcia exilada nos USA, trazendo aspectos da Primavera Árabe no Egito e suas implicações globais; Daniel Valencia, hondurenho, discutindo o estado das alternativas de mídia em centroamerica; e, finalizando esta primeira parte, o uruguayo Raúl Zibechi, tratando do ponto-de-vista da luta de movimentos sociais contra o Capitalismo de Morte e as alternativas democráticas que já existem nos territórios sudamericanos – como o MST e as próprias áreas indígenas. Na tarde do primeiro dia, após a sequência das contextualizações que trouxeram considerações sobre o novo mandato do regime de Trump e também as lutas sociais diretas e com participação não institucionalizada de setores da população e as práticas de guerra híbrida como o lawfare, partiu-se para as reflexões em grupo. Levantando pontos sobre as ameaças que estão surgindo com a frente autoritária presente no continente e sobre as limitações que cada um observa de seus territórios e experiências, fechou-se com uma sistematização imensa e diversa de vários aspectos negativos que devem dar chão para as próximas discussões. Na metodologia empregada, foram previstas etapas que, em fim, servem para enxergar as veias abertas da América Latina, entendendo que o “inimigo” é um monstro grande que pisa fuerte, e que se deve levar as reflexões a um caminho de prática de proteção das mais variadas democracias – características dos povos que as praticam, com vistas a uma vida e, sim, um mundo melhor. Este um mote subjetivo que carrega há décadas o desafio de se tornar realidade. Dia 2 – 07/05 No segundo e pesado dia, com a mesma metodologia de um turno de contextualização e outro de construção, apresentou-se o panorama midiático no continente das Américas, das iniciativas de alternativas aos meios hegemônicos e as constantes perseguições – e violência – que seguem ocorrendo, mesmo sob governos que se dizem progressistas – como é o caso do Chile. Passou-se também pela visão da necessidade da construção de meios indígenas de comunicação para populações indígenas e para comunicar com o “externo”, mas com a lógica indígena – “temos que saber o que se passa na cidade, mas a cidade tem que saber o que se passa nos territórios”. Este foi um chão construído para as discussões que se espalharam nas mesas de 6 grupos, convidados a dissertar e apontar estratégias, exemplos e sugestões na superação de temas como Democracia – conceito e modelo; ameaças vindas do Estado; cultura; informação; desigualdades históricas e sistêmicas; e movimentos sociais. O ousado evento se pôs a pleno no choque de ideias e pontos-de-vista, que na maioria convergem, fazendo correr uma visão diversa, autônoma, geograficamente transversal e com a sabedoria e história dos povos indígenas como um verdadeiro norte. Dia 3 – 08/05 Último dia de evento “Democracias Abajo Ataque” às margens de La Abuela Lago. Se iniciou com saudação ao essencial à vida – o Sol e a Água. Se seguiu com a reflexão sobre o que se debateu, quais as impressões individuais e coletivas sobre os contextos e como, enfim, devem-se criar ações para que a sociedade latinoamericana não só mantenha o que é essencial a sua vida, mas que enfrente as ondas autoritárias que se põem ativas e fortes, mais ainda, em todos os países da região. Terminou-se, como em quase todos os encontros deste tipo – destacando-se o histórico Fórum Social Mundial, claro -, com um grande sentimento de esperança e dever cumprido. Ascendeu-se à certeza de que a sabedoria ancestral é a base para um mundo melhor e possível e que não se deve aceitar NENHUM PASSO ATRÁS! Para mais informações e detalhes dos paineis e pontos-de-vista abordados pelos participantes, acesse o Instagram oficial do encontro: https://www.instagram.com/democraciasenlasamericas/ * La Abuela Lago (O Lago Avó) Todo o evento ocorreu na beira do Lago Atitlán, que está há cerca de 1.500 metros de altitude e que margeia também 3 vulcões – conta a história que são estes que inspiraram Saint-Exupéry a criar o cenário do planeta moradia do Pequeno Príncipe. O lago se formou há mais ou menos 80.000 anos por erupções destes vulcões e é berço da civilização Maya. Ali, os povos que remanescem e perseveram, vindos deste tronco civilizatório, constroem toda a sua vida a partir deste corpo d’água – “Por que la abuela lago? Porque sem ela não existiríamos!”. É uma visão e conexão de pertencimento e essencialidade, que gera uma conexão inexorável de existência – vive-se porque se vem dali, porque se está ali, há gerações, e cuida-se porque ali se vai ficar. A manutenção deste lago na luta contra a poluição proveniente do “progresso” capitalista é evidente, e las abuelas indígenas são a linha de frente para a sua preservação. ** A participação do Coletivo Catarse neste evento se deu, entre outras coisas, também pela relação histórica que mantém com lideranças, ativistas e comunicadores que fazem a luta integrada latinoamericana. Neste caso, em específico, destaca-se todo um trabalho em conjunto com o estadunidense Michael Fox – que recentemente lançou uma série de podcasts chamada Under The Shadow, tratando da história do domínio dos Estados Unidos …

Rádio comunitária A Voz do Morro participa do XV ELAOPA em Santiago do Chile

Foto destacada: Antônio – Cooperativa de Trabajo Audiovisual Trashumante Nos dias 25 e 26 de janeiro, a rádio comunitária A Voz do Morro esteve em Santiago do Chile para cobrir o XV Encontro Latino-Americano de Organizações Populares Autônomas (ELAOPA). O evento reuniu mais de 400 lutadores e lutadoras sociais na Población La Bandera, na periferia da capital chilena, território marcado pela resistência e pela atuação do Movimiento Solidario Vida Digna, anfitrião do encontro. Foto: Repórter Popular Delegações de mais de 100 movimentos sociais participaram da atividade, com participantes vindos do Chile, Argentina, Uruguai, Brasil, Paraguai, Estados Unidos e Alemanha. Os debates abordaram temas como território e comunidade, lutas das trabalhadoras do setor público e privado, desafios do movimento estudantil, luta socioambiental e memória, cultura e agitação. Do morro à cordilheira Mais de dois mil quilômetros separam o Morro Santana — ponto mais alto da crista de morros de Porto Alegre — da Cordilheira dos Andes. E foi até lá que nosso correspondente, Vitor Ramon, aportou com seu olhar atento, representando a Rede Coral de coletivos, em uma cobertura colaborativa entre veículos parceiros como o Coletivo Catarse  e o Repórter Popular. Para custear a viagem, uma campanha solidária foi aberta. Além disso, uma ecotrilha foi organizada junto ao Preserve Morro Santana. As iniciativas somadas a apoios do canal Voz Trabalhadora, do Coletivo Catarse e de diversos apoiadores anônimos arrecadou mais de 3 mil reais. Durante a passagem por Santiago, foi possível estreitar laços com outras iniciativas de comunicação popular, como a rádio JGM, também integrante da Rede Coral (experiência que será compartilhada em breve). Mas, para além das ondas sonoras das rádios comunitárias, acompanhamos outra tradição da cultura libertária expressa, com a pintura de um mural em conjunto com os coletivos Brigada Muralista Ana Luisa (Chile), Pinte e Lute (Florianópolis) e o antigo Muralha Rubro Negra (Porto Alegre). A grande arte conjunta com a consigna “Apoio mútuo” ganhou cor nas ruas que deram origem à tradição libertária do muralismo combativo. Nos retoques finais, cada coletivo deixou sua marca na pintura, assinando a construção coletiva. No alto da Cordilheira, a Bola 8 — uma das marcas mais características do Morro Santana — foi pintada como elo simbólico entre territórios distantes, mas unidos pela solidariedade, pela luta e pela arte.   Assista o primeiro vídeo da cobertura produzido pela Voz do Morro sobre o mural pintado em Santiago: Relação histórica e combativa A relação do Morro Santana com o ELAOPA é histórica, com presença marcada desde a primeira edição do encontro, em 2003, junto ao Comitê de Resistência Popular da Zona Leste. O encontro surgiu como alternativa autônoma e combativa ao Fórum Social Mundial, com ênfase na luta contra a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), cuja votação estava prevista para o ano seguinte. Já em 11 de outubro de 2009, um mural foi pintado na Vila Estrutural, no Morro Santana, em alusão ao “Último Dia de Liberdade das Américas” — referência à invasão europeia em 1492. A ação foi um desdobramento do VII ELAOPA, realizado naquele ano em Buenos Aires, Argentina. Em fevereiro de 2010, ocorreu o VIII ELAOPA na Colonia de Vacaciones del Sindicato de Artes Graficas, próximo a Montevidéu (Uruguai). O Combate Audiovisual (uma espécie de “braço audiovisual”) da Voz do Morro produziu um documentário sobre o encontro. Em julho daquele ano, uma comissão de uma rádio comunitária uruguaia veio para Porto Alegre conhecer a experiência local, momento em que foi realizada uma transmissão simultânea na Voz do Morro junto as rádios comunitárias uruguaias Germinal e La Villa FM. Além disso, os ELAOPAS de 2019 e  2023 também tiveram coberturas audiovisuais realizadas pelos coletivos Repórter Popular e Coletivo Catarse, que contam com integrantes da rádio A Voz do Morro. 

2 anos de Maria Maria

O Espaço cultural Maria Maria que ocupa de quinta-feira a sábado a garajona da Comuna do Arvoredo celebrou mais um ciclo de cultura. Dois anos de Marias, habitando a Comuna do Arvoredo e mexendo com nossas vivências e emoções. E se parar para lembrar, a Luizy tem grande parte da responsabilidade por isso tudo. Foi para comemorar seu aniversário, no final de 2022, que essa junção toda se fez. Eu estava lá tocando baixo na sua banda de apoio. Agora, depois de várias participações em eventos promovidos pelas gurias e pela Catarse, tive a oportunidade de estar novamente apoiando sua poderosa voz nesse espaço tão querido por nós. The Misters e Luizy foi mais que diversão. Foi apontamento para futuras parcerias. Que seja longa e produtiva a jornada das Marias. Que seja fértil e divertida nossas futuras “juntadas” de vozes e afetos!Marcelo Cougo | Coletivo Catarse Algumas fotos dessa noite divertida feitas pelo cooperado Billy Valdez.